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O Poder Naval OnLine está trazendo de volta para a internet uma série de artigos exclusivos que foram publicados no passado pelo site e que são, até hoje, referência no assunto.

É uma chance para que os nossos leitores possam rever alguns dos principais textos já publicados aqui. Aos leitores mais recentes trata-se de uma oportunidade única de manter contato com informações que se tonaram referência no meio.

Iniciamos este projeto com a reedição do texto sobre a Quarta Frota e a  estrutura militar unificada dos EUA. O texto em questão foi publicado originalmente em 2008.

Aproveitamos para abrir este espaço também para que os nossos leitores enviem mensagens sobre os textos que gostariam de ver novamente publicados.

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Hidropirataria na Amazônia, um delírio

Antonio Felix Domingues

Há anos o fantasma da hidropirataria ronda cabeças no Brasil. Embora seja contada como uma história quase policial, a hidropirataria é um delírio que, em vez de contribuir para maior valorização da água, acaba desviando a atenção de problemas reais, como a insuficiente cobertura da rede de água tratada para as populações amazônicas, o índice mais baixo do Brasil.

A história, tema recorrente na mídia, conta que grandes navios-tanque vêm até o Rio Amazonas, ora próximo a Manaus, ora na sua foz, para roubar água do território brasileiro e levá-la para países sedentos. À primeira vista, a hidropirataria nos revoltaria e teríamos, evidentemente, de tomar providências contra a atividade. Entretanto, essa história não encontra fundamento, posto que as leis da economia, de forma indistinta, regem os interesses de todas as atividades comerciais.

Em valores atuais, 1 m3, ou 1 tonelada de água, custa entre US$ 0,25 e US$ 0,50 por dia para ser transportado em navios de grande porte para granéis líquidos. Qualquer viagem para um dos chamados “países com sede”, localizados no Caribe ou no Oriente Médio, por exemplo, demoraria vários dias, ao que se impõe uma realidade importantíssima: o custo da água atingiria valores superiores a US$ 3 por m3 para uma viagem de 10 dias a 13 dias, mais os custos de tratamento para torná-la potável, ao redor de US$ 0,40/m3. Esses valores nos mostram a impossibilidade do comércio mundial de água bruta para abastecimento público utilizando-se o transporte marítimo, porque os custos do frete de granéis líquidos tornam a atividade inviável em distâncias superiores a 500 km.

A realidade que está resolvendo a sede dos países é a dessalinização e o reúso, que, com tecnologia e escala, operam a custos cada vez menores. Em Israel, três plantas dessalinizadoras (Ashkelon, Hadera e Sorek), no modelo de parcerias público-privadas (PPPs), fornecem água potável a 3,5 milhões de pessoas a um custo médio de US$ 0,60/m3. Dessa maneira, Israel, dentro de alguns anos, não vai mais comprar água da Turquia, o único caso conhecido de transporte de água em navios-tanque e que, apesar da distância de apenas 600 km, está perdendo toda viabilidade econômica.

Existem hoje cerca de 380 plantas de dessalinização em todo o mundo. No Brasil há apenas uma pequena unidade, funcionando na Ilha de Fernando de Noronha, que opera ao custo de US$ 1/m3. É interessante ressaltar que nem para Fernando de Noronha compensaria levar água em navios-tanque.

Existe, sim, um comércio de água entre países, de características muito limitadas, que ocorre por aquedutos, como, por exemplo, entre Lesoto e África do Sul, Malásia e Cingapura, Turquia e Chipre.

Por outro lado, o Brasil, o país mais rico do mundo em água doce, começa a se beneficiar com a exportação de água, mas não na sua forma líquida, e sim da maneira que se convencionou chamar de água virtual, aquela que é exigida para a produção de bens agrícolas ou industriais. Alguns produtos, como grãos, frutas, carnes, aço, papel, açúcar e álcool, demandam grandes quantidades de água para serem produzidos e muitos países já encontram dificuldades ambientais para a produção desses produtos e, por isso, precisam importá-los de países com água e solo em abundância, como o Brasil, por exemplo.

Provavelmente a história da hidropirataria nasceu de uma confusão que se faz com a prática do uso da água como lastro para os navios. Sem o lastro o navio não tem segurança, navegabilidade nem equilíbrio para a viagem, operações e manobras necessárias. A água de lastro é bombeada para dentro e para fora dos navios, de acordo com a necessidade operacional. Essa prática rotineira tem trazido ao mundo problemas expressivos por causa da introdução de organismos invasores que passam pelos filtros da rede e das bombas de lastro. Atualmente, cerca de 5 bilhões de toneladas de água são movimentadas por ano entre diferentes regiões do globo.

Estimam-se em US$ 100 bilhões por ano os prejuízos globais causados por espécies invasoras na água doce levadas de um continente a outro. Os Estados Unidos gastam por ano cerca de US$ 10 bilhões, principalmente por causa do mexilhão zebra (Dreissena polymorpha).

No Brasil, há cerca de dez anos, foi introduzido o mexilhão dourado (Limnoperna fortunei), trazido por navios do Sudeste Asiático à Bacia do Prata. Para tentar prevenir o flagelo mundial provocado pela introdução de espécies exóticas a Organização Marítima Internacional (IMO), a agência das Nações Unidas responsável pela segurança da navegação e prevenção da poluição marinha, adotou, desde 2004, uma nova Convenção Internacional para Controle e Gestão da Água de Lastro e Sedimento de Navios.

Ainda que o transporte de água doce por navio fosse economicamente viável, quem o fizesse estaria contrariando o principal pressuposto dessa convenção, que é despejar no mar a água doce de lastro trazida de qualquer país, antes de retornar, para evitar a contaminação.

Esforços têm sido intensificados para fiscalizar a água de lastro em costas e portos brasileiros. Esperamos que o Brasil possa, num futuro breve, ser citado como um bom exemplo para os demais países, signatários ou não, da referida convenção.

Portanto, problemas reais de água na Amazônia existem, sim, embora não despertem tanta atenção. Como, por exemplo, o fato de que na área mais rica de água doce do planeta cerca de 40% da população ainda não tem acesso a água tratada, o índice mais baixo no País, cuja média é de cerca de 10%. Esse é, sem dúvida, um fato incômodo e real, que deveria ser objeto de nossa preocupação.

