AVIAÇÃO NAVAL BRASILEIRA

A criação da Escola de Aviação Naval

 

Esforços para a aquisição de aeronaves

Desapontados com os pífios resultados da Escola Brasileira de Aviação, os alunos da Marinha voltaram para a corporação e continuaram insistindo na criação da arma aérea e na criação de uma escola de aviação própria. A resposta veio através de medidas puramente administrativas, sem o menor efeito prático. O Ministro Alexandrino de Alencar, ainda em 1914, expediu o Aviso Ministerial 3.986 (de 22 de outubro daquele ano) que propunha a criação de uma escola de aviação naval (1). Dois dias depois, o Aviso 4.805 determinava que a mesma deveria funcionar na Ilha do Rijo (2). Mas a falta de recursos não permitiu o seu estabelecimento de imediato. Porém, naquela época a Liga de Defesa Nacional promoveu uma subscrição pública para a aquisição de um quarto encouraçado (o Riachuelo). Como a quantia arrecadada estava muito aquém do necessário, sugeriu-se que o dinheiro fosse utilizado na compra de algumas aeronaves (1). 

DM

Ministro Alexandrino de Alencar, um dos grandes incentivadores da Aviação Naval.

O próprio ministro cuidou em adquirir aeronaves junto à casa de Farman (2), local onde anos antes o Tenente Moller obtivera o seu "brevet". Porém, com a eclosão da "Grande Guerra" na Europa (1914 - 1918), fornecedores tradicionais de material bélico como a França, Inglaterra e a Itália não podiam disponibilizar tais aviões. Mesmo em face às dificuldades externas, a idéia não foi abandonada, mas teve que aguardar outros dois anos até se materializar.

Uma opção óbvia parecia ser os Estados Unidos da América, onde a indústria aeronáutica também se desenvolvia com grande vigor e a sua marinha (US Navy) aumentava ano a ano o número de aeronaves. Aviões de projeto e construção norte-americanos não eram novidades para os brasileiros. Em fevereiro de 1913 os pilotos McCulloch e Wildman trouxeram um aerobote Curtiss em missão de divulgação comercial e o Almirante Batista Franco teve a oportunidade de voar no dia 15 de abril (2). 

 

Em maio de 1916 (3) o Ministro Alexandrino de Alencar iniciou as negociações com a empresa Curtiss Aeroplane Company por intermédio do cônsul brasileiro em Nova Iorque para a aquisição de um lote de aviões. Existe uma versão de que essa compra foi feita com a "verba do feijão" (verba destinada à compra de gêneros para as refeições dos militares) (2), porém, conforme mencionado anteriormente, a verba veio de subscrição pública. Foram então adquiridos três Curtiss modelo F, juntamente com três motores sobressalentes (3). O auxílio técnico ficou a cargo do instrutor e mecânico Orthon Hoover, representante da fábrica norte-americana enviado ao Brasil.

A Escola de Aviação Naval  e suas atividades iniciais

Já no início de 1916, a Lei 3.089, que fixava as despesas gerais da República, autorizou a criação da Escola de Aviação (Art. 26, VII) (4). Mas a Escola de Aviação Naval (EAvN) só foi efetivamente criada no dia 23 de agosto daquele ano (Decreto 12.167). Nascia assim a Aviação Naval Brasileira, bem como a primeira organização de aviação militar no país.

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A carreira Tamandaré do Arsenal de Marinha. Ali foram montados os três Curtiss F. Na foto, um deles descendo a rampa.

Jorge Kfuri/Aviação Naval

Vista superior da carreira Tamandaré espremida entre o Mosteiro de São Bento e a ponte pênsil. 

O local escolhido  para a instalação da EAvN foi a Ilha do Rijo (na Baía de Guanabara). O pequeno espaço da ilha também seria dividido com a recém criada Escola de Submarinos,  mas esta acabou instalando-se na Ilha de Mocanguê Grande. Enquanto eram realizadas as obras de adaptação da Ilha do Rijo, a escola ficou provisoriamente instalada na carreira Tamandaré do antigo Arsenal de Marinha na Praça Mauá (5). Ali foram montados os três Curtiss Modelo F (2).

Logo em seguida a escola mudou-se para a parte oeste de Ilha das Enxadas (6), ocupando uma área de apenas 6.000 m2. Dois pequenos hangares, com capacidade para quatro aeronaves, foram construídos. Além deles, outros dois foram posteriormente erguidos na Ilha do Boqueirão, mas estes não prestaram nenhum serviço (7).

De início, a nova especialidade podia ser adotada tanto pelos oficiais do Corpo da Armada, como pelos maquinistas. Posteriormente o leque foi ampliado para oficiais de outros quadros. Sem perder muito tempo, uma primeira turma de alunos foi formada ainda no ano de 1916. A turma era composta por quatro alunos sendo que três deles já haviam cursado a Escola Brasileira de Aviação em 1914.

