DOSSIÊ
US Navy

A USS Stark na manhã seguinte ao ataque. Não fossem as águas calmas do Golfo Pérsico, a fragata poderia ter afundado.

Ataque sem resposta

A história do ataque à fragata USS Stark e suas lições - 1ª parte

n Guilherme Poggio  

 

Na noite do dia 17 de maio de 1987 a fragata norte-americana USS Stark (FFG 31), que patrulhava na águas do Golfo Pérsico, foi atingida por dois mísseis AM.39 Exocet disparados de um Mirage F.1 iraquiano. O ataque resultou na morte de 37 tripulantes e o navio quase foi perdido. Não existia um estado de beligerância entre o Iraque e os EUA, a aeronave era conhecida e estava sendo monitorada, mas mesmo assim a fragata não revidou ou trabalhou para evitar o pior. Por que isso foi acontecer? De quem é a culpa?

Este artigo reúne uma série de informações sobre o episódio, incluindo o contexto histórico e polícito, o projeto das fragatas classe Oliver Hazard Perry e o desenvolvimento do ASM Exocet e suas plataformas de lançamento. Embora ocorrido há mais de vinte anos, este caso mostra que suas lições são bastante atuais, mesmo que nem todas as respostas tenham sido respondidas.

Contexto político e histórico

www.sajed.com

Grupo de recrutas iranianos dirigindo-se para o combate passam ao lado de corpos evacudados por blindados BTR-50. Oito anos de conflito e nenhum resultado prático.

Setembro de 1980: a antiga fronteira das culturas árabe e persa transformou-se num campo de batalha insano. Tropas iraquianas cruzaram o canal do Chatt-el-arab e entraram em solo iraniano atacando simultaneamente cidades e bases militares. O Iraque não soube aproveitar a vantagem da surpresa e avançou lentamente em território inimigo. Por outro lado a resistência iraniana foi maior que o esperado e os reforços chegaram em tempo. Em meados de outubro, o front estabilizou-se e o conflito transformou-se em uma guerra de desgaste.

A guerra Irã-Iraque foi o resultado de uma série de disputas políticas e territoriais, cujas origens remontam às primeiras décadas do século XX, quando o Iraque libertou-se da dominação turca. Sob o mando de Saddam Hussein desde julho de 1979, o Iraque tinha o apoio militar de diversos países, destacando-se a URSS, a França, a Tchecoslováquia, o Egito e a China. O Irã, por sua vez, perdeu o seu grande aliado, os EUA, com a deposição do xá Reza Pahlevi em janeiro de 1979 através da Revolução Islâmica. Mesmo isolado internacionalmente, o Irã recebeu ajuda militar de fontes como Síria, Líbia, China, Israel e o próprio Estados Unidos (extra oficialmente). Na verdade, era do interesse das grandes potências que nenhum dos dois países envolvidos levasse vantagem no conflito.

 

Em meados de 1984 a guerra chegou a um impasse total. As tropas de Saddam Hussein foram incapazes de manter os 10.000 km2 de território iraniano conquistado no início da guerra e de derrotar as Forças Armadas iranianas, embora contasse com grande apoio militar. Por outro lado, os iranianos não conseguiram avançar sobre território iraquiano e sofreram com o embargo de armas. Como forma de criar uma pressão econômica sobre o Irã, Saddam Hussein passou a direcionar grande parte dos seus ataques para as instalações marítimas de extração e distribuição de petróleo, bem como petroleiros civis operando para o Irã ou transportando petróleo iraniano.

Iran Chamber Society

Navio-tanque em chamas no Golfo Pérsico atacado pelas forças iraquianas

Ataques esporádicos contra objetivos navais, incluindo petroleiros e plataformas de petróleo, ocorreram de ambos os lados desde o início do conflito. Desta vez porém, a intensificação dos ataques, segundo a visão estratégica de Saddam Hussein, colocaria forte pressão econômica sobre o Irã, estrangulando ainda mais as exportações e forçando o país dos aiatolás a tomar medidas extremas como fechar o Estreito de Ormuz para toda e qualquer navegação. Desta maneira, ainda segundo o pensamento estratégico de Saddam Hussein, outros países, principalmente potências ocidentais, seriam arrastados para o conflito na esperança de que estes apoiassem o Iraque.

A chamada "Guerra dos Petroleiros" (embora tenha este nome, nem sempre os navios atacados eram navios-tanque) efetivamente começou no dia 1º de fevereiro de 1984 com ataques navais aos mercantes Skaros, City of Rio e Neptune com o emprego de mísseis AM.39 Exocet. O governo do Iraque definiu uma área de exclusão total de 50 milhas ao redor do terminal marítimo iraniano da ilha de Kharg e qualquer mercante nesta área seria objeto de ataques.

 

A resposta iraniana tardou e veio somente no mês de maio, com o ataque ao mercante Umm Casbah no dia 13, ao  Bahrah e ao Yanbu Pride (todos de bandeira kuaitiana) nos dias 14 e 16 respectivamente. Os ataques navais iranianos eram feitos em grande parte com F-4E Phantom II e, na ausência de armamento mais adequado para as operações (fruto do embargo internacional), eram empregados mísseis AGM-65A Maverik, AIM-9P Sidewinder e canhões de 20mm.

O resultado político das ações não foi exatamente o esperado por Saddam, pois o Irã não fechou o Estreito de Ormuz e contentou-se em responder de forma limitada, restringindo os ataques apenas aos navios do Kuait e da Arábia Saudita, dois fortes financiadores da máquina de guerra iraquiana.

Em três anos de "Guerra dos Petroleiros" o Golfo Pérsico tornou-se um lugar altamente inseguro para os navios mercantes e suas tripulações. Neste período, um número superior a 300 navios foi vítima de ataques de ambos os lados, sendo o Iraque responsável por mais de dois terços desse total.