Os navios da esperança
A
atuação da Marinha do Brasil na Amazônia
| Reprodução |
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| Para
patrulhar toda essa imensa malha hidroviária que
é a Bacia Amazônica, a Marinha do Brasil possui
somente cinco Navios-Patrulha Fluvial (NaPaFlu) |
n Alexandre Fontoura
São mais de 20 mil quilômetros de rios navegáveis.
Praticamente meia volta ao mundo. Podemos ter uma vaga
idéia do que isso representa quando descobrimos que é
possível navegar no rio Amazonas, de Manaus até
Tabatinga, na fronteira com o Peru, por sete dias, ou
3.600 km.
Para patrulhar toda essa imensa malha hidroviária que
é a Bacia Amazônica, a Marinha do Brasil possui somente
cinco Navios-Patrulha Fluvial (ou NaPaFlu, como são mais
conhecidos por seus tripulantes) e dois Navios de
Assistência Hospitalar (NAsH). A própria Marinha
considera difícil cumprir essa missão com os parcos
meios de que dispõe. Tanto que, dentro da prioridade de
uma maior presença militar na região Amazônica
determinada pela Política de Defesa Nacional
está prevista a construção de mais cinco NaPaFlu com
capacidade de operar helicópteros, dois NaPaFlu de menor
porte, mais um NAsH, um navio-hidrográfico e 20
Lanchas-Patrulha Fluvial. Além disso, o Grupamento de
Fuzileiros Navais de Manaus será transformado em um
Batalhão. O 3º Esquadrão de Helicópteros de Emprego
Geral (HU-3) receberá mais aeronaves e, em Belém, será
instalado um outro Esquadrão.
A Marinha marca sua presença na Região Amazônica,
de forma contínua, desde 1868, garantindo a soberania
nacional na região e levando todo tipo de apoio às
populações ribeirinhas, em sua maioria extremamente
isolados e necessitados de educação, assistência
médica e odontológica e até mesmo por mais
incrível que possa parecer ao cidadão das grandes
metrópoles do resto do país da simples noção
de que são cidadãos brasileiros. Sendo assim, essas
populações se acostumaram, por décadas e por várias
gerações, a ver os navios da Flotilha do Amazonas
as "Corvetas" da Marinha, como os
ribeirinhos se referem aos navios como o maior e
talvez o único sinal da presença do Estado Brasileiro
na Amazônia. Nos pontos mais extremos e próximos à
fronteira com outros países da Região, a presença
centenária da Marinha ajudou essas populações até
mesmo a manter seu senso de identidade nacional.
O CNAO
Em 1968 foi criado o Comando Naval de Manaus,
desativado em 1975, com a divisão do país em cinco
grandes Distritos Navais. Devido a grande extensão
territorial da Região Norte, sob a jurisdição do 4º
Distrito Naval, com sede em Belém, a Marinha decidiu
criar o Comando Naval da Amazônia Ocidental (CNAO),
sediado em Manaus e subordinado àquele Distrito. O CNAO
foi ativado em 11 de junho de 1994, como Comando de Área
para todas as OM situadas na Amazônia Ocidental, que
compreende os estados do Amazonas, Acre, Roraima e
Rondônia.
Para o Contra-Almirante Ricardo Antônio da Veiga
Cabral, então Comandante Naval da Amazônia Ocidental,
"a criação do CNAO deveu-se em primeiro lugar pela
própria extensão da região sob jurisdição do 4º
Distrito Naval, cobrindo todos os estados dessa região,
desde o Piauí, passando por Pará, Maranhão, Amapá,
Rondônia, Roraima e Amazonas, chegando até o Acre.
Então, criou-se o Comando Naval da Amazônia Ocidental,
para que essa região fosse dividida em duas partes,
ficando a parte Ocidental, que compreende Amazonas,
Rondônia, Roraima e Acre, cerca de 26% do território
nacional (2.185.000km2), sob a responsabilidade deste
Comando, com a sede em Manaus". Ainda segundo o
Alte. Veiga Cabral, "basta uma olhada num mapa para
se ter uma idéia do que representa essa área e
verificar que ela contém importantes rios, quase todos
navegáveis a maior parte do ano, como o Amazonas, o
Solimões, o Madeira, o Javari, o Juruá, o Japurá, o
Içá, o rio Negro e seu afluente, o rio Branco, e
outros", completou.
