DOSSIÊ

US Navy

Dois paradigmas do Poder Naval: o submarino convencional IKL-209 sul-coreano Choi Moo Sun vem à superfície próximo do navio-aeródromo USS Kitty Hawk da US Navy

Os navios-aeródromo na
nova ordem mundial


"... O Poder Naval nunca significou meramente navios de guerra. Ele significou sempre a soma total daquelas armas, instalações e circunstâncias geográficas que capacitam uma nação controlar o transporte sobre os mares em tempo de guerra. Se a aeronave toma uma parte importante nesse controle, o que é óbvio, ela estará funcionando como um instrumento do Poder Naval"
Bernard Bradie


n Alexandre Galante

Mesmo com o fim da Guerra Fria, o mundo ainda assiste às demonstrações do poder militar dos Estados Unidos, cujo destaque continua sendo dos seus navios-aeródromos. Depois de mostrar eficiência contra os japoneses na Segunda Guerra Mundial, os navios-aeródromos americanos também deixaram sua marca na Guerra da Coréia e no Vietnã.

 

Mais recentemente na Guerra do Golfo, desempenharam um importante papel nas forças da Coalisão contra o Iraque, mesmo com uso de mísseis guiados disparados de navios e submarinos contra alvos em terra. E, pelo andar da carruagem, o uso do navio-aeródromo (NAe) como instrumento político-estratégico ainda está longe de acabar.
Apesar da globalização da economia e da "Nova Ordem Mundial", as nações que têm grande influência econômica e política e que dependem do uso do mar para o comércio exterior, ainda investem pesadamente em suas marinhas de guerra. Esperam com isso continuar protegendo seus interesses no mar, num mundo imprevisível.

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A enorme capacidade aérea embarcada dos NAe americanos lhes confere um importante papel como instrumento político-estratégico

O NAe, por seu poder de demonstração de força e alto custo operacional, transformou-se na ferramenta político-estratégica dos países ricos, enquanto o submarino convencional tornou-se a opção dos países com menos recursos. O submarino representa uma pequena fração da capacidade de dissuasão de um navio-aeródromo em tempo de paz, mas pode enfrentar até mesmo um inimigo mais poderoso em caso de guerra, a um custo reduzido.
Poucos países do mundo hoje possuem navios-aeródromos em suas Marinhas ou têm planos de incorporar algum nos próximos anos. A França tem dois navios convencionais, mas vai incorporar um novo NAe com propulsão nuclear em 1999, o Charles De Gaulle.
A China também também tem interesse em NAe e pode contar com a ajuda dos russos e franceses interessados em vender tecnologia. Existem informações de que o casco do ex-NAe russo Varyag, adquirido por um empresa hoteleira em Macau, pode estar sendo aproveitado pelos chineses para absorção de tecnologia para seu futuro NAe. O Japão, que até agora servia de base aos NAe americanos do Pacífico, já incoporou um navio de assalto anfíbio de convés corrido capaz de operar aeronaves V/STOL.
Depois dos EUA, só a Inglaterra, França, Rússia, Espanha, Itália, Índia, Brasil e mais recentemente, a Tailândia, possuem NAe. Mesmo assim, são navios bem menores e menos capazes que seus pares americanos. A US Navy conta atualmente com 12 navios-aeródromos em serviço ativo e mais dois em construção.

Formidáveis instrumentos de poder

 

O NAe é uma plataforma cara, difícil de manter e operar, que demanda anos de construção e investimentos em pessoal e equipamentos. Mas graças ao seu enorme poder de dissuasão, pode evitar uma guerra ou resolver um impasse político sem disparar um só tiro, fato que já foi evidenciado em várias crises internacionais.  Em março de 1996, a resposta americana à pressão militar da China contra Taiwan foi o envio do USS Independence, num exemplo moderno da "diplomacia das canhoneiras". Ficou provado mais uma vez que a simples presença de um desses navios numa área de crise acelera as negociações por via diplomática, como na recente crise do Iraque, que finalmente cedeu às pressões militares dos EUA para abrir seus Palácios aos técnicos de inspeção de armamentos da ONU.
Por outro lado, se um conflito armado for mesmo inevitável, poucos países do mundo poderiam fazer frente à capacidade bélica de um NAe americano — cujos aviões possuem um poder de fogo superior ao de muitas forças-aéreas do planeta.

