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Entrevista com o comandante do submarino ‘Tapajó’, capitão-de-fragata Horácio Cartier

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Um dia a bordo do submarino ‘Tapajó’ – parte 3

Centenário-da-Força-de-SubmarinosPODER NAVAL: Comandante Cartier, o senhor poderia falar um pouco da sua carreira na Marinha, como ingressou e como chegou a comandante de submarino?

Comandante Cartier: entrei na Marinha em 1988, na Escola Naval, me formei em 1991. Ingressei na Escola Naval direto, não fiz Colégio Naval. Especializei-me em Armamento na Escola Naval. Fiz a viagem de instrução em 1992, fui promovido a Segundo Tenente e depois fui para Natal-RN servir na corveta Forte de Coimbra.

Em 1995 voltei para o Rio de Janeiro para fazer o Curso de Aperfeiçoamento de Submarino para oficiais. E desde aquele ano venho exercendo atividade em submarinos.

PODER NAVAL: E de onde veio o interesse para o senhor querer servir em submarinos?

Comandante Cartier: Foi num embarque que eu fiz como aspirante da Escola Naval num submarino. Quando eu fiz o embarque, me identifiquei completamente com a atividade submarina e estou até hoje.

PODER NAVAL: o senhor já era admirador dos submarinos, gostava de filmes sobre o tema?

Comandante Cartier: Não, o interesse foi vindo ao longo do tempo, na Escola Naval começa-se a conhecer a Marinha, faz-se a sua opção de Corpo. Você decide se vai ser da Armada, Fuzileiro ou Intendente. Eu escolhi a Armada e a habilitação em sistemas de armas e no quarto ano, como veterano, fiz o embarque no submarino Amazonas, classe Guppy.

PODER NAVAL: quais foram as funções que o senhor exerceu em submarinos até chegar a comandante?

Comandante Cartier: Primeiro eu fui encarregado da divisão de suprimentos, depois encarregado da divisão de máquinas.

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PODER NAVAL: mesmo o senhor sendo especializado em armamento?

Comandante Cartier: no momento em que você vira submarinista, precisa estar pronto para exercer qualquer função a bordo. Então o oficial pode ser da máquina, operações, ele é qualificado e aprende tudo, independentemente do aprendizado que ele teve na Escola Naval. Quando ele vira submarinista tem que estar apto a fazer qualquer atividade a bordo. Alguns até brincam que o submarinista é “supermarinista”, por essa capacidade de atuar em todas as divisões.

PODER NAVAL: em quais submarinos o senhor serviu?

Comandante Cartier: eu servi a vida toda no Tamoio. Em 1999 eu saí, fiz a viagem de instrução no NE Brasil e quando retornei fui para a divisão de operações do Tamoio.

PODER NAVAL: o senhor estava embarcado no Tamoio durante a Operação Linked Seas com a OTAN, em 1997?

Comandante Cartier: estava sim (risos).

PODER NAVAL: o que o senhor pode falar pra gente do desempenho do Tamoio naquela Operação, o que o senhor guarda de lembrança?

Comandante Cartier: naquela ocasião eu estava sob comando do capitão de mar e guerra Paulo Oliveira, que foi, pode anotar aí, por favor, o meu “Grão-mestre” em submarino.

PODER NAVAL: foi o CMG Paulo Oliveira o responsável pelo afundamento do porta-aviões Príncipe de Astúrias?

Comandante Cartier: sim, foi ele o responsável.

PODER NAVAL: havia oficiais da Marinha de Portugal a bordo do Tamoio acompanhando?

Comandante Cartier: sim, tinha um oficial observador de Portugal, que foi testemunha do feito. Eu era o oficial de águas do comandante Paulo Oliveira.

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PODER NAVAL: e como foi a recepção de vocês depois da proeza?

Comandante Cartier: primeiro foi uma surpresa para todos o desempenho do submarino Tamoio na época, operando contra Marinhas da OTAN. Foi um grande desafio para a Marinha do Brasil e nós nos saímos muito bem. Foi um grande evento.

PODER NAVAL: e depois do Tamoio, onde serviu?

Comandante Cartier: em 2001 fui para a Escola Naval ser comandante de Companhia, por dois anos. Em 2004 voltei para o Tamoio, para ser chefe de máquinas.

