Uma Resposta
Vêm sendo publicados na imprensa brasileira, alguns artigos de autoria do
Vice-Almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, Engenheiro Naval da Reserva Remunerada, nos
quais critica acerbamente a Marinha do Brasil, deprecia os meios que constituem a nossa
Força Naval e tece comentários aleivosos sobre os Chefes Navais que foram, ao longo do
tempo, os responsáveis pelo preparo da Marinha para o cumprimento de sua Missão
Constitucional. É importante deixar registrado, desde logo, que enquanto no Serviço
Ativo da Marinha, nunca se soube ter o Alte. Othon opinado, criticado, verberado ou
protestado contra qualquer decisão a respeito de meios navais, feito qualquer sugestão a
respeito da Força Naval ou tecido qualquer consideração sobre esses assuntos. Desse
modo, torna-se necessário que os conceitos que apresenta sobre nossos navios, sobre sua
condição de prontidão para o desempenho das missões que podem ser chamados a executar,
sobre seu emprego na área tática e, muito em especial, na área estratégica (em que se
inclui não apenas o emprego mas também o preparo da força naval), sejam apreciados sob
prisma mais profissional.
O Alte. Othon, utiliza terminologia não encontrada na literatura
especializada para caracterizar os submarinos: "submarino de caça" e
"submarino estratégico". Com certeza, pretende se referir ao que é
chamado, na terminologia oficial de "submarino de ataque" e "submarino
lançador de mísseis balísticos", que são as denominações adequadas, em vista do
emprego dessas unidades, para organizar qualquer raciocínio, de cunho estratégico ou
tático, que se pretenda fazer sobre seu emprego. Em todas as Marinhas, a diferenciação
dos submarinos é baseada no tipo de propulsão submarinos convencionais ou
nucleares e em seu emprego, se de ataque (nunca de caça) ou lançador de mísseis
balísticos (nunca estratégicos estratégicos são os mísseis, não os submarinos
que os lançam). Enquanto o submarino de ataque transporta armas que se destinam a
destruir outras unidades navais, atuando, portanto, na área tática, o submarino
lançador de mísseis balísticos transporta armamento cujo emprego é tipicamente
estratégico, somente decidido no mais alto nível da Política Nacional, e cujo
propósito é destruir objetivos em território do inimigo e não suas unidades navais
o emprego desse tipo de armamento jamais será decidido pelo Comandante do
submarino. Assim, parece fazer, o autor dos artigos, alguma confusão entre o que seja o
emprego tático ou estratégico, entre Tática e Estratégia.
Como sustentação para sua tese de desnecessidade de uma Marinha de
Guerra balanceada, dotada de navios de superfície, capazes de prover a própria defesa
(contra submarinos mas também contra aeronaves), de submarinos (nucleares e
convencionais), de navios de apoio logístico e de transportes de tropas (para projeção
de poder sobre terra), o Alte. Othon usa a Guerra das Malvinas, considerando-a talvez como
o paradigma para as guerras navais neste fim de século. A maioria dos estudiosos, tanto
da Estratégia como da Tática (e porque não dizer, também da Política), vê esse
episódio como um exemplo clássico de erros de avaliação e de planejamento, cometidos
pelos argentinos, que se lançaram a uma guerra de conquista, em ambiente tipicamente
marítimo, sem acreditar na mais do que previsível reação do desafiado e sem dispor dos
recursos para assegurar o domínio do mar da área que pretendiam conquistar e de seus
acessos. Com isso foram culpados de um dos maiores erros da guerra, o de subestimar o
adversário e de planejar considerando apenas as "intenções do inimigo" que
lhes seriam favoráveis, a de que a Grã Bretanha aceitaria, placidamente, a perda de uma
parcela de seu território e a de que o EUA nada faria para apoiar seu tradicional aliado.
