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Quanto tempo os países levaram para desenvolver o primeiro submarino nuclear?
Esta pergunta não possui uma resposta simples, direta e objetiva. Depende de uma série de fatores, incluindo o momento histórico. Também não é possível traçar uma relação direta entre o tempo que se gastava para projetar um submarino 50 anos atrás e os dias atuais. Mas é interessante analisar como as outras nações desenvolveram os seus primeiros programas e quanto tempo cada uma levou.
Grosso modo, o desenvolvimento dos submarinos nucleares no mundo pode ser dividido em três grandes momentos. O primeiro deles ocorreu logo após o término da II Guerra Mundial, quando os principais vencedores (EUA, URSS e Reino Unido) pesquisavam o desenvolvimento da energia nuclear e sua aplicação em navios e submarinos. O desenvolvimento foi rápido e estas nações gastaram entre nove e treze anos para lançarem ao mar o seu primeiro submarino de propulsão nuclear.
USS Nautilus, primeiro submarino nuclear do mundo. Foram necessários somente nove anos para lançá-lo ao mar.

Coube aos EUA a primazia do projeto e desenvolvimento do primeiro submarino nuclear do mundo. O USS Nautilus foi lançado ao mar em 1954, menos de nove nos após o término da II Guerra Mundial. Quatro anos depois foi a vez da URSS lançar ao mar o K-3 “Leninskiy Komsomol” (classe November/Project 627). Mesmo os britânicos, que suspenderam os trabalhos com propulsão nuclear entre 1952 e 1955, lançaram o HMS Dreadnought em 1959, depois de 13 anos no início dos estudos (e com ajuda norte-americana).
O segundo momento histórico ocorreu na década de 1960, quando duas potências nucleares em ascensão (França e China) entraram para o “clube dos submarinos nucleares”. Na época os franceses buscavam maior independência em relação à OTAN e os chineses procuravam o seu próprio espaço entre as duas superpotências. Estes dois países gastaram perto de 15 anos de pesquisas até que os primeiros submarinos nucleares fossem lançados ao mar. A construção da primeira unidade nuclear da França, o Le Redoutable, foi autorizada em 1963, entrando em operação em 1971. A China continental também realizou os seus estudos ao longo da década de 1960, lançando o Han (Tipo 091) ao mar em 1974.
Atualmente vivemos o terceiro momento, onde antigos países do Terceiro Mundo (atualmente classificados como países em desenvolvimento) lutam para desenvolver seus próprios submarinos nucleares. Este grupo de países é formado pela Índia, Brasil e Argentina.
É natural que os países da terceira onda tivessem uma dificuldade maior no projeto e na construção de submarinos nucleares. São países que não possuem tradição na construção de submarinos convencionais e que desenvolveram seus programas nucleares tardiamente em relação às nações citadas anteriormente.
A Índia lançou o seu primeiro submarino de propulsão nuclear ao mar neste ano. Existem relatos de que aquele país enfrenta problemas no desenvolvimento do reator e que o mesmo não foi integrado ao casco até o momento.

A Argentina decidiu praticamente congelar seus estudos no campo dos submarinos nucleares por total falta de recursos finanaceiros. Sobraram Índia e Brasil. A Índia, que iniciou seus estudos mais ou menos na mesma época do programa brasileiro (década de 1970), já lançou o casco do primeiro submarino nuclear ao mar depois de mais de 30 anos de trabalhos. O Brasl, por outro lado, ainda não definiu o projeto do casco.
De quem é a culpa?
Como pode ser visto acima, o Brasil já teve tempo mais do que suficiente para desenvolver o seu submarino nuclear. Mesmo descartando qualquer comparação com outros programas existentes no mundo, 30 anos é tempo bastante para o desenvolvimento de qualquer programa militar. No entanto, os resultados foram modestos, descontando-se a área do domínio do ciclo do combustível. Por que?
