OPINIÃO


A quem interessa?

fragcov.jpg (27390 bytes)O Brasil é um país de dimensões continentais, com mais de 9.800km de litoral. Quase toda a produção nacional de petróleo (75%) provém do mar e 95% do comércio exterior brasileiro são trasportados por via marítima, significando, entre exportações e importações, algo em torno de 100 bilhões de dólares anuais. Portanto, o domínio do mar que nos cerca, mais precisamente o Atlântico Sul, é de fundamental importância para o Brasil, no presente e principalmente no século XXI.

Nosso país não tem, atualmente, nenhum inimigo militar previsível, porém o mundo hoje se desenvolve com tanta rapidez, que o panorama político torna-se bastante instável, mesmo se levarmos em conta a "Nova Ordem Mundial". No futuro, de uma forma ou de outra, os interesses do Brasil poderão se chocar com os de outros países, por sermos uma potência emergente e que pouco a pouco ocupa espaços no cenário internacional.

Para garantir seus interesses no mar, o Brasil vai precisar de um Poder Naval à altura de suas dimensões e isso implica em manter uma força naval atualizada e bem equipada, mesmo que pequena, mas que possa ser empregada com razoáveis chances de sucesso, caso se esgotem os esforços diplomáticos.

Infelizmente, nosso país investe muito pouco em suas Forças Armadas: apenas 1,1% do PIB (Produto Interno Bruto). Esses gastos em 1995 não chegaram a US$ 1 bilhão, incluindo-se aí as três Forças Armadas. Só o orçamento da Marinha do Brasil (MB), em 1995, foi de apenas R$534.757.200,00; deste total, apenas R$147.715.570,00 foram usados em investimentos, depois de se pagar o pessoal e os gastos operacionais. Com esse dinheiro, não é possível nem construir apenas uma Corveta classe "Inhaúma", que custa aproximadamente R$150 milhões.

A MB tem procurado contornar a situação com empréstimos no exterior, com os royalties do Petróleo – com os quais ela constrói os Navios Patrulha – e alugando navios da US Navy, como no caso das fragatas classe "Garcia" e os NDDs classe "Thomaston".

Demos sorte ainda no caso da compra de quatro fragatas Type 22 da Royal Navy, cujo preço foi uma "pechincha" de US$150 milhões, incluindo aí quatro navios-varredoras classe "River". A compra dos aviões de ataque A-4 para o NAeL Minas Gerais foi outra aquisição de "ocasião". Por apenas US$ 70 milhões, daria para comprar apenas três modernos caças AV-8B Harrier II, mas conseguimos comprar 23 caças A-4 de segunda-mão.

Em que pesem os esforços da Marinha, essas soluções são apenas paliativas, pois um Poder Naval moderno não se constrói comprando-se navios e aviões usados.

Para entendermos o problema, vejamos a seguir a participação da Marinha no Orçamento da União:

Exercício Orçamento Exercício Orçamento
1970 4,65% 1984 2,49%
1971 5,72% 1985 2,4%
1972 5,1% 1986 2,09%
1973 4,4% 1987 2,76%
1974 3,5% 1988 1,79%
1975 2,85% 1989 2,32%
1976 2,97% 1990 0,61%
1977 2,94% 1991 1,03%
1978 2,98% 1992 0,8%
1979 2,85% 1993 0,49%
1980 2,2% 1994 0,52%
1981 2,03% 1995 0,71%
1982 2,4% 1996 0,4%
1983 2,47% Fonte: Ministério da Marinha

Como se verifica, o orçamento da Marinha vem sofrendo reduções constantes em termos percentuais. Se essas perdas pudessem ser revertidas nos próximos 10 anos, voltando-se ao patamar de investimentos de 1970, poderíamos realmente construir uma Esquadra compatível com os interesses do Brasil.

No ritmo atual, porém, nossos investimentos em Defesa continuarão sendo tão ínfimos, que poderão se transformar no futuro num "convite a agressão", isto porque não teremos condições de dissuadir ninguém e nem de infundir credibilidade. Sem recursos para se atualizar e adquirir equipamentos novos, nossas Forças Armadas vão sendo pouco a pouco sucateadas, comprando "refugos de segunda-mão".

Entrar no século XXI dessa maneira, num mundo totalmente imprevisível e avançado tecnologicamente, que olha com ambição nossas riquezas naturais e minerais (leia-se Amazônia), é querer arriscar demais.

Afinal, a quem interessa o sucateamento das nossas Forças Armadas?

Alexandre Galante