La Fayette - 1

Por Claudio Queiroz

A Missão Jeanne D’Arc 2014 trouxe algumas surpresas, uma delas foi o navio escolta do BPC Mistral, a fragata F-710 La Fayette, um projeto da DCN (hoje DCNS) feito dentro dos estudos da Marine Nationale para sua nova classe FL-3000(Frégate Legere, Fragata Leve) de navios multimissão.

Esta nova classe foi concebida no final dos anos 1980 para ser utilizada em conflitos de baixa intensidade no período pós-Guerra Fria. Os navios deveriam ter capacidade de servir na grande Zona Econômica Exclusiva (ZEE) Francesa (a segunda maior do mundo), ter capacidades humanitárias e operações de apoio a tropas em terra em conflitos de baixa intensidade, e ainda substituir a envelhecida classe dos Avisos A69, navios leves especializados em ASW costeiro.

La Fayette - 2

Uma das características que mais chamam a atenção quando se olha para a Fragata La Fayette é a preocupação dos projetistas em reduzir sua detecção em radares.
Utilizando do expediente em construir as laterais com ângulos de 10 graus conseguiu-se uma redução da seção reta radar(RCS) do navio. Somando a isto foi projetado um castelo de proa completamente coberto, onde toda a maquinaria de sua âncora fica protegida por uma cobertura total, possuindo portinholas que ficam sempre fechadas para esta diminuição de RCS, só sendo abertas nas fainas de atracação em portos.

Seus mastros chaminés foram projetados também buscando-se esta redução de RCS com inclinações à frente, incomuns em construção naval, utilizando na pintura de todo o navio um novo tipo de tinta com capacidade de redução do sinal radar. Com essas medidas, os franceses conseguiram fazer com que um navio de 3.800 toneladas apareça nas telas de radar com um sinal de uma embarcação de 500 toneladas, o que possibilita ao navio ser confundido com pesqueiros e outras embarcações. Mas o mais importante é a possibilidade que o navio tem de desaparecer no meio de uma nuvem de “chaff” quando estiver sob ataque de mísseis antinavio, com seu eco reduzido.

La Fayette - 3

Porém. um navio militar precisa mostrar muito mais que somente um pequeno sinal nas telas de radares, por isso a classe foi equipada com alguns componentes muito completos e modernos quando do lançamento da primeira unidade, a F-710.

Como armamento de tubo foi escolhido o onipresente sistema de canhão 100mm hoje fabricado pela própria DCNS. É um armamento de duplo emprego e com uma granada pesando cerca de 13,5kg e um alcance de 16km, para alvos de superfície, como uma cadência teórica de até 80 tiros por minuto.

Como armas leves foram instalados dois canhões GIAT 20F2 de 20mm, hoje Nexter, um em cada bordo, com uma taxa de tiro teórica de 720 tiros por minuto e um alcance máximo de 10km.

La Fayette - 4

Claudio Queiroz(BPC Mistral)

 

Na capacidade de defesa aérea foi instalado um sistema Thales Crotale CN2 com 8 misseis para pronto uso em um sistema conteirável.

Para sua capacidade de ataque a navios o sistema é o sobejamente conhecido MBDA MM-40 II Exocet, instalados em 8 células no padrão de 4 unidades para cada bordo a meia nau.

Possui um convés de voo na popa com um único ponto de pouso, para uso de helicópteros na classe até 10t como AS 565 MA Panther, SA 321G Super Frelon ou NH 90. A cabine de comando pode ser usada até estado do mar 6, cabendo aos vetores embarcados toda a capacidade ASW do navio, este sendo o maior ponto fraco da classe.

La Fayette - 5

No quesito defesa eletrônica e contra medidas está equipada com receptor de aviso de radar Thales ARBR 21 (DR 3000S), operando nas bandas em D a K, que está montado na parte superior do mastro principal; um “jammer” Thales ARBB33 operando nas bandas H, I e J; dois lançadores Sagem Défense Sécurité (antiga EADS Defence & Electronics) Dagaie de chaff e flare, instalados no convés de popa e atrás do passadiço.

Para busca aérea e superfície a classe conta com o Sea Tiger Mk2, um radar fabricado pela Thales, montado na parte superior do mastro de ré. O mesmo opera nas bandas E e F, com alcance superior a 100km. Como complemente, o navio está equipado com o Thales Castor 2J, operando na banda J, usado para direção de tiro para o canhão principal. O sistema Crotale faz uso de dois radares Thales modelo 1229 operando na banda I, no auxílio à navegação e controle dos helicópteros.

