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‘Operação Mincemeat’: um cadáver em missão de guerra

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A Operação Torch, na qual ocorreram os desembarques simultâneos no norte da África de cerca de 108 mil soldados britânicos e americanos em novembro de 1942, foi um sucesso. No início de 1943, os Aliados tinham um trampolim para lançar operações anfíbias na Europa ocupada pelos nazistas. A ilha da Sicília ao largo da costa italiana era o próximo alvo mais sensato para os planejadores de invasão, mas esse fato não era desapercebido pelos milhares de soldados alemães que ocupavam a ilha e que esperariam a invasão.

Surge então Ian Fleming, um oficial de inteligência naval britânico que um dia alcançaria fama mundial como o autor dos romances originais do agente secreto James Bond. Acredita-se amplamente que foi Fleming quem concebeu a ideia de plantar planos enganadores em um cadáver que seria encontrado pelos alemães. O plano foi realmente inspirado por um romance policial que ele havia lido.

A essência do que se tornou conhecido como “Operação Mincemeat” foi uma ideia simples, mas para que ela funcionasse, medidas elaboradas deveriam ser tomadas. Assim como os oficiais de inteligência geralmente assumem uma identidade falsa para realizar seu trabalho, uma identidade foi criada para um trabalhador itinerante galês morto, chamado Glyndwr Michael, que foi transformado por oficiais de inteligência em Comandante (Major interino) William Martin, do Royal Marines.

Quando o “Major Martin” foi encontrado flutuando na costa da Espanha por pescadores em 30 de abril de 1943, aparentemente como vítima de acidente aéreo, ele tinha bilhetes de passagens, cartas de sua noiva e até contas não pagas em seus bolsos, mas a verdadeira isca inteligente veio dos planos secretos contidos em uma maleta acorrentada ao seu casaco, que pretendia mostrar que os britânicos estavam planejando surpreender os alemães na Grécia e Sardenia, e não na Sicília.

A decisão de depositar o major falsificado no mar ao largo da Espanha através do submarino HMS Seraph foi prática. A Espanha era oficialmente neutra durante a Segunda Guerra Mundial e, portanto, suas águas não seriam patrulhadas tão vigorosamente quanto as da França ocupada ou de outras áreas sob o controle do Eixo. O ditador Francisco Franco devia sua vitória na Guerra Civil espanhola em parte à Legião Condor de Adolf Hitler e à Luftwaffe, por isso é lógico que qualquer pessoa importante que as autoridades espanholas descobrissem fosse passada para os nazistas.

O documento de identidade falso do Major William Martin, um dos documentos falsos que estabeleciam a boa fé do agente morto para os agentes do Eixo, que repassaram a informação enganosa que levava a Berlim
Foto de arquivo mostrando o corpo preparado do “Major Martin” antes de ser depositado no Oceano Atlântico em abril de 1943 – Arquivos Nacionais da Grã-Bretanha

Claro que apenas um corpo, literalmente, de cor azul, supostamente levando informações secretas, não iria enganar todos na Abwehr (Inteligência Militar Alemã), e isso não aconteceu. O que a Operação Mincemeat conseguiu fazer, como as operações bem sucedidas de desinformação sempre fizeram, é injetar incerteza no processo de tomada de decisão de um adversário. Isso cria confusão e mina a confiança na liderança do inimigo, desperdiça seus recursos, e diminui a habilidade de fazer a guerra.

Nesse caso, os alemães, que haviam perdido um quarto de sua força na frente oriental em fevereiro de 1943 em Stalingrado, seguidos pela evisceração de seus Afrika Korps naquela primavera, não podiam se dar ao luxo de reforçar as tropas que tinham no Mediterrâneo. Eles só podiam trocá-las de posição. A informação espúria transmitida pelo major britânico fictício forçou as preciosas tropas que os alemães tinham a se mudar da Sicília para a Grécia e a Sardenha. Nunca será conhecido se a Operação Mincemeat sozinha se mostrou prejudicial para o esforço alemão para manter a Sicília quando a Operação Husky começou em julho de 1943, mas as baixas durante a operação foram menores do que o esperado.

E assim foi que centenas, senão milhares de soldados aliados e marinheiros deveram suas vidas a um oficial que nem sequer tinha sido recrutado até que o rigor mortis se estabelecesse.

