DOSSIÊ
Marine Nationale

O NAe São Paulo (ex-Foch) é um navio-aeródromo de 32.000t e pode operar até 40 aeronaves

O 'novo' porta-aviões brasileiro

Depois de 37 anos de serviços prestados à França,
o Foch começa vida nova no Brasil como São Paulo

n Alexandre Galante

Depois de 16 dias de viagem atravessando o Atlântico vindo de Brest, na França, chegou ao Rio no dia 17 de fevereiro de 2001 o navio-aeródromo São Paulo (A-12), adquirido à marinha francesa por US$ 12 milhões no ano passado. O navio foi recebido no litoral do Rio com honras militares e fundeou na Baía de Guanabara. 

Em discurso durante a cerimônia de recepção do navio no convés do São Paulo, o ministro da Defesa, Geraldo Quintão, citou o conflito comercial entre Brasil e Canadá para destacar a importância para a Marinha da manutenção da tecnologia de operações aéreas no mar e a independência do país. 

 

- Os últimos acontecimentos envolvendo produtos brasileiros - sejam de alta tecnologia aeronáutica ou apenas agropecuários - nos mostram bem como esse alerta do passado está próximo da verdade. O ideal seria que dispuséssemos de tecnologia para fabricar nossos meios navais. Se isso não é possível, não podemos, contudo, abrir mão dos conhecimentos adquiridos - afirmou o ministro. 

Ele fazia uma referência à Segunda Guerra Mundial, que ensinou a Marinha que ela "não poderia arriscar-se a ser pega despreparada". Mais veloz que o Minas Gerais, o São Paulo vai substituir o antigo navio-aeródromo inglês que está navegando desde 1945. O comandante do São Paulo, Antônio Nigro, informou que o navio - que viajou com 600 tripulantes - deverá receber outros 600 militares. Ele espera que até o começo de maio o navio esteja pronto para operar com os jatos Skyhawk, comprados pelo Brasil do Kuwait. 

Uma solução de compromisso

 A Marinha do Brasil vinha estudando há anos o problema da substituição do seu único navio-aeródromo (NAe), o Minas Gerais. O navio, mesmo tendo passado por várias modernizações, dificilmente poderia ter sua vida estendida além do ano 2005.
Existiam duas linhas de ação a serem seguidas: a construção de um navio-aeródromo no país (algo que exigiria um investimento de cerca de US$500 milhões e levaria cerca de 8 anos para prontificação) ou uma compra de oportunidade, que poderia custar apenas 10% de um navio novo.

 

A desativação precoce do NAe francês Foch com a entrada em serviço do NAe nuclear Charles De Gaulle na Marinha Francesa, e por outro lado, a intenção da França em alargar ainda mais sua fatia no mercado militar brasileiro, acabaram por convergir os interesses dos dois países na realização de um acordo para a transferência do navio.

Em 6 de abril de 2000 um Grupo-Tarefa francês capitaneado pelo NAe Foch fez escala no Rio de Janeiro, já com oficiais da Marinha do Brasil a bordo, os quais embarcaram no navio a convite da França para uma avaliação técnica. Depois de alguns meses de negociações, o Foch foi adquirido pelo Brasil por 88,5 milhões de francos (US$ 12,2 milhões) e finalmente transferido para a Marinha do Brasil em 15 de novembro de 2000, no porto de Brest.

O Foch

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O Foch participou das operações aéreas contra a Iugoslávia em 1999. Seus aviões foram responsáveis por quase metade das missões voadas pela França

O Foch teve o seu batimento de quilha em 1955, em uma doca especial em St. Nazaire, depois foi rebocado para Brest onde recebeu seus sistemas de armas e eletrônica. Em 1963 foi comissionado e iniciou-se seu serviço ativo na Marinha da França. Seu irmão, o Clemenceau foi para a reserva em setembro de 1997. Antes de serem concretizadas as negociações para a transferência à Marinha do Brasil, planejava-se que o Foch iria para a reserva e seria reativado por um período de 18 meses começando em 2004, ficando no lugar do Charles de Gaulle quando este passasse pelo seu primeiro período de reparos; o Foch seria reativado novamente em 2011 para o mesmo fim e depois seria desativado definitivamente em 2012, caso o cenário mundial assim o permitisse.

