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Mario Cesar Flores* – O Estado de S.Paulo

vinheta-opiniao-navalDuas estruturas institucionais controlam hoje o Brasil. A primeira, o governo de coalizão – um modelo imposto pela existência de dezenas de partidos programática e doutrinariamente amorfos, mais propensos à participação no poder e seu usufruto do que aos grandes projetos nacionais -, em que a repartição de cargos e a liberação de recursos de interesse paroquial eleitoreiro dos congressistas asseguram o apoio ao viés populista-voluntarista do Executivo. A segunda, a burocracia administrativa preenchida (aparelhada…) menos pelos critérios de capacitação e mérito e mais pela conveniência política.

Como em qualquer esquema de poder, o funcionamento do brasileiro depende da competência e da consistência ética de sua base estrutural – o poder político eleito. Poder político lato sensu: a responsabilidade estende-se aos Legislativos da União, dos Estados e municípios, embora nosso povo, indiferente à (ou desconhecendo a) dinâmica completa da democracia, só se interesse (quando se interessa) pela eleição dos Poderes Executivos. Em destaque a do presidente da República, que, na mão inversa à Federação sadia, a centralização tributária transforma no agente de nossa ilusão cultural de que o Estado pode tudo.

O pecado original do esquema está, portanto, na formação (na eleição) de sua base estrutural, que, prejudicada pela vulnerabilidade do povo à ilusão, não assegura valor adequado ao produto. Políticos dos vários partidos “surfam” na onda do brasileiríssimo “me engana que eu gosto”, valendo-se da publicidade inebriante e fantasiosa (a propagada pela televisão impacta sem precisar ler e entender) orquestrada por marqueteiros hábeis na criação de imagens míticas, no travestir meias-verdades e fantasias em verdades e fatos e no “vender” ao povo boas intenções tão óbvias quanto vazias (alguém é contra reduzir a pobreza…?). E políticos já no poder acrescentam à psicose publicitária a exploração demagógica de programas assistencialistas que, a par de pertinentes – mas nem sempre aplicados corretamente -, são formadores de imensos currais eleitorais dependentes da máquina estatal controlada politicamente. A publicidade esfuziante e o uso demagógico do assistencialismo criam versões contemporâneas do “pão e circo” romano; em evidência, hoje, as bolsas disso e daquilo e a Copa do Mundo de Futebol, com seu hexa (?) e suas “arenas” à Coliseu, onde teremos futebol para divertir e anestesiar.

A dissonância entre o potencial e a realidade socioeconômica do Brasil evidencia as limitações do modelo de governo de coalizão com pandemônio partidário, conduzido pelo produto de processo eleitoral viciado e operado por burocracia politicamente aparelhada, carente de competência e firmeza ética. Dissonância transparente em projetos fantasiosos e comumente inacabados, inflação teimosa, carga tributária alta, crescimento pífio do produto interno bruto (PIB), industrialização marcando passo e balança comercial tropeçando, 85.º lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH, da ONU) entre 186 países, caos na saúde, transporte público e (hoje muito citado) sistema carcerário, infraestrutura logística e educação insatisfatórias. E transparente já à beira da pandemia dramática, na delinquência generalizada, da corrupção política e administrativa, sonegação de impostos e desordem e violência epidêmicas, à rotina do crime abjeto e dos delitos banais, já assimilados na cultura popular.

Um cenário dessa natureza conduz naturalmente à desmoralização da (e à desesperança na) democracia clássica. Processo já sensível no Brasil, seus sintomas estão claros na indiferença e na descrença crescentes pela política. Em particular pelos Poderes Legislativos, bem refletidos ao estilo lúdico (e no caso, irresponsável) brasileiro na eleição de personagens exóticas: Tiririca foi eleito deputado federal (votação expressiva) por seus méritos políticos ou como demonstração de insatisfação e desesperança…?

Na História a fraqueza sempre induziu a tentação do milagre. Corremos o risco de emersão da ideia – vem emergindo, sem força expressiva, embora não nula – de que em países ainda em desenvolvimento, de populações enormes, grande parte delas em déficit cultural e socioeconômico, a democracia em sua integralidade anglo-saxã não resolve, há que adaptá-la à respectiva realidade nacional. O que seria isso varia com a propensão ideológica.