O Alte Othon parece considerar que os submarinos nucleares são a arma por
excelência da Guerra Naval. Mas sua análise é superficial, uma vez que só apresenta
suas possibilidades, esquecendo-se de mencionar, ou cogitar, suas limitações. Assim,
parece não considerar que os submarinos nucleares têm algumas limitações que podem,
até mesmo, minimizar sua capacidade operativa. A mais importante delas (além do custo)
é que os submarinos nucleares são significativamente mais ruidosos que os convencionais,
o que os torna mais vulneráveis à detecção por outros meios navais desde os
sistemas fixos (como quadros acústicos de hidrofones) até os sistemas móveis,
constituídos por sonares (que equipam navios de superfície, helicópteros e outros
submarinos) e bóias radiossônicas, também denominadas "sonobóias", (que
podem ser lançadas por aeronaves de patrulha A/S e helicópteros). Assim, os submarinos,
quando desenvolvendo alta velocidades, especialmente os nucleares, pelo ruído provocado
por suas máquinas auxiliares, são mais passíveis de detecção do que os convencionais
(até porque estes não podem desenvolver tais velocidades) e deixam, portanto, de serem
"invisíveis" e a prova disso é o fato de investirem, as nações (e
são muito poucas no mundo) capazes de fabricar esse tipo de submarinos, vultosas quantias
tentando torná-los mais silenciosos. E, pior: a altas velocidades, os sensores do
submarino ficam saturados e ele se torna "surdo", isto é, incapaz de detectar
outras unidades (até navios de superfície). Além disso, seu maior tamanho provoca
alterações no campo magnético terrestre, o que permite sua detecção por sensores de
anomalias magnéticas, fixos os quadros magnéticos ou transportados por
aeronaves ou helicópteros o MAD (magnetic annomaly detector). E não se
pode esquecer que, em áreas costeiras ou mal cartografadas e em águas de pequena
profundidade, por razões de segurança da própria navegação, nenhum submarino se
atreve a desenvolver altas velocidades a não ser que, tendo sido detectado, esteja
manobrando evasivamente.
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O HMS Conqueror da Royal
Navy, que pôs à pique o cruzador argentino General Belgrano, foi um dos três
submarinos nucleares britânicos enviados às Malvinas |
No caso específico das Malvinas, que o Alte. Othon se compraz em analisar
(e do qual tira suas conclusões), os britânicos mandaram para o Atlântico Sul três
submarinos nucleares de ataque, que operaram, com total liberdade de ação, muito longe
da área em que estava O submarino convencional argentino. Tivessem os argentinos,
não um, mas cinco submarinos convencionais em condições de operar e maior capacitação
na guerra A/S, com toda a certeza os ingleses, na presença de outros submarinos
convencionais e de uma adequada defesa A/S, não teriam a liberdade operativa necessária
para a implementação de uma "zona de exclusão" ao longo do território
argentino e ao redor das Malvinas teriam que navegar em velocidade que tornasse
mais difícil sua detecção e não disporiam da mobilidade que essa tarefa exigiria. Não
parecem, portanto, válidos e corretos, os comentários tecidos a respeito e as
conclusões a que chega somente parecem válidas nas circunstâncias, e apenas nelas, em
que se travou a Guerra das Malvinas. Acrescente-se que a tarefa dada ao Comandante da
Força Britânica, Alte. Woodward, não era "estabelecer uma zona de exclusão ao
redor das Malvinas e ao longo do território argentino" e sim, é de presumir,
"retomar as ilhas Malvinas, para isso expulsando as forças argentinas de
ocupação". E seria o caso de perguntar, a quem tece tais generalizações, se o
submarino nuclear de ataque HMS Conqueror e seus pares seriam capazes de
executar, sozinhos, essa tarefa. Parece sem dúvida, que a contribuição do submarino de
ataque ao propósito muito mais amplo do Comandante do Teatro de Operações foi muito
facilitada por não ter, a Argentina, uma adequada defesa anti-submarino e, muito em
especial, submarinos em número suficiente para impedir que os submarinos britânicos
dispuzessem da mobilidade necessária para a execução de sua tarefa, que era, apenas,
uma contribuição ao propósito superior do Comandante do TO. Mas não se poderia
pretender, nem mesmo cogitar, que apenas submarinos fosse capazes de retomar as Malvinas,
e sua participação, impondo uma zona de exclusão (eufemismo usado para não configurar
um bloqueio que tem que obedecer a regras estabelecidas no Direito Internacional),
serviria apenas para afastar, da Força Naval Britânica, a ameaça representada pela
Marinha Argentina. A tarefa principal, a retomada das Malvinas, só poderia caber (como
aconteceu), à força naval balanceada, que a Royal Navy teve capacidade de aprestar e
enviar para o Teatro de Operações e o submarinos britânicos foram, apenas,
"coadjuvantes" no episódio.
