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Aleksandra Kozlova, The Village

Tripulante de submarino russo conta detalhes sobre a rotina durante os dois meses em que o veículo fica submerso.

Quando o submarino submerge no mar pela primeira vez, todos os tripulantes são submetidos à cerimônia para iniciantes. No meu caso, encheram o vidro da luminária da cabine com água do mar, e eu tive que beber tudo. Tem um sabor terrivelmente amargo. No mesmo momento, passaram uma comprovação escrita à mão de que agora eu era um submarinista de pleno direito.

Em alguns submarinos, além deste ritual de iniciação, acrescentam o “beijo da marreta”. Isto é, uma marreta é amarrada ao teto da embarcação e quando esta começa a balançar, o novato tem que beijá-la. Confesso que não entendo o sentido desse último teste, mas ali não se discute. Aliás, esta é a primeira regra que você aprende quando entra a bordo.

Revezamento contínuo

Em quase todo submarino existem duas tripulações. Quando uma delas descansa (e eles devem descansar depois de cada missão), a outra entra em serviço. O tempo de missão pode variar: a mais curta é de 50 dias, e a mais longa, de 90.

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Primeiro se prepara a tripulação para a tarefa, por exemplo, submergir e entrar em contato com outro submarino, submergir à profundidade máxima possível, treinos de tiro. Se a tripulação passa em todos os exercícios, o submarino parte então para o serviço de combate.

Na maioria dos casos, nós nos deslocamos sob o gelo do Polo Norte para a embarcação não ser captada pelos satélites, pois caso o submarino se desloque em mar aberto de água limpa, ele pode ser detectado até mesmo a uma profundidade de 100 metros.

A nossa missão era patrulhar um setor marítimo em prontidão plena e uso do armamento em caso de ataque. Um submarino com 16 mísseis balísticos a bordo pode fazer desaparecer, por exemplo, um país do tamanho do Reino Unido. Cada um desses mísseis tem 10 ogivas autônomas. Cada carga tem a potência aproximada de cinco ou seis bombas de Hiroshima. Pode se dizer que nós circulávamos todos os dias com 800 bombas de Hiroshima agarradas a nós.

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Rotina debaixo d’água

Viver em um espaço confinado não é assim tão difícil como parece. Em grande parte porque você está ocupado o tempo todo, já que o plantão dura oito horas. Todos os dias, por volta das 15 horas, os tripulantes ficam encarregados de uma “pequena limpeza”.

Uns limpam o controle de comando, do qual é sempre necessário limpar a poeira; outros lavam os vasos sanitários. O mais chato é que a parte que ficar designada para você limpar não vai mudar durante toda a missão, por isso, se você começou esfregando as privadas, vai esfregá-las até o fim.

Vitória do vinho

Os tripulantes dos submarinos são muito bem alimentados. No café da manhã geralmente tem requeijão, mel e compota. No almoço ou no jantar, tem obrigatoriamente caviar vermelho e esturjão defumado. Cada membro da tripulação tem direito a 100 mg diários de vinho tinto seco.

Ainda nos tempos soviéticos, quando se discutiu como melhorar a alimentação dos membros das tripulações de submarinos, a comissão se dividiu: uns votaram pela cerveja, outros, pelo vinho.

Publicado originalmente pelo The Village

FONTE: Gazeta Russa

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Jornalista formada pela Universidade Federal do Paraná. Ganhou o Prêmio Sangue Novo do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná com uma monografia sobre o PROSUB. Feliz proprietária de um SSN classe Virginia.

5 Responses to ““Se começou lavando privadas, vai ter que esfregá-las até o fim”” Subscribe

  1. Clésio Luiz 10 de janeiro de 2014 at 16:32 #

    Se você entrega a um grupo de homens a posse de um armamento que pode varrer um país do mapa, alimentá-los bem é um ótima ideia. Afinal, um motim numa embarcação dessas é a última coisa que se deseja…

    Eu imagino também que a tripulação completa de uma nave dessas deve passar por um bom pente fino, pois ninguém quer entregar armamento nuclear nas mãos de pessoas desequilibradas ou com baixa propensão a obedecer ordens.

