| Petrobras |
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A Plataforma
semi-submersível P-19 é uma das oito plataformas de produção da
PETROBRAS que operam no Campo de Marlin, Bacia de Campos/RJ. |
O Petróleo e o Poder
Naval Brasileiro
O
Brasil é altamente dependente do mar
para
obter petróleo, tanto na produção
nacional
como na sua importação
n Guilherme
Poggio
Já
se passaram quase 150 anos desde que o primeiro poço de petróleo
produtivo foi perfurado em Titusville – Pensilvânia (EUA). Desde então,
esse produto negro de ocorrência natural tornou-se o sustentáculo da
sociedade moderna.
A
história do petróleo confunde-se com a própria história do século XX.
Desenvolvimento econômico, avanços tecnológicos, conflitos armados. O
petróleo sempre esteve presente nesses acontecimentos e, muitas vezes,
foi o responsável pelo desencadeamento dos mesmos.
O
Brasil não esteve à mercê desses acontecimentos. Muito pelo contrário,
o petróleo foi um dos responsáveis pela mudança do país agrário do início
do século XX para uma das maiores economias do Ocidente no final do século
passado.
O
século XXI inicia-se e o mundo continua dependente do petróleo como
nunca. Formas alternativas de energia foram descobertas e implantadas.
Muitas delas complementam a utilização do petróleo. Porém, até o
momento não existe substituto no mesmo nível. Deve-se considerar que o
petróleo não é somente um combustível fóssil. Ele é também uma
importante fonte de matéria prima para os mais variados segmentos
industriais. A curto e médio prazo, o petróleo continuará a exercer um
papel fundamental nos destinos do Brasil e do mundo.
No
caso brasileiro, existe uma relação muito forte entre petróleo e mar. A
costa brasileira é fonte dos mais importantes campos produtores, bem como
possui as áreas mais favoráveis a descoberta de novas ocorrências. Além
disso, o mar é a rota de entrada do petróleo importado e, quem sabe num
futuro não muito distante, o caminho para a exportação do petróleo
nacional.
Conceitos Básicos
Assim como outros bens minerais, o petróleo não é uma substância
homogênea e suas características variam de região para região ou até
mesmo dentro de um campo petrolífero. Os diferentes petróleos são
classificados conforme a natureza do resíduo de destilação. Esse resíduo
é denominado “base”. Existem dois tipos básicos de petróleo: os de
base asfáltica ou “pesados” e os de base parafínica ou “leves”.
Comercialmente, os petróleos leves são mais importantes pois, durante o
processo de refino, tem maior rendimento de produtos leves (GLP, nafta, óleo
diesel) e menor rendimento de produtos pesados (óleos combustíveis e
asfalto).
De modo simplificado, para que se forme um campo petrolífero
economicamente explorável, é necessário que ocorra um conjunto de
fatores associados:
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Modificado de Leinz
& Amaral |
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| Figura 1 - Produção de petróleo no mundo, nas diferentes
camadas do tempo geológico. |
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-
Rápida
sedimentação e soterramento dos sedimentos finos, ricos em matéria
orgânica, a uma profundidade não inferior a 500 m. Em profundidade,
onde as condições são propícias para a atuação de processos químicos
e bioquímicos, a matéria orgânica é transformada em petróleo;
Outras características não geológicas (preço no mercado externo, lâmina
d’água, acesso, etc) também influenciarão a viabilidade do jazimento.
O ponto de partida para a prospecção de petróleo é a identificação
das bacias sedimentares. No entanto, mais importante que a dimensão de
uma determinada bacia sedimentar, é a época em que essas bacias foram
formadas. Por uma série de razões geológicas, as maiores acumulações
de petróleo em todo o planeta ocorreram principalmente no período Cretáceo
(final da Era Mesozóica) e no Terciário (maior parte da era Cenozóica).
A Figura 1 apresenta a produção de petróleo mundial nas diferentes
camadas do tempo geológico, com destaque para os períodos citados.
O
Petróleo no Brasil
Cerca de 45% do subsolo brasileiro é composto por bacias sedimentares
terrestres. Soma-se a isso, uma área conjunta de aproximadamente 1,36
milhões de km2 de bacias marítimas. O mapa da Figura 2 apresenta o
território brasileiro e suas principais bacias sedimentares. Observa-se inicialmente a maior dimensão das bacias terrestres em relação às
bacias marítimas e/ou costeiras.

Figura
2 - Principais Bacias Sedimentares
No caso brasileiro, a formação da maioria das bacias costeiras/marítimas
ocorreu durante o processo de abertura do Oceano Atlântico, ou seja,
entre o Cretáceo e o Terciário. Assim, é possível entender porque
essas bacias são mais favoráveis à acumulação de petróleo.
