DOSSIÊ
US Navy

A USS Stark na manhã seguinte ao ataque. Não fosse as águas calmas do Golfo Pérsico, a fragata poderia ter afundado.

Ataque sem resposta

A história da fragata USS Stark, atingida por dois mísseis - 2ª parte

n Guilherme Poggio  

O ASM Exocet e suas plataformas aéreas

Aerospatiale

Um SA.321G de desenvolvimento dispara um AM.39. O modelos entregues ao Iraque eram muito semelhantes.

No início do anos setenta, a Marinha da França decidiu criar uma versão aerotransportada do seu principal míssil anti-navio, o MM.38 Exocet. De início, a plataforma escolhida foi o helicóptero SA.321 Super Frelon e testes com projéteis inertes ocorreram em abril de 1973. Em maio do ano seguinte tomou-se a decisão de produzir uma versão do míssil lançado do ar para a Aeronavale. As entregas iniciaram-se em junho daquele ano e em 1977 os primeiros disparos foram bem sucedidos.

Nesta época a Força Aérea do Iraque estava recebendo o seu primeiro lote de dez helicópteros SA.321 Super Frelon. O projeto de míssil AM.39 em associação com o SA.321 despertou o interesse iraquiano e uma nova encomenda de seis unidades (denominadas AS.312GV), dotadas de radar ORDB 31D Heracles I e com capacidade para lançar o ASM francês, foi feita. Estes helicópteros foram entregues entre 1980 e 1981, quando o Iraque já estava em guerra com o Irã.

 

O mais breve possível as aeronaves foram colocadas em operação e as tripulações treinadas para a missão. Os primeiros relatos de ataque contra navios usando o Exocet lançado do ar datam de outubro de 1981 (muito antes dos argentinos afundarem o HMS Sheffield). Fontes iraquianas reivindicaram a destruição de 25 navios em águas iranianas logo nos primeiros meses, um número provavelmente exagerado.

De qualquer forma, os resultados iniciais motivaram o governo de Bagdá, que solicitou um vetor mais veloz e com maior alcance. A França já possuía os Super Etendard armados com Exocet desde 1978, mas este foi declinado em favor do desenvolvimento de uma versão do Mirage F.1 de ataque naval. Como a "Armée de l'Air" não tinha interesse em equipar seus F.1 com Exocet, o projeto de integração avião/míssil foi totalmente desenvolvido para a Força Aérea do Iraque.

Desconhecido

A linha de vôo completa com os cinco Super Etendard arrenda- dos em 1983 pelo Iraque

Por outro lado, o Iraque já havia encomendado diversas dezenas de Mirage F.1EQ e BQ (este último de treinamento, mas com capacidade secundária de ataque) e começou a recebe-los a partir de 1978.

O desenvolvimento da variante capaz de lançar o Exocet começou no início da década de 1980 e o governo iraquiano pediu máxima urgência na entrega. Como as aeronaves ainda não estavam disponíveis na época, o governo francês negociou o empréstimo de cinco Super Etendard para o Iraque por dois anos. Com forte alarde da imprensa internacional, os aviões chegaram ao Iraque em outubro de 1983. O anúncio do empréstimo gerou protestos do governo do Irã, mas as retaliações resumiram-se ao corte de alguns acordos bilaterais e muita retórica por parte dos aiatolás.

Passado o curto período de treinamento e adaptação, tanto para as tripulações como para as equipes de apoio, os aviões foram colocados em ação. Armamento para as aeronaves não era problema, pois Saddam Hussein, naquela época, consumia uma grande parte da produção de AM.39 Exocet. Acredita-se que entre 350 e 400 Exocet foram adquiridos pelo Iraque entre 1979 e 1988. O primeiro relato de um ataque bem sucedido com um Super Etendard armando com AM.39 data de 27 de março de 1984, quando o mercante Filikon L (de bandeira grega) foi atingido por um míssil.

Desconhecido    

Quatro pilotos iraquianos (cujas faces foram desfiguradas para esconder suas identidades) posam em frente a um Super Etendard. No topo da deriva e na parte posterior da fuselagem é possível observar as marcações nacionais. Porém, a numeração junto à tomada de ar foi coberta.

As plataformas Super Frelon e Super Etendard, armadas com Exocet, eram os instrumentos que Saddam Hussein precisava para por em prática sua estratégia de pressão sobre o Irã e iniciar a chamada "Guerra dos Petroleiros". Houve uma explosão no número de ataques a alvos marítimos no ano de 1984. Mais de setenta navios foram atingidos naquele ano, comparado com menos de quarenta embarcações atacadas nos três anos anteriores. Agora só faltava a plataforma definitiva, o Mirage F.1.