  2. Marcos 10 de janeiro de 2014 at 18:28 #

    Ai, ai, ai… algumas correções

    O titulo é enganoso. Achei que o tripulante iria ficar fazendo somente isso: limpando privadas. Não é o caso. Ainda bem!!!!

    Mas uma coisa que me chamou a atenção foi: “pois caso o submarino se desloque em mar aberto de água limpa, ele pode ser detectado até mesmo a uma profundidade de 100 metros.” Seria interessante a explicação disso. Qual os meios que os satélites utilizam para esse tipo de detecção? Mais: uma aeronave de patrulha marítima pode detectar um submarino por quais meios passivos e ativos?

    E em relação ao vinho, lembro de ter assistido o filme K-19, onde, durante uma refeição, um dos tripulantes comenta: “Que bom, aqui eles servem até vinho!”, ao que outro respondeu: “Não seja tolo, o vinho é para reduzir os efeitos da radiação do reator”.

  3. Mauricio Silva 10 de janeiro de 2014 at 20:06 #

    Olá.
    “pois caso o submarino se desloque em mar aberto de água limpa, ele pode ser detectado até mesmo a uma profundidade de 100 metros.”
    É detecção visual (luz). As câmeras dos satélites espiões podem fazer fotos usando diferentes comprimentos de onda. A comparação das diferentes fotos pode indicar a presença de um submarino. Claro que para isso ocorrer, as condições climáticas tem de ser excelentes. E o satélite tem de “saber” a onde fotografar. Não é assim tão “fácil”…
    A detecção de um submarino por uma aeronave se dá (normalmente) pelo uso do Detector de Anomalias Magnéticas (sigla MAD em inglês). É uma detecção passiva. Podem ser usadas as sono bóias (bóias com sonares). É a detecção ativa, normalmente usada para confirmar a presença do submarino e determinar a sua posição com maior precisão. São normalmente usadas para “confirmar” o que a sonda MAD detectou. Podem ser usadas outras formas de rastreio, cuja efetividade se dá se o submarino estiver emerso.
    SDS.

  4. bitt 11 de janeiro de 2014 at 19:30 #

    A detecção visual começou a ser cogitada nos anos 1970, em função da crescente eficiência, na época, dos sistemas de propulsão dos submarinos nucleares, que produziam mto pouco ruído. Os sistemas de fotografia por satélite, que fazem fotos em ângulo diverso do da incidência da luz solar, conseguem apontar a posição hipotética de uma nave submersa pela sombra produzida pela incidência da luz. Como disse o Marcos S., o gde problema é q um submarino submerso está em seu ambiente. Pode se esconder junto a escarpas submarinas, pode entrar debaixo do gelo, pode descer a profundidades que beiram os 3500 pés, onde não existe luz alguma. Os meios passivos e ativos são relativamente eficientes, mas o problema é que um gpo de caça e destruição tem de saber em que quadrante de mar procurar. Na 2a GM era “fácil” – colocava-se aviões de patrulha tipo Catalina em longos vôos (até seis hrs de duração) sobre determinadas posições. Só que os subs ficavam a maior parte do tempo na superfície. Não é o caso, atualmente.
    Marcos S.
    Me parece, smj, que sonobóias são hidrofones e são sistemas passivos, tamb, já que “escutam” o ruído emitido por um sub em movimento. Nos anos 1980 apareceram “boias sonares”, mas tinham a desvantagem de serem ativos, ou seja, o ruído lhes denunciava a presença e, consequentemente, a presença de uma aeronave na área.

    Sds a todos.

  5. Wagner 12 de janeiro de 2014 at 13:43 #

    Interessante. Deve ser a elite mesmo da Marinha Russa, pois são as embarcações mais importantes.

    E anunciaram que vão começar a construir mais dois Boreis esse ano !

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