PODER NAVAL: como é a volta de um submarinista para servir em terra?

Comandante Cartier: o oficial submarinista normalmente quer servir embarcado, mas existem alguns requisitos de carreira e você também tem que dar vaga para os que estão vindo. Então você fica um pouco triste, mas depois verifica que sua tarefa em terra também é uma tarefa importante, principalmente essa que eu exerci na Escola Naval.

PODER NAVAL: o senhor fez muitos discípulos na Escola Naval?

Comandante Cartier: alguns, inclusive meu chefe de operações aqui, o tenente Tavares, foi meu discípulo lá, era aspirante quando era comandante de Companhia.

PODER NAVAL: e depois de ser chefe de máquinas do Tamoio?

Comandante Cartier: em 2006 fui designado para comandar um rebocador de alto mar, o Trindade, em Natal-RN.

PODER NAVAL: e como foi a experiência de comando do rebocador?

Comandante Cartier: eu já tinha uma experiência de navio de socorro, porque como segundo tenente eu servi em corveta, e o oficial que vai comandar um rebocador faz um curso de salvamento, onde ele aprende reboque, desencalhe e uma série de coisas. E a navegação é igual em qualquer lugar.

De Natal eu voltei para o Rio para fazer EGN (Escola de Guerra Naval), o CEMOS (Curso de Estado-Maior para Oficiais Superiores), em 2008. Em 2009, fui designado imediato do submarino Tikuna, onde tive oportunidade de fazer o lançamento do torpedo Mk.48.

PODER NAVAL: o senhor pegou o Tikuna novinho então…

Comandante Cartier: novinho… ele foi incorporado em 2007. Fui imediato do Tikuna por um ano e em 2010, fui pra França para participar do Prosub, onde fiquei até 2012.

PODER NAVAL: qual função o senhor exerceu no Prosub?

Comandante Cartier: lá eu era o encarregado da divisão do escritório técnico do programa de desenvolvimento do submarino (ET Prosub) na França, que era responsável por coordenar o Prosub na França.

PODER NAVAL: sua experiência como submarinista ajudou muito lá?

Comandante Cartier: a gente prestava assessoria em alguns aspectos, para atender os requisitos que a Marinha estabeleceu para o Scorpène modificado. Em 2012 eu voltei para o Brasil e assumi o comando do Tapajó.

PODER NAVAL: antes de assumir o comando do Tapajó o senhor fez algum curso?

Comandante Cartier: eu fiz o EQFCOS (Estágio para qualificação de futuros comandantes) em 2010, antes de ir para a França. Assumi o comando o Tapajó em 2012 e vou passar o comando em 2014. Vou ficar com saudade.

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PODER NAVAL: para onde o senhor vai seguir depois do Tapajó?

Comandante Cartier: fui designado para ser comandante da BACS (Base Almirante Castro e Silva).

PODER NAVAL: quais as operações que o senhor fez comandando o Tapajó?

Comandante Cartier: eu fiz a grande comissão da minha carreira que foi o “deployment” de 7 meses, a maior comissão que um submarino da Marinha do Brasil fez no exterior.

PODER NAVAL: houve algum preparo especial antes do “deployment”?

Comandante Cartier: fizemos um preparo de manutenção e logístico e o nível de adestramento foi crescendo ao longo da comissão. Se você ficar parado um mês, o nível de adestramento cai.

PODER NAVAL: o que o “deployment” trouxe para o senhor em termos de conhecimento? O que mudou depois dessa comissão?

Comandante Cartier: em termos operacionais, o fato de poder operar com uma Marinha do “estado-da-arte” como a Marinha dos EUA, com um Grupo de Batalha nucleado em porta-aviões nuclear, com escoltas com sensores também no “estado-da-arte”, é uma oportunidade única. A operação com navios desse tipo é o melhor treinamento que a gente poderia ter.

PODER NAVAL: o senhor chegou a disparar o torpedo Mk.24 Tigerfish?

Comandante Cartier: fiz quando estava no Tamoio. Nas Bahamas, durante o “deployment”, fiz o disparo do Mk.48.

PODER NAVAL: existe muita diferença do Mk.24 inglês para o Mk.48 americano?

Comandante Cartier: totalmente, é outro torpedo. Apesar de ser “swin-out” e ser guiado a fio, é outra arma, com outras características, é um torpedo sensacional.