Na frota americana atual, oito navios são movidos à propulsão nuclear e quatro são convencionais, mais antigos. Estes últimos serão desativados em breve, dando lugar a dois novos navios da classe Nimitz, batizados com nomes de ex-presidentes americanos: o USS Harry S. Truman e o USS Ronald Reagan.

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Cada Carrier Battle Group americano nucleado em NAe é formado por cruzadores, fragatas, contratorpedeiros, submarinos, navios de ataque anfíbio e navios-tanque

A US Navy tem Forças-Tarefa espalhadas em pontos estratégicos em todos os oceanos do planeta, nas seguintes Esquadras ou Frotas: a segunda, no Atlântico, a sétima, no Pacífico Ocidental, a quinta frota cobrindo o Oceano Índico, o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho, e a sexta, no Mediterrâneo. Cada Esquadra pode ter um ou mais NAe, acompanhados por navios de guerra dos mais variados tipos, entre cruzadores, fragatas, contratorpedeiros, submarinos, navios de ataque anfíbio, navios-tanque etc, formando os chamados "Grupos de Batalha de Navio-aeródromo" ou Carrier Battle Groups (CVBG)

Os NAe da classe "Nimitz" são os maiores e mais poderosos navios de guerra da história. Todas as suas medidas são imensas: têm cerca de 330m de comprimento e deslocam mais de 95.000 toneladas. Cada uma de suas âncoras pesa quase 30 toneladas.
Tudo o que existe neles representa o que há de mais avançado em matéria de eletrônica e comunicações. O custo de aquisição de um navio desta classe gira em torno de 3,5 bilhões de dólares (sem contar os aviões) e cerca de 450 milhões de dólares por ano de operação. A vida útil de cada porta-aviões da classe "Nimitz" está estimada em 45 anos, através de sucessivas modernizações.
São navios caros, mesmo para uma superpotência pagar, porisso a US Navy já estuda uma nova classe de NAe chamada de CVX, que poderá ser menor e mais barata que os atuais.
Apesar do tamanho, os grandes NAe da classe "Nimitz" são rápidos, podem mover-se à velocidade de mais de 30 nós (quase 60km/h) indefinidamente, pois são impulsionados por reatores nucleares. Só precisam renovar o combustível a cada 15 anos, o que equivale a quase um milhão de milhas navegadas ou 1,8 milhões de quilômetros.

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A autonomia de um NAe nuclear só é limitada pelo combustível de aviação, armamentos e comida para a tripulação, problema solucionado por meio de reabastecimento em alto-mar

Isso dá a esses navios uma mobilidade incrível, que além de permitir seu rápido deslocamento para áreas de crise, torna-os difíceis de serem detectados por forças hostis.
Mesmo que um NAe seja detectado em determinado instante (o que é difícil, devido a técnicas de despistamento e contra-medidas eletrônicas), bastam apenas três horas para que este esteja em qualquer outro lugar dentro de um círculo de mais de 160km de raio, transformando-se em uma "agulha num palheiro" de 82.400km2.
A autonomia destes navios só é limitada pelo combustível de aviação, armamentos e comida para a tripulação, problema que é resolvido por meio de reabastecimento em alto-mar por navios-tanque e de suprimentos.

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O F-14 Tomcat é o interceptador embarcado da US Navy: custa US$50 milhões por unidade e já tem 25 anos de serviço, mas continua um dos mais capazes aviões de combate do mundo

O grupo aéreo embarcado

A defesa de um NAe reside em seus próprios aviões e cada "Nimitz" leva cerca de 80 deles, de vários tipos. O mais famoso é o F-14 Tomcat, o caça bimotor que ficou conhecido popularmente no filme "Top Gun – Ases Indomáveis". Capaz de atingir alvos aéreos a mais de 150km de distância com mísseis ar-ar Phoenix, o Tomcat já tem 25 anos de serviço, mas continua sendo um dos mais capazes aviões de combate do mundo, graças ao contínuo aperfeiçoamento de seus sistemas. Cada F-14 custa US$50 milhões.