O Foch pertence à classe "Clemenceau", e foi um dos primeiros porta-aviões projetados e totalmente construídos na França. O primeiro porta-aviões francês do pós-guerra começou a ser projetado em 1947 e era um navio de 16.000t (designado Projeto PA-28), mas acabou não indo adiante. Mais tarde, em 1955 foi dado início aos projetos PA-54 e PA-55, que deram origem à classe "Clemenceau" de 32.000t, muito maiores e de tamanho similar aos norte-americanos classe "Essex". Na verdade, essa classe de porta-aviões franceses se parece em muitos aspectos aos navios americanos.

A construção do Clemenceau (R-98) começou em 1955, o lançamento ao mar em 21 de dezembro de 1957 e o comissionamento em 1961. A construção do Foch (R-99) começou em 15 de fevereiro de 1957, o lançamento ao mar ocorreu em 28 de julho de 1960 e o comissionamento em 15 de julho de 1963.

 

Desde então, os dois porta-aviões franceses estiveram em ação e em combate no Mediterrâneo, no Oriente-Médio e na África, defendendo os interesses da França ou de seus aliados, quando nações amigas ou ex-colônias foram ameaçadas. Em 1974, e novamente em 1977, o poder de fogo desses navios foi usado para proteger o Djibuti contra seus vizinhos. No início dos anos 80, eles foram usados no Líbano, quando a guerra civil naquele país chegou ao máximo. Em 1984, na Operação Mirmillon, eles foram engajados contra a Líbia.

Os navios da classe "Clemenceau" foram usados também em operações de apoio durante a Guerra do Golfo e empregados regularmente no Mar Adriático, em conjunto com a OTAN nas operações aéreas realizadas na Bósnia. No ano passado o Foch participou das operações contra a Iugoslávia. O grupo aéreo embarcado realizou 900 missões, das quais 412 foram missões de ataque. Foram lançadas 268 bombas GBU12 e dois mísseis AS30L.

Como medida de economia a maior parte do tempo a França empregou o Clemenceau com aeronaves de asa-fixa, enquanto o Foch atuava como porta-helicópteros. Pelo esse motivo o Foch sofreu um desgaste operacional muito menor que seu irmão Clemenceau, que acabou sendo desativado em outubro de 1997.

Ao longo de sua vida útil o Foch recebeu diversas modernizações: de 15/7/80 a 4/12/81 sofreu refit no Estaleiro de Toulon para revisar instalações e espaços habitáveis, modernização de equipamentos do convôo, reforço no aparelho de parada, revisão das catapultas, revisão geral da maquinaria, e a adição de duas caldeiras auxiliares. Os sistemas eletrônicos também foram atualizados, incluindo a instalação do SENIT 2, sistema de dados de combate aproveitado do destróier desativado Tartu.
O navio foi equipado também com um sistema de televisão de circuito-fechado. Para operar com os Super Étendard, o Foch foi equipado com um sistema central de guiagem inercial que transfere informações diretamente para o sistema inercial de cada avião. Os paióis do navio foram modificados para receber armas nucleares táticas AN-52.

Marine Nationale

O Foch também operou com o caça Rafale-M em testes em abril de 1993 e em janeiro de 1994

O Foch foi submetido a outra modernização de fevereiro de 87 a junho de 88  para melhorar os sensores e os sistemas defensivos, incluindo a substituição de quatro canhões de 100mmm por lançadores de mísseis antiaéreos Crotale; as catapultas receberam revisão geral.
Em 1989 o Foch recebeu um protótipo do AIDCOMER (AIDe de COmmandement à la MER), um sistema informatizado de apoio ao comando; uma versão de produção do sistema foi instalado a bordo em 1991 e integrado ao novo sistema de comando e controle SYCOM-NG. O AIDCOMER provê auxílio na avaliação de situações táticas, na tomada de decisões e no gerenciamento de navios e aeronaves no nível de Força-Tarefa.