Não existe a ameaça de nosso quadro melífluo desembocar no autoritarismo explícito, só imaginável com saturação social e “rolezões” nacionais de alto risco, que exigissem controle autoritário. Mas são plausíveis as alternativas “mais ou menos” democráticas. Uma delas já se instilando no Brasil: a democracia populista de tendência voluntarista (o modelo esboçado no início deste artigo) protagonizada por lideranças que, simultaneamente, falam pela grande massa e se harmonizam com o grande capital – uma mistura confusa de Getúlio do paradigma “trabalhadores do Brasil”, Rousseau adaptado à multidão (minorias militantes interpretando a “vontade geral”) e Marx inautêntico (socialista-capitalista). Como em qualquer regime de fisionomia voluntarista, também a moderada versão brasileira precisa de inimigos. Na moda, hoje, a liberdade de imprensa e expressão, cujo controle já foi aventado aqui e está instalado nas “democracias” (?) chavista e kirchnerista, bem vistas pelo nosso populismo voluntarista.

Resumindo: vivemos um quadro nacional confuso, à moda sul-americana. A “cambalhota institucional” é implausível, mas não a paulatina e camuflada ascensão, sem traumas e à sombra de sistemática eleitoral viciada, do modelo em que a visão voluntarista-populista do governo precede o interesse do Estado e o rigor democrático: um chavismo tupiniquim ao gosto de parte do nosso mundo político e aceito sem ponderada avaliação por parcela expressiva do povo, apático e/ou iludido.

A solução? Voltando ao início: ela depende do poder político e este, do voto do povo…

*Mario Cesar Flores é almirante.

FONTE: O Estado de S. Paulo

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Jornalista formada pela Universidade Federal do Paraná. Ganhou o Prêmio Sangue Novo do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná com uma monografia sobre o PROSUB. Feliz proprietária de um SSN classe Virginia.

20 Responses to “Almirante Mario Cesar Flores: A solução está com o povo” Subscribe

  1. aldoghisolfi 22 de janeiro de 2014 at 14:21 #

    Concordo com tudo e destaco dois pontos fundamentais:

    ‘federação sadia’… a ‘res publica’ sempre esteve mal e a federação nunca foi sadia, já desde a sua proclamação com Deodoro.

    ‘travestir meias-verdades': é a grande força deste estado aparelhado que se serve, sempre, de uma mentira travestida de verdade; “uma meia mentira nanca será uma meia verdade”, Oscar Wilde.

    Precisamos de mais textos como este.

  2. mdanton 22 de janeiro de 2014 at 17:46 #

    Preciso do Almirantado para me fazer ouvir. rsrsrsrs.

    AGORA NÃO É OFF TOPIC!!

    TUDO que o Almirante diz se resume a isto… novo.org.br
    Brasil só tem partido socialistas oportunistas, corruptos e incompetentes.
    Não vou ser prolixo!

  3. mdanton 22 de janeiro de 2014 at 17:54 #

    Chega de PT x PSDB. Os 2 são amigos íntimos e só os incautos não perceberam.
    Não aguento mais o PSDB e suas obras demoradas, mal planejadas, e a colocação de “tatus peludos” no topo das árvores frutíferas das ESTATAIS.
    Quem acha NORMAL 15 anos (desde 1998) para se “fazer” (incompleto ainda) uma LINHA amarela de 15 km é ser ……deixa pra lá tb.
    Chega eleição e o script do PSDB é sempre o mesmo.. despoluir o rio Tiete (22 anos), Túnel ou ponte Santos Guaruja (15 anos), transformar CPTM em metrô (12 anos), Rodovia Litoral Norte (10 anos), Porto São Sebastião (20 anos)…e por ai vai…querem apostar??! o mesmo blábláblá..do PSDB

  4. Carlos Alberto Soares 23 de janeiro de 2014 at 4:29 #

    Ué tá podendo mencionar partidos e textos de forma velada sobre política ?

    Editores mudaram as instruções recentes ?

    Caro mdanton,

    Vou responder:

    EDITADO _____________________________________________________________________________

    Carlos Alberto Soares

    Este ano temos eleições. Para o bom andamento da trilogia e que assuntos técnicos e militares não desbanquem e desvirtuem nosso propósito, contamos com sua compreensão e a de todos.

    rsrsrsrs ….

  5. mdanton 23 de janeiro de 2014 at 10:28 #

    As pessoas tem uma dificuldade de entender que DEFESA é POLÍTICA e política é defesa.