Está claro que, da parte da Marinha, houve planejamento e que o mesmo foi traçado desde o começo de forma bastante lúcida, com etapas claras e evolução contínua. Porém, o plano traçado inicialmente sofreu diversas modificações em função das dificuldades que foram surgindo ao longo do tempo. Nada mais natural em um campo onde se desenvolvem pesquisas de base.
Mas o que realmente prejudicou o desenvolvimento do submarino nuclear nacional foi a falta de um fluxo de recursos constante e adequado. O fluxo de recursos inconstante levou sempre à necessidade de um novos planejamentos, gastando-se mais tempo e os escassos recursos replanejando o programa.
E o dinheiro apareceu
No dia 2 de setembro passado o Senado Federal aprovou o empréstimo de 4,32 bilhões de euros, de um total de 6,7 bilhões, que serão utilizados no Prosub (Programa de Desenvolvimento de Submarinos ). O acordo com a França foi efetivamente assinado no dia seguinte à aprovação e envolve:
1. Compra do Pacote de Material e Logístico para os 4 (quatro) Submarinos Convencionais (S-BR);
2. Construção dos 4 S-BR;
3. Projeto e Construção do Submarino com Propulsão Nuclear (SN-BR) – este contrato incorpora a compra do pacote de Material e Logístico para o SN-BR;
4. Compra de Torpedos e Despistadores;
5. Projeto e Construção de um Estaleiro e de uma Base Naval;
6. Administração, Planejamento e Coordenação do Projeto e da Construção do SN-BR;
7. Transferência de Tecnologia;
8. e OFFSET.
O Prosub nada mais é do que a etapa mais recente desse constante replanejamento. Até 2007 o Prosub simplesmente não existia e o programa do submarino nuclear navegava vagarosamente por outros caminhos.
Cronograma do Prosub, etapa mais recente do programa de desenvolvimento do submarino nuclear nacional. As metas não atingidas nos programas anteriores (SNAC, SMB-10, etc) sofreram replanejamentos constantes.
O Prosub é, em última análise, uma tentativa de sanar a incapacidade brasileira de projetar e construir seu próprio submarino nuclear devido à inconstância de recursos que o programa viveu desde a sua criação. Como ao longo dos últimos 30 anos o programa não teve recursos suficientes para financiar projetos de pesquisa e desenvolvimento, o Brasil teve que arcar com uma “solução importada”.
Quando o ministro da Defesa Nelson Jobim anunciou que o acordo com a França permitiria ao Brasil “queimar etapas”, o que ele realmente estava dizendo é que nós não teremos acesso a determinados conhecimentos e tecnologias, pois estas serão importadas. Quem “queima etapas” não domina toda a cadeia do conhecimento.
Envolvimento da sociedade
Acontece que só a questão financeira não se justifica, embora seja a mais importante. O programa nuclear da Marinha, de tão secreto, foi colocado à margem da sociedade. Não houve debate, não houve justificativa, não houve esclarecimento ao cidadão. A Marinha tocou o projeto sem o aval da sociedade. Isto é compreenssível em uma ditadura, mas a mesma acabou há mais de 20 anos!
O país democratizou-se, mas a questão do submarino nuclear continuou a ser tratada “dentro de quatro paredes”, mesmo sendo este o maior e mais importante programa de defesa do país de todos os tempos. Este “desconhecimento” do assunto no meio civil pode ser claramente constatado pela total falta de debates no Congresso sobre o tema.
De tempos para cá isto já foi percebido pelas altas autoridades. Mesmo porque a ‘chave do cofre’ está nas mãos dos civis. O que ocorre hoje em dia é uma corrida atrás do tempo perdido, para esclarecer e obter o apoio da sociedade civil.
A pergunta que fica é a seguinte: haverá tempo suficiente para demonstrar à sociedade a importância deste programa e a necessidade de se manter o alto fluxo de recursos por um longo prazo, independentemente das oscilações econômicas? Caso a resposta seja negativa, entraremos novamente no nefasto ciclo que perdura nestes 30 anos.
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NOTA: os comentários para esta matéria serão feitos no ‘post’ aberto cujo título é Não fizemos a lição de casa
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