OPINIÃO


Os navios da esperança

A atuação da Marinha do Brasil na Amazônia

 

Reprodução
Para patrulhar toda essa imensa malha hidroviária que é a Bacia Amazônica, a Marinha do Brasil possui somente cinco Navios-Patrulha Fluvial (NaPaFlu)

n Alexandre Fontoura

São mais de 20 mil quilômetros de rios navegáveis. Praticamente meia volta ao mundo. Podemos ter uma vaga idéia do que isso representa quando descobrimos que é possível navegar no rio Amazonas, de Manaus até Tabatinga, na fronteira com o Peru, por sete dias, ou 3.600 km.

Para patrulhar toda essa imensa malha hidroviária que é a Bacia Amazônica, a Marinha do Brasil possui somente cinco Navios-Patrulha Fluvial (ou NaPaFlu, como são mais conhecidos por seus tripulantes) e dois Navios de Assistência Hospitalar (NAsH). A própria Marinha considera difícil cumprir essa missão com os parcos meios de que dispõe. Tanto que, dentro da prioridade de uma maior presença militar na região Amazônica – determinada pela Política de Defesa Nacional – está prevista a construção de mais cinco NaPaFlu com capacidade de operar helicópteros, dois NaPaFlu de menor porte, mais um NAsH, um navio-hidrográfico e 20 Lanchas-Patrulha Fluvial. Além disso, o Grupamento de Fuzileiros Navais de Manaus será transformado em um Batalhão. O 3º Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral (HU-3) receberá mais aeronaves e, em Belém, será instalado um outro Esquadrão.

A Marinha marca sua presença na Região Amazônica, de forma contínua, desde 1868, garantindo a soberania nacional na região e levando todo tipo de apoio às populações ribeirinhas, em sua maioria extremamente isolados e necessitados de educação, assistência médica e odontológica e até mesmo – por mais incrível que possa parecer ao cidadão das grandes metrópoles do resto do país – da simples noção de que são cidadãos brasileiros. Sendo assim, essas populações se acostumaram, por décadas e por várias gerações, a ver os navios da Flotilha do Amazonas – as "Corvetas" da Marinha, como os ribeirinhos se referem aos navios – como o maior e talvez o único sinal da presença do Estado Brasileiro na Amazônia. Nos pontos mais extremos e próximos à fronteira com outros países da Região, a presença centenária da Marinha ajudou essas populações até mesmo a manter seu senso de identidade nacional.

O CNAO

 

Em 1968 foi criado o Comando Naval de Manaus, desativado em 1975, com a divisão do país em cinco grandes Distritos Navais. Devido a grande extensão territorial da Região Norte, sob a jurisdição do 4º Distrito Naval, com sede em Belém, a Marinha decidiu criar o Comando Naval da Amazônia Ocidental (CNAO), sediado em Manaus e subordinado àquele Distrito. O CNAO foi ativado em 11 de junho de 1994, como Comando de Área para todas as OM situadas na Amazônia Ocidental, que compreende os estados do Amazonas, Acre, Roraima e Rondônia.

Para o Contra-Almirante Ricardo Antônio da Veiga Cabral, então Comandante Naval da Amazônia Ocidental, "a criação do CNAO deveu-se em primeiro lugar pela própria extensão da região sob jurisdição do 4º Distrito Naval, cobrindo todos os estados dessa região, desde o Piauí, passando por Pará, Maranhão, Amapá, Rondônia, Roraima e Amazonas, chegando até o Acre. Então, criou-se o Comando Naval da Amazônia Ocidental, para que essa região fosse dividida em duas partes, ficando a parte Ocidental, que compreende Amazonas, Rondônia, Roraima e Acre, cerca de 26% do território nacional (2.185.000km2), sob a responsabilidade deste Comando, com a sede em Manaus". Ainda segundo o Alte. Veiga Cabral, "basta uma olhada num mapa para se ter uma idéia do que representa essa área e verificar que ela contém importantes rios, quase todos navegáveis a maior parte do ano, como o Amazonas, o Solimões, o Madeira, o Javari, o Juruá, o Japurá, o Içá, o rio Negro e seu afluente, o rio Branco, e outros", completou.

