
De boas intenções, o fundo do mar está cheio – Parte 5
A Classe W de submarinos de ataque diesel-elétricos da União Soviética (codinome Whiskey no alfabeto da OTAN) foi um dos notáveis designs dos anos 50. Aplicando os ensinamentos colhidos com os revolucionários Tipo XXI alemães do final da Segunda Grande Guerra, foi construída em massa. Simples, eficientes, elegantes e de desempenho adequado, os Whiskeys contribuíram decisivamente para a expansão da força submarina soviética.
Bem, ao ler este início de artigo, você pode se perguntar: o que esse texto inicial, que fala de elegância e eficiência, tem a ver com a foto grotesca acima? Nem tudo é bonito e faz muito sentido na história do desenvolvimento de submarinos, e essa variante lançadora de mísseis de cruzeiro da classe W, chamada pela OTAN de “Long Bin” (literalmente, lata comprida) é uma prova disso.

A Classe W, cujo design aprimorado pelo estudo do Tipo XXI alemão (como pode ser percebido nos desenhos acima) foi terminado por volta de 1950, foi planejada pelo regime de Stalin para ser produzida em massa, em partes pré-fabricadas. Os planos previam a construção de nada menos que 800 unidades em 9 anos. Com a morte de Stalin, esse projeto gigantesco sofreu um corte, mas, ainda assim, não menos de 260 unidades foram construídas. Uma frota imensa, perdendo apenas para os mais de 600 Tipo VII alemães construídos (embora o ritmo de lançamentos e afundamentos dos Tipo VII ao longo do conflito significasse que o número operacional, a um dado momento da guerra, se equiparasse à frota dos Classe W no fim dos anos 50).
Confiáveis, baratos, equipados com 4 tubos de torpedo na proa e 2 na popa, com razoável capacidade oceânica dada pelo seu porte médio (76 metros de comprimento, 6,5 metros de boca e deslocamento de 1.350 toneladas submerso) capazes de 18 nós na superfície e 14 nós submersos, a maior deficiência dos Classe W era o nível de ruído que, embora aceitável nos anos 50, já era demasiado nos anos 60, pelo que as primeiras desativações das unidades da classe foram iniciadas já naquela década, e intensificadas nos anos 70, com a entrada em serviço de sucessores muito mais silenciosos. Mas a contribuição da Classe W, na formação de uma enorme quantidade de submarinistas, não pode ser negada.

Agora compare a foto do elegante submarino acima com a do topo deste artigo. Como algo tão feio e grotesco pode ser um desenvolvimento da bela Classe W?
A própria quantidade de Whiskeys disponíveis era um encorajamento a utilizar unidades da classe em experiências com novos armamentos. Um desses era o míssil de cruzeiro SS-N-3 (codinome “Shaddock” na OTAN), capaz de velocidades próximas de Mach 1.5 e capaz de entregar uma respeitável ogiva nuclear de 350 KT a distâncias que algumas fontes atuais indicam que podiam chegar a 500 km (Comumente, se falava na época em 200 – 300km). A primeira experiência foi a instalação simples e rústica de um lançador míssil no convés de um Classe W, em meados dos anos 50, o que foi seguido por uma instalação melhor planejada, embora ainda tosca, de um lançador duplo atrás da vela e voltado para a popa, capaz de elevar dois mísseis ao ângulo de lançamento ideal (entre 15 e 18 graus). Cinco Whiskeys receberam essa adaptação. Os lançamentos eram feitos com o submarino emerso, e a guiagem dependia de outros meios que não os do submarino (inercial instalada no próprio míssil ou aeronaves).

Se a Classe W já era um tanto ruidosa, os chamados “Whiskey Twin Cylinder” (cilindro duplo – a designação soviética do projeto era 644) foram talvez os mais barulhentos submarinos do pós-guerra. Mas foram importantes para testes do conceito de submarinos SSG (submarino convencional lançador de mísseis de cruzeiro) soviéticos, e novos desenvolvimentos se seguiram, levando à eficiente Classe J (Juliett), derivada dos submarinos de ataque Classe F (Foxtrot). No meio do caminho desse desenvolvimento, estava o pavoroso “Whiskey Long Bin” (codinome da OTAN para o que, na União Soviética, era o projeto 665), projetados pelo TsKB-112 sob a liderança de B. A. Lyeontyev.

Apesar do aspecto improvisado, não era uma adaptação fácil ou apressada do projeto, por assim dizer. Uma seção extra de 7,8 metros tinha que ser incorporada ao casco, e uma nova superestrutura, gigantesca em comparação com o porte do submarino, foi planejada para abrigar quatro lançadores à prova d’água do SS-N-3, voltados para a proa e no ângulo correto de lançamento. A adaptação mostrou-se menos ruidosa no deslocamento do que os “Twin Cylinder”, mas mesmo assim era muito barulhenta.

A manobrabilidade do submarino era extremamente afetada pela “vela”, assim como seu desempenho. O comprimento subiu para 86,7 metros e o deslocamento, para 1.524 toneladas submerso. Algumas fontes dizem que a velocidade máxima submersa ainda chegava a 12 nós, mas outras são taxativas em baixar esse valor para menos de 9 nós.

Como passo para o desenvolvimento do conceito, os “Long Bin” eram válidos, mas a quantidade construída mostra, isso sim, que valia tudo na corrida tecnológica / armamentista da Guerra Fria, principalmente na virada dos anos 50 para os 60: seis unidades foram lançadas entre 1960 e 1963. Embora essa quantidade pareça pequena, se comparada aos números grandiosos da maioria dos projetos da época, há fontes que consideram esses seis um exagero para um projeto que, já no papel e nos cálculos de desempenho, deveria mostrar limitações muito claras. Isso mesmo pesando-se as necessidades prementes da corrida armamentista.

E mais, havia a questão do “timing”: os lançamentos foram muito próximos, temporalmente, do desenvolvimento de uma classe muito melhor, a citada “Juliett”, da qual 16 unidades foram lançadas entre 1961 e 1966. E mesmo os Juliett eram contemporâneos da Classe E (Echo) de submarinos nucleares capazes de lançar primeiramente seis, depois oito mísseis de cruzeiro.


Hoje, numa análise fria de uma “guerra” bem mais quente do que o nome que recebeu, pode-se perceber os gigantescos gastos, em recursos financeiros, humanos, técnicos e materiais, de projetos fora do “timing” adequado, quando praticamente tudo parecia prioridade. Mesmo ideias que, já no papel, deveriam parecer muito inferiores a outras mais promissoras, desenvolvidas quase ao mesmo tempo e que acumularam longas folhas de serviço na Marinha Soviética.
Surpreende que os “Whiskey Long Bin”ainda assombraram seus observadores (e provavelmente seus tripulantes) por pelo menos uma década de operação limitada, ao lado de seus primos nascidos quase ao mesmo tempo, porém muito superiores. De boas e más intenções, o fundo do mar da Guerra Fria estava cheio.

Esta série do Blog do Poder Naval é dedicada a projetos de submarinos que tiveram a intenção de inovar, quebrar tradições, testar novos limites, ou simplesmente resolver desafios táticos e estratégicos com a melhor das intenções. Mas que no fim deram com os burros n´água, literalmente.
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