DOSSIÊ
Marinha do Brasil

A corveta Barroso (V34) vista na carreira, no dia do seu lançamento ao mar em 20/12/2002

Corveta Barroso: uma sobrevivente

Projeto aperfeiçoado da classe " Inhaúma", a Barroso começou a ser
construída em 1994 e só deve ficar pronta em dezembro de 2008

 

nAlexandre Galante

A Marinha do Brasil (MB) começou a fazer estudos para uma classe de navios de escolta em outubro de 1977. Os estudos originais tinham duas exigências muito diferentes: os destróieres (contratorpedeiros) da Segunda Guerra Mundial provenientes da US Navy estavam envelhecendo rapidamente e precisavam de substituição; por outro lado a Marinha também precisava substituir as corvetas classe "Imperial Marinheiro" (que na verdade eram rebocadores de alto-mar). Além disso, havia um forte desejo para se construir os navios no Brasil, mas sabia-se que seria necessário o auxílio de outros países. Para isso, em fevereiro de 1978, um contrato foi fechado com a empresa alemã de consultoria marítima Marinetechnik MTG, sob o qual a empresa proveria assistência técnica para o projeto dos navios.

Marinha do Brasil
As corvetas classe "Inhaúma" em operação: de um projeto original que contemplava a construção de 16 navios, apenas quatro foram obtidos e uma quinta unidade aperfeiçoada ainda está em construção

A Marinha continuou seus estudos e, em 1979, produziu um conjunto de exigências de projeto. Uma velocidade máxima de mais de 25 nós foi estipulada, e o armamento incluiria um helicóptero e mísseis superfície-superfície. Durante este período, testes extensos foram levados a cabo na Europa no modelo de casco enquanto a Marinha preparava as instalações para construir os navios. Também foram feitas mudanças nos requisitos de armas e máquinas: o armamento de tubo foi mudado de 57 mm para 76 mm e depois finalmente
para um canhão Vickers Mk.8 de 4,5 polegadas (114,3mm); a planta propulsora passou de diesel para CODOG. Esta mudança foi necessária para alcançar um mínimo de comunalidade com as fragatas classe “Niterói”.

Um acordo final foi fechado com a Marinetechnik em outubro de 1981, e em fevereiro de 1982 os primeiros dois navios foram encomendados ao Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ). Problemas orçamentários e de projeto postergaram o batimento da quilha do primeiro navio para setembro de 1983. A quilha do segundo navio foi batida em outubro de 1984. No início de 1984 a MB tinha anunciado planos para encomendar o segundo par de navios em setembro daquele ano. Embora o governo brasileiro afirmasse seu compromisso em encomendar mais dois navios, a ordem antecipada não se materializou. Ao invés, a Marinha declarou que o segundo par de navios seria encomendado quando houvesse fundos para tal.

South African Navy
A corveta Jaceguay vista em operação com a Marinha da Àfrica do Sul: na seqüência fica evidente o problema de estabilidade do navio em mar grosso, com excessivo embarque de água na proa. Na Barroso o problema foi solucionado com o redesenho do casco

Em junho de 1986 foi assinado um contrato com o Estaleiro Verolme do Brasil para a construção da terceira e quarta “Inhaúmas”. Em dezembro de 1986 o primeiro navio da classe, Inhaúma, foi lançado no AMRJ na Ilha das Cobras no Rio de Janeiro. Dificuldades financeiras reduziram a velocidade da finalização do navio. Embora a Jaceguay tenha sido programada para ser lançada em julho de 1986, o lançamento foi adiado até junho de 1987. A construção da Frontin e da Júlio de Noronha começou no início de 1987.

A Marinha tinha anunciado em 1986 que planejava construir 16 corvetas classe “Inhaúma”. Em 1987 este programa foi reavaliado devido à demora na construção dos navios. Foram consideradas várias opções, postergar algumas encomendas, manter o cronograma original ou reduzir o número de unidades.

Em maio de 1988 o Departamento de Defesa dos EUA solicitou ao Congresso dos EUA a venda de quatro sistemas de defesa de ponto Phalanx Mk15 CIWS para o Brasil, para instalação nas Inhaúma, mas o negócio acabou não se concretizando.

A Inhaúma começou as provas de mar em março de 1989 e foi comissionada em 12 de dezembro de 1989. A Jaceguay já tinha sido lançado em junho de1987, mas problemas experimentados durante as provas adiaram seu comissionamento até 2 de abril de 1991. Foi informado em 1990 que o Estaleiro Verolme estava em dificuldade financeiras e a construção dos últimos dois navios estava parada. Porém, o estaleiro desenvolveu um plano para permanecer solvente e retomou a construção dos últimos dois navios.
O cronograma de entrega destes navios estava então atrasado em um ano. A Júlio de Noronha foi finalmente comissionada no dia 27 de outubro de 1992, e a Frontin em março de 1994.

Mudança de planos

Marinha do Brasil
Perfil da corveta Barroso: nota-se o novo desenho da proa, o convés de vôo estendido e o mastro principal mais baixo

O programa original para construir 12 navios adicionais desta classe foi formalmente abandonado em 1992 depois de anos de hesitação e indecisão. Finalmente reconheceu-se o fato de que os recursos financeiros para construir os navios não estavam disponíveis. Além disso, as deficiências técnicas reveladas durante as provas de mar dos primeiros quatro navios requeriam um redesenho do projeto original.

 

Em meados de 1993, a MB anunciou que uma derivação do projeto da "Inhaúma" estava sendo preparada com um casco aumentado e um sistema de armas mais leve. O primeiro corte de metal para o navio foi feito no dia 21 de dezembro de 1994.