La Fayette - 6

O sistema de dados de combate é o Thales (ex Thomson-CSF) sistema TAVITAC 2000, que também é equipado com o sistema de apoio ao comando OPSMER.

A propulsão é um arranjo combinado Diesel e Diesel (CODAD), com quatro motores diesel STC SEMT Pielstick 12 PA6 V, gerando 21.000hp, impulsionando dois eixos com hélices de passo controlável. O sistema de propulsão proporciona uma velocidade máxima de 25 nós e um alcance em velocidade econômica de 12 nós de 9.000 milhas marítimas.

La Fayette - 7

Composição da classe na Marine Nationale e variantes exportadas, totalizando 20 unidades:
França: La Fayette (F710), Surcouf (F711), Courbet (F712), Aconit (F713), Guépratte (F714)
Arábia Saudita Al Riyadh, Makkah, Al Damman.
Taiwan: Kang Ding (FFG-1202) , Si Ning (FFG-1203) , Wu Chang (FFG-1205) , Di Hua (FFG-1206) , Kun Ming (FFG-1207) , Chen De (FFG-1208)
Singapura: Formidable (68), Intrepid (69), Steadfast (70), Tenacious (71), Stalwart (72) , o Supremo (73)

070704-N-2984R-002-RF La Fayette (F-710)

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Al Riyadh

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Jornalista especializado em temas militares, editor-chefe da revista Forças de Defesa e da trilogia de sites Poder Naval, Poder Aéreo e Forças Terrestres. É também fotógrafo, designer gráfico e piloto virtual nas horas vagas. Perfil no Facebook: https://www.facebook.com/alexandregalante

23 Responses to “La Fayette, uma fragata ‘stealth’ em águas brasileiras” Subscribe

  1. Corsario137 29 de abril de 2014 at 21:34 #

    Implicância irracional a minha mas nunca fui com os cornos dessa La Fayette. Sempre me deu a impressão de se vender como um navio maior do que realmente é.

  2. luizblower 29 de abril de 2014 at 21:54 #

    Não tinha me ligado ainda o quanto nossas CV-3/Tamandaré/Barroso Mod vão ficar parecidas nas especificações com essas fragatas (embora sejam menores):

    - Desenho furtivo
    - Propulsão CODAD com ênfase em alcance e custo-benefício
    - Armamento antiaéreo leve
    - Armamentos de tubo e mísseis ASuW semelhantes
    - Capacidade de operar com helis médios

  3. MO 29 de abril de 2014 at 23:12 #

    Ummm ah bão sao UQTR pra carai, mas eh inédita aqui, as duas ultimas da foto são as Taiwanelicas né ?

    Blower as Tamanduas serão horrorosdas assim tbm ? ow vamos ganhar dos otros por feiura entaum … kkkkk

  4. wwolf22 30 de abril de 2014 at 9:19 #

    as novas Barroso, se saírem do papel, serão impressas em impressoras 3D e colocadas num gabinete qualquer…
    os outros ja estao na era do canhão a laser, e nos, sendo enrolados com o projeto da nova Barroso… a Engeprom, coitada, nem merece comentários…

  5. Fernando "Nunão" De Martini 30 de abril de 2014 at 13:21 #

    “luizblower 29 de abril de 2014 at 21:54 # Edit
    Não tinha me ligado ainda o quanto nossas CV-3/Tamandaré/Barroso Mod vão ficar parecidas nas especificações com essas fragatas (embora sejam menores):”

    Luizblower,

    A grande diferença é que as La Fayette – estou falando especificamente das unidades francesas – praticamente não têm capacidade antissubmarino, pois não foram pensadas para isso. No lugar, enfatizou-se capacidade de embarcar fuzileiros para operações especiais, entre outras atribuições de proteção dos interesses franceses além-mar (inteligência, acompanhamento, missoes humanitárias, apoio a operações anfíbias, busca e salvamento). No caso das corvetas classe Inhaúma, Barroso e, creio eu, o novo projeto sucessor das mesmas, operações antissubmarino continuarão enfatizadas (e uma capacidade multimissão mais ou menos equilibrada dentro dos limites de seu porte de “mini-fragatas”) ao invés dessas outras tarefas.

