DOSSIÊ
Alexandre Galante

A fragata União [F45] em alto-mar, após faina de transferência de carga leve. A foto de 1987 mostra bem o lançador de mísseis anti-submarino Ikara na popa e os lançadores de mísseis antiaéreos Seacat sobre o hangar

As fragatas classe "Niterói"

1ª Parte

"Antes das fragatas, os navios novos
da MB eram todos de segunda-mão"

n Alexandre Galante

Marinha do Brasil
A fragata União [F45] navegando com turbinas a gás: ela foi uma das duas fragatas construídas no AMRJ com transferência de tecnologia do estaleiro inglês Vosper

As fragatas da classe "Niterói" (Vosper Mk.10) começaram a entrar em serviço na segunda metade da década de 70 e são até hoje a espinha dorsal da Esquadra brasileira. Esses navios, que representaram um salto tecnológico de 30 anos em relação ao material flutuante então existente no Brasil, foram os primeiros equipados com computadores digitais táticos, turbinas a gás aeroderivadas, mísseis superfície-superfície e mísseis anti-submarino, entre outros avanços.
Projetadas pelo estaleiro britânico Vosper Thornycroft especialmente para atender às especificações da Marinha do Brasil, as Mk.10 herdaram muitas características de suas predecessoras Type 21 construídas para a Royal Navy, e das Mk.1 (adquiridas pelas marinhas de Gana e Líbia), Mk.3 (Nigéria), Mk.5 (Irã), Mk.7 (Líbia) e Mk.9 (Nigéria). O conceito comercial bem-sucedido da Vosper de projetar "navios de combate interessantes para marinhas de médio porte" tornou-se exeqüível na época devido a diversos desenvolvimentos tecnológicos, especialmente o advento das turbinas a gás marítimas, com alta proporcionalidade força-peso. Uma
nova geração de armamentos e sistemas de direção de tiro também proporcionaram maior poder de combate, redução de peso e tamanho, com mais confiabilidade. A perspectiva do uso de mísseis antinavio que não necessitavam de um sistema de controle sofisticado e dispendioso, ofereceu uma solução que deu aos navios de combate de superfície, a capacidade de transportar um poder de fogo que no passado exigiria um casco bem maior. Outro fator importante foi a redução da tripulação, sem a qual o conceito não teria sido viabilizado. Em um navio de guerra cada homem requer cerca de 5 metros cúbicos de espaço, sendo assim, uma drástica diminuição da tripulação favorece o projeto de um navio de combate menor, de custo operacional mais reduzido e mais confortável.

O LEGADO

 

Assim como na Primeira Guerra, a Marinha do Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial despreparada, atuando principalmente na escolta de comboios contra o ataque de submarinos alemães. Por volta de 1942, os navios brasileiros eram vetorados por navios caça-submarino americanos para lançar bombas de profundidade, porque nossos navios não dispunham de sonar. O navio-hidrográfico Rio Branco (contribuição da Revolução Paulista para a Esquadra Brasileira, também comprado de segunda-mão) e os navios mineiros classe "Carioca", foram reclassificados como corvetas e receberam sonares, o que também foi feito com os cruzadores Bahia e Rio Grande do Sul. Só então, a Marinha do Brasil tornou-se capaz de prover a escolta de comboios de navios mercantes nas costas brasileiras. Depois disso, os EUA passaram a ceder ao Brasil navios-escolta, primeiro os caça-submarino de madeira (caça-pau), depois os de aço (caça-ferro) e por fim, os DEs (destróieres de escolta). Finda a Segunda Guerra Mundial, o Brasil se acostumou a receber por preços módicos navios usados da marinha americana. Em 1950 foram recebidos dois cruzadores veteranos, o Saint Louis e o Philadelphia, que passaram a ser, respectivamente, Tamandaré [C12] e Barroso [C11]. Em 1956 a MB recebeu submarinos fleet type também veteranos da guerra e em 1957 foi comprado o HMS Vengeance, que passou a ser o Minas Gerais. Em 1958 foi iniciado o recebimento dos contratorpedeiros classe "Fletcher", depois as "Allen M. Sumner" e "Gearing". Todos esses navios foram importantes para a Marinha do Brasil para o desenvolvimento de doutrina anti-submarino e adestramento do pessoal, mas não representavam o estado-da-arte na guerra naval e tinham sido concebidos para atender às especificações da US Navy. Do ponto de vista tático e estratégico valiam muito pouco, a não ser para manter um certo equilíbrio com as marinhas vizinhas, que também se equipavam com excedentes da marinha americana. A aquisição das "Niterói" mudaria tudo isso.

Marinha do Brasil
A contratorpedeiro Pará [D27] (ex-USS Guest - DD 472) era representativo da tecnologia disponível na MB na década de 70. As fragatas significaram um salto de 30 anos sobre o material flutuante existente

 

NASCE A IDÉIA DAS FRAGATAS

Marinha do Brasil
A fragata Liberal [F43] na sua configuração original de emprego geral (E/G), antes do MODFRAG. Como sua irmã Constituição [F42], o navio tinha um segundo canhão Mk.8 de 4,5 polegadas na popa

O EMA (Estado Maior da Armada) tinha planos para a construção de fragatas desde 1961, mas sem definições precisas para os navios. Antes disso a MB tinha tentado junto aos EUA a construção de escoltas no Brasil com financiamento americano, a exemplo de países da OTAN, mas sem sucesso. Em 1963 o CEMA (Chefe do Estado Maior da Armada), almirante-de-esquadra José Luiz da Silva Junior, determinou à Escola de Guerra Naval — o think tank do Estado Maior — que estudasse as necessidades dos navios da Marinha, considerando suas reais prioridades e que fossem especificadas suas características operativas. O diretor da EGN, almirante Fernando Carlos de Mattos, formou um grupo de trabalho dirigido pelo capitão-de-mar-e-guerra Ibsen de Gusmão Câmara. O grupo de trabalho tomou como diretrizes as hipóteses de guerra adotadas pelo Governo Brasileiro e a partir delas, formulou o conceito de que a missão da Marinha do Brasil em caso de guerra seria "proteger o tráfego marítimo essencial à sobrevivência do País".

 

Tendo em vista que o tráfego que mais interessa ao Brasil é o que se dá no Atlântico Sul, o estudo se concentrou no submarino como a ameaça mais provável sobre a manutenção dos fluxos de transporte marítimo. Então, a proteção aos navios mercantes necessariamente enfatizou a guerra anti-submarino. O estudo considerou os volumes de tráfego de importação/exportação, o mínimo de tonelagem mensal nos dois sentidos, tomando por base o porte bruto médio de cargueiros e navios tanque da época e calculou o número de navios por comboios. Chegou-se à quantidade de navios de escolta anti-submarino que a MB precisava ter: 30 fragatas, incluindo 2 navios reserva.

>>>NA CONTINUAÇÃO: Os navios disponíveis e a escolha da Mk.10

 

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