Para o cumprimento de seus propósitos, cabem ao CNAO
as seguintes tarefas:
- execução de operações navais e terrestres, de
caráter naval, na Amazônia Ocidental;
- apoio às Unidades e Forças Navais, Aeronavais e
de Fuzileiros Navais, não-subordinadas, em
operação na Amazônia Ocidental;
- a atividade de inteligência e
contra-inteligência, necessárias ao
planejamento e a execução das operações
navais;
- acompanhamento do tráfego fluvial na Amazônia
Ocidental;
- controle das atividades relacionadas com a
segurança da navegação fluvial e lacustre;
- execução das atribuições relativas à
Patrulha Fluvial e à Polícia Naval, realizando
os entendimentos necessários com organizações
extra-Marinha com atribuições em atividades
correlatas (como exemplo, o Ibama, a Polícia
Federal etc);
- cooperação para a preservação e utilização
racional dos recursos hídricos da região;
- execução das atribuições concernentes à Lei
do Serviço Militar;
- contribuir para a Segurança Interna em
coordenaçnao com as demais forças singulares;
- apoio ao pessoal militar e civil da Marinha e
seus dependentes, quanto a pagamento, serviço de
saúde, religioso e assistência social;
- colaboração em atividades de Defesa Civil em
áreas com populações ameaçadas por
calamidades públicas ou graves perturbações da
ordem;
- estímulo e apoio às atividades exercidas na
região que interessem ao Poder Marítimo; e
- supervisão das atividades de Assistência
Cívico-Social às populações ribeirinhas.
Subordinadas ao CNAO, existem seis Organizações
Militares: Flotilha do Amazonas, Estação Naval do Rio
Negro (ENRN), Grupamento de Fuzileiros Navais de Manaus,
3º Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral (HU-3),
Depósito Naval de Manaus e Capitania dos Portos dos
Estados do Amazonas, Acre, Roraima e Rondônia.
Ações da
FlotAM
A Flotilha do Amazonas (FlotAM) foi instituída, como
dissemos antes, em 1868, em substituição à Divisão do
Norte e em decorrência direta da abertura da navegação
no rio Amazonas às nações amigas, ocorrida um ano
antes. Com períodos alternados de localização entre
Belém e Manaus, a Flotilha ficou definitivamente sediada
em Manaus em 1974. Entre as diretrizes de caráter
essencialmente militar cabe à FlotAM o cumprimento das
seguintes ações:
- operações ribeirinhas envolvendo os Grupamentos
de Fuzileiros Navais de Manaus e Belém, bem como
os Batalhões sediados no Rio de Janeiro, que
podem ser deslocados rapidamente para a Região;
- operações de patrulha fluvial nos rios
navegáveis, até a faixa de fronteira atingível
a partir das calhas dos rios Negro e Amazonas e
seus afluentes;
- missões de presença naval, visitando portos de
países amazônicos;
- apoio às unidades do Exército situadas na
fronteira; e
- realização de operações conjuntas com as
Marinhas da Colômbia, Peru e Venezuela.
| Marinha
do Brasil |
 |
| Os NaPaFlu Pedro
Teixeira e Raposo Tavares (foto)
medem 62m, deslocam 700t, são armados com
canhão de 40mm, morteiros e metralhadoras .50 e
tem convôo para operar helicópteros |
Além das ações acima, a Marinha do Brasil,
executa, por meio dos navios da FlotAM, várias ações
subsidiárias, mas nem por isso menos importantes para a
região, tais como o apoio às demais Forças Armadas e
outros órgãos governamentais que atuam na Região, a
atividade de Assistência Hospitalar às populações
ribeirinhas e o socorro às populações atingidas por
calamidades públicas, como as enchentes, comuns na
Amazônia. A atuação da FlotAM foi também fundamental
para que a epidemia de cólera que teve origem no Peru
não se propagasse pela Calha do Solimões e atingisse
Manaus, que acabou registrando apenas um caso autóctone
da doença. Mas, na opinião do Capitão-de-Fragata
Carlos Alberto Gomes, então Comandante da Flotilha do
Amazonas, "aquele trabalho de combate ao cólera foi
circunstancial, ditado pela necessidade de
"barrar" a penetração da doença nas demais
cidades. Nós deslocamos um dos NAsH para a fronteira com
o Peru, onde foi realizado um trabalho de prevenção e
de instrução sanitária para as populações daquela
área, o que teve um resultado muito positivo".