Para o cumprimento de seus propósitos, cabem ao CNAO as seguintes tarefas:

  • execução de operações navais e terrestres, de caráter naval, na Amazônia Ocidental;
  • apoio às Unidades e Forças Navais, Aeronavais e de Fuzileiros Navais, não-subordinadas, em operação na Amazônia Ocidental;
  • a atividade de inteligência e contra-inteligência, necessárias ao planejamento e a execução das operações navais;
  • acompanhamento do tráfego fluvial na Amazônia Ocidental;
  • controle das atividades relacionadas com a segurança da navegação fluvial e lacustre;
  • execução das atribuições relativas à Patrulha Fluvial e à Polícia Naval, realizando os entendimentos necessários com organizações extra-Marinha com atribuições em atividades correlatas (como exemplo, o Ibama, a Polícia Federal etc);
  • cooperação para a preservação e utilização racional dos recursos hídricos da região;
  • execução das atribuições concernentes à Lei do Serviço Militar;
  • contribuir para a Segurança Interna em coordenaçnao com as demais forças singulares;
  • apoio ao pessoal militar e civil da Marinha e seus dependentes, quanto a pagamento, serviço de saúde, religioso e assistência social;
  • colaboração em atividades de Defesa Civil em áreas com populações ameaçadas por calamidades públicas ou graves perturbações da ordem;
  • estímulo e apoio às atividades exercidas na região que interessem ao Poder Marítimo; e
  • supervisão das atividades de Assistência Cívico-Social às populações ribeirinhas.

Subordinadas ao CNAO, existem seis Organizações Militares: Flotilha do Amazonas, Estação Naval do Rio Negro (ENRN), Grupamento de Fuzileiros Navais de Manaus, 3º Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral (HU-3), Depósito Naval de Manaus e Capitania dos Portos dos Estados do Amazonas, Acre, Roraima e Rondônia.

Ações da FlotAM

A Flotilha do Amazonas (FlotAM) foi instituída, como dissemos antes, em 1868, em substituição à Divisão do Norte e em decorrência direta da abertura da navegação no rio Amazonas às nações amigas, ocorrida um ano antes. Com períodos alternados de localização entre Belém e Manaus, a Flotilha ficou definitivamente sediada em Manaus em 1974. Entre as diretrizes de caráter essencialmente militar cabe à FlotAM o cumprimento das seguintes ações:

  • operações ribeirinhas envolvendo os Grupamentos de Fuzileiros Navais de Manaus e Belém, bem como os Batalhões sediados no Rio de Janeiro, que podem ser deslocados rapidamente para a Região;
  • operações de patrulha fluvial nos rios navegáveis, até a faixa de fronteira atingível a partir das calhas dos rios Negro e Amazonas e seus afluentes;
  • missões de presença naval, visitando portos de países amazônicos;
  • apoio às unidades do Exército situadas na fronteira; e
  • realização de operações conjuntas com as Marinhas da Colômbia, Peru e Venezuela.
Marinha do Brasil
Os NaPaFlu Pedro Teixeira e Raposo Tavares (foto) medem 62m, deslocam 700t, são armados com canhão de 40mm, morteiros e metralhadoras .50 e tem convôo para operar helicópteros

