
O planisfério mostra que 70% da superfície da Terra é
coberta por água. Oceanos, mares e rotas marítimas separam os continentes e, ao mesmo
tempo, servem como principal meio de comunicação entre países. Em termos econômicos, o
mar é de extrema importância, pois o transporte marítimo é o que apresenta a melhor
relação custo/benefício. Não é surpresa o fato de que 83% de todo o trasporte mundial
é feito pelo mar.
O mar também é uma inesgotável fonte de alimentação rica
em proteínas e os leitos marinhos encerram enormes recursos minerais. O fato de as
plataformas continentais e zonas econômicas exclusivas estarem sendo delineadas pelos
países que possuem fronteira marítima, é uma clara indicação da importância
econômica do mar, hoje e no futuro.
O mar é a via natural por onde se realiza a maior parte do
comércio internacional. As potências da Antigüidade, dominando-o, controlavam a
economia das regiões por ele banhadas. O ateniense Temístocles percebeu isso e levou os
seus concidadãos a construir uma poderosa esquadra, com a qual derrotou os persas na
batalha naval de Salamina (480 a.C.). Assim, estabeleceu a hegemonia de Atenas sobre o mar
Egeu, fonte de seu esplendor e riqueza. Mais tarde, Roma creditou às suas trirremes e
qüinquerremes as vitórias sobre Cartago, e graças ao domínio do Mediterrâneo, pode
erigir um Império.
Desde essa época até fins da Idade Média, os navios de
combate foram as galeras, barcos compridos e estreitos, propelidos a remo e vela. Com as
"Grandes Navegações", que no século XV iniciaram o desbravamento definitivo
dos Oceanos, ampliou-se o cenário das lutas marítimas. Não se tratava mais de dominar
mares semi-fechados, mas de estabelecer controle sobre vastos oceanos.
Na navegação de longo curso, a antieconômica propulsão a
remo foi abandonada em favor de novos velames e técnicas de velejar. Exigiam-se dos
barcos raio de ação e capacidade maiores. Por outro lado, a invenção da pólvora
introduzira o canhão, por volta de 1350, como equipamento de navios de guerra.
Surgiram, então, novos tipos diferentes de navio: caravelas,
galeões, naus, brigues, bergatins, corvetas e fragatas. Tais barcos compuseram as
marinhas das grandes nações até o início do século XIX. Por essa ocasião, quase não
havia diferença entre o casco dos navios mercantes e daqueles destinados à guerra.
A Revolução Industrial atingiu a construção naval com
grande ímpeto, transformando-a completamente no transcorrer do século XIX. O vapor
substituiu paulatinamente a vela, e o ferro tomou o lugar da madeira na confecção dos
cascos. A Inglaterra, dona de pujante parque industrial, era o centro dessas
modificações.
A permanente expansão da marinha britânica, permitiu que a
Inglaterra se outorgasse o título de "Rainha dos Mares" e estabelece-se um
império que abrangia territórios nos cinco continentes, desde a Austrália e a Índia,
até a Rodésia e o Canadá.
Os Navios
Os povos da antigüidade se tornaram hábeis construtores de
navios e o mar Mediterrâneo, centro de seu mundo, passou a ser uma grande via de
comunicações, além de um campo de batalhas. Egípcios, cretenses, fenícios, gregos e
cartagineses, cada qual por sua vez, tiveram a supremacia dos mares, viajando sempre mais
longe e assim ampliando o conhecimento humano. Galeras comerciais fenícias pontilharam o
mar Vermelho, e não é impossível que naus cartaginesas tenham circunavegado a África.
Os povos mediterrâneos logo foram imitados pelos nórdicos, que saiam da Escandinávia e
cruzavam o mar do Norte ate a atual Grã-Bretanha, ou o Atlântico até a costa oriental
da América do Norte.
As primeiras embarcações próprias para viagens em mar
aberto foram as galeras, com suas fileiras de remos manipulados por escravos e suas
pequenas velas quadradas. Embora servissem para excursões guerreiras, eram deficientes
para longas viagens ou mesmo transporte de carga. Com a vela quadrada, os navios só
podiam aproveitar o vento de popa (isto é, soprando por trás).