FONTE: O Estado de S. Paulo – 10/07/2010

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Os navios-aeródromo e o futuro da Marinha

O Brasil necessita de uma Marinha de Guerra polivalente, capaz de operar em áreas marítimas distantes de seu litoral, na defesa da soberania e dos interesses nacionais. Além das águas sob jurisdição nacional (que constituem a “Amazônia Azul”), a fronteira marítima Brasil-África e as vias de acesso ao Atlântico Sul são áreas estratégicas essenciais para o país.

É amplamente difundido o emprego de helicópteros a bordo de navios de guerra. Entretanto, o Brasil está entre os nove países do mundo que possuem algum tipo de navio-aeródromo (NAe) capaz de operar com aeronaves de asa fixa. Na América do Sul, apenas Brasil e Argentina já possuíram navios dessa classe (dois NAe cada). Atualmente resta apenas o São Paulo, da Marinha do Brasil.

As Marinhas de potências navais médias empregam seus NAe em cenários limitados, no desempenho das tarefas de controle de área marítima e de projeção de poder sobre terra (em apoio a operações anfíbias de porte modesto). A Marinha dos EUA, ao contrário, emprega seus NAe de propulsão nuclear como instrumentos de projeção de poder em escala global.

O Plano de Articulação e Equipamento da Marinha do Brasil (PAEMB) para o período 2010-30 prevê a obtenção de dois NAe capazes de operar com aeronaves de asa fixa, no horizonte temporal 2010-32. Este plano também contempla a perspectiva de obtenção de quatro navios-aeródromo de helicópteros de assalto (NAeHA), no horizonte temporal 2012-28.

A relação dos meios aéreos previstos aparentemente confirma a opção da Marinha por aviões de tipo convencional. Isto inclui a obtenção de 48 aeronaves de interceptação e ataque de alto desempenho (possivelmente uma variante naval do F-X2). Também está prevista a obtenção de outras 24 aeronaves de asa fixa para missões de apoio, além de diversos tipos de helicópteros.

Os meios operativos mencionados no PAEMB resultam de estudo de necessidades, não constituindo – ao contrário do que supõem alguns – um programa de encomendas. Os planos do Ministério da Defesa para as três forças singulares só terão força de lei após serem aprovados pelo Congresso Nacional e sancionados pelo presidente da República.

Há quem pergunte para quê o Brasil precisa de um NAe – ou até defenda a opção por uma classe de navios porte mais modesto, dotados de rampa “Ski Jump” na proa e capazes de operar com aeronaves STOVL (Short Takeoff/Vertical Landing), de decolagem curta e pouso vertical, ou STOAL (Short Takeoff/Arrested Landing), de decolagem curta e pouso com aparelho de parada.

Contudo, se a tendência atual for confirmada, o NAe São Paulo poderá ser substituído por dois NAe de 50 a 60 mil toneladas de deslocamento carregado, dotados de catapultas e aparelho de parada para aviões convencionais. Apesar de ser mais caro, um NAe com tais características teria relação custo-benefício mais favorável do que um menor, operando com número reduzido de aeronaves.

O custo total de vida útil de um navio inclui os custos de obtenção, manutenção e operação (inclusive o custo da tripulação). No caso de um NAe, devem ser incluídos também os custos de obtenção, manutenção e operação das aeronaves. O custo de projeto e construção de belonaves pode também ser reduzido pela economia de escala obtida com o aumento do número de encomendas.

A futura classe de NAe da Marinha do Brasil poderá ser projetada e construída no País – possivelmente em parceria com algum estaleiro ou escritório de projetos internacional. Se tal parceria envolvesse outros países – como a Argentina – o custo unitário de obtenção das belonaves (e das respectivas dotações de aeronaves) poderia ser bastante reduzido.

Devemos lembrar que, embora já não possua nenhum NAe, a Armada argentina ainda dispõe de aeronaves de combate capazes de operar a partir de navios dessa classe. Desde a década de 90 do século passado, tais aeronaves vêm participando, com sucesso, de exercícios a bordo de ambos os NAe brasileiros.

O fato de Brasil e Argentina disporem de aeronaves embarcadas de asa fixa e terem optado por aeronaves de tipo convencional – que necessitam de um NAe dotado de catapultas e aparelho de parada – sugere algum tipo de solução comum para o problema da obtenção de uma nova classe de NAe. Além de reduzir custos, tal solução permitiria – em tese – incrementar a interoperacionalidade.

Com relação às aeronaves de interceptação e ataque, a tendência parece ser a adoção da versão embarcada daquela que for selecionada para o Programa F-X2 da Força Aérea Brasileira (FAB), uma vez que as três finalistas agora possuem uma variante naval em serviço ou projetada. A indústria aeronáutica brasileira deverá produzir tais aeronaves no país.

No Brasil, os baixos orçamentos de defesa tornam impraticável investir na modernização das Forças Armadas, empregando recursos ordinários. Para tal, é necessário lançar mão de recursos extra-orçamentários (tais como empréstimos e financiamentos provenientes do exterior), sendo incluídas nos orçamentos anuais apenas as parcelas para amortização e pagamento de juros.

A concretização do PAEMB depende da garantia de um fluxo constante de investimentos, durante duas décadas ou mais. A obtenção dos futuros NAe, com os respectivos meios aéreos, será um dos aspectos mais custosos de tal plano. A solução definitiva para o problema dos investimentos em defesa no Brasil talvez só seja possível quando o Orçamento da União se tornar impositivo.

Eduardo Italo Pesce – Especialista em Relações Internacionais, professor no Cepuerj e colaborador permanente do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Escola de Guerra Naval.

FONTE: Monitor Mercantil

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Presidente deverá comparecer à cerimônia de início das obras

Fontes empresariais revelam à coluna que o presidente Lula deverá desembarcar até o fim de mês ou início de julho em Itaguaí (RJ). Lá, comandará a cerimônia de início das obras de cinco submarinos. Algumas peças já começaram a ser feitas pelo grupo DCNS, em Cherbourg, na França, e nas próximas semanas um ato marcará o evento no Brasil. Até agora, o Brasil tinha optado, com ótimos resultados, por submarinos alemães, mas Lula deu início a nova era, mediante a colaboração com os franceses, que poderá ainda ser fermentada com a compra de 36 aviões Rafale, da Dassault. O custo dos submarinos Scorpène – incluindo estaleiro e base naval – é de R$ 19 bilhões, e o dos aviões é estimado em R$ 8 bilhões. Na licitação dos aviões participam ainda a Suécia – com o Gripen NG – e Estados Unidos – com o F-18, da gigante Boeing, embora o presidente Lula já tenha declarado sua preferência pelos gauleses.