Além das ações acima, a Marinha do Brasil, executa, por meio dos navios da FlotAM, várias ações subsidiárias, mas nem por isso menos importantes para a região, tais como o apoio às demais Forças Armadas e outros órgãos governamentais que atuam na Região, a atividade de Assistência Hospitalar às populações ribeirinhas e o socorro às populações atingidas por calamidades públicas, como as enchentes, comuns na Amazônia. A atuação da FlotAM foi também fundamental para que a epidemia de cólera que teve origem no Peru não se propagasse pela Calha do Solimões e atingisse Manaus, que acabou registrando apenas um caso autóctone da doença. Mas, na opinião do Capitão-de-Fragata Carlos Alberto Gomes, então Comandante da Flotilha do Amazonas, "aquele trabalho de combate ao cólera foi circunstancial, ditado pela necessidade de "barrar" a penetração da doença nas demais cidades. Nós deslocamos um dos NAsH para a fronteira com o Peru, onde foi realizado um trabalho de prevenção e de instrução sanitária para as populações daquela área, o que teve um resultado muito positivo".

Apesar do combate ao cólera ter sido bem sucedido, o Comandante Carlos Gomes preferiu destacar as operações "normais" de assistência hospitalar realizadas pelos NAsH da FlotAM. "Durante todo o ano os NAsH e, em menor escala, os NaPaFlu, desenvolvem um trabalho de assistência hospitalar através das comissões denominadas AsHop, quando deslocamos médicos, dentistas, farmacêuticos e desenvolvemos ações como as campanhas de vacinação, além da própria assistência médica e odontológica às populações de vilarejos ribeirinhos, que são totalmente carentes deste tipo de serviço. E não só pelo atendimento médico em si, esse tipo de operação representa, em muitos locais, a única ação de presença do Estado. É uma verdadeira integração dessas pessoas à sociedade brasileira, uma demonstração real de que eles são cidadãos do Brasil, e que não estão "esquecidos". Para nós é muito gratificante saber que a própria população se refere a nossos navios como os Navios da Esperança", explicou.

No início de março de 1997 tivemos a oportunidade de embarcar em dois dos navios da Flotilha do Amazonas – o NaPaFlu Roraima (P-30) e o NAsH Carlos Chagas (U-19) – para conhecer melhor o trabalho que a Marinha do Brasil desenvolve na Amazônia.

Marinha do Brasil
O NaPaFlu Amapá, como o Roraima e o Rondônia, mede 45m e desloca 364t. Tem o mesmo armamento que os navios maiores, só não pode operar helicópteros

Nosso contato com os navios da FlotAM teve início com o embarque por um dia no Roraima para acompanhar uma rápida comissão do navio, especialmente preparada para Segurança & Defesa e para uma equipe de uma emissora de TV local, que realizou um mini-documentário de 18 min de duração, com uma repercussão popular muito positiva para a Marinha quando foi ao ar, alguns dias depois. Fomos recebidos a bordo do Roraima, conhecido por seus tripulantes como "O Águia do Amazonas", por seu então comandante, o Capitão-de-Corveta Carlos Alberto Matias, que nos deu um breve briefing do que havia sido programado para nossa visita ao navio.

Deixamos o cais da Estação Naval do Rio Negro por volta das 9 horas da manhã e nos dirigimos à margem direita do Rio Negro, poucos quilômetros após o trecho conhecido por "Encontro das Águas", um local muito visitado pelos barcos lotados de turistas que deixam o porto de Manaus para ver de perto esse fenômeno da natureza (as águas dos rios Negro e Solimões, a do primeiro escura e a do segundo barrenta, devido principalmente às diferenças de composição e Ph, não se misturam por vários quilômetros).

No caminho, a primeira das demonstrações previstas: uma interrogação via rádio a uma embarcação. No caso, um empurrador com balsa, comuns nas hidrovias da região, onde o transporte fluvial é fundamental. Pelo rádio, o comandante Matias indagou à tripulação do barco o nome da embarcação (Uranos, segundo seu comandante), o indicativo internacional da embarcação (na linguagem náutica, o Papa-Romeo-Papa-Quebec), o porto de origem e o porto de destino (Manaus e Belém, respectivamente). Segundo o comandante Matias, é um procedimento comum a todos os navios-patrulha da FlotAM esse tipo de interrogação às embarcações que encontram pelo caminho, quando em comissão. Agindo dessa maneira, a Marinha mostra sua presença nos rios da Amazônia. Em muitos casos, essa interrogação, se levantar alguma suspeita, pode levar o comandante do NaPaFlu a determinar a abordagem do barco para inspeção, embora uma eventual ação policial, se for o caso, seja direcionada aos órgãos competentes. No caso de tráfico de drogas ou contrabando de mercadorias, a Polícia Federal; quando se trata de contrabando de animais silvestres, o Ibama; quando a irregularidade se refere às normas de segurança de navegação ou quanto à documentação da embarcação e seus tripulantes, o caso é encaminhado à Capitania dos Portos.

