DOSSIÊ

Imagem: Dru Blair

O Tomcat é, na essência da palavra, o melhor exemplo de Caça de Defesa da Frota.

Caça de Defesa de Frota

"A aquisição do NAe São Paulo pela MB abre novas perspectivas em relação ao controle do espaço aéreo marítimo, anteriormente impensáveis com o NAeL Minas Gerais"

n Guilherme Poggio

O conceito por trás do CDF 

A defesa aérea de uma frota, ou de um comboio marítimo, é realizada nos dias de hoje segundo o conceito de Defesa em Camadas. Esse conceito leva em consideração a distância onde a ameaça é enfrentada. Quanto mais longe ocorrer o enfrentamento, menor será a possibilidade de um ataque inimigo com êxito. Além disso, menores seriam as exigências das defesas do núcleo da frota. Para atingir seu alvo, o atacante teria que transpor várias "camadas de defesa", enfrentando as de longo alcance primeiramente, até as defesas de curto alcance num segundo momento. No primeiro caso, atuam os mísseis de longo alcance e as aeronaves interceptadoras.

A abrangência da Defesa de Área é função dos dispositivos de detecção e ataque disponíveis. CGBs  (grupos de batalha nucleados num NAe) que não possuem aeronaves AEW estão limitados ao alcance dos radares embarcados nos navios. Da mesma forma que caças embarcados com pequena autonomia, sem recursos eletrônicos de detecção e dotados de armamento AA de curto alcance não podem enfrentar ameaças suficientemente longe. O CDF, da forma como ele é tratado aqui, procura resolver essa última lacuna (o problema do alerta aéreo antecipado será tratado em outro artigo), fornecendo uma Defesa de Área distante do CGB, destruindo o oponente (não só o atacante mas como suas escoltas também) antes mesmo que esse possa lançar seus artefatos (mísseis ASM principalmente).

 

Não é uma tarefa simples e, excluindo-se a USN, não há outra marinha no mundo que pode fazê-la de forma eficaz. Dentro do conceito de defesa aérea da frota, a Defesa de Área de longo alcance é, em outras palavras, uma forma de se defender atacando primeiro. 

O CDF não substituiria o A-4 na função de caça, mas sim o complementaria nesse papel. A dupla CDF/A-4 atuaria de forma conjunta, numa mistura high/low. Caberia ao CDF o primeiro combate, a ser travado em longa distância e com mísseis de alcance médio. Caso ainda existam oponentes, esses seriam enfrentados pelos A-4 em combates de curta distância tipo "dogfight", especialidade dos Skyhawks.

Dessa forma, a Defesa de Área, mais especificamente para o caso da MB, é separada aqui em três níveis:

Área Curta – área coberta pelo sistema Albatross/Aspide, em processo da instalação nas fragatas Mk 10 (alcance até 16 Km);

Área Estendida – área situada além da cobertura de mísseis e até um raio de 150 Km, defendida pelos A-4;

Área Espandida – área além dos 300 Km, defendida pelo CDF

Requisitos Básicos do CDF

Basicamente, o que se exige do CDF é que ele seja uma aeronave embarcada capaz de cumprir as missões de interceptação bem longe da frota, de forma que as aeronaves atacantes possam ser interceptadas muito antes de lançarem seus mísseis ASM.

Como requisitos, o CDF deveria:

  • Ser uma aeronave testada e comprovada em operações embarcadas, podendo ser colocada em operação no menor tempo possível;

  •  Ser compatível com o atual navio-aeródromo (o São Paulo), exigindo do mesmo o menor número de modificações possíveis para a sua operação com segurança;

  •  Ser compatível também com a idade do NAe São Paulo e com o tempo de serviço que resta ao navio porém, sem ser obsoleta;

  •  Estar em atividade em outros países para garantir a disponibilidade de peças de reposição;

  •  Boa velocidade de ascensão e velocidade máxima supersônica tendo como objetivo atingir a área de patrulha ou interceptar uma aeronave de forma bastante rápida. A característica da velocidade também é importante para escapar depois de executado o ataque;

  •  Possuir grande autonomia, sendo capaz de executar patrulha distante mais de 300 km do NAe e permanecer no ar por pelo menos 3h sem ReVo;

  •  Possuir um sistema de aviônicos de detecção e ataque/armamentos capazes de identificar, rastrear e atacar com armamento BVR alvos voando baixo;

  • Capacidade secundária de escoltar esquadrões de ataque ou mesmo atuar nessa função.