Foi constituída a empresa Itaguaí Construções Navais (ICN), que tem seu capital igualmente dividido entre a francesa DCNS e a brasileira Odebrecht, sendo que o governo brasileiro, através da Marinha, possui uma golden share, ou seja, tem o direito de vetar questões básicas referentes à atuação da ICN. Caberá à ICN construir tanto a base da Marinha como o estaleiro e os submarinos. De acordo com as fontes desta coluna, a estatal Nuclep participará intensamente da iniciativa. A Nuclep tem equipamentos sofisticados e apresenta elevada ociosidade, que será reduzida com os trabalhos de suporte à construção dos submarinos.

Essas unidades serão quatro convencionais e um capacitado a receber motor nuclear – que terá de ser desenvolvido pela Marinha, em Aramar (SP), pois a França não pode ceder essa tecnologia ao Brasil. A Nuclep, além das máquinas que possui, terá de importar equipamentos, para atender a essa demanda especial. Foi criada uma área chamada de “extensão do estaleiro”, cedida pela Nuclep, diante do gigantismo das obras. Como haverá um componente nuclear no quinto submarino, a área teve de ser aprovada pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen). A Cnen não autoriza produção de itens ligados a submarino nuclear em local aterrado, o que obrigou a Marinha a usar maior área já existente, nas proximidades da Nuclep.

Há problemas menores, como o atraso brasileiro no pagamento do sinal aos franceses, mas, em termos gerais, o projeto dos submarinos está se tornando realidade, para alegria da Marinha, que poderá modernizar sua frota. Quanto a Lula, como bom metalúrgico, está mantendo forte ligação com estaleiros e portos. Fez uma grande festa no lançamento ao mar do primeiro navio da Transpetro, em Pernambuco, e repetirá a dose, nesta quinta-feira, no estaleiro Mauá, em Niterói, para ver o petroleiro Celso Furtado ter contato com a água.

FONTE: S. Barreto Motta, colunista do Monitor Mercantil

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Satélites Nucleares Soviéticos

O programa US-A (Radar Ocean Reconnaissance Satellites – RORSAT)

Barra de Cinco Pixels

Elizabeth Koslova

rorsat

vinheta-opiniao-navalNos anos 50 a marinha da URSS passou a desenhar uma nova estratégia de enfrentamento das forças de superfície do ocidente, baseada na neutralização dos porta-aviões norte-americanos e ingleses.

A ascensão de Nikita Khrushchev ao poder em 1957 marcou o início desta mudança, que visava o rompimento com a construção de grandes meios de superfície fortemente blindados por navios mais leves, com poder de fogo ancorado em mísseis de cruzeiro de longo alcance. Outras plataformas para estes mísseis também seriam submarinos e bombardeiros com grande raio de ação.

Uma estratégia audaciosa e moderna sem dúvida, mas que tinha um complicador. Como localizar o grupo tarefa com precisão suficiente para permitir o lançamento dos mísseis? E como fazer isto de forma coordenada?

A maneira mais eficiente para determinar remotamente a posição de um navio é o radar. Porém, este tem uma séria limitação, a linha de visada entre a antena e o alvo.

Uma antena de radar no topo de um mastro, a 49 metros de altura, tem um horizonte de radar de apenas 25 km. Radares aerotransportados permitem elevar o horizonte de radar para até 400 km, o  que corresponderia a voar a cerca de 36.000 pés (teto operacional de uma aeronave de patrulha típica), embora dificilmente a situação tática permita uma aeronave atuar a esta altitude.

US-A area de varreduraUma ousada solução foi imaginada pelos estrategistas soviéticos: basear no espaço um sistema de radar com capacidade global de localizar e acompanhar navios de superfície. Algo que até hoje não teve paralelo na história da exploração militar do espaço (ao lado, uma ilustração do final dos anos de 1970, mostrando um satélite US-A. As órbitas de grande inclinação faziam o satélite cruzar os oceanos basicamente no sentido norte-sul, completando uma revolução a cada 104 minutos. A área de varredura do radar era estimada em 450 km).

Os trabalhos de análise conceitual começaram em 1958, apenas um ano depois do primeiro satélite artificial orbitar a Terra. No ano de 1960, sob a supervisão do prestigiado engenheiro Vladimir Chelomei, o projeto foi aprovado pela liderança política soviética, na forma do Decreto 715-296.

O programa sofreu alguns percalços políticos típicos da era soviética. Com a queda de Nikita Khrushchev, em 1964, o programa saiu da supervisão de Chelomei (favorito de Khrushchev) e foi para o OKB-41 de Anatoli Savin. Quando o programa iniciou a fase de ensaios em vôo no final de 1965, com quatro lançamentos (Kosmos 102, 125, 198 e 209), começaram a aparecer os problemas. Basicamente os dois principais componentes dos satélites (o seu radar ativo em banda X e o reator nuclear) não estavam prontos, pois ainda não haviam sido qualificados para voo. Os primeiros lançamentos foram utilizados apenas para qualificar os sistemas de estabilização ativa da espaçonave, bem como sua telemetria, objetivos simples demais diante da complexidade do projeto.

Diante dos problemas da equipe de Savin, o programa foi transferido em 1969 para o KB Arsenal, em São Petersburgo, sob o comando de Ye Ivanov. O projeto foi revisado e o ano de 1975 foi definido como meta inicial para a operacionalização do sistema. Naquele ano, nada menos do que três satélites desta série subiram ao espaço, dando início à fase de avaliação operacional da espaçonave.

De 1975 a 1979, depois de sete lançamentos, o sistema passou a ter capacidade operacional inicial, com parte dos oceanos monitorados e uma avaliação precisa de melhoramentos a serem implementados em futuros satélites. De 1980 até 1988 foram 19 lançamentos de satélites US-A, dando à URSS a capacidade de localizar navios civis e militares em praticamente qualquer oceano da Terra. O projeto já havia atingido sua maturidade técnica e operacional.

O satélite US-A

Colocar um radar em órbita implica em uma série de compromissos de difícil conciliação. O principal deles é a potência elétrica para operação do radar.

Sistemas de conversão fotovoltaica apresentam como grande vantagem a simplicidade, mas também possuem uma potência média relativamente baixa, uma vez que cerca de metade do tempo estão sob a sombra da Terra, sem gerar energia. Este déficit de potência faz com que satélites com esse sistema, equipados com radar, os utilizem durante alguns poucos minutos dentro de um período de 24 horas.