    TUDO passa pela política. Se a polítca é corrupta e comporta pessoas pouco competentes a economia recente, a sociedade sente e o DESENVOLVIMENTO não acende.
    Sem desenvolvimento robusto, sem “brinquedinhos”, pois nosso país não desperta interesses estrangeiros, já que vende suas riquezas primárias para lá, num escambo nefasto que só gera subprodutos (baixo valor agregado) em nossa eoncomia.

    Vou desenhar:
    Precisamos de mais de 1 tonelada de soja para comprar um TV LED.

    Discutir material bélico no Brasil é a mesma coisa da discusão se “anjinhos tem pipiu ou piriquita”….

  6. mdanton 23 de janeiro de 2014 at 10:45 #

    “Nosso objetivo é difundir e discutir a tecnologia e história das Marinhas de Guerra e Mercante, para incentivar o debate e a reflexão, colaborando na disseminação da mentalidade marítima e……..
    …… no fortalecimento do Poder Naval do Brasil.”

    Sem economia sadia nunca teremos o “fortalecimento do Poder Naval do Brasil; ou a África (com toda aquela riqueza) tem FA eficientes?

    O pessoal entrou no jogo das esquerdas inocentemente..
    Vou desenhar:

    Depois de tirar TODAS as pessoas das instituições pública, estatais e até mesmo privadas ..as esquerdas mudaram todo o arcabouço politico, jurídico e institucional com o apoio da constituinte de 1988.
    Normatizaram tudo de forma a não terem concorrência política…uma fez endinheirados proíbem doações, propaganda antecipada, manifestações (uns são taxados de vândalos-esse NÃO pode, outros minorias discriminadas-esse podem), pesquisas….será que ninguém captou que estamos em pleno regime de exceção travestido de democracia?? #acordabrasil #urnaseletronicascorrompidas

  7. Blind Man's Bluff 23 de janeiro de 2014 at 11:00 #

    Urna Eletrônica? NÃO!

  8. bitt 23 de janeiro de 2014 at 11:02 #

    O alte Mário Sérigo sempre teve a pretensão a “intelectual da Marinha”.Escreveu coisas interessantes sobre análise estratégica nos anos 1980, mas nunca conseguiu alcançar o patamar de respeitabilidade, dentro da força, do v.alte Caminha. Quem o conhece sabe que ele se ressente bastante disso.

    Pois é – o alte Caminha não se meteria numa roubada dessas. A opinião que ele expressa, de modo bastante sistemático – afinal, é um intelectual, não podia ser de forma diferente – é uma opinião generalizada entre a classe média, da qual ele faz parte e é formador de opinião. Por outro lado, as ideias, em seu conjunto, não sõ diferentes daquelas apresentadas em todos os orgãos de imprensa convencionais – um monte de lugares comuns que não resistem a dez minutos de análise atenta. Projetos políticos, existem pelo mns três. Um está no poder, e tem sido competente o suficiente para manter-se lá. A única competência apresentada pela oposição tem sido tentar explorar certos medos da classe média (ou pequena burguesia, prá quem preferir), que sempre existiram, mas mudam de cara. Basta ver como o bom almirante tenta apelar para o espantalho da hora, os “rolezinhos”, como forma de jogar lenha na fogueira do pavor
    .
    Só acredita queessa catilinária do alte esq. Mário Sérgio, ex ministro do governo Collor de Mello, seja admirador da “democracia clássica” quem for mto ingênuo.

    É estranho que este ótimo forum de assuntos técnicos ressoe esse tipo de discurso? Não acho. Os editores só estão veiculando certos temas que são do agrado de parte de seus leitores. Afinal, alguns não demonstram informação e competência para debater temas técnicos.

    Eu, pessoalmente, eu não tomaria tal rumo, mas os “Poderes” são propriedade deles, e não minha – eles fazem o que quiserem aqui.

    Sds a todos (mns um).

  9. Almeida 23 de janeiro de 2014 at 12:39 #

    Clap! Clap! Clap! Bravo! Para o Almirante.

  10. Alexandre Galante 23 de janeiro de 2014 at 12:46 #

    Esse artigo de opinião devia ter sido postado no ForTe, mas a Nicholle achou melhor postar aqui porque o texto é do Alte Flores. Mas o pedido de não discutirmos política em posts do Naval continua de pé. Obrigado!