 

Durante nosso trajeto foram realizados diversos exercícios referentes ao emprego do navio em situação de guerra: após um alarme de postos de combate, a tripulação se dirigiu aos armamentos do Roraima – destaque para o canhão Bofors L70 de 40mm – guarnecendo-os e fazendo a conteira. Foi também realizada ação de controle de avarias. Durante o combate simulado, uma granada teria atingido o paiol do mestre, provocando um incêndio e causando ferimentos graves e intoxicação num tripulante. Agindo com rapidez, a Equipe de CAV controlou o incêndio e retirou o "ferido" do local, que recebeu no convés de popa os primeiros socorros da equipe médica, sendo logo em seguida removido para a enfermaria do navio. Poucos minutos após, o vigia deu o alerta: "Homem ao mar por boreste!" Imediatamente (como convém ao Imediato), o Primeiro-Oficial deu seis toques curtos do apito do navio e determinou ao timoneiro o procedimento seguinte: leme 25 graus a bombordo, para "safar" a vítima, o boneco conhecido como "Oscar"(1) , dos hélices do navio.

Pelo fonoclame, eram determinados ao restante da tripulação os passos para a operação de resgate. Em poucos minutos um mergulhador de combate estava na água e o boneco era recolhido a bordo, para "atendimento" médico.

Mas foi a operação de assalto anfíbio, ou projeção de poder sobre terra, o ponto alto do dia. Um destacamento da aguerrida 1ª Companhia do Grupamento de Fuzileiros Navais de Manaus embarcou numa lancha motorizada para realizar o desembarque, reconhecimento e o ataque a um ponto controlado pelo "inimigo". Embarcamos primeiro, juntamente com a equipe de TV, para que nos posicionássemos na margem do rio antes do desembarque dos fuzileiros. Estes, armados com fuzis de assalto Para-FAL (com coronha rebatível), totalmente camuflados e de "cara pintada" rapidamente se livraram dos coletes salva-vidas, abandonaram a embarcação sob a cobertura de um companheiro, progrediram rápida mas silenciosamente pelo terreno e logo os vimos (ou melhor, não os vimos!) desaparecer na densa vegetação da margem do rio. Somente quando o tenente que comandava o destacamento deu o brado de ataque (Caveira!) e o tiroteiro (de festim) começou, foi que pudemos localizá-los.

De volta ao Roraima e após o almoço a bordo, durante nosso retorno a Manaus ainda tivemos mais uma demonstração das várias missões desempenhadas pelos navios da FlotAM: uma ação de polícia naval, com a abordagem de uma típica embarcação regional de transporte de cargas e passageiros. Mais uma vez usando o rádio, o comandante Matias determinou a parada total de máquinas do barco a ser abordado, o "Boto". Uma equipe de inspeção foi a bordo da embarcação, examinou a carga, verificou se o número de passageiros não excedia os limites e solicitou a documentação do barco, de seu comandante e tripulantes. Não tendo sido verificada nenhuma irregularidade, o "Boto" foi liberado para prosseguir viagem. Ao desembarcarmos, nos despedimos da tripulação do Roraima com um agradecimento especial pelo fonoclame e, no final, um Bravo Zulu!

