US Navy: gigante com pés de barro

O capitão de corveta Aidan Talbot, da Royal Navy, participou de um intercâmbio de dois anos no setor de logística da Marinha dos EUA, em San Diego, Califórnia, trabalhando no apoio à Esquadra do Pacífico, na época crítica do esforço repentino exigido pela Operação Iraq Freedom.
Talbot confessa-se gratificado pela experiência. Como a maior parte do pessoal da Royal Navy, ele tinha a impressão de que a US Navy fosse uma organização poderosa e “azeitada”, com muito dinheiro, com excelentes equipamentos e com o que havia de melhor em Tecnologia da Informação (TI).
Ao final do seu intercâmbio, ele sumariza a US Navy como tendo muito excesso de pessoal, com técnicas primárias de administração, com uma incrível inércia institucional e prejudicada pela “interferência política” externa do Departamento de Defesa e de políticos e interna, dos diversos escalões e órgãos da própria Marinha.

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Sobre a dimensão da US Navy, ele informa que esta conta com mais de 700 navios e 377 mil militares na ativa. San Diego, por exemplo, é a maior concentração de pessoal militar dos EUA em todo o mundo – mais de 250 mil militares vivem na região (o dobro desse número se for considerado o pessoal da reserva). Argumenta que esse gigantismo traz consigo níveis consideráveis de ineficiência.
Talbot critica também alguns aspectos que considera falhos na política de pessoal da US Navy, tais como uma aparente falta de planejamento para recrutamento e recompletamento de pessoal e uma tendência a empregar conscritos para resolver problemas de falta de pessoal. Avalia o excesso de mão-de-obra como um sério problema da US Navy.
Outro problema por ele identificado é a real qualificação do pessoal. Reconhece que, sem dúvida, a US Navy possui pessoal que se sobressai. Porém verificou que, nos Estados Unidos, as Forças Armadas ainda funcionam como uma “rede de segurança social”. Para muitos, a incorporação é ainda a única forma de escapar de situações pessoais e familiares desesperadoras. Muitos recrutas que são incorporados não estão buscando servir ao país em uma carreira militar, mas obter vantagens com os benefícios adicionais: moradia barata, excelente assistência médica gratuita, auxílio educação, dentre outros.
Quanto aos oficiais, embora reconheça as exceções, Talbot observa que, em sua maioria, são dedicados no desempenho de suas tarefas, mas carentes de imaginação, de iniciativa e de originalidade. Avalia que são muito bons no conhecimento técnico dos sistemas, porém menos dotados de qualificações como liderança e gerenciamento. O autor considera uma ironia o país que cunhou a expressão “pensar além dos limites do problema” ter tanta dificuldade cultural de colocá-la em prática.
Talbot avalia que as políticas conjuntas dos EUA são outro problema sério. O próprio tamanho das forças já é um fator complicador. Lembra que, contando a USCG e o USMC, os Estados Unidos possuem, na realidade, cinco Forças Armadas, uma das quais – a Guarda Costeira – nem pertence ao Departamento de Defesa. Cada uma das Forças possui seus próprios sistemas e procedimentos para a obtenção de material e serviços e para preparo do pessoal. Além disso, a mentalidade dominante é a de forças singulares. Existe uma expectativa de que uma ação conjunta exitosa na operação Iraq Freedom traga melhoras nesse aspecto crítico.
A esperança nos programas de mudanças em vias de implementação é por Talbot manifestada, embora reconheça que existe grande resistência por parte do pessoal mais jovem e mais moderno em aceitá-los.
Concluindo, considera que os poderes reais da US Navy são: a quantidade de meios à disposição, seu vigor financeiro, a amplitude e a diversidade da base industrial de Defesa, o evidente apoio político e nacional usufruído pelas Forças Armadas, sua capacidade de inovar em tecnologia quando tem vontade e, sem dúvida, o volume e o impacto de todo o poder de fogo ofensivo que ela pode colocar em ação.

Resenha de artigo da revista inglesa Naval Review de novembro de 2004, publicada na Revista Marítima Brasileira de jan/março de 2006

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