Apesar do combate ao cólera ter sido bem sucedido, o
Comandante Carlos Gomes preferiu destacar as operações
"normais" de assistência hospitalar realizadas
pelos NAsH da FlotAM. "Durante todo o ano os NAsH e,
em menor escala, os NaPaFlu, desenvolvem um trabalho de
assistência hospitalar através das comissões
denominadas AsHop, quando deslocamos médicos, dentistas,
farmacêuticos e desenvolvemos ações como as campanhas
de vacinação, além da própria assistência médica e
odontológica às populações de vilarejos ribeirinhos,
que são totalmente carentes deste tipo de serviço. E
não só pelo atendimento médico em si, esse tipo de
operação representa, em muitos locais, a única ação
de presença do Estado. É uma verdadeira integração
dessas pessoas à sociedade brasileira, uma
demonstração real de que eles são cidadãos do Brasil,
e que não estão "esquecidos". Para nós é
muito gratificante saber que a própria população se
refere a nossos navios como os Navios da
Esperança", explicou.
No início de março de 1997 tivemos a oportunidade de
embarcar em dois dos navios da Flotilha do Amazonas
o NaPaFlu Roraima (P-30) e o NAsH Carlos
Chagas (U-19) para conhecer melhor o trabalho
que a Marinha do Brasil desenvolve na Amazônia.
| Marinha
do Brasil |
 |
| O NaPaFlu Amapá,
como o Roraima e o Rondônia,
mede 45m e desloca 364t. Tem o mesmo armamento
que os navios maiores, só não pode operar
helicópteros |
Nosso contato com os navios da FlotAM teve
início com o embarque por um dia no Roraima para
acompanhar uma rápida comissão do navio, especialmente
preparada para Segurança & Defesa e para uma equipe
de uma emissora de TV local, que realizou um
mini-documentário de 18 min de duração, com uma
repercussão popular muito positiva para a Marinha quando
foi ao ar, alguns dias depois. Fomos recebidos a bordo do
Roraima, conhecido por seus tripulantes como
"O Águia do Amazonas", por seu então
comandante, o Capitão-de-Corveta Carlos Alberto Matias,
que nos deu um breve briefing do que havia sido
programado para nossa visita ao navio.
Deixamos o cais da Estação Naval do Rio Negro por
volta das 9 horas da manhã e nos dirigimos à margem
direita do Rio Negro, poucos quilômetros após o trecho
conhecido por "Encontro das Águas", um local
muito visitado pelos barcos lotados de turistas que
deixam o porto de Manaus para ver de perto esse fenômeno
da natureza (as águas dos rios Negro e Solimões, a do
primeiro escura e a do segundo barrenta, devido
principalmente às diferenças de composição e Ph, não
se misturam por vários quilômetros).
No caminho, a primeira das demonstrações previstas:
uma interrogação via rádio a uma embarcação. No
caso, um empurrador com balsa, comuns nas hidrovias da
região, onde o transporte fluvial é fundamental. Pelo
rádio, o comandante Matias indagou à tripulação do
barco o nome da embarcação (Uranos, segundo seu
comandante), o indicativo internacional da embarcação
(na linguagem náutica, o Papa-Romeo-Papa-Quebec), o
porto de origem e o porto de destino (Manaus e Belém,
respectivamente). Segundo o comandante Matias, é um
procedimento comum a todos os navios-patrulha da FlotAM
esse tipo de interrogação às embarcações que
encontram pelo caminho, quando em comissão. Agindo dessa
maneira, a Marinha mostra sua presença nos rios da
Amazônia. Em muitos casos, essa interrogação, se
levantar alguma suspeita, pode levar o comandante do
NaPaFlu a determinar a abordagem do barco para
inspeção, embora uma eventual ação policial, se for o
caso, seja direcionada aos órgãos competentes. No caso
de tráfico de drogas ou contrabando de mercadorias, a
Polícia Federal; quando se trata de contrabando de
animais silvestres, o Ibama; quando a irregularidade se
refere às normas de segurança de navegação ou quanto
à documentação da embarcação e seus tripulantes, o
caso é encaminhado à Capitania dos Portos.
