| J. Silva |
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Perfil acima
d'água do submarino Riachuelo (S22) da classe "Oberon" |
A corrida
submarina
Brasil e Argentina
Como as duas maiores marinhas
da América do Sul
brigaram pela liderança sob os mares
n Guilherme
Poggio
Na década de setenta, o governo argentino
iniciou um ambicioso programa de reaparelhamento de sua força submarina. Os poucos
submarinos "Guppy" de procedência americana dariam lugar à uma moderna armada,
merecedora de muito respeito por parte dos demais países.
Em 1974 foram adquiridas duas unidades do
tipo IKL-209 (Salta e San Luis). Em 1977, um contrato firmado entre a
Armada Argentina (ARA) com um estaleiro alemão previa a construção de seis submarinos
TR-1700, sendo quatro em Buenos Aires. Desta forma, a Armada Argentina chegaria aos anos
noventa como a mais poderosa força submarina do Atlântico Sul, contando com dois IKL-209
e seis TR-1700. E, o mais importante de tudo, com know-how para o desenvolvimento
de cascos capazes de armazenar reatores nucleares.
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| Em 1974 foram adquiridas duas unidades
do tipo IKL-209 Salta e San Luis (foto superior); em 1977 a Argentina
assinou um contrato de construção de seis submarinos TR-1700 (foto inferior) |
Do incrível programa argentino,
elaborado há mais de 25 anos, poucas metas foram atingidas. A crise econômica bateu
forte no país durante a segunda metade da década de oitenta e início dos anos noventa.
Seus reflexos foram bastante sentidos nas forças armadas e o programa de desenvolvimento
de submarinos simplesmente naufragou. Dos quatro TR-1700, dois foram entregues (1985 e
1985) e estão em uso. Os outros quatro, que deveriam ser construídos na Argentina, nunca
chegaram a ser completados e possivelmente não serão. Dos dois IKL-209, apenas o Salta
está em atividade, após uma modernização que terminou em 1996. O San Luis
iniciou a modernização em 1991 mas não foi completada.
Aquela que poderia ser a mais poderosa força
submarina no início dos anos noventa, com oito submarinos modernos e/ou atualizados,
está reduzida a apenas três unidades.
Segue, em anexo, um histórico simplificado
da evolução do programa de reaparelhamento da força de submarinos argentina nos
últimos vinte anos.
| Situação
da Força em 1978 |
Situação
da Força em 1988 |
Força
Atual (1998) |
IKL 209 S31
- Salta (em atividade)
- S32 San Luis (em atividade)
TR 1.700
- S41 - (projeto)
- S42 - (projeto)
- S43 - (projeto)
- S44 - (projeto)
- S45 - (projeto)
- S46 - (projeto)
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IKL 209
- S31 Salta (em atividade)
- S32 San Luis (em atividade)
TR-1700
- S41 Santa Cruz (em atividade)
- S42 San Juan (em atividade)
- S43 Santiago del Estero (em construção)
- S44 Santa Fe (em construção)
- S45 - (paralisado)
- S46 - (paralisado)
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IKL-209
- S31 Salta (em atividade)
- S32 San Luis (não operacional)
TR 1.700
- S41 Santa Cruz (em atividade)
- S42 San Juan (em atividade)
- S43 Santiago del Estero (construção paralisada)
- S44 Santa Fe (construção paralisada)
- S45 - (paralisado)
- S46 - (paralisado)
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Evolução da Força de
Submarinos no Brasil
nas últimos vinte anos 1978-1998
O início da década de setenta foi marcado
por um grande reaparelhamento na frota brasileira de submarinos. Ao longo dos anos de 1972
e 1973 foram incorporados nada menos que oito submarinos, de procedência norte-americana
e inglesa.