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O F/A-18 Hornet é um caça multifunção que pode executar com a mesma eficiência, missões de ataque ao solo, de combate aéreo e de ataque a navios

Complementando o F-14 vem o F/A-18 Hornet, um caça multifunção que pode executar com a mesma eficiência missões de ataque ao solo e de combate aéreo, além de ataque a navios. Pode ser equipado com uma variada gama de mísseis ar-ar, ar-superfície e anti-navio. Cada Hornet custa US$38 milhões por unidade.

Juntam-se a eles os aviões E-2C Hawkeye, característicos por suas antenas de radar em forma de disco sobre a fuselagem, capazes de detectar alvos aéreos e de superfície a mais de 300 milhas de distância.
Completando o grupo aéreo embarcado, existem ainda aviões de guerra eletrônica EA-6B Prowler, anti-submarino S-3B Viking e de reabastecimento em vôo, além de helicópteros anti-submarino SH-60B Seahawk.

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Os aviões E-2C Hawkeye, com antenas de radar em forma de disco sobre a fuselagem, são capazes de rastrear alvos aéreos e de superfície

Em caso de alguma aeronave inimiga conseguir superar o anel defensivo proporcionado pelos F-14 e F-18, além de passar pelos mísseis antiaéreos Standard dos navios escolta, como último recurso os NAe contam com suas próprias baterias de canhões anti-míssil Phalanx e mísseis de defesa antiaérea Sea Sparrow.
Para manter o navio operando com todo o seu grupo aéreo são necessários cerca de 6.000 militares. Diariamente para esse pessoal são servidas 18.000 refeições e são produzidos 400.000 galões de água destilada do mar e 2.520 toneladas de ar-condicionado, suficientes para refrigerar mais de 2.000 residências.

 

Cada NAe da classe "Nimitz" possui um departamento de informática que gerencia mais de 450 computadores ligados em rede, que possiblitam a comunicação por e-mail entre os tripulantes. Aliás, uma das coisas mais interessantes que aconteceram nesses navios nos últimos tempos foi o uso do e-mail pela Internet, que tornou mais fácil a comunicação com parentes e familiares, aumentando sensivelmente o moral dos tripulantes nas longas patrulhas que podem passar de 6 meses.

Conclusão

Os NAe americanos atuais são resultado da evolução tecnológica desenvolvida durante toda a Guerra Fria e foram preparados para enfrentar um inimigo do porte da antiga URSS.
O mundo mudou, mas eles continuam demonstrando sua utilidade estratégica em conflitos localizados, fazendo valer a política externa dos EUA.

Reprodução
Modernos aviões de ataque de longo alcance como o Sukhoi Su-35/Su-32FN são capazes de realizar ataques de saturação com mísseis contra navios-aeródromos

Tentar enfrentar a US Navy num combate naval clássico seria suicídio para qualquer país, mesmo sendo dotado de NAe, tendo em vista a magnitude do Poder Naval americano. A alternativa então seria criar uma expectativa de risco grave para os EUA, elevando o custo político de uma operação militar a níveis proibitivos.

Isto significa que os países menos capazes tecnologica e economicamente, que queiram contrapor-se à ameaça do poder aeronaval americano, devem investir em guerra de minas, manter uma moderna aviação de ataque de longo alcance baseada em terra, capaz de realizar ataques de saturação com mísseis anti-navio, instalar baterias de mísseis supersônicos anti-navio na costa  e investir sobretudo em submarinos, equipados com mísseis anti-navio e mísseis de cruzeiro. Um ataque bem sucedido a um NAe pode não afundá-lo, mas pode colocá-lo fora de combate temporariamente (mission kill) e forçar negociações diplomáticas, caso a questão em disputa não seja de interesse vital para os EUA.

De qualquer maneira, uma força-tarefa nucleada em NAe ainda será uma máquina de guerra muito difícil de enfrentar e não se pode esquecer de que, se alguém atacar um navio-aeródromo americano com seus seis mil tripulantes, estará atacando diretamente os EUA, o que pode trazer terríveis conseqüências para o agressor.