Certamente, seu lugar de repouso final não foi o mar, mas o túmulo, onde ele foi colocado não muito tempo depois de ser encontrado pelos espanhóis. Lá ele permaneceu sob seu nome presumido, literalmente, até 1997, quando sua verdadeira identidade foi finalmente adicionada à sua lápide.

FONTE: Hampton Roads Naval Museum

33 COMMENTS

  1. Alguns possíveis furos nessa operação.
    Vítima de um acidente aéreo que não existiu?
    Colocam identificação clara e precisa de um militar tão importante?
    Os planos estão detalhados de forma clara e precisa…
    O corpo será encontrado?

  2. Na década de 50 foi feito um filme, o título era ‘O homem que nunca existiu’. Tem um documentário disponível, só que está em espanhol:

  3. Antônio 19 de outubro de 2017 at 21:29
    Não foi assim como colocou assista o video que eu postei a partir dos 22min até pelo menos os 33min. Como disse está em espanhol, mas dá p/ entender bem.

  4. Durante a Batalha da Inglaterra os alemães, inocentemente, transmitiam as condições climáticas corretas das áreas a serem bombardeadas. Assim os ingleses previam e direcionavam suas defesas AAA.

  5. Delfim Sobreira 19 de outubro de 2017 at 23:57
    Nesse período ainda não havia como decifrar o código Enigma. Os ingleses se orientavam pelo sistema de radar.

  6. _RR_ 20 de outubro de 2017 at 8:14
    Eu o citei no meu 1º comentário:
    “Na década de 50 foi feito um filme, o título era ‘O homem que nunca existiu’. ”
    Mas o documentário que coloquei o link é mais informativo. Abs.

  7. Olha, este é um fato histórico bem comprovado, não entendo porque lançar dúvidas sobre ele.
    É claro que a complexidade de todo o enredo, da exaustiva preparação e da execução não cabem numa simples reportagem como esta, logo há que se ter em mente que não se jogou um corpo no mar sem mais aquela…..
    Inglaterra e Alemanha possuíam excelentes serviços de informações e contra informações- que travavam uma intensa batalha – logo o engodo do Major certamente não era uma iniciativa amadora. No mais, deve ter contribuído – como era esperado que fizesse – para a diluição das forças alemãs na região.

  8. Eles começaram a ficar inteligentes depois de Stalingrado, e a derrocada alemã na Rússia.Antes disso até saíram corridos da Europa e não foram dizimados por que a divisão alemã parou em Dunquerque.”A história é escrita pelos vencedores”.

  9. Fabio Jeffer 20 de outubro de 2017 at 7:52

    Acho que na época da II GM as inteligências britânica e soviética eram equivalentes. Mas depois veio o Mossad e superou ambas.

  10. A operação é tratada brevemente na minissérie Fleming, exibida na Netflix – um estilo diferente de enredo, que me agradou.
    .
    Ao colega Renato acima, a Batalha da Inglaterra e a Campanha do Norte da África começaram antes da decifrada nazista no leste. Embora, a Campanha da Tunísia seja de fato posterior a rendição alemã.

  11. A história da espionagem na 2ª GM é fantástica. Procurem pesquisar por 2 bons exemplos de espiões duplos : o Agente Garbo ( espião duplo que desempenhou um papel importantíssimo no na operação Overlord, o dia D ) e o Eddie Chapman. Outra coisa, o chefe da Abwehr, Almirante Canaris, era anti-nazista.

  12. Ao contrário do que diz a matéria, Ian Fleming não teria esse destaque, em depoimento p/ um documentário muitos anos depois a secretária do Ewen Montagu disse tudo foi planejado por Montagu e um oficial aviador, não me lembro seu nome.

  13. Engraçado ver o povo falando da supra espionagem soviética.
    Stalin mandou fuzilar o espião que descobriu sobre a invasão alemã.
    Se ela fosse tão boa assim coisas como essa não teriam acontecido. Nem eles acreditavam na veracidade dos fatos dos seus espiões por acharem absurdo.
    Mas como sempre, a galerinha do “russo maravilha” não quer ficar por baixo.
    Lembrem-se: No início da ofensiva alemã na Rússia, se não fossem os comboios que saiam dos Estados Unidos abarrotados de equipamentos militares para os russos, hoje, eles estariam falando alemão e não cirílico. O rolo compressor mas que funcionou com o motor de terceiros. Quem leu “Ação das Pequenas Unidades Alemãsna Campanha da Rússia”, de Celso dos Santos Meyer, vai ver que a inteligência russa não era tão inteligente assim, muito pelo contrário. Muitas vezes chegavam a sacrificar seus soldados por informações inúteis. Basicamente foram o que fizeram a guerra toda. Lutaram como bárbaros porque não passavam disso no final das contas.
    .
    E que comece o mimimi.
    .
    Abraço

  14. _RR_ 20 de outubro de 2017 at 16:50
    Que é isso, amigo. Assista o documentário que coloquei o link, é bem interessante. Abs.