Em setembro de 1992 o Foch deu início a outra modernização de 14 meses para permitir que ele fosse usado como plataforma de testes para o novo caça Rafale-M e até a operar a aeronave quando esta entrasse em serviço; o navio recebeu também dois lançadores Simbad para o míssil Mistral de defesa-de-ponto; as turbinas a vapor receberam novos rotores; as catapultas foram certificadas para pelo menos mais 6.000 lançamentos e foram modificadas para lançar aeronaves que têm dispositivo de engate no trem de pouso do nariz. Mais modificações foram realizadas em 1995 e 1997, incluindo o aumento da área dos defletores de jatos e a instalação de um mini ski-jump retrátil para o lançamento dos Rafale-M. Os canhões de 100mm restantes foram substituídos pelos lançadores de Sadral de defesa-de-ponto e uma versão reduzida do sistema de combate SENIT 8.01 foi instalado. O navio também recebeu transceivers para o sistema US FLEETSATCOM para permitir interoperabilidade com as forças da OTAN.

As aeronaves do Foch

O Grupo-Aéreo do navio era tipicamente composto por:

  • 18 caças-bombardeiros Super Étendard

  • 6 caças interceptadores F-8P Crusader

  • 4 jatos de reconhecimento Étendard IVP

  • 6 aviões anti-submarino Alizé

  • 2 helicópteros de assalto Super Frelon

  • 2 helicópteros Dauphin ou Alouette para busca e salvamento

Marinha do Brasil

Os AF-1 Skyhawk vão compor o novo Grupo-Aéreo

O Foch também operou com o caça Rafale-M em testes em abril de 1993 e em janeiro de 1994. O novo caça francês foi catapultado com munição e tanques externos.

No Brasil, o São Paulo deverá operar com os jatos AF-1 Skyhawk e com helicópteros da Força Aeronaval. O navio também poderá operar futuramente com caças mais modernos,  desde que peso máximo de decolagem não ultrapasse as 20 toneladas.

O Navio-Aeródromo São Paulo (ex-Foch)

FICHA TÉCNICA

Deslocamento 32.780 ton totalmente carregado; 24.200 ton padrão
Dimensões 265m de comprimento; 51,2m de boca; 8,2 m de calado
Convés de vôo 257m de comprimento em ângulo de 8º; 51,2 m de largura
Hangar 180m x 24m x 7m; 2 elevadores (16m x 11m)
Elevadores 2 com 16m x 11m capazes de em 9s erguer aeronaves de 20 ton
Catapultas 2 Mitchell Brown BS-5 a vapor com capacidade de operar aeronaves de até 20 ton, lançando-as a 110 nós
Propulsão 6 calderas La Valle, 45 kg/cm², 450º C; 2 turbinas Parsons; 2 eixos; 126.000 shp
Combustível 3.720 ton de óleo naval e 1.800m³ de combustível de aviação
Velocidade Máxima 32 nós
Autonomia 7.500 milhas a 18 nós; 4.800 a 24 nós e 3.500 a 32 nós
Tripulação 1920 homens (sendo: 64 oficiais, 1274 praças e 582 de aviação)
Defesa AAe Sistema SAM 2x8 Thomson-CSF Crotale EDIR com 32 mísseis

Sistema SAM 2x2 Sadral (defesa de ponto)

5 metralhadoras 12,7 mm

Contramedidas 2 CSEE AMBL 2A Sagaie chaff

1 ARBB.36

1 ARBR.17

Radares
(
Thomson-CSF)
Busca aérea: DRBV-23B

Busca combinada: 2 DRBI 10; 1 DRBV 15 3-D

Navegação: Racal Decca 1226;

Aproximação e pouso: NRBA 51

Controle de Tiro: 2 x DRBC

Sistema de Dados Táticos (a ser instalado) SICONTA Mk1; Link YB compatível com o CAAIS das fragatas classe "Niterói". SATCOM
Sistema Elétrico 14.000 KW (2 turbo-alternadores de 2000W e 6 geradores a diesel de 2000W)
Grupo Aéreo Aviões: 10-16 caças-bombardeiro A-4 Skyhawk

Helicópteros: 4 a 6 SH-3A/B (ASH-3D/H) Sea King anti-submarino
2 UH-13 Esquilo de emprego geral e/ou 3 UH-14 Super Puma