Durante nosso trajeto foram realizados diversos
exercícios referentes ao emprego do navio em situação
de guerra: após um alarme de postos de combate, a
tripulação se dirigiu aos armamentos do Roraima
destaque para o canhão Bofors L70 de 40mm
guarnecendo-os e fazendo a conteira. Foi também
realizada ação de controle de avarias. Durante o
combate simulado, uma granada teria atingido o paiol do
mestre, provocando um incêndio e causando ferimentos
graves e intoxicação num tripulante. Agindo com
rapidez, a Equipe de CAV controlou o incêndio e retirou
o "ferido" do local, que recebeu no convés de
popa os primeiros socorros da equipe médica, sendo logo
em seguida removido para a enfermaria do navio. Poucos
minutos após, o vigia deu o alerta: "Homem ao mar
por boreste!" Imediatamente (como convém ao
Imediato), o Primeiro-Oficial deu seis toques curtos do
apito do navio e determinou ao timoneiro o procedimento
seguinte: leme 25 graus a bombordo, para
"safar" a vítima, o boneco conhecido como
"Oscar"(1) , dos hélices do navio.
Pelo fonoclame, eram determinados ao restante da
tripulação os passos para a operação de resgate. Em
poucos minutos um mergulhador de combate estava na água
e o boneco era recolhido a bordo, para
"atendimento" médico.
Mas foi a operação de assalto anfíbio, ou
projeção de poder sobre terra, o ponto alto do dia. Um
destacamento da aguerrida 1ª Companhia do Grupamento de
Fuzileiros Navais de Manaus embarcou numa lancha
motorizada para realizar o desembarque, reconhecimento e
o ataque a um ponto controlado pelo "inimigo".
Embarcamos primeiro, juntamente com a equipe de TV, para
que nos posicionássemos na margem do rio antes do
desembarque dos fuzileiros. Estes, armados com fuzis de
assalto Para-FAL (com coronha rebatível), totalmente
camuflados e de "cara pintada" rapidamente se
livraram dos coletes salva-vidas, abandonaram a
embarcação sob a cobertura de um companheiro,
progrediram rápida mas silenciosamente pelo terreno e
logo os vimos (ou melhor, não os vimos!) desaparecer na
densa vegetação da margem do rio. Somente quando o
tenente que comandava o destacamento deu o brado de
ataque (Caveira!) e o tiroteiro (de festim) começou, foi
que pudemos localizá-los.
De volta ao Roraima e após o almoço a bordo,
durante nosso retorno a Manaus ainda tivemos mais uma
demonstração das várias missões desempenhadas pelos
navios da FlotAM: uma ação de polícia naval, com a
abordagem de uma típica embarcação regional de
transporte de cargas e passageiros. Mais uma vez usando o
rádio, o comandante Matias determinou a parada total de
máquinas do barco a ser abordado, o "Boto".
Uma equipe de inspeção foi a bordo da embarcação,
examinou a carga, verificou se o número de passageiros
não excedia os limites e solicitou a documentação do
barco, de seu comandante e tripulantes. Não tendo sido
verificada nenhuma irregularidade, o "Boto" foi
liberado para prosseguir viagem. Ao desembarcarmos, nos
despedimos da tripulação do Roraima com um
agradecimento especial pelo fonoclame e, no final, um
Bravo Zulu!