  15. LucianoSR71 ( 20 de outubro de 2017 at 17:03 );

    Muito bacana o documentário.

    Obrigado pela indicação. 🙂

    Saudações.

  16. _RR_ 20 de outubro de 2017 at 18:02
    Se vc entende bem o espanhol, tem um site só de documentários, tem vários temas como história, ciência e tecnologia, biografias, e por aí vai, me dá raiva de ver quanta coisa tem dublado ou original em castelhano e em português, quase nada está disponível. O site é:
    https://www.documaniatv.com/
    Tem até um documentário mais atual sobre essa operação, feito por alemães c/ muitas entrevistas, inclusive da secretária do Montagu:
    https://www.documaniatv.com/historia/historia-de-los-archivos-secretos-operacion-mincemeat-video_6f783bdda.html

  17. Carlos Alberto Soares 22 de outubro de 2017 at 21:13
    O filme é de 1956, deve ter mais de 15 anos que eu assisti pela última vez – não o tenho tanto na memória, então tem muitas diferenças dele p/ o que realmente ocorreu, comparando-se c/ as informações levantadas sobretudo no documentário mais recente? Abs.

  18. LucianoSR71
    .
    As informações eram transmitidas abertamente em rádio, de acordo com a edição da RFA sobre a Batalha da Inglaterra.
    .
    Outro mico foi o engodo sobre o ponto de desmbarque da Operação Overlord, enganaram que seria em Calais e não na Normandia.
    .
    Onde ficavam os esconderijos da inteligência alemã ? Nas filiais da Lufthansa !

  19. Delfim Sobreira 24 de outubro de 2017 at 19:36
    Acho quem alguém na revista confundiu as coisas. As informações meteorológicas eram transmitidas pelo código Enigma, tanto que ao saberem que as 1ªs mensagens do dia eram sempre essas e somando que todas começavam c/ um ‘Heil Hitler’ a equipe inglesa de decodificação se utilizou p/ ajudar a conseguir seu êxito. Outra, quando os alemães descobriram que a rede de radar era efetiva, passaram a bombardeá-las – p/ sorte dos ingleses, deixaram de ser prioridades, como os aeródromos, quando o bigodinho mandou arrasar Londres.
    Quanto aos despistes em um dos meus comentário acima eu citei 2 espiões duplos que foram fundamentais nisso: Eddie Chapman e principalmente o Agente Garbo. Se não os conhece assista o documentário em espanhol ( é inacreditável o que esse cara fez até mesmo depois da guerra ):
    https://www.documaniatv.com/biografias/garbo-el-espia-el-hombre-que-salvo-el-mundo-video_caf460b38.html
    e em inglês sobre o Eddie Chapman:
    https://www.youtube.com/watch?v=j8ESP4dR-ek&t=38s
    sobre ele tem também um filme de 1966 : Triple Cross.
    Abs.

  20. Luciano aeródromos naquela época era irrelevantes, os caças daquela época podia decolar de qualquer pista semi preparada. As estações de radares sempre foram alvos desde as primeiras operações na batalha da Inglaterra.

  21. Augusto 25 de outubro de 2017 at 7:18
    “aeródromos naquela época era irrelevantes, os caças daquela época podia decolar de qualquer pista semi preparada”. Vc está enganado, aviões não precisam apenas de um campo p/ decolar, precisam ser abastecidos, armados e reparados, os pilotos precisam de uma área de descanso próxima, oficinas, armazéns, tanques de combustível, caminhões, tratores, etc., ou seja vc simplesmente ignorou toda a logística necessária.
    “As estações de radares sempre foram alvos desde as primeiras operações na batalha da Inglaterra.” Negativo, se assim o fosse não os ingleses não teriam resistido nem 2 semanas. Sem os radares não haveria o controle dos caças que foi tão decisivo p/ que um nº bem menor de aeronaves conseguisse dar combate a poderosa Luftwaffe.
    Não sou historiador, mas pesquiso especialmente sobre 2ªGM há mais de 35 anos. Abs.

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