Um dia num NAsH

Marinha do Brasil
O NAsH Carlos Chagas e seu irmão Oswaldo Cruz, são responsáveis pelo apoio médico-hospitalar às populações ribeirinhas da Amazônia

No dia seguinte, novamente pela manhã, voltamos ao pier da Estação Naval do Rio Negro para conhecer a outra faceta da atuação da FlotAM na Amazônia: a Assistência Hospitalar às populações ribeirinhas. Para ver de perto esse trabalho, embarcamos no Navio de Assistência Hospitalar (NAsH) Carlos Chagas (U-19) e fomos recebidos pelo seu então comandante, o Capitão-de-Corveta Sérgio Santos Soares. Logo em nosso primeiro embarque num Navio de Assistência Hospitar da MB, uma feliz coincidência: essa seria também a primeira vez que um oficial do sexo feminino, no caso a Tenente Dentista Virgínia, embarcaria num navio da Marinha como membro oficial de sua tripulação. Até a data, oficiais e praças do sexo feminino só haviam sido destacadas para serviço a bordo de navios militares brasileiros em algumas comissões. Uma outra oficial, a Tenente Betânia, chegaria a Manaus poucos dias depois e integraria também a tripulação do Carlos Chagas. Conversando conosco, a Tenente Virgínia confessou que se sentia extremamente motivada e orgulhosa por ser a primeira mulher em toda a Marinha a receber a honra de embarcar oficialmente e por realizar esse trabalho exatamente numa região tão carente e importante para o país, como a Amazônia (ela é carioca).

Já no passadiço e com o comandante Santos Soares, este nos explicou que a comissão AsHop do Carlos Chagas seria realizada no município do Careiro da Várzea, próximo a Manaus, para que pudéssemos retornar no mesmo dia. Durante nossa viagem, pudemos notar que apesar de ter seu projeto baseado no mesmo casco dos navios da Classe "Roraima", o Carlos Chagas, desenvolve uma velocidade muito menor. Em trechos com corrente contrária, a velocidade ficava abaixo dos cinco nós. O comandante Santos Soares nos esclareceu dizendo que além de o Carlos Chagas e seu "irmão", o Oswaldo Cruz, possuírem um maior deslocamento do que o dos NAsH Classe "Roraima" (500t contra 370t, respectivamente), ambos são equipados com motores Scania comuns de caminhão, como forma de reduzir custos, enquanto os NaPaFlu usam motores navais, muito mais potentes. Segundo Santos Soares, existe intenção da Marinha de remotorizar os dois NAsH, dependendo da disponibilidade de verbas.

Durante nossa estada a bordo do Carlos Chagas pudemos conhecer as excelentes instalações médicas do navio (um centro cirúrgico, duas enfermarias, dois consultórios médicos e odontológicos e farmácia) e conversar com sua equipe médica, então chefiada pelo Tenente Silva, um farmacêutico. Segundo Silva, a Marinha deu um passo muito importante na qualidade do atendimento às populações ribeirinhas com uma providência relativamente simples e barata: a instalação de computadores comuns, do tipo IBM-PC, que permitiu que todos os navios da FlotAM, usando um programa de cadastro especificamente criado, façam o registro do prontuário médico de todas as pessoas atendidas. Esse é um procedimento muito mais complicado do que pode parecer aos menos avisados, pois muitos habitantes de cidades ribeirinhas não possuem sequer Certidão de Nascimento, quanto mais uma Carteira de Identidade. Mas a criatividade dos oficiais médicos tem superado esses obstáculos. "Assim, quando um navio vai realizar uma AsHop numa cidade que outro navio já visitou alguns meses antes, esses navios simplesmente trocam disquetes de computador, permitindo um melhor acompanhamento dos diversos casos, evitando ainda a duplicação de esforços e o desperdício de medicamentos", explicou Silva.

Ainda no que se refere aos medicamentos, a Marinha passou a exercer um controle melhor na distribuição dos mesmos, depois de descobrir que medicamentos com a embalagem da Marinha foram lamentavelmente desviados por maus políticos e escondidos. Anos depois, esses remédios, pagos pelo contribuinte brasileiro, foram utilizados em campanhas políticas, muitas vezes com o prazo de validade já vencido.