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| A operação dos A-4 Skyhawk a partir do Minas
Gerais, proporcionará uma capacidade de projeção de poder nunca antes possuída
pela Marinha do Brasil |
Ao considerar, o articulista, que "o feito mais marcante foi o
afundamento de uma fragata inglesa por um míssil disparado de outro avião que não o
"Skyhawk A4" (sic), deixa de mencionar que não só a HMS Sheffield (um
destróier tipo 42, navio de defesa aérea, não uma fragata o que engrandeceria,
ainda, o feito em si), mas também o SS Atlantic Conveyor (navio transportador de
containers, adaptado para transporte e operação dos Harrier, aeronaves de
decolagem vertical e de helicópteros), foram afundados pelos mísseis Exocet, lançados
pelos Super Étendard argentinos (os ingleses parecem haver subestimado a capacidade
argentina no emprego de aeronaves). E omite que a "sucata aeronaval" (como
denomina os A-4 Skyhawk) da Marinha Argentina, afundaram as fragatas (Tipo 21) HMS
Ardent e HMS Antelope, o destróier (Tipo 42) HMS Coventry e o RFA
Sir Galahad e avariaram a fragata HMS Broadsword (Tipo 22) e o RFA Sir
Tristan. Parece desprimoroso usar-se facciosamente apenas alguns dos fatos ocorridos
e, especialmente, a omissão conveniente de fatos, a quem se propõe a apresentar
conclusões e críticas de fatos que são do conhecimento universal. E, para dar, talvez,
maior validade à sua conclusão (subliminar) de que só o submarino nuclear
"ganhou" a guerra, não é mencionada a existência de uma força naval de
grande poder de projeção sobre terra, nucleada nos navios-aeródromos HMS Invencible
e HMS Hermes, com sua escolta de contratorpedeiros e fragatas, de navios
adaptados para a operação de "Harriers" e helicópteros, de navios transportes
para uma significativa força de desembarque (a quem caberia a retomada do território) e
de seus navios de apoio e, ainda, apoiada por bombardeiros "Vulcan" que operavam
da Base Naval norte-americana de Ascensão, obsequiosamente posta à disposição por seu
tradicional aliado.
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| "O Minas Gerais é capaz, ainda hoje,
de desenvolver a mesma velocidade de projeto e está preparado para operar no ambiente
atual da guerra naval" |
Quanto à sucata, pejorativo usado para designar o
NAeL Minas Gerais, embora tendo completado mais de cinqüenta anos, vem
sendo mantido em perfeitas condições operativas. Seus equipamentos e armamento, vem
sendo atualizados, ao longo dos anos (tendo sido nele instalado, inclusive, um sistema de
controle tático concebido e construí-do no Brasil), o que deveria ser motivo de orgulho,
não de críticas infundadas e destrutivas. Nosso "Minas" é capaz, ainda hoje,
de desenvolver a mesma velocidade de projeto, sua catapulta e aparelho de parada se
encontram, presentemente, em revisão e está preparado para operar no ambiente atual da
guerra naval desde que se lhe restitua a capacidade de operar aeronaves. E ao
mencionar, o Alte. Othon, que, o Minas Gerais, tem sido empregado, à
Argentina, para adestrar os aviadores navais argentinos, deixa de dizer que o
"Minas" tem participado, rotineiramente, de todas as operações de adestramento
de nossa Esquadra (necessárias para desenvolver e, subliminarmente evidenciar ao mundo a
nossa capacitação operativa), Não se trata, pois, como pretendido, apenas de
operações "terceiro-mundistas" (usada a expressão como um pejorativo), mas de
uma cabal demonstração de competência profissional, que mostra que nossa Marinha pode
operar longe de nosso território na defesa e proteção de nossos interesses, o que em
si, já evidencia uma limitada capacidade de dissuasão e, afinal, de empregar nossa
pequena força naval em um de seus mais tradicionais papéis o de "braço
armado", se necessário for, da nossa Política Exterior.