PODER NAVAL: e como foi o disparo do torpedo nas Bahamas?

Comandante Cartier: foi contra um alvo da própria raia, um alvo móvel.

PODER NAVAL: falando sobre táticas de guerra submarina, o que o senhor poderia falar sobre o combate de submarino convencional com submarinos nucleares, quais as vantagens e desvantagens?

Comandante Cartier: o submarino convencional é muito silencioso, quando não está esnorqueando. A grande diferença é que o submarino nuclear não precisa se expor, não precisa fazer esnorquel. Essa é a grande diferença, o convencional tem a necessidade de renovar o ar e recarregar as baterias.

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PODER NAVAL: quando o submarino emprega o esnorquel, normalmente ele está com que carga de baterias disponível?

Comandante Cartier: depende da situação das baterias e da missão que vai ser cumprida. Para determinada missão estabelece-se uma capacidade bateria, então se faz um regime de esnorquel para atender aquela capacidade estabelecida para a missão.

PODER NAVAL: qual o limite mínimo de carga de bateria?

Comandante Cartier: o mínimo estabelecido em manual é 20%, é a margem de segurança.

PODER NAVAL: se o submarino tem 50% de carga de bateria e precisa recarregar até 100%, quanto tempo demora o esnorquel?

Comandante Cartier: depende da velocidade. Para recarregar, o ideal é navegar em velocidade mais baixa para recarregar mais rápido.

PODER NAVAL: antes de esnorquear, qual o procedimento para evitar ser detectado?

Comandante Cartier: faz-se uma patrulha silenciosa e usa-se o MAGE.

PODER NAVAL: quando o submarino convencional usa o esnorquel, seu sonar perde em alcance?

Comandante Cartier: perde, porque ele está aumentando o nível de ruído irradiado. Na equação sonar, quanto maior o seu ruído irradiado, menor sua capacidade de detecção.

PODER NAVAL: nós lemos numa publicação britânica que o aumento do número de navios mercantes com motores diesel facilitou a situação para o submarino convencional ficar mascarado enquanto usa o esnorquel, porque o ruído dos motores diesel do submarino é muito parecido. A informação procede?

Comandante Cartier: sim, a identificação fica mais complicada.

Embarque no submarino Tapajó - 26

PODER NAVAL: a suíte sonar do Tapajó atende bem ao comandante ou deixa a desejar?

Comandante Cartier: atende bem, mas nós não temos um “towed array” (sonar rebocado). Se tivéssemos um “towed array” a nossa capacidade de detecção seria maior. Nossos S-BR terão “towed array”, o que vai dar um “upgrade” operacional e doutrinário.

PODER NAVAL: o towed array permite a detecção de alvos na popa do submarino, não é?

Comandante Cartier: na popa e ruídos de baixa frequência.

PODER NAVAL: em condições de sonar ideais, qual a distância máxima que o Tapajó consegue detectar um contato de superfície?

Comandante Cartier: depende do perfil de velocidade do som e do ruído emitido pelo navio que eu vou detectar.

PODER NAVAL: é possível detectar pelo sonar um alvo de superfície a 50 milhas de distância?

Comandante Cartier: 50 milhas é muita coisa, eu diria que seria em torno de 50 mil jardas (cada jarda mede 0,91m), ou cerca de 25 milhas, mas depende do perfil da velocidade do som e do tipo do sonar, do nível de ruído do submarino etc. É uma equação com vários fatores.

Submarino Tapajó S33

PODER NAVAL: como o submarino sabe o perfil da velocidade do som em determinada área?

Comandante Cartier: temos um equipamento chamado velossom que fica no casco do submarino, a gente mede a temperatura e através de uma conversão sabemos a velocidade do som. Quando mergulhamos já estamos fazendo a leitura da temperatura.

PODER NAVAL: o comandante do submarino então tem como saber quando passa por uma camada termal (termoclina), para se ocultar dos sonares dos navios? É procedimento padrão se aproximar abaixo da camada para atacar navios?

Comandante Cartier: normalmente sim, procurando a melhor cota de escuta ou melhor cota de evasão, vai depender da situação. É uma arte.

PODER NAVAL: é possível realizar um ataque de torpedo sem usar o periscópio?