 

Uma outra dificuldade enfrentada pelo oficial médico que participa dessas AsHop é entender o linguajar característico do caboclo, ao descrever os sintomas de sua doença. "Queimação no bucho", por exemplo, pode ser um sinal de hiperacidez estomacal, causado pelo excessivo consumo da farinha de mandioca d‘água, conhecida na região como farinha do Uarini, hábito herdado dos índios, que é amarela e muito mais encaroçada e mais difícil digestão do que a farinha de mandioca refinada (branca) consumida em outros estados. Por isso mesmo, um dos medicamentos mais distribuídos aos ribeirinhos é o hidróxido de alumínio. O atendimento médico dos militares na Amazônia é um exercício constante de paciência e boa vontade que só o tempo, a experiência e o contato com essas populações carentes pode aprimorar.

Também no atendimento odontológico as melhoras foram notáveis, pois hoje a Marinha conseguiu conscientizar os ribeirinhos de que é possível realizar a conservação dos dentes. Antes essas populações, carentes de assistência odontológica, só queriam saber de arrancar logo todos os dentes, terminando assim com a fonte de seu sofrimento. Esse fato deixava muitos dos oficiais dentistas da Marinha extremamanente deprimidos, pois sua atuação como simples "arrancadores" de dentes ia contra tudo o que aprendiam na faculdade de Odontologia.

Ao chegarmos ao Careiro da Várzea, uma lancha com uma equipe precursora se dirigiu à terra, para entrar em contato com a Prefeitura e, através da rádio local ou, como acontece nas cidades menores, através da "Voz" (um sistema de alto-falantes espalhados pela praça e principais vias), anunciar que a Marinha do Brasil, efetuaria atendimento médico e dentário num local específico (normalmente em praça pública ou algum prédio amplo). No caso do município do Careiro, esse atendimento foi realizado no próprio Centro de Saúde da Prefeitura, que possuía boas instalações e equipamentos, contando até mesmo com um bem montado consultório odontológico (embora não houvesse na cidade um só dentista, a secretária municipal de saúde nos explicou que estava envidando esforços para contratar um em Manaus que se dispusesse a residir no Careiro). O Tenente Silva completou o estoque da farmácia do Posto com os medicamentos básicos de que necessitavam, enquanto a Tenente Virgínia e outro oficial dentista, o Ten. Santoro realizavam atendimento odontológico e um oficial médico, o Ten. Leonardo, realizava consultas a várias pessoas, principalmente crianças.

Os pacientes que necessitam de um melhor acompanhamento são levados para o navio para atendimento, cirurgia ou internação nas enfermarias de bordo. Se a gravidade for extrema, um dos helicópteros UH-12 Esquilo do HU-3 pode ser acionado e, operando a partir do convés de vôo do navio (os dois NAsH não dispõem de hangar), transportar o paciente até a cidade mais próxima que disponha dos recuros medicos necessários.

Como é procedimento comum nessas operações, o comandante Santos Soares foi à terra para conversar com o Prefeito ou outra autoridade municipal que o represente. Na ocasião, o prefeito do Careiro encontrava-se em Manaus e Santos Soares foi recebido pela Secretária de Saúde, que se mostrou muito agradecida com a ajuda recebida da Marinha e com a visita do Navio, que via pela primeira vez, embora já tivesse ouvido falar do trabalho da Marinha na área da saúde. Nenhum navio de assistência hospitalar da Marinha havia visitado antes o Careiro pois, como dissemos antes, a cidade foi escolhida para a AsHop de demonstração devido a sua proximidade com Manaus.