Não é, sem dúvida, o Minas Gerais o navio pelo qual ansiariam
os marinheiros profissionais de nossa Marinha. Mas é o meio disponível para que a
Marinha mantenha o know-how necessário à realização de operações aéreas
(que desenvolveu utilizando as aeronaves baseadas em terra de nossa Força Aérea e, para
a Guerra A/S, as aeronaves P-16 do Grupo de Aviação Embarcada, desativadas pela FAB, e
os helicópteros da Força Aeronaval), em áreas em que não pode contar com a cobertura
aérea de aeronaves baseadas em terra; além disso, o "Minas" é a plataforma
cuja utilização nos permitirá colher os dados necessários para o levantamento dos
requisitos operativos necessários à construção de seu substituto que, esperam os
marinheiros, seja construído, em nosso país.
E é importante que se tenha em mente que o Brasil não precisa, nem se
propõe a, disputar o "domínio do mar", mas a assegurar sua capacidade de
usá-lo na proteção do trafego marítimo, de que somos e continuaremos a ser,
dependentes e de nossos interesses. E, talvez não saiba o Alte Othon avaliar, mas não
estão em jogo, no tráfego marítimo, apenas interesses brasileiros, porque no Atlântico
Sul haverá interesses de outros países, e navios de outras bandeiras, e é de supor que
se possa contar com a participação de unidades navais de outras marinhas, na proteção
de tráfego marítimo que é também, de seu interesse. E cabe recordar, a quem pretende
discutir a Estratégia Naval, que, na 2ª Guerra Mundial. a Marinha norte-americana, muito
antes de entrar o EUA na guerra, participava, com seus navios, da escolta de comboios para
a Inglaterra e suas aeronaves patrulhavam intensamente o Atlântico Norte.
Não sei se o Alte. Othon se perguntou, a quem interessa a transformação
de todas as marinhas do mundo em brown water navies, destinadas apenas a policiar
os litorais e portos, a impedir o contrabando e o tráfico de drogas, a manter atualizados
os levantamentos hidrográficos necessários à segurança da navegação, deixando a
apenas uma nação (que manterá toda a capacidade de sua blue water navy), a
imposição da ordem universal e o direito de interferir, como lhe aprouver, no destino e
nos interesses de qualquer outra nação? Houve, no passado, um país que, por quase um
século teve essa capacidade a Grã Bretanha. Chamou-se, o período em que ela
exerceu sua predominância, de "Pax Britannica". Essa predominância foi
fundamentada, na Royal Navy e, mais tarde, também, na rede de cabos submarinos, que lhe
permitia, não só expedir suas ordens para emprego de sua força, como manipular as
informações, a nível mundial, para atender a seus interesses. E, a "Pax
Britânica" se desvaneceu quando, para atender a uma redistribuição estratégica de
seus forças navais, a Grã Bretanha retirou, do Pacífico, os seus encouraçados e, por
um tratado (1902), transferiu ao Japão a proteção de seus interesses no Extremo
Oriente. Assim a História mostra que, se qualquer nação entregar a outra a defesa de
seus interesses, e se conformar a servir apenas de "gendarme" regional, perde
sua independência, sua soberania pode ser desrespeitada e fica sem liberdade de ação
para atuar no campo internacional. E perde, também, o respeito de seus cidadãos. 
Haroldo Basto Cordeiro
Junior
Contra-Almirante (RRm)
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