Comandante Cartier: sim, é o que a gente chama de ataque sonar. Mas para isso é preciso ter certeza da classificação do alvo, é preciso saber realmente que navio você está atacando. É preciso ter um banco de dados para fazer comparações de alvos, não é algo simples.

Embarque no submarino Tapajó - 3

PODER NAVAL: no filme “Caçada ao Outubro Vermelho” tem uma cena na qual o operador de sonar do USS Dallas detecta um novo submarino russo da classe Typhoon que ainda não estava classificado no banco de dados, que já tinha a assinatura acústica de seis submarinos da classe. Então o comandante ordenou classificar esse novo submarino de Typhoon número 7. O procedimento de classificação de alvos no Tapajó funciona assim também?

Comandante Cartier: o procedimento é similar.

PODER NAVAL: é possível ouvir sonoboias lançadas de aeronaves de patrulha quando elas caem na água?

Comandante Cartier: sim, se elas estiverem emitindo.

PODER NAVAL: De dentro do submarino se consegue ouvir o ping do sonar ativo de um helicóptero dipando o sonar?

Comandante Cartier: quando o ping do sonar atinge o casco do submarino faz aquele ruído característico, igual ao dos filmes.

Submarino Tapajó S33 realizando pick-up com helicóptero Super Lynx

A quarta parte da reportagem continua em próximo post…

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ECostaMOernaniCarlos Alberto SoaresGUPPY Recent comment authors
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Blind Man's Bluff
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Blind Man's Bluff

Sensacional, parabens pelo artigo, fazia tempo que n lia algo tao intetessante!

juarezmartinez
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juarezmartinez

Gostei muito das perguntas e das respostas, sem aqueele tradicional “fudêncio lero lero” e gostei mais ainda da postura do Com. Cartier sem frescuras marionáuticas.

Parabéns a ambos.

Joker
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Primeiro parabéns ao Galante e ao CF Cartier. Segundo, essa série de reportagem está excelente, coroando um longo trabalho sobre a temática feito no site há alguns anos. E por fim, o Comandante Cartier pela sua personalidade e características de submarinista é uma figura mítica em uma OM de Natal-RN.

Colombelli
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Colombelli

Excelente, muito técnico e instrutivo. Parabéns. Repitam com outras embarcações.

Fernando "Nunão" De Martini
Editor
Famed Member

Colombelli,

De fato, trata-se da mesma linha de entrevistas com enfoque operacional, com comandantes de navios da Marinha, que temos feito e publicado em várias edições da revista Forças de Defesa.

Por exemplo, a fragata Niterói, o monitor Parnaíba e a corveta Jaceguai.

Continuaremos fazendo.

joseboscojr
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joseboscojr

Muito legal!
Eu tenho só mais umas 30 perguntinhas pra fazer pro comandante. rsrss
Parabéns à Trilogia.

Guilherme Poggio
Editor
Noble Member

Faço das palavras do Blind Man’s Bluff as minhas palavras. Sensacional!

A receita para uma boa entrevista é um entrevistado e um entrevistador que entendem do assunto.

Darkman
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Darkman

Muito bacana essa entrevista, mostra um pouco a capacidade dos nossos milicos da MB.

Parabéns pelo trabalho Galante

GUPPY
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GUPPY

Show. Alto nível entre entrevistado e entrevistador.

Viram, foi um GUPPY (Amazonas -S16) que seduziu o Comandante Cartier.

Carlos Alberto Soares
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Carlos Alberto Soares

Parabéns, muito bom.

Como surgiu comentários PROSUB e SCORPENE podia ter dado “um apertãozinho”, mas reitero que gostei.

ernani
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ernani

Muito boa entrevista. Parabéns !

quanto mais sabemos, mais curiosidade desperta.

O Brasil já estava familiarizado com a tecnologia alemã e inclusive já fazia a montagem do IKL209 aqui, com supervisão dos alemães. Além do sonar rebocado, que ganhos serão incrementados com a tecnologia francesa?

Quanto tempo será necessário para alcançarmos o mesmo nível de adestramento com os novos submarinos?

No futuro seria interessante trocarmos a esquadra nucleada em NAes por uma nucleada em Subs?

MO
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ECosta
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ECosta

Tinha visto que os SBRs não terão tower array. Este capitão nesta matéria fala que sim.