    Quanto ao “armamento antiaéreo leve”, devo lembrar que os exemplares franceses receberam o Crotale pois era o míssil mar-ar disponível e em serviço na França então. A família Aster ainda estava na fase final de desenvolvimento em meados da década de 1990 (só entrou em operação na França com o porta-aviões Charles de Gaulle, no início da década seguinte), quando os primeiros navios foram completados. Ainda assim, os navios têm reservado espaço (e flutuabilidade) para que células verticais de mísseis Aster 15 sejam instaladas logo atrás do canhão, retirando-se assim o lançador Crotale de sobre o hangar – e a retirada do Crotale ajudaria a criar também uma reserva de peso disponível, em posições elevadas, para um aprimoramento dos sensores.

    Mas, como tudo isso depende de verbas de modernização que não aparecem devido a outras prioridades (por exemplo, incorporar as FREMM), as La Fayette francesas mantém-se com o Crotale original e a esperada instalação de Aster 15 não parece ser algo para logo (mesmo porque o Crotale ainda equipa diversos outros navios franceses). Já os exemplares de exportação, cujas primeiras incorporações vieram pouco depois das primeiras La Fayette, puderam receber o Aster 15.

    À época, me perguntava por que os últimos exemplares franceses não foram modificados (no projeto e na carreira de construção) para receberam Aster 15 e radares compatíveis com o mesmo, já que sua finalização foi próxima à do Charles de Gaulle. Mas olhando em perspectiva, me parece que foi uma decisão de equilibrar custos e padronização numa classe com o emprego que citei acima, assim como a capacidade de produção inicial da família Aster e radares para atender a outros programas (Horizon, por exemplo).

  6. Lyw 30 de abril de 2014 at 21:10 #

    (…) as Tamanduas serão horrorosdas assim tbm ? ow vamos ganhar dos otros por feiura entaum (…)

    Isto é muito relativo, eu particularmente, acho estes navios de configuração limpa e ângulos retos muito bonitos! Não é um consenso, mas como falei de início, é relativo.

  7. MO 30 de abril de 2014 at 23:53 #

    Lywinstone, vc definitivamente não é da antiga, rssss deves ter menos de 35, procede :-) Abs !!!

  8. luizblower 1 de maio de 2014 at 11:57 #

    Nunão,

    acho que a missão das La Fayette, como foi colocado no texto, realmente dispensa a utilização de um sistema antiaéreo que faça mais do que defesa de ponto:

    “Esta nova classe foi concebida no final dos anos 1980 para ser utilizada em conflitos de baixa intensidade no período pós-Guerra Fria. Os navios deveriam ter capacidade de servir na grande Zona Econômica Exclusiva (ZEE) Francesa (a segunda maior do mundo), ter capacidades humanitárias e operações de apoio a tropas em terra em conflitos de baixa intensidade, e ainda substituir a envelhecida classe dos Avisos A69, navios leves especializados em ASW costeiro.”

    É nesse sentido que imagino a semelhança das La Fayette com as CV-03.

    Realmente a capacidade antisubmarino deve ser a principal diferença. Mas mesmo assim, não acho que as CV-03 serão “de primeira linha” considerando a missão ASW. Afinal, não embarcarão helicópteros com sonar e nem sonar rebocado, certo?

    Meu interesse em focar nessa semelhança é discutir a missão efetiva das novas CV-03. Até então eu tinha dificuldade em encaixá-las na MB, mas acredito que as La Fayette sejam a deixa para entender isso.

    O que quero entender é a seguinte: para que missão mandamos uma escolta de primeira linha (Atualmente Niterói), para que missão mandaríamos uma CV-03 e para que missão mandaríamos um NaPaOc. Quais são as interseções entre as capacidades desses meios? Até onde eles se complementam e até onde eles substituem o outro?

    Seriam elas (as CV-03) que mandaríamos para o Líbano, certo? Ou para alguma missão semelhante no Caribe ou costa da África.

  9. luizblower 1 de maio de 2014 at 12:00 #

    MO
    29 de abril de 2014 at 23:12 #

    Blower as Tamanduas serão horrorosdas assim tbm ? ow vamos ganhar dos otros por feiura entaum … kkkkk
    ______________________________________________

    MO,

    Acho que serã memso hehehehhe. Não tem mais jeito, acho que, assim como nos aviões, o pragmatismo dos computadores e seus cálculos de RCS acabou com a beleza!