US-A

Esguio para minimizar o arrasto em órbita baixa, com suas grandes antenas de radar e com o reator formando o cone do nariz, o US-A é um satélite cujos padrões de projeto fogem do clássico e cujas soluções de engenharia até hoje não foram implementadas em nenhum outro programa. Fosse ele americano, sua imagem seria tão conhecida pelo ocidente como a dos satélites KH-9 (Big Bird), das aeronaves U-2 ou SR-71, ícones da capacidade americana de coleta de informações.

O US-A precisava de 3kW de potência na forma contínua para operação de seu radar. Embora isto possa ser relativamente fácil de 20 anos para cá (alguns satélites modernos chegam a ter 16kW de potencia de geração fotovoltaica a bordo), com a tecnologia disponível na época eram necessários painéis solares de cerca de 60m2, gerando problemas adicionais a serem compensados.

Para maximizar o desempenho do radar, o satélite deveria operar em órbitas baixas, com cerca de 250 km de altitude. Porém, órbitas tão baixas quanto esta quanto esta maximizam o arrasto da espaçonave com a porção mais elevada da atmosfera, e a espaçonave acaba reentrando na atmosfera caso não receba empuxo extra de seu propulsor Stepanov de 16Kgf. A adoção de uma grande área de painéis solares aumentaria em muito o arrasto do satélite, fazendo com que ele necessitasse de empuxos extras a cada 10 dias, tornando o consumo de propelente ainda mais crítico.

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A solução adotada pelos projetistas soviéticos era até então inédita (e permanece única até os dias de hoje). Colocar a bordo dos US-A um reator nuclear para geração de energia elétrica.

Esta solução, sob muitos aspectos, era excelente. Afinal, permitia um suprimento de energia que tornava o tempo de utilização do radar adequado às funções táticas do satélite. Gerava menos necessidade de controle de atitude em função da posição de células solares, otimizando o posicionamento da antena do satélite, tornava o satélite mais aerodinâmico (pela ausência de painéis solares) minimizando o seu gasto de combustível para posicionamento periódico orbital, entre outras vantagens.

Mas ainda havia um problema a ser resolvido: como garantir que o reator nuclear BES-5 não reentrasse com o satélite uma vez que este estava sempre em uma órbita baixa, dependendo de seus impulsores para se manter voando, e cujo período de reentrada é medido em meses enquanto o tempo de decaimento do reator é medido em séculos?

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Um US-A ejeta o núcleo do reator para a sua orbita cemitério. As gotas de fluido representam o refrigerante do reator (cerca de 13,5Kg de sódio e potássio) que são mantidos em estado líquido e retiram do núcleo cerca de 100kW.h de energia térmica para ser dissipada por radiadores de calor. Essas partículas formam bolhas de até 5cm de diâmetro, que são altamente radioativas. Ao reentrar na atmosfera, este material é pulverizado por uma grande aérea, o que não eleva os níveis de radiação no ambiente além dos níveis seguros. Porém, a colisão de outros satélites com estas gotas de metal pesado, em órbita baixa, sempre foi motivo de preocupação e de polêmica entre EUA e URSS.

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A solução para isto também era inédita. Basicamente, o reator, um cilindro de cerca de 350Kg, deveria ser impulsionado por um foguete até uma órbita cemitério a cerca de 1000 km de altura, onde a reentrada não aconteceria antes de pelo menos 1000 anos. Esta solução teve um custo elevado, conforme veremos mais adiante.

Além de reatores nucleares e radares ativos baseados no espaço, as espaçonaves US-A tinham outros complicadores de engenharia a serem vencidos. Um satélite a 250 km de altura apenas tem visada para uma estação controladora em terra se esta estiver a um raio de 1600 km do satélite. Isto quer dizer que, na prática, os US-A vasculhando as imensidões dos oceanos não teriam como informar em tempo real as estações soviéticas de controle sobre os alvos que eles estivessem monitorando.

A partir da década de 198, tanto os EUA como a URSS montaram redes de retransmissão via satélites geoestacionários para permitir que seus satélites militares de órbita baixa, como os de foto reconhecimento, pudessem transmitir em tempo real, independentemente da posição da sua órbita naquele instante. Os US-A, porém, eram de uma geração anterior (anteriores inclusive ao primeiro satélite geosíncrono soviético, que é de 1975) e para solucionar o problema os projetistas soviéticos utilizaram a mesma solução clássica de comunicações de longa distância até o advento dos satélites: ondas curtas!

Operando um canal de telemétrica em 19Mhz, por meio de propagação ionosférica os US-A eram rastreados desde o território soviético em qualquer posição de seu plano orbital, o que daria a tão capacidade de cobertura global objetivada pelo programa.

Um programa controvertido politicamente

Durante a fase de ensaios, no começo dos anos 70, dois incidentes foram presságios do que seria o programa nos anos seguintes.

O Cosmos 367, um satélite do programa de ensaios de voo, perdeu contato com as estações de controle, mas seu sistema automático o conduziu a uma órbita mais elevada. Este satélite ainda não continha o reator BES-5 e sim baterias químicas que forneciam eletricidade durante o vôo de teste. O acidente surtiu efeito contrário ao esperado, mostrando aos engenheiros soviéticos que seu satélite nuclear poderia ser colocado fora de serviço em segurança caso houvesse uma falha técnica com a cadeia de controle.

Cerca de três anos mais tarde, um lançamento ocorrido desde Baikonur apresentou problemas de ignição no último estágio do foguete, causando a queda do satélite no Oceano Pacífico ao norte do Japão. Aviões de reconhecimento americanos sobrevoaram a área a procura de indícios de vazamento nuclear para caracterização do reator. Fontes ocidentais informaram a detecção de pequenos níveis de radiação na área da queda. Já os soviéticos nunca reconheceram este incidente.

US-A mudança de orbitaEstatisticamente, de cada 20 ou 25 lançamentos de satélites, um apresenta problemas. Os riscos associados à segurança do programa US-A não estavam necessariamente no lançamento e sim no sistema de ejeção do reator para a órbita cemitério, que era uma das inovações do projeto. Ao contrário do problema do Cosmos 367, que encorajou a utilização do sistema de ejeção, por algumas vezes o sistema não funcionou como deveria e provocou a reentrada do reator (com sua carga de 30Kg de urânio altamente enriquecido) juntamente com o satélite (a ilustração ao lado mostra como era a mudança de órbita de ejeção do reator. Nem sempre isto funcionou, e o resultado foi a reentrada do material radioativo juntamente com o satélite).