Os submarinos de origem americana, já
naquela época, eram projetos antigos, datados da II Guerra Mundial. Eles ficaram
conhecidos como "Guppy" (Greater Underwater Propulsive Power), que na
verdade era o nome do programa de modernização. Os "Guppy II" foram
modernizados em 1948-50 e os "Guppy III" em 1960-62. Três "Guppy II"
(Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Guanabara) chegaram ao
Brasil em 1972, os outros dois (Bahia e Ceará) no ano seguinte,
juntamente com os "Guppy III" (Amazonas e Goiás). Dois
"Guppy II" (Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro) tiveram uma
vida curta na MB, somente seis anos. Foram descomissionados em 1978. Os demais foram
desativados nas décadas seguintes. (não confundir o Bahia e o Rio Grande do
Sul com os submarinos de mesmo nome da classe "Balao", incorporados à MB
em 1963 e desativados em 1972).
Marinha do Brasil |
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| Tanto o Brasil quanto a Argentina se serviram dos
submarinos de origem americana classe "Guppy". Na foto, o submarino Amazonas
(S-16) |
O projeto de aquisição dos
"Oberon" nasceu no final da década de sessenta, quando duas unidades foram
encomendadas pelo Brasil ao estaleiro inglês Vickers. O terceiro foi encomendado em 1972.
A primeira unidade (S20 Humaiatá) foi completada em 1973 e as ouras duas em
1977.A construção da segunda unidade (S21 Tonelero) sofreu um atraso
considerável em função de um grave incêndio no seu interior. Atualmente, apenas o Tonelero
está na ativa, após receber um novo sonar.
No final da década de setenta, já se
estudava a substituição de todos os "Guppy" brasileiros. Porém, este novo
projeto era mais ambicioso e previa a construção de submarinos no Brasil com a
possibilidade da transferência de tecnologia, abrindo caminho para o projeto de
submarinos inteiramente nacionais e, num futuro mais distante, um submarino nuclear.
Por motivos de ordem técnica, econômica e
política, optou-se pelo submarino IKL-209, sendo o contrato assinado do começo da
década de oitenta.
Segue um histórico simplificado da
evolução do programa de reaparelhamento da força de submarinos do Brasil nos últimos
vinte anos.
| Situação
da Força em 1978 |
Situação
da Força em 1988 |
Força
Atual (1998) |
Guppy II
- S10 Guanabara (em atividade)
- S11 Rio Grande do Sul (descomissionado)
- S12 Bahia (em atividade)
- S13 Rio de Janeiro (descomissionado)
- S14 Ceará (em atividade)
Guppy III
- S15 Goiás (em atividade)
- S16 Amazonas (em atividade)
Oberon
- S20 Humaiatá (em atividade)
- S21 Tonelero (em atividade)
- S22 Riachuelo (em atividade)
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Guppy II
- S12 Bahia (em atividade)
- S14 Ceará (em atividade)
Guppy III
- S15 Goiás (em atividade)
- S16 Amazonas (em atividade)
Oberon
- S20 Humaiatá (em atividade)
- S21 Tonelero (em atividade)
- S22 Riachuelo (em atividade)
IKL-209 S30
- Tupi (em provas de mar)
- S31 Tamoio (em construção)
- S32 Timbira (em construção)
- S33 Tapajó (em construção)
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Oberon
- S21 Tonelero (em atividade)
IKL-209 S30
- Tupi (em atividade)
- S31 Tamoio (em atividade)
- S32 Timbira (em atividade)
- S33 Tapajó (quilha batida em março)
IKL 209 (mod.)
- S34 Tikuna (em construção)
- S35 Tapuia (planejado)
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Uma análise dos fatos
Observando-se a evolução do número de
unidades de submarinos na MB nos últimos vinte anos têm-se o seguinte: entre 1978 e 1988
houve uma diminuição de oito unidades operacionais para sete unidades. Dez anos mais
tarde, foi reduzida para quatro em operação. Porém, ocorre o oposto quando comparamos a
idade média dos submarinos, considerando a idade como uma atualização e modernização
dos meios up-to-date. A idade média dos submarinos atuais é de 9 anos (contando
a partir da data de comissionamento) e em 1978 ela era de 21 anos (considerando a data de
comissionamento dos "Guppy" na US Navy).