    Não sei o que você acha, mas para mim as velhas escoltas soviéticas, como os Udaloy, foram o ápice em navios bonitos. Ainda tinham aquele convés cor de ferrugem…

  10. joseboscojr 1 de maio de 2014 at 13:49 #

    Nunão,
    Também há a possibilidade de se usar o VL-MICA nos lançadores Sylver.
    Diferente do Mk-41, não há como acomodar mais de um míssil por célula, mas o MICA é bem mais em conta que o Aster-15 e dá bem conta do recado para a defesa de ponto, com sobra.
    Em comparação ao Crotale N tem pelo menos o dobro do alcance e permite a defesa contra um ataque de saturação. Acho que pra La Fayette seria uma opção interessante.

  11. joseboscojr 1 de maio de 2014 at 14:05 #

    Temos que tirar o chapéu mesmo para os franceses.
    Eu particularmente não tenho nada contra material de sua procedência, salvo o custo que parece ser um pouco mais salgado.
    No tocante a mísseis de defesa naval, eles têm toda uma família, e bem equilibrada, devo ressaltar.
    Os mísseis são: Mistral, VL-MICA-Ir, VL-MICA-RF, Aster 15 e Aster 30, e futuramente deverá estar concluído o desenvolvimento do Aster 45, com capacidade ATBM.
    E claro, não podemos esquecer do próprio Crotale-N, que serviu por muito tempo e até hoje é um sistema capaz, embora entrando rapidamente em obsolência tendo em vista a possibilidade cada vez maior de ocorrência de ataques de saturação.
    Fato interessante também é a grande sacada francesa, que adota os mesmos mísseis de uso em terra para uso naval, e alguns ainda, de uso em helicópteros e aviões.
    Mistral: terra, naval, helicópteros.
    Crotale: terra, naval
    MICA: terra, naval, aviões
    Aster 15: naval
    Aster 30/SAMP-T: terra e naval
    Aster 45: terra (e naval?).

    Vale salientar que há uma configuração quádrupla do Crotale (VT-1) que pode ser acomodada em uma única célula do Sylver, mas que até hoje não foi adotada.

  12. Fernando "Nunão" De Martini 1 de maio de 2014 at 19:37 #

    “luizblower 1 de maio de 2014 at 11:57
    acho que a missão das La Fayette, como foi colocado no texto, realmente dispensa a utilização de um sistema antiaéreo que faça mais do que defesa de ponto”

    Sim, não discordo disso, e até destaquei as missões no meu comentário.

    Só achei relevante destacar também que, à época do congelamento do projeto, não havia outra opção ao Crotale de um míssil já desenvolvido ou com previsão de desenvolvimento a tempo de equipar as primeiras unidades (lembrando que o Crotale ainda é o míssil mar-ar mais utilizado na Marinha Francesa, em fragatas de primeira linha que ainda operam). Vieram com previsão para instalação futura do Aster 15 (ou, como lembrou o Bosco, poderá ser também outro míssil lançado verticalmente como o MICA), de qualquer forma.

    Arrisco até dizer que os lançadores de Crotale da classe (ou pelo menos de parte dela) foram reaproveitados de navios desativados ou vendidos (como algumas das escoltas classe “Tourville” e o ex-Foch).

    “Realmente a capacidade antisubmarino deve ser a principal diferença. Mas mesmo assim, não acho que as CV-03 serão “de primeira linha” considerando a missão ASW. Afinal, não embarcarão helicópteros com sonar e nem sonar rebocado, certo?”

    Serão tão de “primeira linha” em operações antissubmarino na MB quanto são as corvetas e fragatas atuais, que não são capazes de receber ou hangarar os nossos poucos helicópteros capazes de mergulhar sonar (os Seahawk). Da mesma forma, nenhum navio de escolta da MB hoje possui sonar rebocado, ou seja, se pensarmos nas futuras corvetas como “segunda linha” de fato, só em relação ao futuro, quando comparadas às eventuais novas fragatas do Prosuper.

    Na nova edição da revista Forças de Defesa, a matéria especial sobre as corvetas classe “Inhaúma” detalha as missões para as quais foram planejadas, e creio que as sucessoras da Barroso ampliarão um pouco o escopo de missões (afinal, os tempos mudaram) mas o básico deverá permanecer – praticamente as mesmas funções de navios maiores, porém de forma mais limitada pelo casco menor (menor alcance, menor quantidade de munição etc).

  13. luizblower 1 de maio de 2014 at 19:49 #

    Já comprei a revista justamente por causa dessa matéria! :)

    Mas não acho que as CV-03 vão simplesmente ampliar o leque de operação das Inhaúma. O cenário mudou muito desde a década de oitenta. A missão escolta de comboios, por exemplo, praticamente desapareceu.

