Rios multiuso

usina_itaipu_brasil

Rafael Kelman E Jerson Kelman

No Brasil, a disputa pelos locais onde é possível construir usinas hidrelétricas ocorre em leilões. Vence quem se dispuser a vender energia pelo menor preço. É um bom arranjo: os consumidores pagam pelo resultado final — a energia — e não pelas obras de engenharia. Porém, como os rios servem a outras finalidades além de geração de eletricidade, convém avaliar se o processo pode ser aperfeiçoado.

Na China, a hidrelétrica de Três Gargantas (maior do mundo em capacidade) é utilizada para controlar as enchentes do Rio Yangtze, permitir o transporte de pessoas e mercadorias e, também, a produção de energia. Nos EUA, desde 1879 uma comissão do Corpo de Engenheiros do Exército realiza obras no Rio Mississipi, escuta os usuários e resolve disputas. Graças à continuidade desse trabalho, muito se avançou no controle das enchentes que outrora penalizavam as comunidades ribeirinhas. Por exemplo, a cheia de 2011 foi a pior da História, mas não causou uma única morte (ao contrário da cheia de 1927, de intensidade um pouco menor). Além disso, graças ao trabalho da comissão, a maior parte da produção de grãos dos Estados Unidos é transportada pelo rio para os portos do Golfo do México. Cada barcaça substitui com óbvias vantagens uma frota equivalente a 60 caminhões de grande porte. Enquanto isso, a maior parte da soja produzida em Mato Grosso é transportada em caminhões para os portos de Santos, Paranaguá e Vitória. Se o transporte fosse hidroviário, o custo do frete e o uso de combustíveis fósseis diminuiriam significativamente. E as estradas ficariam menos congestionadas.

Isso não significa que todos os cursos de água que escoam do Planalto Central para a Planície Amazônica tenham vocação para transportar mercadorias nem tampouco que os construtores de usinas ignorem a possibilidade de que no futuro os rios possam ser utilizados para esse fim. Ao contrário, os projetos de hidrelétricas quase sempre preveem um espaço para a construção de pelo menos uma eclusa. Só não se sabe quem vai construir e quando.

Como construir uma usina hidrelétrica e anos depois a hidrovia é muito mais caro do que mirar simultaneamente nos dois objetivos, as licitações deveriam ser para uso múltiplo dos rios, e não apenas para produção de energia elétrica. Muitos do setor elétrico se opõem à proposta. Argumentam que não cabe ao setor elétrico “pagar a conta” dos demais setores. Têm razão. As usinas devem ser pagas pelos consumidores de eletricidade, via tarifa, e as eclusas pelos transportadores de grãos, via pedágio. Com alguma imaginação seria possível conceber um arranjo legal, econômico e regulatório que garantisse o respeito a esse princípio e que diminuísse a judicialização do licenciamento ambiental que sabidamente emperra o desenvolvimento do país. É preciso que se encontre uma solução política para que possamos planejar e construir a infraestrutura indispensável para a melhor utilização dos nossos rios. Americanos e chineses não deixaram a chance escapar.

Rafael Kelman é diretor da PSR, Jerson Kelman é professor da Coppe-UFRJ

FONTE: O Globo via Resenha do Exército

Tags: , ,

Jornalista formada pela Universidade Federal do Paraná. Ganhou o Prêmio Sangue Novo do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná com uma monografia sobre o PROSUB. Feliz proprietária de um SSN classe Virginia.

3 Responses to “Rios multiuso” Subscribe

  1. Blind Man's Bluff 14 de dezembro de 2013 at 8:54 #

    Os consumidores também pagam pelos 20% de desperdícios de energia elétrica (perdas da rede de transmissão), devido às distâncias que deve percorrer a energia elétrica até os centros de consumo.

    Culpa da estratégia energética nacional, que prioriza a construção de mega usinas hidrelétricas. É como colocar todos os ovos na mesma cesta!

  2. MO 14 de dezembro de 2013 at 9:43 #

    em tempo S Timbira em SSZ =
    http://santosshiplovers.blogspot.com.br/2013/12/s-timbira-s-32-pwti-atracado-em-santos.html

  3. MO 14 de dezembro de 2013 at 13:10 #

    Para quem gosta, hoje eh o dia – TOP DIA BUNECO DA TEMPORADA, o melhor dia qualitativo da temporada =
    http://santosshiplovers.blogspot.com.br/2013/12/ms-crystal-symphony-c6my5-e-mn-silver.html

Leave a Reply

You must be logged in to post a comment.

China pretende estreitar laços militares com Irã, diz mídia chinesa

PEQUIM (Reuters) – A China quer ter laços militares mais estreitos com o Irã, disse o ministro da Defesa chinês […]

Submarino alemão é encontrado afundado na costa dos EUA

  Pesquisadores informaram nesta terça-feira (21) a descoberta de um submarino alemão e de um cargueiro nicaraguense que afundaram na […]

Fotos do Navio de Pesquisa Hidroceanográfico ‘Vital de Oliveira’ em construção na China

Confira as fotos do lançamento ao mar do Navio de Pesquisa Hidroceanográfico “Vital de Oliveira” em Xinhui, na China. O […]

Baixe 7 edições da revista Forças de Defesa e doe quanto quiser

Agora você poderá baixar para o seu computador, tablet ou smartphone as melhores reportagens da nossa revista impressa Forças de […]

Em fórum na Fiesp, Estado-Maior da Armada destaca a importância da indústria em projetos da Marinha

Por Dulce Moraes e Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp Representantes do órgão apresentam projetos em desenvolvimento e formas de financiamento. […]

Navios-patrulha do Brasil e da França em operação contra pesca ilegal

Segundo nota divulgada pelo Ministério da Defesa da França nesta segunda-feira, 20 de outubro, o navio-patrulha La Capricieuse da Marinha Francesa […]