José Meirelles Passos
Quando a IV Frota Naval dos Estados Unidos, desativada em 1950, foi restabelecida subitamente em meados do ano passado, com a missão de monitorar o litoral de toda a América Latina, vários países da região – em especial Brasil, Argentina, Bolívia e Venezuela – manifestaram desconfiança e suspeitas. Agora, 14 meses mais tarde, voltou a surgir com mais frequência entre os brasileiros – em especial devido ao início da exploração de gigantescas reservas de petróleo descobertas no fundo do oceano – o receio de que, em algum momento, aquela força poderia ser utilizada pelos EUA para se apossar dessa riqueza.
Tal cenário seria um absurdo, segundo o contra-almirante Victor G. Guillory, 54 anos, que há três meses assumiu a chefia das Forças Navais do Comando Sul e também o comando da IV Frota Naval:
- Embora eu creia que já tenhamos explicado isso várias vezes, acho que essa suspeita jamais será completamente afastada através de uma reunião ou de uma entrevista. Vai demorar um pouco. E, como o novo comandante, estou preparado para dedicar todo o tempo necessário para desfazer as suspeitas toda vez que me perguntarem a respeito – disse Guillory em entrevista exclusiva ao GLOBO sexta-feira passada, ao fim de uma visita de cinco dias ao Brasil.
Na patente, diretor de guerra de superfície
O problema é que a própria ficha profissional de Guillory reforça as teses conspiratórias. Antes de assumir a frota, ele trabalhou três anos em Washington como diretor de guerra de superfície, da Marinha, com a responsabilidade de cuidar das necessidades para combates navais e recursos materiais para todos os navios de guerra e sistemas de combate dos EUA.
- Eu continuo sendo um oficial de guerra de superfície, mas estou muito grato aos meus superiores pelo fato de terem me nomeado para esse novo trabalho que inclui missões humanitárias, e considerar o que temos em comum com nossos parceiros na região, além de melhorar a parceria com os países com os quais enfrentamos ameaças em comum – disse o contra-almirante.
De acordo com a Estratégia Cooperativa para a Força Naval do Século XXI, dos EUA, a sua Marinha enfrenta “muitos desafios na capacidade de exercitar o controle dos mares. Talvez nenhum deles seja tão significativo quanto o crescente número de nações operando submarinos, tanto convencionais quanto a propulsão nuclear”, diz um trecho. Mais adiante ela registra um alerta significativo: “Nós devemos ter a capacidade de impor controle local do mar onde quer que seja necessário, idealmente com a concordância de amigos e aliados, mas por nossa própria conta, se formos obrigados a isso.”
No entanto, no espírito de afastar suspeitas e desconfianças, Guillory insistiu em repetir um conceito utilizado pela chefia das forças navais do Comando Sul, baseado na Flórida, desde a reativação da IV Frota, 14 meses atrás:
- Eu não tenho navio algum designado permanentemente a nós. E tampouco disponho de aviões ou submarinos permanentes. Conto apenas com um grupo de aproximadamente 140 homens e mulheres.
Tal situação, no entanto, engloba um segundo conceito: o de que a IV Frota pode, a qualquer momento, requisitar quaisquer tipos de embarcações que achar necessárias para uma determinada missão – reconheceu Guillory, ponderando a seguir:
- Eu posso obter os navios adequados (a uma determinada situação). Para outras frotas talvez seja mais apropriado o uso de um porta-aviões. Mas acredito que os tipos de desafios que enfrentamos juntos aqui na região demandem outro tipo de embarcações – disse ele, citando como exemplo os navios-hospitais que têm atendido à população mais pobre na América Central, e embarcações de pequeno porte que têm sido utilizadas para conter o tráfico de cocaína através do Caribe.
O narcotráfico, segundo Guillory, é hoje a maior preocupação da Marinha americana na região. Por isso, durante a sua viagem ao Brasil – o único país até agora visitado por ele – conversou com os oficiais locais sobre a necessidade de os países da região abraçarem o conceito de “consciência de domínio marítimo” que, segundo Guillory, se tornou uma alta prioridade para os EUA.
Visita às instalações da Marinha brasileira
Semana que vem em Newport, estado de Rhode Island, haverá um simpósio específico sobre isso. O almirante Julio Soares de Moura Neto, comandante da Marinha do Brasil, estará presente, segundo Guillory:
- Vamos tratar de ampliar a nossa capacidade de monitorar o tráfego de navios em nossa região, atentos à atividades suspeitas. Notar, por exemplo, embarcações pescando em áreas onde não há peixes; ou transitando onde normalmente não é rota de embarcações. Captando, enfim, sinais de navios realizando operações ilícitas – disse ele.
Guillory contou ter vindo ao Brasil por recomendação de vários de seus superiores, que lhe disseram que além de oferecer uma visão clara sobre a Marinha nacional, o governo brasileiro lhe ofereceria perspectivas sobre a região.
- Apreciamos nossa tremenda comunicação com a Marinha brasileira, que foi generosa em nos dar a oportunidade de visitar as suas instalações – disse ele, acrescentando, de forma a mostrar que não existem desconfianças, que também teve acesso aos planos de defesa do Brasil.
FONTE: O Globo
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