    Agora quanto ao alcance, eu acho que teremos um ganho significativo, afinal, tal como as La Fayette, as CV-03 não vão usar turbina. Estão sacrificando velocidade para ganhar em alcance e custo de manutenção.

  14. MO 1 de maio de 2014 at 20:45 #

    Concordo, acho os Udaloy lindos, me pergunto pq ao inves de comprar um Udaloy, comprei um Sovremenniy, sim, verdade este negocio de Stealth acabu até com cara de navio, antigamente para projetar e construir umde papelão era maior trabalho, hoje eh so pegar uma caixa de sapato e virar ao contrário … souda Antiga, detesto este design e alguem falar que eh bonito eh como se nao conhecesse as belas linhas de até os anos 80

    Fazer o que mau gosto a gente lamenta, tem gente que eh curinthiano, fazer o que … kkkk

    Abs

  15. MO 1 de maio de 2014 at 20:49 #

    em tempo =

    http://santosshiplovers.blogspot.com.br/2014/05/mv-ever-leader-3evs-descarga-de-carvao.html

    13 photos – Inbound Cosipa 5 terminal from Gladstone, Australia, to diascharge Coal in bulk

  16. Fernando "Nunão" De Martini 1 de maio de 2014 at 21:16 #

    “Mas não acho que as CV-03 vão simplesmente ampliar o leque de operação das Inhaúma. O cenário mudou muito desde a década de oitenta. A missão escolta de comboios, por exemplo, praticamente desapareceu.”

    Sim, os cenários mudaram, e por isso mesmo a própria Barroso já era diferente em relação às anteriores (maior, com melhores acomodações, mais alcance e velocidade de cruzeiro maior, indo além dos requisitos para escolta de comboios mercantes e melhorando a velocidade para escolta dentro de uma força-tarefa e para operações independentes), mas a configuração que se conhece até agora mostra que, nos armamentos e sensores, o que haverá é uma atualização para atender melhor às mesmas missões, e não uma mudança mais radical de enfoque para missões diferentes. Isso porque a grande novidade será uma melhor defesa antiaérea (mísseis mar-ar, canhão antiaéreo / antimíssil duplo e canhão médio de dupla função com mais ênfase antiaérea). As capacidades ASW e ASuW serão muito parecidas, com uma diminuição razoável da capacidade de apoio de fogo pela troca do canhão de 4,5 polegadas por um de 3 polegadas. Ao menos é o que se pode dizer por hora.


    “Agora quanto ao alcance, eu acho que teremos um ganho significativo, afinal, tal como as La Fayette, as CV-03 não vão usar turbina”

    Não contaria com nenhum aumento de alcance máximo, a não ser que se amplie a capacidade de combustível devido ao porte / deslocamento provavelmente um pouco maior (embora isso implique também em motores de maior potência). A quase totalidade do tempo de navegação da atual Barroso é feita com os dois motores diesel, e a turbina serve para as poucas ocasiões em que se precise de velocidades bem acima de 20 nós ou de pico.

    Vale lembrar que, nesse sentido, a Barroso foi um avanço em relação à classe “Inhaúma” por melhorar consideravelmente a velocidade de cruzeiro com os motores diesel mais potentes, pois a relativa falta de potência dos motores das “Inhaúma” (projetadas para um cruzeiro mais lento visando escolta de comboios numa realidade dos anos 70/89) tinham que acionar a turbina com mais frequência quando acompanhavam forças-tarefa em que outros navios tinham velocidade de cruzeiro mais altas, o que aumentava o consumo e reduzia o alcance nessas situações.

    O que vai ser possível com o CODAD das novas corvetas (combinação de provavelmente 2 + 2 motores diesel iguais) em relação ao atual CODOG da Barroso (2 diesel ou 1 turbina) é um aumento provável do alcance em velocidade máxima mantida (dado o uso de quatro motores diesel numa curva de potência próxima ao ideal no CODAD ao invés de uma só turbina no CODOG nessa situação de alta velocidade mantida continuamente, com uma sensível economia sendo esperada no consumo somado dos quatro diesel em relação ao da turbina). Talvez isso venha ao custo de uma ligeira queda na velocidade de pico (caso a potência somada dos quatro diesel em máxima potência do CODAD não seja equivalente ou superior à da única turbina no CODOG). Mas não deverá mudar o alcance máximo em velocidade de cruzeiro porque, tanto no CODAD quanto no CODOG, esta é conseguida usando-se só dois motores diesel, um em cada eixo (e a econômica com só um motor diesel em um eixo). Ou seja, o consumo em cruzeiro nos dois casos (em que hipoteticamente os dois motores diesel do CODOG fossem do mesmo tipo que os quatro do CODAD e a capacidade de combustível idem) seria teoricamente o mesmo, pois estamos falando do uso de só dois motores em ambas as situações.

