O Brasil possui o programa de submarinos nucleares mais longo da história e o que menos obteve resultados. Por que isto aconteceu? De quem é a culpa?

A  ideia de dotar a Marinha do Brasil de um submarino nuclear começou a ser cogitada na década de 1970 e evoluiu de forma mais prática entre 1976 e 1978. Existiam três pontos básicos que deveriam ser vencidos. A primeira delas tratava do domínio do ciclo do combustível nuclear (projetos ZARCÃO e CICLONE). Em segundo lugar o Brasil teria que projetar e desenvolver um reator nuclear (projeto REMO) suficientemente compacto para um casco de submarino. O país também precisava projetar e construir um casco de submarino (projeto COSTADO) que recebesse o reator em desenvolvimento.

O desafio era muito grande para um país que nunca havia construído se quer um submarino convencional e engatinhava nos acordos nucleares com a Alemanha. Passados mais de 30 anos nenhum destes três pontos foi inteiramente satisfeito e o programa do submarino nuclear brasileiro ganhou o título do mais longo programa e o que menos resultados gerou. Por que isso aconteceu? Quais são as razões?

O ciclo do combustível e o reator

Para desenvolver o ciclo do combustível nuclear e produzir um reator experimental a Marinha associou-se ao IPEN-SP (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares de São Paulo) e passou a trabalhar nestes programas a partir de 1979.

Foi adotada a técnica de ultracentrifugação para o enriquecimento. Após dominar a tecnologia do hexafluoreto de urânio a partir do minério de Poços de Caldas (MG), a Marinha obteve o seu primeiro grande sucesso em 1982. Em escala laboratorial, os pesquisadores conseguiram o enriquecimento isotópico de urânio com centrífugas construídas totalmente no Brasil.

Com o crescimento da pesquisa e do interesse por parte de Marinha, em 1986 surgia a Coordenadoria para Projetos Especiais (COPESP), posteriormente renomeada Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP).

Instalações do Centro Experimental de Aramar

Para dar suporte às atividades experimentais do programa de pesquisa e desenvolvimento do ciclo do combustível e de reatores nucleares, foi construído no município de Iperó (estado de São Paulo) o Centro Experimental Aramar (CEA). Este Centro, em atividade até hoje, abriga instalações de testes, laboratórios de validação experimental e algumas oficinas especiais. Ali já se enriquece urânio numa escala industrial pequena, mas suficiente para alimentar os reatores nucleares de pesquisa existentes no país.

Dos três pontos básicos citados acima, o ciclo do combustível nuclear é o campo que o Brasil está mais desenvolvido. Mas ainda não fechamos o ciclo. Uma das etapas básicas do domínio total do ciclo do combustível nuclear é a produção de gás de urânio. O Brasil ainda caminha para produzir este gás em escala industrial. Até mesmo a África do Sul, que não manifestou o desejo de construir submarinos nucleares, já produz este gás há muito tempo. Ainda podemos incluir o Canadá e Israel na lista de países que produzem o gás. As demais nações que fecharam o ciclo do combustível nuclear já possuem submarinos nucleares ou acabaram de lançar ao mar (caso da Índia).

É interessante notar que o país já produziu o gás de urânio em uma usina -piloto do Instituto de Energéticas e Nucleares (Ipen) entre 1980 e 1996. Mas depois voltou a importar o produto do Canadá. Isto mostra uma outra face maligna das iniciativas nacionais, principalmente nos projetos militares de longo prazo.

Reator nuclear

Porém, a questão do desenvolvimento do reator nuclear é bastante delicada. O projeto REMO visa o desenvolvimento e a construção de um reator nuclear nacional  do tipo Pressurized Water Reactor (PWR). Este programa também é conduzido pelo Centro Experimental de Aramar.

Conhecido como RENAP-11 (Reator Naval de Potência de 11 Megawatts), este é o primeiro reator nuclear inteiramente projetado no País.

Projeto do protótipo do reator do primeiro submarino nuclear brasileiro, conhecido como Laboratório de Geração Nucleo-Elétrica – Labgene

O desenvolvimento do reator, assim como todo o Programa Nuclear da Marinha, viveu boa parte dos últimos anos em “estado vegetativo”. O prédio definitivo do reator teve a sua construção paralisada por mais de dez anos, sendo retomada recentemente.