Em janeiro de 1978, o acidente que se julgava impossível aconteceu. O sistema de ejeção do reator falhou e o Cosmos 954 reentrou na atmosfera com seu reator acoplado. A queda ocorreu na região noroeste do Canadá, gerando contaminação em milhares de quilômetros quadrados de superfície. O governo soviético indenizou o Canadá pelas despesas de buscas e de descontaminação da área. O programa US-A passou por um grande desgaste político na arena tensa da guerra fria.

Outro acidente similar ocorreu em 1983. O Kosmos 1402 separou-se de seu reator com sucesso, mas a ignição do foguete de ejeção falhou. O satélite caiu no Oceano Índico em janeiro de 1983 e o reator caiu duas semanas depois no Atlântico Sul.

O ultimo grande susto com este programa de satélites aconteceu em 1987. O Cosmos 1900 falhou ao ejetar seu reator, mas o sistema reserva obteve êxito e o reator foi para sua órbita cemitério em segurança. Este incidente só se tornou conhecido porque a URSS vivia a sua época de abertura política, durante o governo Gorbachev. Outros incidentes deste tipo podem ter sido sepultados pela história da Guerra Fria.

As capacidades dos satélites US-A

Como todo programa soviético da Guerra Fria, fontes precisas sobre as suas reais capacidades operacionais são bastante limitadas, porém existem alguns indícios reveladores quando boas fontes são consultadas.

Segundo o documento “Key Conclusions About Present and Future Soviet Space Missions”, da Central Intelligence Agency, (junho de 1983) e o “Soviet Dependence on Space Systems”, da Central Intelligence Agency (novembro de 1975) “…o sistema de radar operando em banda X, 8,2 GHz é capaz de detectar navios de transporte ou porta-aviões, e um destróier é altamente provável de ser detectado em mar calmo. A CIA também estima que o sistema não seja capaz de detecção em mar grosso e sob forte chuva, e que a faixa varrida pelo satélite é de 450 km para Leste e Oeste quando o mesmo descreve uma órbita polar no sentido norte-sul (…)”.

HMS-Sheffield-51

Segundo a Enciclopédia Astronáutica do editor Mark Wade, “… entre 1979 e 1989 a modernização progressiva do sistema foi realizada, proporcionando maior precisão, a localização de alvos e capacidade de observação. Toda a superfície do oceano do mundo foi monitorada continuamente, um feito não alcançado por qualquer outro sistema. A eficácia do sistema foi comprovada na Guerra das Malvinas de 1982, quando o sistema monitorou as forças britânicas e era capaz de aconselhar o Estado-Maior General da Marinha Soviética do momento exato do desembarque britânico.”

Segundo o livro “Fidel, futebol e as Malvinas”, do escritor russo Sergey Brilev, os soviéticos teriam fornecido informações de inteligência aos argentinos durante a guerra das Malvinas. Ainda segundo o livro, a localização do HMS Sheffield, que possibilitou o lançamento da missão de ataque bem sucedida que resultou no seu afundamento, teria sido possível porque o satélite Cosmos 1365 teria fornecido a posição precisa do navio.

Provavelmente os soviéticos forneceram informações de inteligência aos argentinos na guerra das Malvinas, da mesma forma com que os chilenos colaboraram com ingleses. Mas teria a URSS fornecido posições precisas e em tempo real da frota inglesa para permitir ataques navais por parte da aviação argentina? Houvesse realmente este canal de informação, porque a posição real dos porta-aviões foram um mistério durante quase todo conflito?

Por que as posições e rotas de abastecimento da esquadra não foram passadas também, permitindo aos submarinos argentinos atacar nos momentos e pontos mais vulneráveis de resuprimento da esquadra inglesa no Atlântico Sul?

Estes e outros mistérios da Guerra Fria infelizmente jamais serão conhecidos em detalhes, além de versões e interpretações de fontes de domínio publico.

O fim do programa

Os anos da década de1980 marcaram o ápice da capacidade operacional dos satélites US-A. Ao todo, 19 satélites foram lançados, todos com aperfeiçoamentos em relação à primeira série do final da década de 1970. A URSS possuía um sistema sem similar no mundo para monitoramento dos oceanos.

No final da década de 1980, uma nova série de satélites deveria substituir a família US-A. Seriam os satélites da série PIRS-2 com algumas inovações importantes como:

  • Aumento da potência elétrica de bordo de 3kW para 10kW com a adição de um novo reator modelo Topaz.
  • Elevação da altitude orbital padrão de 250 km para 520 km, graças à maior potência elétrica disponível ao sistema de radar, reduzindo o risco de reentrada acidental do reator.
  • Rastreamento por meio de satélites geoestacionários, melhorando a capacidade de fornecimento de informação em tempo real.
  • Radar mais preciso e com processamento digital, permitindo maiores alcance, resolução e resistência a contra medidas.

Estes satélites faziam parte de um novo pacote soviético de sistemas militares espaciais, uma resposta ao programa “Guerra nas Estrelas”, desenvolvido pelo governo norte-americano de Ronald Reagan.

Outros sistemas soviéticos desenvolvidos na mesma época eram tidos como impressionantes e inovadores, destacando-se dois deles. O programa Naryad, destinado à destruição de satélites até a órbita geoestacionária (36.000 km), era algo sem paralelo no mundo. Comparando com o sistema norte-americano ASAT (Anti-Satellite Missile), os testes realizados com este sempre limitaram a destruição de satélites até 1.000 km (sistemas de foto reconhecimento basicamente), deixando de lado os sistemas de comunicação, navegação e alerta de lançamento de mísseis (sistemas estes que formam a base da moderna doutrina americana). Com o programa Naryad, os soviéticos poderiam “calar” os principais satélites dos EUA, reduzindo qualquer vantagem inimiga.

Alem do Naryad, havia o programa Polyus, uma estação de batalha espacial de 80 toneladas. A Polyus seria lançada em maio de 1987, em Baikonur. Gorbachev era o convidado de honra para o primeiro lançamento do foguete “Energia” e os generais soviéticos trataram de fazer uma grande exposição para mostrar ao seu governante os progressos dos projetos militares espaciais soviéticos.