    Lembrando também que os quatro motores diesel, dependendo da sua potência (que implica em tamanho e peso individual), poderão ocupar maior espaço (além de terem mais peso) na praça de máquinas do que a combinação de dois motores e uma turbina, e esse espaço / peso também pode ter implicações na redução do espaço / peso para combustível – porém, o espaço e peso ocupados pela mais complicada transmissão do CODOG dá lugar a um sistema mais simples no CODAD, o que deixa a troca mais equilibrada.

    Deverá também entrar nas contas um casco mais comprido ou não, uma boca mais larga ou não, um deslocamento maior ou não, um calado maior ou não (tudo isso com implicações no atrito), ou se haverá um crescimento mantendo-se as relações entre boca, comprimento e calado – para se ter ideia, as classes americanas “Spruance” e “Ticonderoga” têm basicamente o mesmo casco e propulsão, mas como a segunda tinha superestrutura maior e também sistemas de armas e sensores mais pesados, consequentemente tinha maior deslocamento, o que aumentou o calado. Isto gerou maior arrasto, precisando-se usar mais potência para manter uma mesma velocidade, aumentando o consumo. É um troço complicado de se chegar a conclusões assim de cara.

  17. luizblower 1 de maio de 2014 at 22:06 #

    É complicado mesmo! Obrigado pelas explicações e pelo debate, Nunão! Fico esperando a revista chegar aqui em casa para poder discutir mais sobre o assunto!

  18. Lyw 2 de maio de 2014 at 0:04 #

    MO 30 de abril de 2014 at 23:53

    Hahahah… Procede Mo, tenho um pouco menos de 35 anos…

    Abraços.

  19. Jean-Marc Jardino 2 de maio de 2014 at 7:36 #

    Para os que gostam, vai um video da futura fragata em desenvolvimento na DCN para Marinha Francesa.

  20. daltonl 2 de maio de 2014 at 9:53 #

    Acho prematuro “em desenvolvimento” pois foi apenas um “conceito” apresentado na EURONAVAL/2006, o video é de 2007.

    Antes dele, os franceses terão que decidir se comprarão todas as 11 FREMM e se as dua últimas a serem compradas serão especializadas em defesa aérea para substituir as duas Cassards que estão envelhecendo rapidamente e são armadas com SM-1 lançadas pelo velho lançador MK-13.

  21. Fernando "Nunão" De Martini 2 de maio de 2014 at 10:37 #

    Pois é, Dalton, caso não se faça a encomenda completa de FREMM, a tendência é construir navios menos caros (e menos capazes) para substituir os que ainda restarem em serviço de gerações mais antigas (George Leygues e Cassard), conforme notícia do ano passado.

    http://www.naval.com.br/blog/2013/05/17/com-reducao-de-encomenda-de-fremm-franca-pensa-em-novo-navio-menos-capaz/

    Esse conceito do vídeo de 2007 colocado pelo Jean-Marc certamente não é de um navio menos capaz e menos caro do que as FREMM…

    O fato é que equipes de projeto precisam ficar sempre em atividade e, muitas vezes, o eventual corte na quantidade prevista de uma classe de navios e a necessidade de desenvolver outra acaba servindo a esse propósito, de começar a trabalhar pra valer (não só conceitualmente, como no caso do vídeo) numa nova classe.

    Duvido que uma eventual sucessora das FREMM nas pranchetas seja um navio mais caro e complexo, num momento de corte de encomendas.

  22. Luiz Monteiro 8 de maio de 2014 at 17:35 #

    Fernando “Nunão” De Martini
    1 de maio de 2014 at 21:16 #

    Prezado Nunão,

    Concordo integralmente com seu comentário. Vejo da mesma forma.

    Abraços

  23. Fernando "Nunão" De Martini 9 de maio de 2014 at 15:53 #

    Luiz Monteiro,

    Eu me divirto mais discordando dos comentários em geral, mas também fico feliz quando há concordância!

    Mais feliz ainda ficarei em ver esse programa das corvetas realmente andando.

    Saudações!

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