Em nosso retorno a ENRN, sentíamos positivamente impressionados pelo importante e dedicado trabalho exercido pela Marinha na assistência às populações ribeirinhas da Amazônia. Pouco mais de um mês depois de nosso embarque nos navios da FlotAM, pudemos acompanhar a ação da Marinha (bem como da FAB e do Exército) numa situação infeliz: uma enchente nos rios Acre e Purus, cujas águas se elevaram mais de 30 metros acima de seu nível normal, cobriu 80% da cidade de Boca do Acre (que, apesar do nome, fica no Amazonas) deixando mais de 10 mil pessoas desabrigadas. Cobrindo a calamidade para uma emissora de TV de Manaus, nos dirigimos para Rio Branco, capital do Acre, num C-130E Hercules da FAB, com 18 toneladas de alimentos e medicamentos preparados pelo governo do Amazonas de um total de 72 t enviados em mais 3 "pernadas". De Rio Branco, que dista meia hora de vôo de Boca do Acre, as 18 t eram repartidas em quatro lotes de 4,5t aproximadamente e embarcadas sucessivamente numa ponte aérea realizada por um C-115 Buffalo do 1º/9º Gav, da Base Aérea de Manaus, a única aeronave pesada em condições de operar na pista de lama asfáltica de Boca do Acre. A FAB também enviou para a cidade dois UH-1H do 7º/8º Gav (aliás, dos "novos" adquiridos pela FAB ao US Army). Em nosso segundo dia na cidade, presenciamos a chegada do NaPaFlu Amapá, que levou uma equipe médica e medicamentos. Pelo comandante do navio soubemos que o nosso velho conhecido, o NAsH Carlos Chagas estava em Manaus esperando um novo carregamento de donativos recolhidos pela população de Manaus, bem como mais medicamentos e nova equipe médica, e chegaria à cidade dentro de cinco dias. Infelizmente, quando o NAsH chegou, já estávamos de volta a Manaus.

Operações Ribeirinhas

A Marinha realiza com frequência na Região Amazônica as operações ribeirinhas conhecidas como RIBEIREX, com o objetivo de adestrar as forças navais e de Fuzileiros Navais da área do CNAO. Foi assim que, no período de 28 de abril a 4 de maio de 97, foi realizado, na região próxima à cidade de Alavarães, situada à margem direita do rio Solimões, a cerca de 360 milhas de Manaus, um exercício de operação ribeirinha denominado de RIBEIREX AMAZONAS-I/97 (a RIBEIREX AMAZONAS-II/97 foi realizada em outubro de 97, na cidade de Parintins).

A operação contou com a presença de unidades da Flotilha do Amazonas (Navios-Patrulha Fluviais Pedro Teixeira, Raposo Tavares, Rondônia e Amapá); do Grupamento Naval do Norte (Corveta Solimões e os Navios-Patrulha Piratini, Penedo e Parati); do 3º Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral (com helicópteros UH-12 Esquilo), de tropas dos Grupamentos de Fuzileiros Navais de Belém e de Manaus; do Navio-Desembarque Doca (NDD) Rio de Janeiro, subordinado ao 1º Esquadrão de Navios Anfíbios da Esquadra, transportando embarcações de desembarque de carga geral (EDCG), carros-lagarta anfíbios (CLANF), helicópteros UH-14 Super Puma e UH-12 Esquilo; e de tropa do 2º Batalhão de Infantaria de Fuzileiros Navais – Batalhão Humaitá, do Rio de Janeiro.

Marinha do Brasil
O Navio de Desembarque-Doca Rio de Janeiro foi o primeiro de seu porte a navegar no rio Solimões, abrindo novas perspectivas para operações na região

O NDD Rio de Janeiro estabeleceu, no exercício, um novo marco de navegação, ao operar no ponto mais a Oeste, na Amazônia, já alcançado por um navio de guerra do seu porte, tendo sido o primeiro NDD a navegar no rio Solimões. A participação desse navio, além de contribuir para a consolidação da doutrina de operações ribeirinhas na MB, abre perspectivas para que navios dessa classe venham a atingir limites ainda maiores, dentro da Bacia Amazônica, aproximando-se, cada vez mais, das fronteiras ocidentais do país, estendendo, assim, a presença da Esquadra na região.