Eventuais candidatos ao CDF

F-8 Crusader

O F-8 Crusader era a aeronave de caça que operava a bordo do Foch. Sua aposentadoria foi adiada várias vezes até 1999, quando não havia mais condições de mantê-los voando. Mesmo que existissem F-8 em boas condições, o mesmo não possui capacidade de transporte de mísseis de médio alcance nem radar adequado.

A-4 Skyhawk

O A-4 nunca operou a bordo de um NAe da classe Clamenceau, porém, é muito mais adaptável ao NAe São Paulo que o próprio F-8 anteriormente usado. É a única aeronave de asa fixa da MB e atuará também como caça de defesa da frota, embora não seja adequado para isso.

A-7 Corsair

O A-7 poderia ser uma alternativa do ponto de vista econômico (aquisição de células estocadas no pelas Forças Armadas dos EUA) e técnico (não apresenta incompatibilidades com o NAe, manutenção fácil e de baixo custo) mas suas características como CDF, assim como do A-4, não são apreciadas.

FA-18 Hornet

O F-18A é aparentemente compatível com o NAe São Paulo. Possui todas as características necessárias para atuar como CDF mas sua transferência para a MB depende muito da boa disposição do Governo dos EUA. Em relação ao F-18E (foto ao lado) o seu custo de aquisição está fora de alcance e o seu comprimento supera a medida do elevador de vante do A-12.

Sea Harrier

O Sea Harrier atua como CDF na RN. Mas não possui desempenho compatível com o F-18 (alcance/ velocidade supersônica), nem o seu preço é muito atraente.

 

A aeronave escolhida para o CDF 

Com base no exposto acima a aeronave mais indicada é o McDonnell Douglas (atual Boeing) F-4K Phanthom II (FG.Mk 1 na Royal Navy). A família Phantom II, dispensa maiores apresentações. O avião nasceu para ser uma interceptador embarcado, mesmo que muitos deles nunca tenham visto um NAe na frente ao longo se suas carreiras. O Phantom II continua em atividade em várias forças (pelo menos em oito países, número maior que o de usuários de A-4) com modelos bastante diversificados. O modelo FG.Mk 1 é comprovadamente uma aeronave embarcada, contando com uma ficha de serviços com mais de nove anos de operações em NAe.

FOTO: U.S. Marine Corps 

F-4 Phanton em serviço na Força de Fuzileiros Navais dos EUA

O Phantom navalizado pelos britânicos é uma aeronave bastante modificada em relação aos demais Phantons produzidos nos EUA e no Japão. São aeronaves adaptadas ao emprego em NAes médios (entende-se aqui como NAe médio, aquele que possui deslocamento entre 30.000 e 50.000ton). A intenção original da RN era possuir 140 Phantons do tipo FG.Mk 1 e três NAes capazes de operarem esses aviões (Ark Royal, Eagle e Victorious).

 

Porém, quando os aviões começaram a entrar em operação, a RN sofreu uma série de revezes. O Victorious sofreu um incêndio a bordo e os custos para a adaptação do Eagle tornaram-se proibitivos. Como se não bastasse tudo isso, havia uma campanha da RAF contra os NAes e necessidades de cortes no orçamento militar. Com apenas um NAe capaz de operar os Phantom, somente 24 das 52 aeronaves produzidas foram para a marinha, equipando dois esquadrões (ver texto sobre o F-4K). Em 1978, com o término na carreira do Ark Royal, todas as aeronaves remanescentes da RN foram equipar esquadrões da RAF.

Em 1990, os 43º e 111º esquadrões da RAF ainda operavam o FG Mk1. Quando o 43º passou a usar Tornados F3 em 1990, parte dos seus Phantons foram transferidos para o 111 e os demais ficaram estocados. O último Phantom II da versão FG Mk1 voou pela RAF em 1994. Algumas fontes dão conta de que os aviões remanescentes encontram-se estocados na Grã-Bretanha, tendo inclusive despertado o interesse da Força Aérea da Grecia. Ao longo de sua vida operacional, foram perdidas 15 aeronaves desse modelo. Cabe destacar que parte dessas aeronaves não chegaram a  operar em NAes, sendo menos solicitadas estruturalmente. Mesmo aquelas que operaram embarcadas, tiveram uma vida curta na RN (cerca de nove anos).