A idéia do General Dimitry Zavalishin, responsável pelos programas militares espaciais naquela época, era pedir a Gorbachev a retomada dos testes ASAT orbitais para comprovação do sistema Naryad. O General Zavalishin foi didático, lembrou dos esforços americanos em sistemas militares espaciais e mostrou um plano para encobertar os testes ASAT de modo que isto não gerasse maiores protestos do ocidente.

Gorbachev foi evasivo em suas respostas, prolixo e pouco interessado nos planos de seus engenheiros espaciais para a dominação militar do espaço. Um ano depois, os programas de satélites nucleares estavam todos cancelados por ordem direta de Gorbachev.

Quais seriam os reais motivos do líder soviético para esta decisão? Os desgastes políticos causados pelos acidentes nucleares com satélites anteriores? Uma nova política para a utilização de meios nucleares após o desastre de Chernobyl? A política de aproximação com o ocidente? A crise econômica que já se fazia sentir na URSS?
Provavelmente todos estes fatores em uma escala que provavelmente jamais saberemos.

NOTA DO BLOG: o Poder Naval agradece à colaboradora Elizabeth Koslova pelo texto.

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Às vezes pegamos no pé dos comentaristas sobre como postar termos navais e marítimos, tentando transmitir a maneira certa de como se referir a navios e equipamentos, tentando disseminar como compreender este mundo  e evitar desinformação ou confusão na interpretação de informações; evitando termos como navio “ancorado no porto”, “barco de guerra”, “transatlântico”, “a destroier”, ”A13 Nae São Benedito” (ao invés de Nae São Benedito – A 13) e afins, notar o que uma informação divulgada a olho, sem uma consulta específica pode gerar:

Copiamos artigo postado no blogmercante chamando atenção a fatos citados acima

http://www.blogmercante.com/2010/05/vinte-dias-depois-navio-batizado-por-lula-e-dilma-ainda-nao-foi-ao-mar/comment-page-1/#comment-7304

Vinte dias depois, navio batizado por Lula e Dilma ainda não foi ao mar

por Misael Berdeide

No dia 7 de maio deste ano, a pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, e o presidente Luiz Inacio Lula da Silva participaram do primeiro evento juntos desde a saída de Dilma do governo.

Lula e Dilma “inauguraram” o petroleiro Suezmax, batizado de João Candido, com capacidade para transportar 1 milhão de litros de petróleo.

Os dois foram aplaudidos principalmente pelos funcionários do Estaleiro Atlântico Sul, que construiu a embarcação sob encomenda da Transpetro, subsidiária da Petrobras. O João Cândido foi comemorado como a retomada da indústria naval brasileira, já que é o primeiro navio do Promef (Programa de Modernização e Expansão da Frota) da Transpetro.

Desde então, o petroleiro continua “estacionado” no porto de Suape.

VEJA.com foi ao porto saber porque o navio ainda não navega. Segundo dois funcionários ouvidos no local, a embarcação ainda não está pronta. Faltam partes do motor e placas de revestimentos de aço. A assessoria de imprensa da Transpetro, indicada pelo estaleiro para se pronunciar sobre o assunto, informou que faltam apenas “acabamentos”.  E confirmou que o petroleiro lançado ao mar por Lula e Dilma só fará sua primeira viagem em setembro. Segundo a empresa, esse dado foi divulgado à época, e eventos de batismo e lançamento ao mar antes da entrada em operação são rotineiros “em qualquer lugar do mundo”.

A lei eleitoral não permite inaugurações por candidatos a partir de julho. Ou seja, Dilma não poderia participar da entrega da embarcação em setembro, quando ela estará apta a navegar.

O petroleiro já está na propaganda oficial do governo e na campanha de Dilma. Foram entrevistados trabalhadores que ajudaram na obra.

No evento do começo de maio, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Pernambuco, Alberto Alves dos Santos, encerrou sua fala com ” bom Dilma para todos”. Antes, havia dito, ao agradecer a Lula pela retomada da indústria nacional, que “se dependesse do povo trabalhador, o seu mandato seria igual ao de Fidel Castro”.

FONTE: Revista Veja / FOTO: 1ON Misael Berdeide http://www.blogmercante.com/

NOTA DO BLOG: A Veja nunca se informou que NÃO EXISTE navio que sai navegando imediatamente após seu lançamento, que entre lançamento e entrega “em qualquer lugar do mundo” existe o acabamento, provas de mar e aceitação do navio antes da entrega, e mesmo após ainda navega sob garantia do estaleiro ? E assim caminha a mentalidade e cultura naval/marítima no Brasil…

  Ao menos por boa parte de orgãos que teriam por definição informar corretamente…

 

A cabotagem brasileira

vinheta-clipping-navalEstrangeiros já servem a costa com navegação de longo curso. Temos de permitir que eles também façam cabotagem.
Todos os que militam no transporte e na logística no País conhecem nossas dificuldades, que não são poucas. É sabido que temos uma matriz de transporte inadequada às nossas necessidades, em que o modo rodoviário é predominante no transporte interno de mercadorias – o que faz da nossa logística um item extremamente caro.

Para isso, algumas ações têm sido implementadas nos últimos anos, desde a abertura econômica introduzida em 1990. Tivemos uma nova abertura dos portos, bem como de aeroportos e de pontos de fronteira, de forma a permitir uma mudança da estrutura logística brasileira.

Uma delas foi a transferência das operações portuárias à iniciativa privada, através da Lei número 8.630, de 1993. Com isso, tivemos um aumento da nossa capacidade de operação, bem como de produtividade. Passamos de 5 a 8 operações de contêineres por hora para 40 movimentos em média. E com o Tecon-Santos com capacidade de 55 operações, a caminho de 90.

Em que já se fizeram 110 em embarques isolados. E com redução do custo de operação de US$ 600.00 para cerca de US$ 250.00 por movimento. Em relação ao mundo, ainda há muito que melhorar. Isso permitiu o renascimento da cabotagem em águas brasileiras. Com custos operacionais menores, e com a agilização dos embarques e desembarques, o transporte de mercadorias pela costa marítima brasileira foi viabilizado.

Em especial, que os portos podem cobrar menos do que no transporte de longo curso, aquele feito entre países. Tudo para incentivá-lo, porque, além de mais barato que o rodoviário, ainda compete com ele na capacidade, na poluição e nos congestionamentos. E a cabotagem não decepcionou. As empresas brasileiras entenderam o “novo” transporte e o incentivaram. Por isso tornou-se o modo que mais cresce no setor.