No exercício, destacou-se, ainda, o emprego, com sucesso, dos CLANF no ambiente ribeirinho, de águas ricas em vegetação e com correntes contrárias de até 4 nós. A realização de mais essa operação ribeirinha e os ensinamentos dela colhidos confirmam a sua importância, no âmbito do Comando do 4º Distrito Naval, na preparação de seus meios para a preservação da integridade de nossas fronteiras, no cenário especial da Amazônia Ocidental.

Importância estratégica

A importância da Região Amazônica cresce a cada dia, tanto estratégica como economicamente (a descoberta, relativamente recente, da maior jazida de nióbio do mundo na região, praticamente a céu aberto, só veio reforçar essa importância e, infelizmente, a cobiça e o interesse de outros países considerados "aliados", na Amazônia). Além disso, a garantia da livre navegação da hidrovias da região por nossas embarcações e a de países amigos é questão de segurança nacional. Os rios Solimões e Amazonas são utilizados pelo Peru e Venezuela para atingirem o Oceano Atlântico. Esses rios constituem-se no grande eixo estratégico da região, por permitirem a navegação durante todo o ano, possibilitando a chegada de navios de até 10 m de calado a Manaus e de até 4,5 m a Tabatinga. A recente inauguração de um moderno terminal graneleiro na cidade de Itacoatiara, que permitirá o escoamento da produção de soja e outros cereais do Estado do Amazonas e de outros da região Centro-Oeste, aumentou ainda mais sua importância, acrescida da hidrovia do Madeira, que está recebendo um moderno sistema de balizamento por satélite, tornando a navegação ainda mais segura.

É nesse cenário que a Marinha do Brasil vem se inserindo na Região Amazônica, reafirmando uma presença já centenária na área e contribuindo para a garantia da soberania nacional. E essa soberania estará ainda mais assegurada com a dotação de novos meios flutuantes, aéreos e de fuzileiros navais, previstos na nova Política de Defesa Nacional e descritas no início deste trabalho. Além destes meios, cabe citar as obras de ampliação da infraestrutura da Base Naval de Val-de-Cães, no Pará, e a duplicação do cais flutuante da Estação Naval do Rio Negro, já prevendo a chegada de novos navios. É claro que a Marinha do Brasil tem consciência de que de nada adiantará o aporte de recursos e a obtenção de todos os meios navais e aéreos previstos para reforçar a sua já brilhante atuação na Região Amazônica se o principal interessado, o cidadão brasileiro, não se conscientizar da importância da Amazônia para o País. Da parte da Marinha e dos que tripulam seus navios, bem como das demais Forças Armadas Brasileiras, essa consciência já existe. E, pelo que pudemos verificar, conhecendo de perto o trabalho da Marinha na região, a Amazônia brasileira está em seguras e boas mãos. pn.gif (3412 bytes)


(1) "Oscar" é o indicativo internacional naval para "Homem ao Mar".

O autor gostaria de expressar sua gratidão ao Contra-Almirante Ricardo Antônio da Veiga Cabral, Comandante do Comando Naval da Amazônia Ocidental (CNAO), ao Capitão-de-Mar-e-Guerra Jorge França e ao Capitão-de-Fragata Carlos Gomes, respectivamente Chefe do Estado-Maior do CNAO e Comandante da Flotilha do Amazonas, aos Capitães-de-Fragata César e Guaurino (Organização/CNAO) e aos Capitães-de-Corveta Carlos Alberto Matias e Sérgio Santos Soares, respectivamente Comandantes do NaPaFlu Roraima e do NAsH Carlos Chagas. Sem a contribuição destes oficiais, essa matéria não seria possível. A todos eles, nossos agradecimentos pela cavalheiresca acolhida, pelo profissionalismo e dedicação à Marinha e ao Brasil e, principalmente, pelo amor demonstrado pela Amazônia.