Para conseguir terminar finalmente o reator nuclear, a Marinha precisa de mais um bilhão de dólares, investidos num período de 8-10 anos. O presidente Lula, em julho de 2007, em visita ao Centro de ARAMAR, garantiu a liberação de recursos anuais de R$ 130 milhões, para a conclusão do reator e do programa de enriquecimento de urânio da Marinha.

O casco do submarino

A total falta de conhecimento da Marinha na construção de submarinos era um grande dilema para todo o projeto. Mas a ideia começou com os pés no chão. Primeiro era necessário adquirir novos e modernos submarinos que pudessem ser construídos no Brasil.

A obtenção de novos submarinos foi incluída inicialmente no Programa de Reaparelhamento da Marinha (PRM) Revisão 1979 e a escolha recaiu sobre o submarino IKL-209-1400 de origem alemã, projetado pela firma Ingenieur Kontor Lubeck (IKL).

Construção de submarinos convencionais no AMRJ, o primeiro passo

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Em 1982 a Marinha assinou dois contratos técnicos com o Consórcio Ferrostaal/Howaldtswerke Deutsche Werft (HDW) da Alemanha que previam a construção de dois submarinos idênticos, o primeiro no estaleiro HDW em Kiel e o segundo no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ). Posteriormente foi assinado um terceiro contrato para a obtenção de mais dois submarinos, que igualmente seriam construídos AMRJ.

Os contratos assinados para a construção destes três submarinos no Brasil previam, em síntese, o fornecimento de material, documentado e treinamento para o pessoal especializado da Marinha que posteriormente conduziria a obra. Durante o período de construção do primeiro submarino (o Tupi) no estaleiro HDW, um grupo de Engenheiros, Técnicos e Operários foi enviado àquele estaleiro para a realização de estágios, de acordo com as suas especializações técnicas.

Além da qualificação humana, a Marinha também investiu na modernização das suas instalações e na capacitação da indústria nacional. Um dos exemplos mais significativos foi a transferência de tecnologia da construção de seções do casco resistente, absorvida pela Marinha no estaleiro HDW, para a Nuclebrás Equipamentos Pesados (NUCLEP).

Com o programa dos IKL 209 em andamento a Marinha passou a planejar em maior detalhe as etapas seguintes. Inicialmente pensou-se em desenvolver duas classes de submarinos nacionais convencionais: NAC1 e NAC2. A produção do NAC começaria na década de 1990 e era prevista uma série de quatro unidades. Seis unidades da série seguinte, a NAC2, entrariam em serviço entre 1994 e 2000. Paralelamente à constução dos NAC2, a Marinha trabalharia na construção do casco do seu primeiro submarino nuclear, que deveria estar pronto em 2000.

Pouco tempo depois ficou claro que o projeto era muito ambicioso. No lugar do NAC1, decidiu-se produzir uma versão melhorada da classe IKL 209, que ficou conhecida como “improved Tupi”. Posteriormente ao “improved Tupi” seria construído um submarino convencional inteiramente nacional denominado SNAC-1. O casco do SNAC-1 já seria compatível com o reator nuclear nacional, que seria introduzido no SNAC-2.

Em 1990, por total falta de recursos, o programa SNAC foi praticamente paralisado. A retomada do programa voltou anos mais tarde e o casco do submarino convencional nacional (antigo SNAC-1) foi renomeado SMB-10. Mas a falta de recursos também acabou cancelando o projeto do SMB-10. Diante da árdua tarefa e dos altos custos de se projetar e construir um casco de submarino, a Marinha do Brasil partiu para um projeto totalmente estrangeiro de um submarino convencional, que permitisse o desenvolvimento de um projeto de um novo submarino capaz de receber um reator nuclear.

NOTA: os comentários para esta matéria serão feitos no ‘post’ em aberto cujo título é ‘Não fizemos a lição de casa’.

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Membro do corpo editorial da revista Forças de Defesa e sites Poder Aéreo, Poder Naval e Forças Terrestres

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