Em meados da década de 90 não se embarcavam contêineres. Em 1999 o total situou-se em 20.000 TEU (twenty-foot equivalent unit, ou unidade de 20 pés, equivalente a 6,09 m). Em 2009, esse número já tinha saltado para algo como 500.000 TEU. Mas precisamos incentivar ainda mais a cabotagem. É preciso que façamos a substituição do veículo rodoviário. Que este se situe na sua faixa lógica de operação. Que é a de distribuição de carga. E o transporte em pequenas distâncias, de máximo uns 500 quilômetros.

É necessário também mudar a posição de vedete do transporte, como auxiliar dos demais modos nas operações de intermodalidade e multimodalidade. Mas, para que isso aconteça, entendemos que precisamos ter fretes ainda mais baratos do que os atuais. A diferença com o rodoviário precisa ser contundente: ela precisa chamar a atenção dos empresários.

O frete precisa ser de tal forma vantajoso que estabeleça um novo padrão para nossa matriz de transporte. Ela tem de se tornar de padrão internacional. Com menores custos, toda a economia sai ganhando. Com produtos mais baratos, teremos mais consumo, mais produção, mais emprego etc. Além da criação de mais empresas brasileiras de navegação, ou então com o crescimento da oferta das atuais, entendemos que temos à mão um instrumento extra para utilização, que são as empresas estrangeiras de navegação.

Se as empresas estrangeiras já servem a costa brasileira com a navegação de longo curso, o que estamos esperando? Temos de permitir que essas companhias também façam cabotagem, embarcando e desembarcando carga nos portos que operam normalmente. Como as empresas já existem, como os navios já estão no tráfego, e como, certamente, existe espaço, teríamos dessa forma um barateamento dos fretes.

Portanto, só temos de utilizar a estrutura que já existe. Certamente teríamos o argumento de que estaríamos nas mãos de empresas estrangeiras. Quanto a isso, não seria nenhuma novidade para ninguém. Essa situação já existe hoje com as empresas que são chamadas de “nacionais”. E isso ocorre em toda economia brasileira.

Que elas poderiam sair do País ou deixar de fazer a operação, achamos que é um argumento falho. Há quantos anos todas essas empresas estrangeiras estão no País, sem deixá-lo? Ninguém vai deixar o que é considerado como vantajoso. Alguém poderia argumentar que isso não existe em nenhuma parte do mundo.

Ok, argumento válido, porém falacioso. Temos muitas coisas que o Brasil faz que não existem em nenhuma parte. Seria apenas mais uma, com ampla vantagem. Se o Brasil costumasse seguir o restante do mundo, teríamos uma matriz de transporte completamente diferente. Com o predomínio do transporte aquaviário e ferroviário teríamos taxa de juros como no restante do planeta, sem tê-la como a mais alta do mundo, bem distante das demais existentes. Teríamos uma carga tributária condizente com nosso desenvolvimento, em que a renda disponível permitiria mais consumo. Teríamos investimentos bem maiores do que o que temos. Portanto, se já somos diferentes em tudo, isso seria apenas mais uma diferença. E para melhor.

FONTE: DCI/Samir Keedi, via Portos e Navios

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Barra de Cinco Pixels

(parte II – versão econômica)

Barra de Cinco Pixels

Por João Gonçalves – de Portugal

Aproveitando a passagem para reabastecimento em Ponta Delgada, S. Miguel, Açores da fragata norte-americana USS “Taylor”, vem a propósito mais uma reflexão sobre a modernização da Esquadra Brasileira.

A FFG-50, é a 44ª fragata da famosa classe “Oliver Hazard Perry”, entrou ao serviço em 1984 e faz parte do flight III ou seja é uma “long hull”, versão mais comprida 2 metros que o modelo original, na razão da necessidade de poder operar o helicóptero orgânico do programa LAMPS III, o SH-60 Seahawk, maior que o seu antecessor o LAMPS I, SH-2 Seasprite.

Desta classe de cinquenta e um navios, dezenove já foram descomissionados, dos quais quinze cedidos a marinhas aliadas.

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A “Taylor”, tal como todas as outras ainda ao serviço da US Navy, viu a sua capacidade militar substancialmente diminuida, quando em 2004 foi decidido retirar o sistema lança-mísseis Mk-13, e com ele a possibilidade de lançar mísseis Standard SM-1MR e Harpoon RGM-84. Ficou assim praticamente reduzida a uma “canhoneira” cujo armamento principal é a Otomelara Mk75 de 76mm e um CIWS Vulcan Phalanx de 20mm.

Caso o orçamento da defesa do Brasil não venha a revelar o crescimento esperado, esta é uma séria candidata à renovação da esquadra brasilera, aliás muito na tradição de aquisição de material usado dos stocks da US Navy.

Nas fotos podemos ver alguns detalhes da “Taylor”, incluindo o dispositivo de “force protection” agora regra em todos os navios das marinhas da OTAN, demonstrando que a lição do ataque ao USS “Cole” foi identificada e aprendida.

FOTOS: João Gonçalves

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As Malvinas, de novo

Antônio Machado
(*) Paulo Paiva – Interino

vinheta-clipping-navalUm dos argumentos do governo para gastar US$ 10 bi em armamento é a proteção do petróleo no pré-sal. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Ministério da Defesa acabam de ganhar um presente de sua colega argentina, Cristina Kirchner. Lula e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, vêm defendendo com unhas e dentes o programa de modernização das Forças armadas brasileiras, que prevê gastos de aproximadamente US$ 10 bilhões em aquisição de aviões de combate (caças), helicópteros, fragatas e submarinos – inclusive nucleares –, com transferência de tecnologia para o país. Os franceses são os favoritos para reequipar as tropas brasileiras, embora, na questão dos caças, ainda enfrentem a concorrência de americanos e suecos.

Pois bem. Cristina acaba de ressuscitar o fantasma da Guerra das Malvinas, em 1982, quando Argentina e Reino Unido foram às armas pela posse da pequena ilha (Falkland, para os ingleses) no Atlântico Sul. Na época, a Junta Militar que governava os argentinos ia mal das pernas e queria um factóide para recuperar a popularidade. O resultado todo mundo sabe: bombas, navios afundados de lado a lado, mísseis Exocet, caças Harrier ingleses destruindo armamentos inimigos e uma derrota humilhante dos hermanos: o Reino Unido recuperou a ilha (que havia sido invadida por forças argentinas em abril daquele ano) às custas da morte de 644 militares argentinos e 255 britânicos.