Um dia num
NAsH
| Marinha do
Brasil |
 |
| O NAsH Carlos
Chagas e seu irmão Oswaldo Cruz,
são responsáveis pelo apoio médico-hospitalar
às populações ribeirinhas da Amazônia |
No dia seguinte, novamente pela manhã, voltamos
ao pier da Estação Naval do Rio Negro para conhecer a
outra faceta da atuação da FlotAM na Amazônia: a
Assistência Hospitalar às populações ribeirinhas.
Para ver de perto esse trabalho, embarcamos no Navio de
Assistência Hospitalar (NAsH) Carlos Chagas
(U-19) e fomos recebidos pelo seu então comandante, o
Capitão-de-Corveta Sérgio Santos Soares. Logo em nosso
primeiro embarque num Navio de Assistência Hospitar da
MB, uma feliz coincidência: essa seria também a
primeira vez que um oficial do sexo feminino, no caso a
Tenente Dentista Virgínia, embarcaria num navio da
Marinha como membro oficial de sua tripulação. Até a
data, oficiais e praças do sexo feminino só haviam sido
destacadas para serviço a bordo de navios
militares brasileiros em algumas comissões. Uma outra
oficial, a Tenente Betânia, chegaria a Manaus poucos
dias depois e integraria também a tripulação do Carlos
Chagas. Conversando conosco, a Tenente Virgínia
confessou que se sentia extremamente motivada e orgulhosa
por ser a primeira mulher em toda a Marinha a receber a
honra de embarcar oficialmente e por realizar esse
trabalho exatamente numa região tão carente e
importante para o país, como a Amazônia (ela é
carioca).
Já no passadiço e com o comandante Santos Soares,
este nos explicou que a comissão AsHop do Carlos
Chagas seria realizada no município do Careiro da
Várzea, próximo a Manaus, para que pudéssemos retornar
no mesmo dia. Durante nossa viagem, pudemos notar que
apesar de ter seu projeto baseado no mesmo casco dos
navios da Classe "Roraima", o Carlos Chagas,
desenvolve uma velocidade muito menor. Em trechos com
corrente contrária, a velocidade ficava abaixo dos cinco
nós. O comandante Santos Soares nos esclareceu dizendo
que além de o Carlos Chagas e seu
"irmão", o Oswaldo Cruz, possuírem um
maior deslocamento do que o dos NAsH Classe
"Roraima" (500t contra 370t, respectivamente),
ambos são equipados com motores Scania comuns de
caminhão, como forma de reduzir custos, enquanto os
NaPaFlu usam motores navais, muito mais potentes. Segundo
Santos Soares, existe intenção da Marinha de
remotorizar os dois NAsH, dependendo da disponibilidade
de verbas.
Durante nossa estada a bordo do Carlos Chagas
pudemos conhecer as excelentes instalações médicas do
navio (um centro cirúrgico, duas enfermarias, dois
consultórios médicos e odontológicos e farmácia) e
conversar com sua equipe médica, então chefiada pelo
Tenente Silva, um farmacêutico. Segundo Silva, a Marinha
deu um passo muito importante na qualidade do atendimento
às populações ribeirinhas com uma providência
relativamente simples e barata: a instalação de
computadores comuns, do tipo IBM-PC, que permitiu que
todos os navios da FlotAM, usando um programa de cadastro
especificamente criado, façam o registro do prontuário
médico de todas as pessoas atendidas. Esse é um
procedimento muito mais complicado do que pode parecer
aos menos avisados, pois muitos habitantes de cidades
ribeirinhas não possuem sequer Certidão de Nascimento,
quanto mais uma Carteira de Identidade. Mas a
criatividade dos oficiais médicos tem superado esses
obstáculos. "Assim, quando um navio vai realizar
uma AsHop numa cidade que outro navio já visitou alguns
meses antes, esses navios simplesmente trocam disquetes
de computador, permitindo um melhor acompanhamento dos
diversos casos, evitando ainda a duplicação de
esforços e o desperdício de medicamentos",
explicou Silva.
Ainda no que se refere aos medicamentos, a Marinha
passou a exercer um controle melhor na distribuição dos
mesmos, depois de descobrir que medicamentos com a
embalagem da Marinha foram lamentavelmente desviados por
maus políticos e escondidos. Anos depois, esses
remédios, pagos pelo contribuinte brasileiro, foram
utilizados em campanhas políticas, muitas vezes com o
prazo de validade já vencido.