O plano da MB era construir dois navios deste projeto melhorado, com o segundo a ser encomendado em 1995. Esta encomenda, no entanto, nunca se materializou e a MB optou por adquirir quatro fragatas britânicas Tipo 22 e empreender uma modernização extensa de suas fragatas classe "Niteroi". Estas providências foram tomadas enquanto estavam sendo geradas as exigências operacionais para uma nova classe de fragatas, a primeira a ser colocada em serviço aproximadamente 10 anos depois. Enquanto isso, era esperado que o projeto melhorado da "Inhaúma" fosse lançado ao mar em agosto de 1998 e entrasse em 2000.

Em janeiro de 1996 o ministro da Marinha almirante Mauro Cesar Rodrigues Pereira declarou que ainda esperava conseguir fundos para uma segunda unidade da classe "Inhaúma" aperfeiçoada. Ele sugeriu que havia um plano para construir dez "Inhaúma" (presumivelmente 4 originais e 6 da versão modificada) que estava em discussão, mas não sabia se esse plano realmente seria levado a cabo. Ele confirmou que a Marinha estava examinando todas as opções disponíveis para decidir quais programas eram financeiramente possíveis.

Desde então a construção da Inhaúma aperfeiçoada, batizada como Barroso, sofreu seguidos atrasos: o lançamento marcado para junho de 1999 não aconteceu. Depois a data de lançamento passou para junho de 2002, mas o lançamento só ocorreu em dezembro. O comissionamento do navio estava programado para junho de 2006, mas a última data prometida pela MB é dezembro de 2008, ou seja, o navio será incorporado depois de 14 anos em construção!

Finalmente a Barroso

 

O projeto que agora constitui o quinto navio da série foi encomendado em 1993. Seu casco com mais de 100m de comprimento é 4,2 metros mais longo que o original. A extensão foi provida para melhorar as qualidades marinheiras do navio, que também recebeu "bochechas" na proa, semelhantes à classe "Niterói", para diminuição do embarque de água em mar grosso. Os estudos para a modificação do desenho da proa do navio foram feitos com o auxílio do Swedish Maritime Research Centre SSPA, na Suécia. O navio recebeu também um convôo estendido para operação mais segura do helicóptero orgânico e um centro de operações de combate um metro mais longo. A coberta do castelo de proa também foi estendida em um metro e o pessoal embarcado aumentou de 122 para 154.

A praça de máquinas foi estendida em dois metros para acomodar os motores diesel MTU 20V1163 mais poderosos e maiores, que se espera proporcionem uma velocidade de 29 nós. O alcance operacional permanece inalterado a 4.000 milhas a 15 nós.

A superestrutura foi modificada do projeto original, as imagens iniciais sugerindo um peso mais baixo e um grau mais alto furtividade. O mastro principal é mais baixo e leve, o tamanho da chaminé foi reduzido e o convés 01 foi estendido, com portas de acesso reposicionadas.

No armamento, o canhão de 4,5 polegadas (114,3mm) L55 Mk 8 foi mantido, ao mesmo tempo que os mísseis anti-navio Exocet MM-40 e os reparos triplos lança-torpedos anti-submarino Mk.32. Mas os dois canhões Bofors 40mm/L70 originais foram substituídos por um único Bofors 40 Trinity Mk.3 CIWS, muito mais preciso. A arma é controlada por uma alça optrônica EOS-400.

 

Na área de eletrônica, os lançadores de chamarizes de proteção anti-míssil foram substituídos pelo sistema similar do IPqM (Instituto de Pesquisas da Marinha) usado nas fragatas modernizadas, e os sistema de guerra eletrônica Racal pelo Elebra ET/SLQ-1, também nacional, para alerta-radar. Adicionalmente, o sistema de CME SLQ-2 substituirá o jammer usado nos primeiros navios. O radar de busca combinada será oAESN RTN-20S em lugar do Plessey AWS-4 usado no primeiro lote, e um radar de direção de tiro RTN-30X substitui o RTN-10X. O radar de navegação é o Racal Decca TM 1226C, no lugar do Kelvin Hughes Tipo 1007. A mudança mais importante será o sistema de controle tático e comando e controle Siconta Mk III, no lugar do Ferranti CAAIS-450/WSA 421 instalado nos primeiros quatro navios.

Um segundo navio igual à Barroso seria encomendado em 1995, mas nenhum movimento foi feito nesse sentido. Ao invés disso, a Marinha pensa em desenvolver ou adquirir o projeto pronto de uma nova fragata de 3.500-3.600 toneladas com características mais furtivas. Sendo assim, a corveta Barroso provavelmente será o único navio de sua classe.

Alexandre Galante/Poder Naval
Nesse modelo 3D da corveta Barroso feito pelo Poder Naval Online podem ser observadas as linhas elegantes do navio, mais discreto que a "Inhaúma" original. (Clicar na imagem para visualizá-la em tamanho maior)

Características principais:

  • Comprimento total : 103,40m
  • Boca moldada: 11,40m
  • Calado carregado: 3,95m
  • Pontal moldado: 6,70m
  • Velocidade máxima: maior que 25 nós
  • Deslocamento carregado: 2.350t
  • Sistema de propulsão: CODOG
  • Tripulação: 154
  • Raio de ação aproximado: 4000 milhas náuticas
  • Autonomia aproximada: 30 dias
  • Um helicóptero orgânico

Saiba mais: