
Muitos brasileiros conhecem a rivalidade entre a FAB e a Marinha do Brasil, por conta da disputa em operar aviões a bordo do primeiro navio-aeródromo brasileiro, o NAeL Minas Gerais, questão que acabou sendo resolvida pelo presidente Castelo Branco em 1965, dando à FAB o direito sobre aviões e à MB, sobre os helicópteros.
Mas poucos sabem que nos EUA, logo após a Segunda Guerra Mundial, a disputa entre a Força Aérea e a Marinha americanas pelo Poder Aéreo foi bem mais acirrada.
A recém criada USAF, que passou a existir em 1947, queria um novo bombardeiro para alcançar alvos estratégicos na Europa, voando a partir dos EUA, sem precisar usar as bases inglesas.
O bombardeiro XB-36 (foto abaixo ao lado do B-29), cujas especificações eram de 1941, só voou em agosto de 1946. Ele podia voar 6.400km com uma carga útil de 3.600kg.

A Marinha dos EUA tinha dúvidas quanto ao B-36 e os planos da USAF para uma guerra nuclear. Em vista da confiança inicial do SAC nas bases na Grã-Bretanha (1947-1949), os planejadores navais argumentaram que uma capacidade de ataque atômico de longo alcance, baseada em navio-aeródromo, poderia ser útil.
Oficiais da US Navy também ficaram contra o objetivo da USAF de destruição máxima e a favor de ataques nucleares de precisão a alvos industriais e estratégicos.
Foram apresentados esboços de planejamento de guerra, com mapas mostrando navios-aeródromo operando ao longo da Noruega e da Arábia, no Mediterrâneo e no Mar Amarelo, que podiam atingir alvos no interior da URSS.
O almirante Daniel Gallery, subcomandante naval para mísseis teleguiados, em 1947 argumentou que a Marinha poderia lançar armas nucleares “com maior eficácia do que a Força Aérea”.
Em 1949, aviadores navais decolaram um avião de patrulha P2V-3C Neptune do convés do USS Coral Sea (na foto do alto um Neptune decola com auxílio de foguetes) e fizeram uma missão de 6.500km que envolvia lançar uma falsa bomba nuclear de tamanho padrão.

Desde 1948 a US Navy planejava a construção de um super navio-aeródromo, o USS United States (CVA-58), que deslocaria 80.000 toneladas, quase o dobro dos porta-aviões padrão da Segunda Guerra Mundial.
Três membros do Estado-Maior Conjunto aprovaram o plano da Marinha, em 26 de maio de 1948. O chefe do Estado-Maior da Força Aérea, Hoyt Vanderberg, foi contra o plano, argumentando que o gastos era excessivos e que ele deveria fazer parte do plano nacional de guerra atômica.
Ainda assim, o Congresso concedeu a verba para o USS United States e o presidente Truman autorizou sua construção. O secretário da Defesa James Forrestal, defensor do USS United States, entregou o Pentágono ao novo secretário em 1949, Louis A. Johnson, que apoiava a USAF.
Johnson logo após assumir o cargo, pediu aos Chefes do Estado-Maior Conjunto um relatório sobre o super porta-aviões. Dessa vez, o chefe do Estado-Maior do Exército modificou a posição anterior e ficou a favor da USAF.
O secretário Johnson enviou um comunicado à imprensa cancelando o trabalho no USS United States. O secretário da Marinha, John Sullivan, pediu demissão logo em seguida.
A campanha pelo Poder Aéreo estava no auge. Na era nuclear, a USAF destacava que uma única bomba nuclear podia destruir uma frota naval tão facilmente quanto uma cidade. A Força Aérea queria ter a primazia.
Ansiosos por serem ouvidos, oficiais da Marinha divulgaram comunicados à imprensa destacando as deficiências do B-36 e as “irregularidades” relacionadas às sua licitação.
No dia 9 de junho de 1949, o deputado da Georgia Carl Vinson, presidente da Comissão de Serviços Armados da Câmara, anunciou audiências sobre o B-36, que consideraram o avião o melhor disponível e relataram não ter encontrado indícios de fraude ou corrupção em sua aquisição.

Nadando contra a corrente, antigos oficiais navais que depuseram em uma segunda rodada de audiências continuaram a atacar a Força Aérea e o B-36. Reagindo a essa “revolta dos almirantes”, o secretário Johnson e o novo secretário da Marinha insistiram na demissão do almirante Louis E. Denfield, o então Chefe de Operações Navais (foto acima).
A Marinha perdeu o United States, mas menos de um ano depois, tropas comunistas invadiram a Coreia do Sul. Mais uma vez em combate, os navios-aeródromo mostraram seu valor.
O B-36 Peacemaker, estava praticamente obsoleto quando entrou em serviço em 1948. A USAF tinha manipulado a verdade, num esforço de vender o avião para o Congresso e o público. Na época, num esforço de relações públicas, tentaram convencer o famoso piloto Chuck Yeager a testemunhar a favor do B-36, dizendo que ele era difícil de interceptar. Chuck se recusou a fazê-lo. Em 1953, 238 aeronaves B-36 estavam em serviço no SAC (Strategic Air Command).
Depois do fracasso do USS United States e da “revolta dos almirantes”, a Guerra da Coreia foi positiva para a Marinha dos EUA. Os navios-aeródromo mostraram sua validade na projeção de poder sobre terra, no apoio aéreo aproximado, imprescindível para as tropas.
O contra almirante Forrest P. Sherman, que sucedeu o almirante Denfield como Chefe de Operações Navais, conseguiu aumentos substanciais do orçamento para a Frota, defendeu a construção do submarino nuclear e conseguiu a aprovação de uma nova classe de navio-aeródromo, cujo primeiro seria o USS Forrestal.