O CDF e o NAe São Paulo

As estimativas feitas aqui devem-se em grande parte às comparações com o uso do F-4 nos NAes ingleses. No caso do NAe São Paulo, esse é mais leve que o antigo Ark Royal (33.000 contra 50.000t) porém, mais comprido (265m contra 257m). As dimensões do São Paulo são muito mais semelhantes às dimensões do Victorious, um dos pretendentes para o emprego de Phantom na RN.

Para a operação segura e adequada do Phantom tanto no convôo como no convés inferior, são discutidos os seguintes procedimentos: Catapultagem, recuperação da aeronave e hangaragem.

As duas catapultas a vapor existentes no São Paulo são do mesmo modelo que as catapultas que equipavam o Ark Royal, Mitchell-Brown BS 5 de origem britânica. Essas catapultas, no caso do navio brasileiro, são capazes de lançar aeronaves com até 20t. Com isso tem-se duas alternativas:

  • Aumento da pressão da catapulta até atingir a capacidade de 50.000 Lbs das catapultas do Ark Royal. Esse processo de aumento da capacidade da catapulta foi feito no NAeL Minas Gerais, sendo que o AMRJ já adquiriu experiência nesse tipo de trabalho quando da elevação da pressão da catapulta Mitchell-Brown BS 4.

  • Lançamento com combustível interno reduzido em cerca de 20%. Cabe destacar que os motores Spey são 30% mais econômicos que os J79 da versão americana, além do que essas aeronaves contam com sistema REVO. Outra vantagem da motorização dos aviões ingleses é o fato do Spey ser um conhecido dos brasileiros pois versões desse motor sem pós-combustão equipam o caça AMX da FAB e, portanto, já existe um parque de manutenção totalmente instalado no país.

Em relação à recuperação da aeronave, acredita-se que a pista do convés em ângulo com 165 m (no Ilustrious, as dimensões eram bem menores), os quatro cabos do aparelho de parada mais a velocidade 32 nós do São Paulo sejam suficientes para receberem um Phantom pesando 17.000 Kg a uma velocidade estimada de 130 nós.

O hangar do São Paulo é suficientemente espaçoso para a guarda, rearmamento, abastecimento e manutenção do F-4 (dimensões: 180x22-24x7 m). O elo entre o convôo e o hangar são os elevadores. O NAe São Paulo conta com dois, sendo um localizado a ré da ilha a boreste, medindo 17x13 m e outro na linha central mais para a proa medindo 16x11 m. Os FG.Mk 1 possuem o nariz articulável, de forma que o comprimento é reduzido para 15,8m. Porém, o elevador de boreste permite que a aeronave seja manejada sem a necessidade da articulação do nariz, pois a calda da aeronave pode ser voltada para o mar (uma vantagem que o Ark Royal não possuía). A capacidade dos elevadores é de 20t (no Ark Royal, a capacidade dos elevadores era de 22,6t). Isso é suficiente para que o F-4 seja carregado com o mínimo para uma missão de interceptação, porém o desejado seria um aumento da capacidade do mesmo em 25%.

Modificações sugeridas no CDF

Embora os seus sistemas encontrem-se defasados, o F-4K ainda é uma excelente aeronave, principalmente se comparado com os A-4KU da MB ou com qualquer outro caça brasileiro atualmente em serviço. O equipamento de radar por exemplo, é uma variação do APG-59, conjugado com um computador de controle de armamentos AWG-11, possuindo característica look down/shot down e compatível com AAM de médio alcance (Sky Flash e Sparrow). O avião ainda conta com uma suíte de ECM, incluindo um RWR na deriva operado pelo RIO.

Modificações no sistema de radar seriam interessantes mas não fundamentais. A instalação de equipamentos mais modernos, muito mais leves e capazes de monitorar ameaças enquanto atacam outros alvos. Tais medidas foram propostas para projeto “Super Phantom“ da Boeing que previa a substituição do APG-59 pelo APG-65.

 

A FAB, com o programa de modernização dos caças F-5E, tem demonstrado que com pouco mais de 5 milhões de dólares é possível atualizar uma aeronave com quase trinta anos de defasagem tecnológica.

Porém, mais importante que a atualização dos sistemas é a revitalização da estrutura como um todo, substituindo componentes fatigados e cumprindo o cronograma de inspeções dos fabricantes. É sabido que os Phantons foram aposentados na RN por não possuírem mais NAes capacitados, e na RAF por redução do número de esquadrões após a fragmentação da URSS. Em função disso, prever um horizonte de, pelo menos, mais 15 anos de operação (embarcada principalmente) para tais aeronaves chega a ser conservador.

Por último, propõem-se um esquema de pintura para as aeronaves. O esquema é apresentado no perfil abaixo. Predominam dois tons de cinza, típicos de aeronaves de superioridade aérea, sendo o mais claro na porção inferior e o mais escuro na superior. Esse esquema de camuflagem segue os padrões gerais desenvolvidos pelo Departamento de Armas e Defesa da Grã-Bretanha e conjunto com a BAe Systens ao longo da década de 70. Uma das conclusões desse estudo mostra que o uso de mais de uma tonalildade de cinza diminui a refletividade das diversas superfícies da aeronave. O esquema desenvolvido também guarda semelhanças com os padrões estudados pelos Suecos para a camuflaglem de seus caças como o JA 37 e o JAS 39.  

As inscrições externas foram reduzidas, e os emblemas e marcas em destaque servem para auxiliar não só o pessoal da base e/ou do NAe, como em vôos de formação. Em caso de conflito, elas podem ser rapidamente removidas.

Armamento

A capacidade de lançamento de mísseis BVR é indispensável para o CDF. Nesse caso, o F-4 foi projetado para transportar AAM de médio alcance desde a prancheta de desenho. Até seis podem ser carregados, sendo quatro semi-embutidos na fuselagem e um em cada pilone sob as asas.

Os mísseis que mais se adaptam ao F-4, são os Sparrows e suas diversas versões. Adquirir esse tipo de material no mercado internacional poderia enfrentar uma certa resistência. Uma alternativa viável, seria a adaptação de mísseis Aspide, instalados nas fragatas Mk10, durante o programa ModFrag, ou mesmo a aquisição direta das versões ar-ar Mk 1 e 2. Esses mísseis de origem italiana foram desenvolvidos a partir do SeaSparrow, que por sua vez derivou do Sparrow que sempre equiparam os Phantom americanos e muitos outros. Na minha opinião, uma adaptação dessa magnitude demanda um certo dispêndio de tempo e energia por parte da MB, mas apresenta-se aparentemente possível uma vez que já se encontra em atividade, no CMASM (Centro de Mísseis e Armas Submarinas da Marinha) uma oficina de mísseis Aspide.

O F-4 ainda possui a capacidade de transportar quatro AAM de curto alcance, sendo dois em cada pilone. A MB já dispõe de mísseis tipo Sidewinder perfeitamente adaptáveis ao Phantom II. Também para curto alcance, os FG.Mk 1 são capazes de levarem pods de canhão no pilone central, uma vez que essas armas não existem embutidas na fuselagem dos Phantom ingleses.

Uma configuração típica de interceptação compreenderia quatro AAM de médio alcance embutidos na fuselagem e quatro AAM de curto alcance em cabidas sob as asas. Essa configuração era comum nos FG ingleses e semelhante à empregada nos F-15, um dos principais interceptadores da atualidade.

Epílogo

A MB possui uma excelente relação, não só com a RN mas com o governo e os fornecedores ingleses de equipamentos. A princípio, não haveriam implicações políticas para a negociação, principalmente se essa envolvesse empresas da Grâ-Bretanha na parte de manutenção, treinamento e apoio técnico.

É possível que ainda existam 37 aeronaves do modelo navalizado FG Mk1 estocadas na Grã Bretanha. Dessas, seriam escolhidas as células em melhores condições. Estima-se a aquisição de um número próximo de 18 células, sendo doze aeronaves operacionais. Os custos de aquisição direta seriam bastante baixos ou mesmo ausentes caso fossem doados pela RAF.

Uma vez acertada a sua aquisição, o tempo necessário para que essas aeronaves sejam retiradas do estoque e iniciem operações embarcadas é supostamente semelhante ao tempo despendido para os atuais A-4KU da MB, ou seja de dois a três anos. Nesse período, seriam feitas a revitalização das células, o treinamento das equipes de vôo (curso específico da aeronave e qualificação para operações embarcadas), e modificações no NAe São Paulo.n PN

 FICHA TÉCNICA - McDonnel Douglas F-4K Phantom II (RN  FG MK.1)

Comprimento 17,75m total / 15,8m com nariz articulado
Altura 4.95m
Envergadura 11,71m total / 8,39m com asas dobradas
Área Alar 49.24m2
Peso 14.061kg vazio / 26.308kg máx. de decolagem
Combustível 5.904kg interno / 4.090kg externo