Aviação naval: a visão da Marinha
O SRPM
(Serviço de Relações Públicas da Marinha), na pessoa
do Capitão de Mar-e-Guerra Wellington Liberatti,
concedeu entrevista até o momento não publicada
ao Jornal O GLOBO, do Rio de Janeiro, enfocando o
tema Aviação Naval. A entrevista, que também foi
publicada pela Marinha no nº 668 do Nomar (Notícias da
Marinha), não só tem um valor informativo inestimável
para os estudiosos do assunto, como também para toda a
sociedade brasileira. Boa leitura!
| US Navy |
 |
| "Os
gigantescos porta-aviões de ataque americanos,
projetados durante a Guerra Fria para garantir a
superioridade aérea americana contra a antiga
União Soviética em qualquer teatro, prestam-se
perfeitamente para o novo papel que lhes cabe no
contexto político-estratégico visualizado pelos
EUA" |
O GLOBO: Qual é a visão da marinha do Brasil
sobre o emprego do porta-aviões como instrumento
político-estratégico?
SRPM: O Poder Naval destina-se à garantia da
soberania dos interesses do país no mar e ao apoio de
sua ação diplomática no cenário internacional.
Evidentemente, a política externa adotada pela Nação
definirá o perfil geral defensivo ou ofensivo
de seu Poder Naval.
É importante notar, contudo, que os meios navais, per
se, não são intrinsecamente ofensivos ou
defensivos; o critério de aferição é o modo como são
empregados. A minagem de nossos próprios portos, para
negar o acesso ao inimigo, caracteriza a mina como arma
defensiva; se empregada para minar portos inimigos, numa
guerra de atrição, torna-se arma ofensiva.
Da mesma forma, também o emprego do porta-aviões
como instrumento político-estratégico, conforme
apresentado na pergunta, depende, exclusivamente, da
política exterior adotada pelo país. Como primeira
consideração, impõe-se a distinção entre os
gigantescos "porta-aviões de ataque"
americanos e os antigamente denominados
"porta-aviões de escolta". Aqueles, projetados
durante a Guerra Fria para garantir a superioridade
aérea americana contra a antiga União Soviética em
qualquer teatro, prestam-se perfeitamente para o novo
papel que lhes cabe no contexto político-estratégico
visualizado pelos EUA e claramente expresso no documento
intitulado "From de Sea", que, em face
da inexistência de oponente à altura em
"águas-azuis", orienta o preparo da Marinha
Americana para a atuação "a partir do mar",
isto é, projetando poder sobre terra. Em
tradução mais livre, empregando o Poder Naval, conforme
necessário, para intervir em qualquer região, para
garantir os interesses dos Estados Unidos e impor a
"Pax Americana".
| Estaleiro
Bazan |
 |
| O
navio-aeródromo Chakkri Naruebet da
Tailândia, construído na Espanha, se encaixa no
conceito de "navio de controle de área
marítima" |
Diferentemente, os porta-aviões de escolta, que
já nem têm mais tal denominação, são empregados,
fundamentalmente, na defesa aérea das forças navais em
alto-mar e no controle de áreas marítimas, que,
conceitualmente, significa um certo grau de garantia de
utilização, ainda que temporária, de áreas marítimas
limitadas, estacionárias ou móveis, com vistas à
execução de determinadas atividades, como prover
segurança às comunicações marítimas e permitir a
exploração e a explotação dos recursos do mar, por
exemplo.
Em síntese, e buscando responder objetivamente à
pergunta, a visão da Marinha do Brasil sobre o emprego
do porta-aviões como instrumento político-estratégico
é a de que, para tal emprego, é necessário, antes de
mais nada, possuir um porta-aviões com características
compatíveis com tal destinação e, acima de tudo, uma
política nacional que a comporte. Para a estratégia
naval brasileira, o emprego do porta-aviões segue o
modelo apresentado para os porta-aviões de porte e
propósito mais limitados, isto é, o porta-aviões é,
tão somente, um componente da força naval à qual,
então, estará atribuído um papel
político-estratégico.
O GLOBO: Como a Marinha explica o fato de
potências navais como a China e Japão, que não têm
porta-aviões, agora fazerem planos para construí-los?