Uma outra dificuldade enfrentada pelo oficial médico
que participa dessas AsHop é entender o linguajar
característico do caboclo, ao descrever os sintomas de
sua doença. "Queimação no bucho", por
exemplo, pode ser um sinal de hiperacidez estomacal,
causado pelo excessivo consumo da farinha de mandioca
dágua, conhecida na região como farinha do
Uarini, hábito herdado dos índios, que é amarela e
muito mais encaroçada e mais difícil digestão do que a
farinha de mandioca refinada (branca) consumida em outros
estados. Por isso mesmo, um dos medicamentos mais
distribuídos aos ribeirinhos é o hidróxido de
alumínio. O atendimento médico dos militares na
Amazônia é um exercício constante de paciência e boa
vontade que só o tempo, a experiência e o contato com
essas populações carentes pode aprimorar.
Também no atendimento odontológico as melhoras foram
notáveis, pois hoje a Marinha conseguiu conscientizar os
ribeirinhos de que é possível realizar a conservação
dos dentes. Antes essas populações, carentes de
assistência odontológica, só queriam saber de arrancar
logo todos os dentes, terminando assim com a fonte de seu
sofrimento. Esse fato deixava muitos dos oficiais
dentistas da Marinha extremamanente deprimidos, pois sua
atuação como simples "arrancadores" de dentes
ia contra tudo o que aprendiam na faculdade de
Odontologia.
Ao chegarmos ao Careiro da Várzea, uma lancha com uma
equipe precursora se dirigiu à terra, para entrar em
contato com a Prefeitura e, através da rádio local ou,
como acontece nas cidades menores, através da
"Voz" (um sistema de alto-falantes espalhados
pela praça e principais vias), anunciar que a Marinha do
Brasil, efetuaria atendimento médico e dentário num
local específico (normalmente em praça pública ou
algum prédio amplo). No caso do município do Careiro,
esse atendimento foi realizado no próprio Centro de
Saúde da Prefeitura, que possuía boas instalações e
equipamentos, contando até mesmo com um bem montado
consultório odontológico (embora não houvesse na
cidade um só dentista, a secretária municipal de saúde
nos explicou que estava envidando esforços para
contratar um em Manaus que se dispusesse a residir no
Careiro). O Tenente Silva completou o estoque da
farmácia do Posto com os medicamentos básicos de que
necessitavam, enquanto a Tenente Virgínia e outro
oficial dentista, o Ten. Santoro realizavam atendimento
odontológico e um oficial médico, o Ten. Leonardo,
realizava consultas a várias pessoas, principalmente
crianças.
Os pacientes que necessitam de um melhor
acompanhamento são levados para o navio para
atendimento, cirurgia ou internação nas enfermarias de
bordo. Se a gravidade for extrema, um dos helicópteros
UH-12 Esquilo do HU-3 pode ser acionado e, operando a
partir do convés de vôo do navio (os dois NAsH não
dispõem de hangar), transportar o paciente até a cidade
mais próxima que disponha dos recuros medicos
necessários.
Como é procedimento comum nessas operações, o
comandante Santos Soares foi à terra para conversar com
o Prefeito ou outra autoridade municipal que o
represente. Na ocasião, o prefeito do Careiro
encontrava-se em Manaus e Santos Soares foi recebido pela
Secretária de Saúde, que se mostrou muito agradecida
com a ajuda recebida da Marinha e com a visita do Navio,
que via pela primeira vez, embora já tivesse ouvido
falar do trabalho da Marinha na área da saúde. Nenhum
navio de assistência hospitalar da Marinha havia
visitado antes o Careiro pois, como dissemos antes, a
cidade foi escolhida para a AsHop de demonstração
devido a sua proximidade com Manaus.