Agora, Cristina, que também vai mal das pernas (não no sentido literal, claro), trouxe as Malvinas de volta. Desta vez, o motivo é geoestratégico: o primeiro-ministro inglês, Gordon Brown, anunciou que pretende explorar petróleo nas águas territoriais da ilha. Tudo bem, não fosse um pequeno detalhe: resolução da Organização das Nações Unidas (ONU), em vigor desde o fim da guerra, determina que todas as decisões referentes às Malvinas (cujo dono ainda não foi oficialmente definido, já que a ilha foi ocupada pelos britânicos em 1833 e os argentinos reclamam a posse desde então) devem vir de consenso entre Argentina e Reino Unido. Ou seja, Brown está tomando uma decisão unilateral. E Cristina reagiu, determinando que todos os navios que passem pela região precisam ter autorização expressa da Casa Rosada. O clima anda tenso nesse lado do Atlântico.

Eu não disse?

Por que a questão das Malvinas é boa para Lula e Jobim? Porque um dos argumentos do governo para gastar US$ 10 bilhões em armamento é exatamente a proteção da camada de petróleo no pré-sal, recém-descoberta pelo Brasil.

Jobim tem dito que um submarino nuclear, além de caças e helicópteros modernos, funcionam como força de dissuação, ou seja, fazem com que um país hostil pense duas vezes antes de querer invadir alguma área em águas brasileiras.

Há lógica nisso. Somente os muito ingênuos – e o pior é que eles existem – acreditam que as grandes potências não estejam de olho no petróleo e outras riquezas brasileiras, como urânio, água e titânio. Brown e as forças de Sua Majestade são a prova cabal disso. A ONU impede que a Inglaterra tome decisões unilaterais em relação às Malvinas. Mas a ONU… ora, a ONU… Que ONU? A essa hora, Lula já pode falar: “Eu não disse?”. As siglas que guiam Brown são outras: Otan (ou Nato, em inglês), a Organização do Tratado do Atlântico Norte, a união militar que congrega desde os Estados Unidos aos países da Europa Ocidental, e que neste momento está em guerra no Paquistão.

Alguém duvida?

O fato é que a decisão de Brown mostra que as grandes potências farão o que for necessário, agora e no futuro, para garantir o suprimento de matérias-primas estratégicas, como petróleo, urânio, metais e água. Os EUA de George W. Bush e a Inglaterra de Tony Blair invadiram o Iraque para garantir petróleo, mentindo descaradamente para o mundo sobre armas de destruição em massa escondidas por Saddam Hussein. Agora, Brown começa a colocar as asinhas de fora – e aqui, no quintal brasileiro.

São as commodities – como petróleo, minérios e grãos – que sustentam a economia global. Sem elas, ninguém come, se locomove ou constrói. Alguém ainda duvida de que eles, os senhores das armas, farão o que achar necessário para ter acesso a elas? Que venha o pacote de defesa de Lula.

FONTE: O Estado de Minas

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O Brasil já foi à guerra

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Meio século depois, um novo porta-aviões repete a sátira de Juca Chaves

O Brasil já vai a guerra, comprou um porta-aviões/Um viva pra Inglaterra, de oitenta e dois bilhões/Ahhhh! mas que ladrões. A sátira “Brasil já vai a guerra”, composta em 1958 pelo menestrel Juca Chaves, ainda parece perfeita para descrever o destino dos porta-aviões da Marinha brasileira.

Composta para ironizar a compra do NAeL Minas Gerais, o primeiro porta-aviões do país, depois vendido como sucata, a canção parece ter sido feita para o São Paulo, comprado em 2001. Em função de um acidente trágico, em que morreram três tripulantes, o novo porta-aviões passou cinco anos no estaleiro e já custou R$ 140 milhões em manutenção e reparação – sete vezes o preço de compra.

Anacrônico, o São Paulo não é capaz de transportar os caças que a FAB pretende comprar na célebre concorrência de US$ 5 bilhões que mobiliza franceses, suecos e americanos. Segundo a Marinha, eles são pesados demais para o porta-aviões. Procurado para falar sobre o assunto, Juca Chaves mandoudizer que está de férias.

FONTE: Revista Época / FOTO: Poder Naval

NOTA DO EDITOR: Mais uma matéria que sai na grande imprensa depreciando o único navio-aeródromo brasileiro. Na última enquete do Poder Naval, a maioria dos leitores acha que a Marinha deve continuar investindo em porta-aviões e aviação naval.

Na contramão, a grande imprensa continua a detonar o porta-aviões brasileiro por conta própria, por ignorância ou má fé. Mas a Marinha também deveria fazer melhor a sua parte, divulgando com mais profissionalismo as atividades do São Paulo e da Aviação Naval e sua importância.

O Poder Naval Online está à disposição da Marinha para facilitar esse trabalho de divulgação, temos equipamentos profissionais de foto e vídeo, tempo disponível e muita vontade de trabalhar. Só estamos aguardamos o convite da Marinha do Brasil.

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Não fizemos a lição de casa

O Brasil possui o programa de submarinos nucleares mais longo da história e o que menos obteve resultados. Por que isto aconteceu? De quem é a culpa?

A ideia de dotar a Marinha do Brasil de um submarino nuclear começou a ser cogitada na década de 1970 e evoluiu de forma mais prática entre 1976 e 1978.

Existiam três pontos básicos que deveriam ser vencidos. A primeira delas tratava do domínio do ciclo do combustível nuclear (projetos ZARCÃO e CICLONE). Em segundo lugar o Brasil teria que projetar e desenvolver um reator nuclear (projeto REMO) suficientemente compacto para um casco de submarino. O país também precisava projetar e construir um casco de submarino (projeto COSTADO) que recebesse o reator em desenvolvimento.

O desafio era muito grande para um país que nunca havia construído sequer um submarino convencional e engatinhava nos acordos nucleares com a Alemanha. Passados mais de 30 anos, nenhum destes três pontos foi inteiramente satisfeito e o programa do submarino nuclear brasileiro ganhou o título do mais longo programa e o que menos resultados gerou. Por que isso aconteceu? Quais são as razões?

Leia a continuação deste texto, de conteúdo exclusivo para assinantes, aqui no Poder Naval.

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