SRMP: Não haveria muito o que a Marinha explicar
o fato, particularmente por desconhecer as
características pretendidas para os porta-aviões
mencionados. Pode-se, entretanto, conjeturar. No caso da
China, a atitude parece consentânea com o aumento global
de seu poderio militar e, particularmente, com o
crescimento de sua capacidade de projeção de poder,
conforme demonstrado, em 1996, em sua ação de
"pressão" sobre Taiwan. Também, a julgar
procedentes as considerações de Samuel Huntington, no
livro "O Choque de Civilizações e a Recomposição
da Ordem Mundial", este parece ser o caminho natural
da China.
No caso do Japão, contrariamente ao que muitos
pensam, um dos maiores orçamentos militares do mundo (é
o segundo, em valores absolutos), é possível que a
crescente redução da participação americana na sua
defesa esteja motivando os japoneses a preencher lacunas
futuras, vislumbradas a partir deste fato. Mas, conforme
dito inicialmente, são apenas conjecturas.
O GLOBO: Poderia comentar brevemente algumas
concepções de guerra aeronaval, a partir do fato de os
EUA terem 12 porta-aviões e a Rússia apenas um?
SRPM: O fato de um país ter 12 porta-aviões e
outro apenas um não parece servir de base para
comentários sobre concepções de guerra aeronaval,
porquanto tal estado de coisas não deve decorrer de
divergências no conceito de emprego daqueles meios. O
que leva os Estados Unidos a terem um Poder Naval daquela
magnitude e a antiga URSS uma Marinha como a que tinha
constitui questão de outra ordem. (Digo a URSS, porque a
situação atual da Rússia deve resultar de imperativo
econômico e não de orientação estratégica). A
situação, que tem origem, na verdade, em um conjunto de
fatores, incluindo raízes históricas e determinantes
geopolíticos, é um tanto complexa e sua compreensão
demanda alguma digressão, ainda que com simplificações
acentuadas. Ocorre que na história da humanidade,
imperativos geográficos, entre outros, foram
determinantes na caracterização marítima ou
continental das nações. Povos que viviam em estreitas
faixas de terra, entre mar e montanha, como fenícios e
portugueses, ou habitavam ilhas, como os ingleses, eram,
por assim dizer, forçados para o mar, enquanto
franceses, alemães e russos, dispondo de vastos
territórios, com planícies férteis, tornaram-se
países continentais.
| Reprodução |
 |
| Depois de produzir
cruzadores de batalha com capacidade para operar
aeronaves V/STOL, os soviéticos construíram o
Almirante Kuznetsov, um navio-aeródromo puro |
Aqueles desenvolveram poderosas
marinhas; estes, grandes exércitos. No confronto de uns
e outros, ao longo da história, as nações marítimas
sempre acabaram por predominar. Curiosamente, os Estados
Unidos tinham tudo para ser um país continental, mas,
influenciados pelas teorias do Almirante Alfred Mahan
(The Influence of Sea Power upon History, 1890), que,
em síntese (e de maneira bastante simplificada),
estabeleciam que aquele que controlasse as rotas
marítimas mundiais controlaria o comércio mundial, e
quem controlasse o comércio mundial, regeria os destinos
do mundo, entenderam ser o destino manifesto da
América suceder aos britânicos na hegemonia mundial e
resolveram adotar, desde o final do século XIX, o modelo
- aparentemente inadequado para ume nação continental -
de nação marítima. O resultado foi o século
americano, o século XX. Contrapondo-se às teorias do
Almirante Mahan, havia a teoria de Sir Halford Mackinder,
de 1904, segundo a qual a época Colombiana - o período
de quatro séculos de exploração e conquista
ultramarina pelas potências européias - chegava ao fim
e cederia lugar à outra, de natureza bastante distinta.
Simplificadamente, ele dizia que o futuro dependeria dos
acontecimentos na estratégica "área pivô" do
mundo - a Rússia central. Quem dominasse o que chamava
de "heartland", as vastas regiões da Rússia e
da Mongólia, disporia de tantos recursos, humanos e
materiais, que concentraria um poder capaz de manter-se
em expansão, conquistando toda a Ásia, Europa e assim
por diante. O entusiasmo demonstrado pelos nazistas por
tal teoria parece tê-la desacreditado um pouco, mas os
geopolíticos da antiga União Soviética, com sua
política expansionista, talvez tenham-na considerado
seriamente.