Primeiros-Tenentes

 

Virgínius Brito Delamare

 

Raul Ferreira de Vianna Bandeira

 

Antonio Augusto Schorsht

Segundo-Tenente

 

Victor de Carvalho e Silva

 

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A 1ª turma de aviadores da Marinha. Da esquerda para a direita Carvalho e Silva, Bandeira, Hoover (instrutor), Delamare e Schorcht.

Diversas publicações informam que o representante da companhia Curtiss, Orthon Hoover, atuou como instrutor de vôo (2). Mas segundo o depoimento do Marechal do Ar Fábio Sá Earp, Hoover, não confiando muito em sua pilotagem, negava-se a decolar e a instrução de vôo foi dada pelos dois oficiais que solaram na Escola Brasileira de Aviação (1).

Após o curso, os alunos da primeira turma receberam provisoriamente “brevets” de aviadores civis em 24 de outubro de 1916 (5). No dia 30 de março do ano seguinte foram entregues a estes oficiais o “brevet” de piloto militar, juntamente com os alunos da segunda turma (que incluía quatro oficiais do Exército) (1).

Somente após a conclusão do curso inaugural é que foram aprovados os regulamentos da escola (Decreto 12.364 de 17 de janeiro de 1917). Este deveria preparar os aviadores para os seguintes atividades:

  • defesa dos portos, vigilância do litoral e outros serviços que forem de caráter urgente;

  • reconhecimentos estratégicos;

  • caça aos aparelhos inimigos;

  • reconhecimento de forças inimigas;

  • operações ofensivas em pontos fortificados, vias de comunicações, depósitos, etc;

  • observação de tiro de artilharia.

Embora fosse um número muito grande de atividades para uma arma em processo de formação, o Decreto já listava as atividades básicas do poder aeronaval para as décadas seguintes. O Decreto também criou dois cursos: um básico de Piloto-Aviador com três meses de duração e outro mais avançado de Aviador-Observador Militar, com cinco meses de duração, que incluía missões táticas e estratégicas. Somente poderiam cursar este último aqueles que  concluíssem com êxito o curso básico de Piloto-Aviador.

 

A EAvN era uma novidade numa época onde dificilmente viam-se aeroplanos no céu. Por esse motivo atriu a atenção de diversas autoridades e figuras ilustres do país. Em 25 de janeiro de 1917, acompanhado por autoridades da Marinha, Alberto Santos Dumont compareceu às instalações da Ilha das Enxadas e voou pela primeira vez numa aeronave militar brasileira. Juntamente com o tenente Delamare, executou um vôo pela Baia de Guanabara a bordo do Curtiss F C-2 (8).

No dia 24 de fevereiro o presidente Wenceslau Braz realizou um vôo de curta duração comandado pelo tenente Delamare. Era a primeira vez que um presidente brasileiro voava uma aeronave militar no Brasil. Encantado com a experiência, o presidente voltaria a voar no dia 2 de abril do mesmo ano. Dessa vez, a bordo do C-3, o presidente embarcou rumo à sede da Escola de Aviação Naval para a entrega dos diplomas aos novos pilotos (9).

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Na foto acima é possível ver praticamente todas as instalações principais da Ilha das Enxadas, destacando-se os três hangares maiores (hangares 3, 4 e 5) a esquerda da foto e os dois menores (hangares 1 e 2) no fundo.

Finalmente no mês de agosto de 1917 a escola mudou-se para a Ilha do Rijo. Mas ali permaneceu somente até o mês de dezembro do mesmo ano, quando voltou a funcionar na Ilha das Enxadas (6).


Bibliografia
 

(1) MARTINS, H. L. Forças combatentes. In: ______ (Coord.). História Naval Brasileira. Rio de Janeiro: SDM, 1985. v. 5, tomo II, p. 111-119.

(2) INCAER. Primeiras escolas de aviação. In: ________. História Geral da Aeronáutica Brasileira. Ed. Itatiaia Ltda. Rio de Janeiro: 1990. v. 1, p. 387-417.

(3) LAVENERIE-WANDERLEY, N. F. História da Força Aérea Brasileira. 2. ed. Rio de Janeiro: Gráfica Brasileira, 1975. p. 53-59.

(4) CAMINHA, H. M. Pessoal. In: ______ (Coord.). História Naval Brasileira. Rio de Janeiro: SDM, 1997. v. 5, tomo IB, p. 69.

(5) COMFORAERNAV. Aconteceu. A Macega. São Pedro da Aldeia, n. 1, p. 8, nov/dez. 2001.

(6) MARTINS, H. L. Bases e arsenais. In: ______ (Coord.). História Naval Brasileira. Rio de Janeiro: SDM, 1985. v. 5, tomo II, p. 194-204.

(7) CHAVES, J. F. Relatório do Ministro da Marinha. Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1921. p. 43-44.

(8) COMFORAERNAV. Visita de Santos Dumont à Escola de Aviação Naval. A Macega. São Pedro da Aldeia, n. 2, p. 6, jan./fev. 2002.

(9) COMFORAERNAV. O vôo presidencial. A Macega. São Pedro da Aldeia, n. 3, p. 6, mar/abr. 2002.