  11. Rafael M. F. 23 de janeiro de 2014 at 15:49 #

    A solução? Voltando ao início: ela depende do poder político e este, do voto do povo…

    Então, Almirante, f…u!

  12. Carlos Alberto Soares 24 de janeiro de 2014 at 2:16 #

    Caro bitt

    Concordo em parte.

    Vincular o nome do alte ao governo Collor é adotar a mesma linha de raciocínio que você combate e que em grande parte concordo.

    Sua colocação sobre “É estranho que…..” fica muito boa para discussões acadêmicas e espaços altamente técnicos e restrito a maioria.

    Quando a postura dos proprietários dos “Poderes” é elogiável.

    Abrem espaço e democraticamente permitem que as pessoas se expressem e creio aprenderem principalmente . Me coloco nesse grupo, certamente há mais colegas nessa posição.

    Aos mais atentos, lógico.

    Galante,

    desculpe-me, mas podes me expor o que mudaria no tópico e seus contrapontos, PN ou ForTe ?

    Minhas saudações a todos, independentemente de quão eu possa discordar.

  13. Carlos Alberto Soares 24 de janeiro de 2014 at 2:29 #

    “mdanton
    22 de janeiro de 2014 at 17:54 #

    “Mas o pedido de não discutirmos política em posts do Naval continua de pé. Obrigado!
    Alexandre Galante”

    De forma velada mdanton, entendeu ? Velada ….!

  14. mdanton 24 de janeiro de 2014 at 22:50 #

    Almirante!

    Nessas tais Urnas que devemos postar nossa fé??!!
    http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/democracia/as-urnas-eletronicas-sao-confiaveis/#comments

  15. joseboscojr 24 de janeiro de 2014 at 23:25 #

    E mesmo que as urnas eletrônicas fossem confiáveis, votar em quem?
    Se só raposas se candidatam à gerência do galinheiro não há como colocar lá uma legítima New Hampshire da melhor estirpe.
    O sistema político partidário brasileiro consegue prostituir qualquer candidato bem intencionado (raro igual um quilo de astatine) já na base, antes mesmo dele se candidatar.

  16. Carlos Alberto Soares 25 de janeiro de 2014 at 2:38 #

    Dois link’s. Mentiras ou verdades ?

    http://www.youtube.com/watch?v=Tb7cAwd-cSI

  17. mdanton 25 de janeiro de 2014 at 8:05 #

    Veja este vídeo do Carlos.
    Vocês acham mesmo que as Urnas refletem a RUAS??!! O brasileiro não é tão bobo assim gente…..Lógico que não! São pré programadas para um grande escambo entre os partidos com mais capilaridade e que tem “cacife” para protestar e não tem candidatos competitivos.

    Nem são corrompidas já saem viciadas ..como um caça niqueis e os serviços de inteligência das FA SABEM disso. Por isso Almirante ou desnudamos a GRANDE MENTIRA das esquerdas e das VERDADEIRAS ELITES ocultas, Ao longo do fórum do Rodrigo Constantino tem propostas para desmascarar a GRANDE FARSA….#apoiem #difundam

  18. MO 25 de janeiro de 2014 at 10:08 #

    rsss obviamente montadas, alias ja ums duas ou tres cenas fakes alem do engles macarronico, a pessoa nao sou be ser ironication em engles, era meçhopr chamar o joel santana pra narrar … rsssss, alias o melhor ehb o video do joel no anuncio

  19. Carlos Alberto Soares 25 de janeiro de 2014 at 11:39 #

    MO

    O idioma e a expressão idiomática não tem importância nesse caso, poderia ser até em aramaico.

    O conteúdo esse sim é que é valido.

    Eu particularmente não teria colocado textos nem fala, faria apenas uma bela apresentação de imagens reais e antagônicas.

    Creio que o efeito seria muito melhor.

    Afinal, “uma imagem vale mais que mil palavras”.

    Veja suas fotos, quando há textos são básicos, mas o suficiente.

    Porquê? Não trazem trololó, somente o que interessa,
    as imagens são as que se sobrepõem.

    Cara aqui onde eu moro camelo tá pegando senha na porta da sorveteria, eita …. 40 caos ….

  20. Carlos Alberto Soares 25 de janeiro de 2014 at 11:41 #

    Corrigindo:

    …. texto e nem voz …..

    melhor né ….(rs)

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