No entanto, por razões tecnológicas e falta de conhecimentos geológicos
sobre as bacias marítimas, a história da produção petrolífera no
Brasil começou em terra, no Recôncavo Baiano em 1938. Somente trinta
anos depois seria descoberto o primeiro campo de petróleo na plataforma
continental. Desde então, a produção proveniente de campos marítimos
ganhou importância e, atualmente, representa mais de 80% da produção
nacional. Na Figura 3 é apresentada a produção petrolífera por região.

Figura
3 - Produção de petróleo por Bacia Sedimentar
Sob
o assoalho oceânico se encontram também as maiores reservas provadas
brasileiras. De um total de 8,15 milhões de barris atualmente conhecidos
(dados de dezembro de 2000), 7,61 bilhões estão na plataforma oceânica.
Dessas, 7,36 estão na costa do Rio de Janeiro, mais especificamente na
Bacia de Campos. As descobertas nas bacias costeiras foram responsáveis
pelo aumento das reservas nos últimos dez anos. Em terra, os valores
praticamente se mantiveram (ver Gráfico
1).
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Fonte:
ANP 200l |
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| GRÁFICO 1 - Nos últimos dez
anos, as reservas de petróleo em mar sofreram forte
elevação. |
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As
descobertas marítimas também foram responsáveis pela menor dependência
de petróleo estrangeiro. Em 1991 o Brasil importava 44,3% do petróleo
consumido no país. Esse valor baixou para 25,4% em 2000 mesmo com o aumento
da demanda.
Por
último, o aumento da exploração do petróleo no mar representou uma elevação
substancial no montante arrecadado em royalties
pela Marinha do Brasil. Através de uma Lei criada em dezembro de 1985, foi
estabelecida a “Política Nacional de Petróleo”, que assegurava o
repasse de 1% sobre a produção de recursos minerais extraídos da
Plataforma continental. Ano a ano, o montante repassado para o Comando da
Marinha sofre elevação. Em 2000 foram arrecadados 262 milhões de reais
(entre petróleo e gás natural). Para dar uma idéia desse volume de
dinheiro, seria possível construir uma Corveta Barroso a cada dois anos. Na
Tabela 1, estão expressos os valores arrecadados pelo Comando da
Marinha entre 1994 e 2000.
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TABELA
1 - DISTRIBUIÇÃO DE ROYALTIES PARA O COMANDO DA MARINHA 1994 - 2000
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| ANO |
1994 |
1995 |
1996 |
1997 |
1998 |
1999 |
2000 |
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VALOR
(mil
R$) |
10.987 |
17.146 |
22.077 |
28.554 |
40.944 |
137.007 |
262.117 |
FONTE: ANP
O
Brasil dentro do contexto mundial
Na área do petróleo, a situação brasileira em relação ao mundo
mudou muito nos últimos dez anos. O país saiu do anonimato para ser um
produtor de porte respeitável e com jazidas comprovadas bastante
expressivas.
Conforme mencionado acima, a soma de nossas reservas (terrestres e marítimas)
é de aproximadamente 8,5 bilhões de barris. Essas reservas são superiores
às reservas de muitos países do Oriente Médio como Omã (5,5 bi), Iêmen
(4,0 bi) e Síria (2,5 bi) e compatíveis com reservas de membros da OPEP
(Argélia - 9,2 bilhões) ou mesmo superiores (Indonésia - 4,5 bilhões).
Dentro do contexto Latino-americano, as reservas nacionais merecem um
lugar de destaque pois só são inferiores às reservas dos dois grandes
exportadores de petróleo: Venezuela (76,9 bilhões) e México (28,3 bilhões).
Tão importante quanto o volume das reservas é a variação das mesmas
ao longo do tempo. Destaca-se que o Brasil foi um dos poucos países que nos
últimos dez anos tiveram as suas reservas multiplicadas por dois. Isso
mostra uma tendência de crescimento projetada para os próximos anos, mesmo
que o ritmo sofra uma desaceleração.
A importância dessa tendência é realçada quando comparada com outras
nações, principalmente países classificados como desenvolvidos. No caso
dos EUA, as reservas permaneceram estagnadas ou sofreram uma pequena redução
nesse período (em 1991 era de 33,8 bilhões a passou para 29,7 bilhões em
2000). Situações semelhantes enfrentam países como Canadá, Rússia,
Noruega e Reino Unido.
Importação
de Petróleo
Conforme descrito acima, o Brasil vem ano a ano diminuindo a importação
de petróleo graças ao aumento da exploração em águas brasileiras. No
entanto, ainda são necessárias as importações de mais de ¼ do petróleo
consumido no país.