Em resumo, a atual força de submarinos da MB
é reduzida em número, porém bastante coesa e atualizada. A quantidade será elevada em
breve com a incorporação do Tapajó e, a médio prazo do Tikuna e
talvez do Tapuia. Serão submarinos capazes de enfrentar todo e qualquer tipo de
ameaça, além de impor respeito a qualquer adversário. Se projetarmos uma frota de seis
submarinos para daqui a dez anos (4 "Tupis" e 2 "Tikunas"), esta terá
uma idade média de 11,33 anos. Com base nos dados de quantidade e idade, foi elaborado um
gráfico (ver acima) bastante simples,
porém muito ilustrativo. Considerando-se um índice (hipotético) de relação ideal
(quantidade/idade média) veremos no gráfico que o valor crescerá com o tempo, mostrando
uma renovação dos meios. Um "vale" é observado no ano de 1988. Uma
interpretação satisfatória para tal seria a não incorporação de unidades mais
recentes no período (conseqüentemente o envelhecimento da força) e redução da frota.
De qualquer forma, é interessante que a curva cresça até um patamar satisfatório e
depois se mantenha ao longo do tempo. Quando isto acontecer, teremos uma renovação dos
meios equacionada com um número ideal de submarinos.
É interessante notar que a marinha argentina
já poderia ter atingido esta marca (seis submarinos modernos, dois IKL e quatro TR-1700)
há quase dez anos, incluindo alguns de construção nacional. O programa argentino de
reaparelhamento da força de submarinos, bastante semelhante ao brasileiro, foi lançado
cerca de cinco anos antes no nosso (em 1977, um contrato firmado entre a ARA com um
estaleiro alemão previa a construção de seis TR-1700). O Brasil só em 1982 assinou os
dois contratos técnicos com o Consórcio Ferrostaal/Howaldtswerke Deutsche Werft (HDW) da
Alemanha).
A crise econômica atingiu o nosso vizinho de
forma muito mais dramática e sua construção de submarinos espelha esta situação. Eles
sabiam da importância de possuir submarinos. Durante a Guerra das Falklands/Malvinas, toda a
armada argentina ficou retida nos portos. Não tanto pela esquadra de superfície dos
ingleses mas sim por conta dos submarinos nucleares. A Argentina perdeu somente um
navio de combate, e foi justamente para um submarino. Do outro lado, a única ameaça à
frota inglesa, além de ataques aéreos, eram seus dois submarinos IKL-209, dos quais
apenas um, o San Luis, operou durante todo o conflito.
Marinha do Brasil |
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| Diferentemente da Argentina, o Brasil escolheu um
modelo já testado (IKL-209) e conseguiu manter as metas do seu programa de construção
de submarinos. Na foto, o Tamoio (S31) |
Num hipotético confronto entre a Marinha do
Brasil e uma marinha com a envergadura da esquadra britânica, possivelmente o Brasil
tomaria o mesmo caminho que a Argentina nas Malvinas: reteria seus navios de combate de
superfície próximos à costa e lançaria toda a força submarina ao mar. Portanto, na
minha modesta opinião de contribuinte, o maior empenho da Marinha do Brasil deveria ser
dado à aquisição de tecnologia e construção de submarinos modernos no país, mesmo
que seus custos não atinjam patamares econômicos. Este sim é um ponto estratégico.
Como a nossa realidade é modesta e o orçamento bastante enxuto, a aquisição de
material de superfície deve ser posta num patamar secundário quando o assunto é
reaparelhamento da Esquadra. Isto vale apenas para navios de combate de grande porte como
fragatas, contratorpedeiros e porta-aviões. Creio que o pensamento da MB também seja o
mesmo, pois ela conseguiu manter as metas do programa de submarinos (mesmo com atrasos no
cronograma) ao longo dos penosos anos oitenta e incertezas na década de noventa.
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