O mesmo pode-se dizer dos americanos, que, ao longo de
toda a Guerra Fria, fixaram-se em estratégias de
contenção, tentando impedir que o adversário
comprovasse e tese. Destarte, os russos, para garantir
suas extensas fronteiras e empreender a expansão
territorial , desenvolveram grandes exércitos,
enquanto a inexistência de saídas para as "águas
quentes" - seus portos congelam no inverno
sempre contribuiu para desestimular o desenvolvimento
naval. Os americanos, por outro lado, fazendo fronteira
com países amigos ou militarmente fracos, desde o final
do século passado só tiveram enfrentamentos longe de
seu território, daí a necessidade de manter uma Marinha
compatível com a dimensão de seus interesses. Aliás,
desde a Segunda Guerra Mundial, quando conduziram duas
guerras simultâneas, uma no Pacífico, outra no
Atlântico, orientam o preparo de suas Forças para a
realização de tarefa semelhante. Os soviéticos, por
sua vez, desde que se entenderam superpotência, bem que
tentaram desafiar o domínio do mar mantido pelos Estados
Unidos e, classicamente, lançaram-se, de início, à
produção de submarinos em larga escala, à semelhança
do que sempre fizera a Alemanha para desafiar a
supremacia naval britânica. Posteriormente, passaram a
desenvolver consideráveis forças de superfície,
iniciando-se, inclusive, na guerra aeronaval, a despeito
das dificuldades de acesso às "águas
quentes", que eram agravadas por tratado que proibia
o trânsito de porta-aviões pelo Estreito de Bósforo,
obrigando-os a produzir eufemismos como o Kiev,
cruzador de batalha com capacidade para operar aeronaves
V/STOL. Antes, já havia produzido os porta-helicópteros
da classe Moskva e, finalmente o Almirante
Kuznetsov. Tudo indica que teriam prosseguido. Não
fora o desmoronamento da URSS, quantos porta-aviões
teriam hoje? Apenas um?
O GLOBO: Nosso país pleiteia uma cadeira
permanente no Conselho de Segurança da ONU. Caso o
Brasil consiga, o que muda nos planos de reequipamento da
Marinha?
SRPM: De imediato, nada muda nos planos da
Marinha, porquanto não são vislumbradas, para o Poder
Naval brasileiro, tarefas adicionais que requeiram
capacidade superior à conferida pelo Programa de
Reaparelhamento (PRM) em curso.
O GLOBO: Para a Marinha é melhor investir em
submarinos ou em porta-aviões?
SRPM: Em ambos. É preciso considerar que cada
qual tem seu papel e, para o Brasil, ambos são
indispensáveis. O submarino é, por excelência, o
grande dissuasor, uma vez que sua capacidade de
ocultação resulta em elevado grau de incerteza para o
adversário, que, para compensá-la com
discutíveis chances , tem que dispor de elevado
número de meios para contrapor-se a um único submarino,
tornando a razão custo/beneficio extremamente favorável
ao último, No entanto, o submarino, insuperável na
tarefa de negar o uso do mar ao inimigo, isto é, impedir
que ele controle determinada área marítima,
explorando-a contra nossos interesses, torna-se mero
coadjuvante na tarefa de controlar área marítima de
nosso interesse. Para tanto, é fundamental dispor-se de
forças navais de superfície, particularmente, dotadas
de porta-aviões. No caso do Brasil, e preciso considerar
que o controle de área marítima, conforme conceituado
na primeira resposta, é vital para evitar nosso
colapso, porquanto mais de 95% do nosso comércio
exterior é realizado por via marítima; estamos falando,
entre importações e exportações, de mais de cento e
vinte bilhões de dólares ao ano! Neste século, fomos
duas vezes à guerra em decorrência de ataques ao nosso
tráfego marítimo, que é apenas parte dos nossos
interesses no mar, de onde saem mais de 70% de nosso
petróleo (cerca de cinco bilhões de dólares ao ano);
sem mencionar a pesca e outras atividades. O significado
vital desses interesses transforma-se em vulnerabilidade
a ser defendida. Somente um Poder Naval consentâneo com
a magnitude dos interesses pode garantí-los.
É claro que se impõem aqui considerações de outra
ordem: qual a ameaça? Em situação de ameaça reduzida
e até indefinida, como no presente, basta dispor de um
poder capaz, não de derrotar qualquer inimigo, mas de
garantir a dissuasão contra pressões militares,
tornando mais atraente a via diplomática. Para alcançar
tal efeito desejado, entretanto, é fundamental que os
meios disponíveis e o preparo do pessoal que os opera
infundem credibilidade. Deve haver qualidade e incorporar
tecnologia atualizada. Esta é a estratégia que norteou
a elaboração do atual Plano de Reaparelhamento da
Marinha e que contempla a existência de porta-aviões e
aviação embarcada, que garanta a defesa aérea da
força naval operando em alto-mar e o controle de área
marítima de interesse.
| Royal
Navy |
 |
| "A
Grã-Bretanha, com uma área menor do que a
maioria dos nossos estados, possui três
porta-aviões". Na foto, o HMS Invencible,
veterano da Guerra das Falklands/Malvinas |
O GLOBO: Na defesa do Brasil, o que
seria mais eficiente? Porta-aviões ou aviões baseados
em terra? Qual é a opinião da Marinha?