Em relação à origem do petróleo importado, a situação sofreu
grandes mudanças. No início da década de noventa, ¾ do volume de petróleo
importado tinha origem no Oriente Médio. Somente um país, a Arábia
Saudita, era responsável por 40% do total importado. Uma situação não
muito diferente da década anterior. A década de noventa representou uma
verdadeira mudança em relação à importação de petróleo. Com o tempo, o petróleo do Oriente Médio foi perdendo espaço para outros
mercados, como o africano e o latino americano. Em 2000, a maior fração do
petróleo importado provinha da América do Sul (41%) sendo a Argentina
responsável por ¼ de todo o montante. Completam a lista a África com 37
% (Argélia e Nigéria basicamente) e Oriente Médio com 21,8%. No Gráfico
2, é possível observar a variação da importação de petróleo ao
longo da década de noventa.

Grafico 2 -
Importação de Petróleo
Do
ponto de vista estratégico, essa mudança no quadro de fornecedores foi
muito bem vinda. Em primeiro lugar, a dependência do petróleo do Oriente
Médio foi drasticamente reduzida. Além de todas as incertezas que sempre
rondam essa região, estabelecer uma eventual proteção para comboios de
navios tanque durante um trajeto tão longo estava além das capacidades de
Marinha Brasileira. A substituição do Oriente Médio pela América Latina
como principal fornecedora de petróleo, além de reduzir as distâncias a
serem percorridas (conforme Figura 4), tem a vantagem de se originar
em países onde os laços culturais e comerciais são mais estreitos. Por
outro lado, a importação de 37% de petróleo dos países africanos atenta
para a necessidade de um maior controle das rotas do Atlântico Sul e
Equatorial, necessitando de uma verdadeira “blue
water navy”.

Figura
4 - Principais rotas de impostação
O
petróleo e o Poder Naval Brasileiro
Conforme foi apresentado, a importância do mar para a cadeia produtiva
do petróleo é fundamental. Somente o petróleo já seria um argumento de
peso para o fortalecimento do Poder Naval brasileiro. No entanto, para que
esse Poder Naval seja devidamente empregado, ele deve ser capaz de:
-
Garantir os
interesses nacionais nas áreas onde existe a possibilidade de novas
ocorrências minerais;
-
Garantir a
exploração de petróleo nas atuais regiões marítimas e ao longo
costa brasileira e;
-
Manter aberta
as rotas de transporte ao longo da costa (cabotagem) e as rotas de
importação de petróleo.
Em relação a essa última, deve-se somar a possibilidade do país vir a
ser um exportador de petróleo de grande envergadura.
Garantir os interesses nacionais na área de petróleo não é uma tarefa
simples e a sua correta execução exige praticamente todas as quatro
tarefas básicas do Poder Naval: Contribuir para Dissuasão, negar a utilização
do mar; projetar poder sobre a terra e controlar área marítima.
É por isso que as forças navais brasileiras devem possuir um caráter
abrangente e de múltiplo emprego. Isso significa dizer que é necessário
possuir uma diversidade de meios como esquadra de combate de superfície,
minagem e contra-minagem, força submarina e unidades aeronavais.
Glossário
Barril de petróleo
- unidade de medida de volume utilizada na indústria do petróleo. Equivale
a 0,159 m3 ou 159 litros.
Campo
de Petróleo - área
produtora de petróleo, a partir de um reservatório contínuo ou de mais de
um reservatório, a profundidades variáveis, abrangendo instalações e
equipamentos destinados à produção.
OPEP
- Organização dos Países Exportadores de Petróleo. Organização
multinacional estabelecida em 1960, com a função de coordenar as
políticas de petróleo dos países-membros, além de fornecer-lhes auxílio
técnico e econômico. Inclui Irã, Iraque, Catar, Arábia Saudita, Emirados
Árabes Unidos, Argélia, Líbia, Nigéria, Indonésia e Venezuela. O
Equador e o Gabão não fazem mais parte da organização.
Reserva
provada - reserva de
petróleo que, com base na análise de dados
geológicos e de engenharia,
se estima recuperar comercialmente de reservatórios descobertos e
avaliados, com elevado grau de certeza, e cuja estimativa considere as
condições econômicas vigentes e os métodos operacionais usualmente
viáveis.
Royalties
- compensações financeiras pagas pelos concessionários, cujos contratos
estão na etapa de produção de petróleo ou gás natural, incluindo-se
também os contratos que estão na fase de exploração realizando testes de
longa duração, distribuídas entre Estados, Municípios, Comando da
Marinha e Ministério de Ciência e Tecnologia, nos termos dos artigos 47 a
49 da Lei n.º 9.478/97 e do Decreto n.º 2.705/98.
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