Em nosso retorno a ENRN, sentíamos positivamente
impressionados pelo importante e dedicado trabalho
exercido pela Marinha na assistência às populações
ribeirinhas da Amazônia. Pouco mais de um mês depois de
nosso embarque nos navios da FlotAM, pudemos acompanhar a
ação da Marinha (bem como da FAB e do Exército) numa
situação infeliz: uma enchente nos rios Acre e Purus,
cujas águas se elevaram mais de 30 metros acima de seu
nível normal, cobriu 80% da cidade de Boca do Acre (que,
apesar do nome, fica no Amazonas) deixando mais de 10 mil
pessoas desabrigadas. Cobrindo a calamidade para uma
emissora de TV de Manaus, nos dirigimos para Rio Branco,
capital do Acre, num C-130E Hercules da FAB, com 18
toneladas de alimentos e medicamentos preparados pelo
governo do Amazonas de um total de 72 t enviados em mais
3 "pernadas". De Rio Branco, que dista meia
hora de vôo de Boca do Acre, as 18 t eram repartidas em
quatro lotes de 4,5t aproximadamente e embarcadas
sucessivamente numa ponte aérea realizada por um C-115
Buffalo do 1º/9º Gav, da Base Aérea de Manaus, a
única aeronave pesada em condições de operar na pista
de lama asfáltica de Boca do Acre. A FAB também enviou
para a cidade dois UH-1H do 7º/8º Gav (aliás, dos
"novos" adquiridos pela FAB ao US Army). Em
nosso segundo dia na cidade, presenciamos a chegada do
NaPaFlu Amapá, que levou uma equipe médica e
medicamentos. Pelo comandante do navio soubemos que o
nosso velho conhecido, o NAsH Carlos Chagas estava
em Manaus esperando um novo carregamento de donativos
recolhidos pela população de Manaus, bem como mais
medicamentos e nova equipe médica, e chegaria à cidade
dentro de cinco dias. Infelizmente, quando o NAsH chegou,
já estávamos de volta a Manaus.
Operações
Ribeirinhas
A Marinha realiza com frequência na Região
Amazônica as operações ribeirinhas conhecidas como
RIBEIREX, com o objetivo de adestrar as forças navais e
de Fuzileiros Navais da área do CNAO. Foi assim que, no
período de 28 de abril a 4 de maio de 97, foi realizado,
na região próxima à cidade de Alavarães, situada à
margem direita do rio Solimões, a cerca de 360 milhas de
Manaus, um exercício de operação ribeirinha denominado
de RIBEIREX AMAZONAS-I/97 (a RIBEIREX AMAZONAS-II/97 foi
realizada em outubro de 97, na cidade de Parintins).
A operação contou com a presença de unidades da
Flotilha do Amazonas (Navios-Patrulha Fluviais Pedro
Teixeira, Raposo Tavares, Rondônia e Amapá);
do Grupamento Naval do Norte (Corveta Solimões e
os Navios-Patrulha Piratini, Penedo e Parati);
do 3º Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral (com
helicópteros UH-12 Esquilo), de tropas dos Grupamentos
de Fuzileiros Navais de Belém e de Manaus; do
Navio-Desembarque Doca (NDD) Rio de Janeiro,
subordinado ao 1º Esquadrão de Navios Anfíbios da
Esquadra, transportando embarcações de desembarque de
carga geral (EDCG), carros-lagarta anfíbios (CLANF),
helicópteros UH-14 Super Puma e UH-12 Esquilo; e de
tropa do 2º Batalhão de Infantaria de Fuzileiros Navais
Batalhão Humaitá, do Rio de Janeiro.
| Marinha
do Brasil |
 |
| O Navio de
Desembarque-Doca Rio de Janeiro foi o
primeiro de seu porte a navegar no rio Solimões,
abrindo novas perspectivas para operações na
região |
O NDD Rio de Janeiro estabeleceu, no
exercício, um novo marco de navegação, ao operar no
ponto mais a Oeste, na Amazônia, já alcançado por um
navio de guerra do seu porte, tendo sido o primeiro NDD a
navegar no rio Solimões. A participação desse navio,
além de contribuir para a consolidação da doutrina de
operações ribeirinhas na MB, abre perspectivas para que
navios dessa classe venham a atingir limites ainda
maiores, dentro da Bacia Amazônica, aproximando-se, cada
vez mais, das fronteiras ocidentais do país, estendendo,
assim, a presença da Esquadra na região.