SRPM: Ao estabelecer "Na defesa do
Brasil...", a pergunta fica um tanto vaga:
refere-se ao território nacional ou aos interesses do
país? Se ao território, de onde proviria a ameaça
aérea? Se de um país vizinho o que hoje parece
ser mera abstração , sem dúvida, teria que ser
enfrentada por aeronaves baseadas em terra. Entretanto,
se a ameça for proveniente de aeronaves voando sobre o
mar, a aviação embarcada poderá interceptá-las muito
antes de entrarem no raio de ação da aviação baseada
em terra. No mínimo, terá garantido o primeiro embate,
reduzindo o ímpeto do ataque e aumentado as chances de
êxito do esforço conjugado de ambas as aviações.
Além disso, somente a aviação embarcada pode garantir
a defesa de uma força naval contra ataques aéreos em
alto-mar. Considerar que a aviação baseada em terra
possa fazê-lo, significa limitar a operação dos navios
às cercanias das bases aéreas capazes de operar
interceptadores e, levando-se em conta o tempo de
reação entre detecção, acionamento, decolagem e
interceptação, o conceito de "cercanias" pode
ser de tal forma limitado que, na quase totalidade dos
casos, terá eliminado a razão de ser da força naval,
suprimindo-lhe a mais fundamental de suas
características, a mobilidade.
O GLOBO: Quantos porta-aviões seriam necessários
para um país do tamanho do Brasil?
SRPM: Na verdade, não seria apenas o tamanho do
país o fator a ser considerado. O mais importante é a
tarefa a desempenhar. A Grã-Bretanha, com uma área
menor do que a maioria dos nossos estados, possui três
porta-aviões. Para a atual conjuntura brasileira,
considerando-se, entre outros fatores, a estratégia de
garantir um mínimo de dissuasão e as realidades
econômicas e sociais do país, a Marinha considera
essencial um porta-aviões. O desejável, pelo menos
dois.
O GLOBO: Quais os aviões que a Marinha gostaria de
comprar para o "Minas Gerais"?
SRPM: Ao equipar o "Minas Gerais" com
aviões de asa fixa, a Marinha pretende vencer uma etapa
de um processo, qual seja, a consolidação da aviação
embarcada. É imperioso, portanto, que a aeronave seja
compatível com o propósito. Não pode ser obsoleta e
deve estar em uso em outros países, por um lado, para
não violar os pressupostos da credibilidade e, por
outro, para garantir a disponibilidade de peças de
reposição; não pode apresentar elevado custo de
obtenção, porque terão de ser adquiridas dentro do
orçamento da própria Força, sem aporte de recursos
extraordinários do Tesouro Nacional; não pode
apresentar elevados custos de manutenção e tem que ser
compatível com o porta-aviões disponível.
Evidentemente, as opções não são muitas, mas existem.
O A-4 Skyhawk, que vem sendo citado em diversas
reportagens, é, sem dúvida, uma delas.
| Marinha
do Brasil |
 |
| "Uma vez
consolidada a aviação naval, com a operação,
pela Marinha, de aeronaves de interceptação, a
idéia é substituir o Minas Gerais por
outro porta-aviões" |
O GLOBO: O "Minas Gerais" tem mais
de 50 anos de idade. Quais são os planos da Marinha para
substituí-lo?
SRPM: Uma vez consolidada a aviação naval, com a
operação, pela Marinha, de aeronaves de
interceptação, a idéia da Marinha é substituí-lo por
outro porta-aviões. Merece registro, contudo, o fato de
que o "Minas Gerais" estar em serviço ativo
há mais de 50 anos não constitui anomalia: os
porta-aviões "USS Independence", "USS
Kitty Hawk" e "USS Constelation", todos no
serviço ativo na Marinha dos Estados Unidos, foram
construídos na década de 1950, enquanto que o
porta-aviões da Índia, o "Viraat", é coevo
do "Minas Gerais".
O GLOBO: O Brasil tem capacidade para construir seu
próprio porta-aviões ou terá de comprar um pronto?