A introdução da vela triangular ou latina, provavelmente no
século IX d.C., representou um grande avanço, pois tornou possível que as naus
viajassem contra o vento. Ao mesmo tempo, parte da superfície da embarcação foi fechada
em convés, aparelhando-se melhor para empresas de longo curso. Alguns séculos se
passaram até que os navios adotassem mais de um mastro. No século XV surge o segundo
mastro, logo acompanhado de um terceiro e quarto. Freqüentemente, nas embarcações
denominadas galeões navios mercantes fortemente armados , o mastro dianteiro
e o central (principal) sustinham velas quadradas, enquanto o posterior (ou de ré) tinha
vela latina.
Aperfeiçoamentos na construção e crescente conhecimento das técnicas de
navegação levaram as maiores nações marítimas da Europa Portugal e Espanha
a uma série de descobertas que dobraram ou triplicaram a extensão do mundo
conhecido. Essa supremacia deixou intranqüilos os ingleses, cujos barcos, até o século
XV, eram poucos. As 120 naus que Ricardo Coração de Leão havia reunido para as Cruzadas
não podiam ser comparadas as dos portugueses e espanhóis. Realmente, a partir de
meados do século XV, os portugueses aperfeiçoaram a caravela, suprimindo os remos em
favor do velame, que foi ampliado e dotado de diversos formatos. Dessa forma, ela
tornou-se muito mais rápida e fácil de manobrar do que qualquer dos barcos que a
precederam. Essa e outras modificações introduzidas nas embarcações pelos portugueses,
e também pelos espanhóis, contribuíram de maneira decisiva para a supremacia desses
povos nos mares.
Em 1485, Henrique VII, subindo ao trono inglês, considerou a
importância comercial e militar de uma marinha poderosa. Assim, ordenou a construção de
navios de grande porte, com elevados tombadilhos (na popa) e quatro mastros, parecidos aos
galeões espanhóis. A Inglaterra prosseguiu na consolidação da marinha real e, quando a
famosa Armada Espanhola chegou ao canal da Mancha, em 1588, encontrou 197 navios ingleses
esperando. Apesar de derrotados, os espanhóis continuaram a utilizar galeões para
transportar à Europa as riquezas do Novo Mundo. Mas os ingleses adotaram em seus barcos
de guerra geralmente fabricados por particulares, sob encomenda do governo o
modelo das três cobertas, que escondia canhões em cada coberta, e que permaneceu
basicamente imutável até depois da vitória do Almirante Nelson sobre a armada
hispano-francesa na batalha de Trafalgar, em 1805.
Antes dessa data, porém, já aparecera o navio a vapor, com grandes
vantagens sobre o navio a vela, pois não dependia do vento e da maré, sem todavia
concorrer com os rápidos clippers a vela no transporte de passageiros e
mercadorias, por causa da necessidade de combustível. Durante o século XIX é que os
barcos a vapor se tornaram mais seguros e econômicos. Passaram a ser construídos
de ferro e depois de aço, que em comparação com a madeira davam a mesma potência para
um peso menor, aumentando assim a capacidade de carga. Em 1881, o primeiro
navio com casco de aço atravessou o Atlântico.
A evolução tecnológica
Até a 1a Guerra Mundial, a guerra no mar
restringia-se aos combates de superfície, com o canhonear mútuo das naves adversárias.
Entretanto, no decorrer desse conflito, surgiram as armas subaquáticas ou submarinas.
Generalizou-se o uso de minas flutuantes e torpedos, que
atingiam seus alvos abaixo da linha dágua, rompendo o casco e fazendo-os afundar. O
aperfeiçoamento dos motores de combustão interna e do periscópio, permitiu aos alemães
aproveitar-se de uma invenção atribuída ao holandês Cornelius Drebbel em 1620: o
submarino. O aparecimento desse navio passou a ser considerado fator decisivo nas batalhas
navais. As belonaves começaram a receber proteção contra ele e alguns tipos de navios,
como o destroyer ou contratorpedeiro, passaram a ser construídos especialmente
para da combate à nova arma.
No início do século XX, o maior e mais poderoso navio,
capitânea de todas as Esquadras, era o encouraçado. Sua velocidade era sacrificada em
favor do poder de fogo dos canhões de grosso calibre e da proteção blindada de grande
espessura. Todavia, a guerra moderna passou a exigir belonaves de maior mobilidade e
velocidade e assim, o encouraçado acabou dando lugar ao navio-aeródromo (porta-aviões),
em importância.
O navio-aeródromo, que já tinha sido usado pelos ingleses
em pequena escala na I Guerra Mundial, tornou-se a arma de importância fundamental na II
Guerra Mundial. Com a introdução do avião na guerra naval, muitas batalhas foram
realizadas sem que os navios oponentes sequer se avistassem, como ocorreu no Mar de Coral
e na Batalha de Midway, entre americanos e japoneses.
O Poder Marítimo hoje
No mundo moderno, o Poder Marítimo em seu sentido mais amplo ,
constitui o potencial representado pelo conjunto de meios e recursos utilizados por uma
nação, para assegurar o domínio do mar. Na condução vitoriosa de uma guerra no mar
(ou na tarefa de dissuadí-la), um país precisa possuir as seguintes capacidades:
- Garantir o transporte por mar das forças militares e seu
suprimentos às áreas conflagradas;
- Garantir a importação e exportação de bens de consumo,
armamentos, matérias-primas e materiais estratégicos indispensáveis às
indústrias nacionais;
- Impedir que o inimigo possa transportar suas matérias-primas
e seus exércitos por via marítima;
- Exercer pressão político-militar sobre países neutros e
inimigos, visando impedi-los de comerciar;
- Neutralizar ataques navais inimigos;
- Bombardear objetivos terrestres ao alcance de canhões,
aviões embarcados ou mísseis.
Como se vê, o Poder Marítimo não é formado apenas por
navios de guerra, mas por uma soma de componentes: Marinha de Guerra (que é o Poder
Naval), Marinha Mercante, portos e bases navais, posição geográfica, potencial
industrial e capacidade econômica de uma Nação.
Reprodução |
 |
| O Brasil possui uma das maiores frotas de
petroleiros do mundo e precisa de meios navais para protegê-la em caso de crise |
As navios de guerra
Os modernos navios de superfície distinguem-se sobretudo
quanto ao seu porte, deslocamento e o grau de especialização de suas funções. Os
navios menores, lançadores de mísseis antinavio, deslocam até 500t. As corvetas (que na
verdade são "fragatas leves"), são usadas com freqüência para escolta contra
submarinos e patrulha e têm até 2.000t. A seguir vêm as fragatas, com até 4.000t de
deslocamento, podem ser anti-submarino e antiaéreas. Os destróieres (ou
contratorpedeiros) são um pouco maiores, de 3.000t a 8.000t, e geralmente de duplo
emprego anti-submarino e antiaéreo. Já os cruzadores podem ultrapassar as 10.000t
e reúnem grande variedade de armamentos e sensores para guerra contra aviões, submarinos
e outros navios. Como dispõem de mais espaço a bordo para pessoal extra e equipamentos
de comunicações, os cruzadores costumam servir de navios-capitânea onde fica o
comandante de uma força-tarefa.
A classificação dos navios de guerra como fragatas,
destróieres ou cruzadores pode mudar de país para país, pois atualmente existe muita
confusão na designação de navios de guerra entre Marinhas, devido às diferentes
doutrinas e tradições de cada uma.
O termo "destroyer", por exemplo, surgiu no início do século XX para designar
um tipo de navio para combater os "torpedeiros", navios que, pelo nome, eram
armados com torpedos para serem usados contra navios-capitânea. Surgiu assim o
"contratorpedeiro" ("contre-torpilleur" em francês e
"cacciatorpediniere" em italiano) ou "torpedo boat destroyer ". Com o
tempo, o nome acabou ficando só "destroyer" ou, usando o neologismo,
"destróier". O destróier era rápido, quase desprovido de blindagem e armado
com canhões e torpedos.
Reprodução |
 |
| A fragata União (F-45) é uma das unidades
da classe "Niterói" da Marinha do Brasil |
Com o surgimento do submarino, o destróier passou a
ficar conhecido como plataforma especialista em missões anti-submarino, além de possuir
forte armamento antiaéreo. Na Segunda Guerra Mundial, a pressa de se construir o maior
número de navios no menor tempo possível, fez surgir o "destróier de escolta"
ou DE, que era basicamente um navio menor e menos veloz que o destróier e armado
principalmente contra submarinos, para dar escolta a comboios de mercantes. Na Inglaterra,
os navios semelhantes aos DE eram designados como "fragatas" ou, em navios ainda
menores, "corvetas".
Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA também passaram a
designar os DE como Fragatas. Na década de 60 e 70, as escoltas inglesas e francesas
especializadas em alguma função, passaram a receber a designação de
"fragata"; daí surgiram as "fragatas anti-submarino" e "fragatas
antiaéreas". Mas as coisas aos poucos foram se complicando, pois a linha divisória
entre destróier e fragata praticamente desapareceu, como também, no caso da US Navy,
entre destróier e cruzador.
Em muitos casos, vemos fragatas que na verdade deveriam ser contratorpedeiros e
vice-e-versa. Um exemplo interessante são as fragatas de projeto alemão MEKO 360
adquiridas pela Argentina. O fabricante chama de fragata, mas para os argentinos são
"destructores" (contratorpedeiros). Para um país como o Brasil, que usa navios
de procedência inglesa e americana, a confusão foi maior, porque no nosso caso, as
fragatas (inglesas) sempre foram navios superiores aos contratorpedeiros (americanos), em
tonelagem e poder de fogo.
Os porta-aviões são os mais importantes e maiores navios de
guerra da atualidade e normalmente exercem a função de navios-capitânea também. Seu
tamanho pode variar bastante: os menores, como o "Minas Gerais" do Brasil, têm
cerca de 20.000t. Os grandes, como a classe "Nimitz" dos EUA, deslocam 90.000t.
As armas essenciais nos navios de superfície são os
canhões e os mísseis antiaéreos e antinavio. Os canhões diminuíram de tamanho desde a
II Guerra Mundial, sendo os de calibre médio (entre 100mm e 152mm) os mais usados hoje,
mesmo em navios grandes como os cruzadores. Têm alcance de cerca de 20km e são, em
geral, de duplo emprego antiaéreo e antinavio. Há canhões modernos que, embora
pequenos, entre 20 e 40mm, possuem capacidade de defender os navios contra aviões e
mísseis. Algumas armas são especificamente navais, como os torpedos e as minas
flutuantes. O torpedo foi a arma básica dos submarinos até o pós-guerra, quando
surgiram os torpedos anti-submarino lançados dos navios de superfície, aviões e
helicópteros.
Reprodução |
 |
| Uma unidade da classe "Han" de submarinos
nucleares chineses |
Os submarinos
A invenção do submarino, no início do século XX, deu nova
dimensão à guerra naval. Nas duas guerras mundiais, os submarinos alemães quase
derrotaram, sozinhos, os aliados ocidentais.
Os atuais modelos convencionais, ou diesel-elétricos, ainda necessitam vir à superfície
em curtos períodos para recarregar as baterias que movem seus motores elétricos, mas
mesmo assim continuam sendo os mais temíveis inimigos dos navios de superfície.
Com o desenvolvimento da propulsão nuclear nos anos 50, os submarinos passaram a se
tornar independentes da atmosfera, não precisando vir à superfície, exceto para obter
suprimentos e para trocar de tripulação.
Mas somente um seleto grupo de países possui submarinos
nucleares e também os constrói. China, EUA, Federação Russa, França e Reino
Unido. A maioria das frotas ainda é constituída sobretudo por submarinos convencionais. O Brasil, por exemplo, possui 5 submarinos convencionais. A maior frota do mundo é a russa, com cerca de cem submarinos, dos quais mais da metade são
nucleares. A China, segunda no ranking, detém cinco submarinos nucleares, de um total de cerca de
cem submarinos. Segue-se os EUA, com uma frota de cerca de 70 submarinos, todos nucleares.
Alguns submarinos são portadores de mísseis balísticos
nucleares (SLBM) e são as principais armas de dissuasão das grandes potências. Como o
decorrer dos anos, a capacidade desses mísseis vem se aproximando da dos mísseis
balísticos intercontinentais terrestres, os ICBMs. O SLBM norte-americano Polaris A-2
tinha alcance de 2.700km; o Polaris A-3, de 4.600km; o Poseidon C-3, de 5.100km; o Trident
C-4, de 7.300km. O míssil empregado atualmente, o Trident C-5, pode atingir alvos a
11.500km de distância. EUA e a Federação Russa detêm o maior número de submarinos
armados com mísseis SLBM, seguidos pela Grã-Bretanha, França e China.
|