No exercício, destacou-se, ainda, o emprego, com
sucesso, dos CLANF no ambiente ribeirinho, de águas
ricas em vegetação e com correntes contrárias de até
4 nós. A realização de mais essa operação ribeirinha
e os ensinamentos dela colhidos confirmam a sua
importância, no âmbito do Comando do 4º Distrito
Naval, na preparação de seus meios para a preservação
da integridade de nossas fronteiras, no cenário especial
da Amazônia Ocidental.
Importância
estratégica
A importância da Região Amazônica cresce a cada
dia, tanto estratégica como economicamente (a
descoberta, relativamente recente, da maior jazida de
nióbio do mundo na região, praticamente a céu aberto,
só veio reforçar essa importância e, infelizmente, a
cobiça e o interesse de outros países considerados
"aliados", na Amazônia). Além disso, a
garantia da livre navegação da hidrovias da região por
nossas embarcações e a de países amigos é questão de
segurança nacional. Os rios Solimões e Amazonas são
utilizados pelo Peru e Venezuela para atingirem o Oceano
Atlântico. Esses rios constituem-se no grande eixo
estratégico da região, por permitirem a navegação
durante todo o ano, possibilitando a chegada de navios de
até 10 m de calado a Manaus e de até 4,5 m a Tabatinga.
A recente inauguração de um moderno terminal graneleiro
na cidade de Itacoatiara, que permitirá o escoamento da
produção de soja e outros cereais do Estado do Amazonas
e de outros da região Centro-Oeste, aumentou ainda mais
sua importância, acrescida da hidrovia do Madeira, que
está recebendo um moderno sistema de balizamento por
satélite, tornando a navegação ainda mais segura.
É nesse cenário que a Marinha do Brasil vem se
inserindo na Região Amazônica, reafirmando uma
presença já centenária na área e contribuindo para a
garantia da soberania nacional. E essa soberania estará
ainda mais assegurada com a dotação de novos meios
flutuantes, aéreos e de fuzileiros navais, previstos na
nova Política de Defesa Nacional e descritas no início
deste trabalho. Além destes meios, cabe citar as obras
de ampliação da infraestrutura da Base Naval de
Val-de-Cães, no Pará, e a duplicação do cais
flutuante da Estação Naval do Rio Negro, já prevendo a
chegada de novos navios. É claro que a Marinha do Brasil
tem consciência de que de nada adiantará o aporte de
recursos e a obtenção de todos os meios navais e
aéreos previstos para reforçar a sua já brilhante
atuação na Região Amazônica se o principal
interessado, o cidadão brasileiro, não se conscientizar
da importância da Amazônia para o País. Da parte da
Marinha e dos que tripulam seus navios, bem como das
demais Forças Armadas Brasileiras, essa consciência já
existe. E, pelo que pudemos verificar, conhecendo de
perto o trabalho da Marinha na região, a Amazônia
brasileira está em seguras e boas mãos. 
(1) "Oscar" é o indicativo
internacional naval para "Homem ao Mar".
O autor gostaria de
expressar sua gratidão ao Contra-Almirante Ricardo
Antônio da Veiga Cabral, Comandante do Comando Naval da
Amazônia Ocidental (CNAO), ao Capitão-de-Mar-e-Guerra
Jorge França e ao Capitão-de-Fragata Carlos Gomes,
respectivamente Chefe do Estado-Maior do CNAO e
Comandante da Flotilha do Amazonas, aos
Capitães-de-Fragata César e Guaurino
(Organização/CNAO) e aos Capitães-de-Corveta Carlos
Alberto Matias e Sérgio Santos Soares, respectivamente
Comandantes do NaPaFlu Roraima e do NAsH Carlos
Chagas. Sem a contribuição destes oficiais, essa
matéria não seria possível. A todos eles, nossos
agradecimentos pela cavalheiresca acolhida, pelo
profissionalismo e dedicação à Marinha e ao Brasil e,
principalmente, pelo amor demonstrado pela Amazônia.
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