SRPM: O Brasil tem capacidade de projetar e
construir seu próprio porta-aviões e, no momento, esta
é a única alternativa contemplada pela Marinha. Nosso
país já projeta e constrói navios de guerra,
produzindo, inclusive, submarinos, meios que demandam a
rnais sofisticada tecnologia de construção naval.
O GLOBO: A maioria dos brasileiros acha que a
possibilidade de o Brasil se envolver em uma guerra é
muito remota, senão impossível. Como a Marinha fará
para convencer a sociedade de que ela precisa se equipar?
SRPM: A Marinha concorda que a possibilidade de o
Brasil se envolver em uma guerra, na atual conjuntura
internacional, é bastante remota; assim como era
impensável, até poucos dias antes da ocorrência, a
invasão das Malvinas, a invasão do Panamá, a invasão
de Granada, a invasão do Kuwait, a Guerra da Bósnia e
outros conflitos e surpresas do cotidiano internacional,
como a inesperada queda do Muro de Berlim, por exemplo.
Há apenas quinze anos, nada disso havia acontecido. O
que, na verdade, não muda o fato de que, no presente, o
Brasil não consegue identificar nenhuma ameaça
iminente. Entretanto, se por um lado não há ameaças,
por outro, há interesses nacionais e, sendo a potência
emergente do porte que é, dificilmente
poderá o país continuar disputando espaços e mercados
sem despertar antagonismos, dos quais, as pressões da
Alca sobre o Mercosul são mero exemplo. E, desde que o
mundo é mundo, quer entre pessoas, quer entre nações,
a origem dos conflitos está no choque de interesses. É
claro que, como manda o bom figurino, os povos devem
apelar sempre para a solução pacífica das
controvérsias. Por outro lado, o recurso a tal
expediente será tão mais atraente quanto menos
convidativa a via militar. Exemplo interessante ocorreu
recentemente entre Canadá e Espanha, dois países do
chamado Primeiro Mundo, ambos membros da Organização do
Tratado do Atlântico Norte (OTAN): segundo o Canadá, a
Espanha realizava pesca predatória em águas adjacentes
aos bancos da Terranova. Esta alegava estar em águas
internacionais, fora de qualquer jurisdição canadense.
O Canadá, certo ou errado, enviou navios de guerra para
impedir a ação dos pesqueiros espanhóis e, assim,
impor sua vontade. Como a Espanha também possui Marinha
e enviou seus navios para a área do litígio, ambos
concordaram que a mesa de negociação poderia levar a
melhores resultados. A lição que fica é a de que, se a
Espanha não dispusesse de Marinha, teria de submeter-se
à pressão militar do Canadá.
Em 1963, o próprio Brasil viveu episódio semelhante
com a França, que realizava pesca predatória da lagosta
no litoral do nordeste brasileiro e, em resposta aos
nossos protestos, enviou um navio de guerra para garantir
a atividade dos pesqueiros. A chegada da Esquadra
brasileira à cena de ação, a despeito da
impossibilidade de vencermos qualquer guerra contra a
França, mudou o curso dos acontecimentos, levando a
disputa para o foro diplomático adequado. Como observado
nos exemplos, os conflitos surgem inesperadamente, como
que do nada. Já as Forças Armadas, existem ou não.
Não há como improvisá-las. Um navio de guerra, por
exemplo, uma vez tomada a decisão de obtê-lo, leva
cerca de cinco anos, entre projeto, construção e
aprestamento, para tê-lo pronto. A formação de
pessoal, em todos os níveis, leva bem mais, enquanto que
o desenvolvimento de uma adequada cultura de emprego é
assunto para mais de século. Não é, absolutamente, um
problema só nosso. É assim no mundo inteiro. Quanto ao
que foi apresentado na pergunta, isto é, como a Marinha
fará para convencer a sociedade do que ela precisa, é
realmente tarefa árdua, mas será que é problema só da
Marinha, ou mesmo, das Forças Armadas convencer a
sociedade? Diferentemente do que é praticado no Brasil,
a Defesa não é problema dos militares. É problema da
nação, dos políticos, dos segmentos esclarecidos e de
todas as camadas sociais. A discussão desses assuntos
deve, necessariamente envolver a todos, o que inclui,
sobremodo, a Imprensa. Na visão da Marinha, a
solicitação da presente entrevista, por parte deste
jornal, reveste-se de especial significado, em razão do
que, coloca-se, desde logo, à disposição para prestar,
a qualquer tempo, todas as informações que venham a ser
solicitadas. 
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