A evolução do Mirage F.1

 

O Mirage F.1 nasceu com a responsabilidade de suceder a família Mirage III/5. Primeiramente foi desenvolvido um protótipo de dois assentos, denominado F.2, que voou pela primeira vez em junho de 1966. Era uma aeronave de projeto convencional, com cauda e asas enflechadas, ao contrário dos seus antecessores com asa delta de 60º, e sem estabilizadores horizontais. Em dezembro daquele ano voou o protótipo monoplace, denominado F.1, que acabou atraindo mais a atenção do governo francês. Em setembro de 1967 foi assinado um contrato de pré-produção (três aeronaves mais uma célula para testes estruturais).

Logo de início a aeronave mostrou uma performance muito superior à família III/5 em vários quesitos. Possuía um controle melhor em baixa altitude, maior razão de subida, o dobro do alcance tático ao nível do mar, velocidade de aproximação 25% menor e decolagem utilizando 30% menos de pista com carga total. Soma-se a tudo isto o fato de poder transportar uma carga máxima externa superior e possuir praticamente as mesma dimensões principais (comprimento, envergadura e altura).

Desconhecido  

Um Mirage F.1EQ iraquiano do primeiro primeiro lote, entregue entre 1980 e 1981. Estes aviões eram semelhantes aos modelo F.1C francês e muito mais avançados que os caças de origem soviética até então utilizados pela Força Aérea do Iraque. Os aviões dos lotes iniciais possuíam uma camuflagem típica de deserto, não estavam equipados com sonda para reabastecimento em vôo e também não carregavam o Exocet.

Os primeiros exemplares de produção para a "Armée de l'Air", denominados F.1C, ficaram prontos em 1973. Eles possuíam um radar monopulso Thomson-CSF Cyrano IV e um motor SNECMA Atar 9K-50. A função primordial da aeronave na França era a defesa aérea e aproximadamente 250 aeronaves foram adquiridas antes que a "Armée de l'Air" optasse pelo Mirage 2000 como interceptador definitivo.

 

Outras variantes surgiram posteriormente e diversos clientes externos adquiriam a aeronave. Mas o principal operador do Mirage F.1 foi a Força Aérea do Iraque. As negociações para a aquisição de Mirage F.1 foram concluídas em 1977. Eram 18 do modelo F.1EQ-1, 14 do modelo F.1EQ-2 (com radar melhorado) e quatro biplaces F.1BQ-1. O primeiro destes aviões voou em 28 de maio de 1979 e as entregas começaram em abril de 1980, alguns meses antes do início do conflito. Durante o curso da guerra, uma nova encomenda de 22 F.1EQ-4 (além de dois biplace F.1BQ-3) equipados com sonda de reabastecimento em vôo e capacidade para transporte de pods de reconhecimento Matra/Dassault Harold foi feita

Dassault-Breguet

O primeiro Mirage F.1EQ-5 (numeração 4560) do lote de vinte aeronaves. Nesta foto ele aparece em configuração padrão de ataque anti-navio com um AM.39 e dois tanques externos RP.15 sob as asas. O míssil desta foto apresenta marcações típicas de ensaio de vôo.

Estas aeronaves foram empregadas como verdadeiros caças multimissão. Executaram missões de interceptação, escolta, ataques táticos, apoio às tropas terrestres e até ataques navais com bombas convencionais. O grande e decisivo passo no entanto foi a aquisição dos modelos F.1EQ-5, uma variante desenvolvida especialmente para ataque marítimo com o emprego do míssil AM.39 Exocet. Foram encomendados 20 aeronaves deste modelo sendo que o primeiro deles foi entregue em dezembro de 1983.

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Pilotos iraquianos aproximam-se de uma linha de vôo de F.1EQ-5. Observar o Exocet no cabide central sob a fuselagem. Observar a pintura mais escura, diferente do padrão de camuflagem anterior.

Os F.1EQ-5 podia transportar somente um míssil no cabide central sob a fuselagem e dois tanques de combustível RP.15 nos cabides sob as asas. Esta configuração tornava a aeronave lenta e pouco manobrável, uma presa fácil para os interceptadores iranianos (F-14 Tomcat, F-4 Phantom II e F-5 Tiger II). Em 1985 as aeronaves receberam pods de ECM e dispersores de chaff/flare para auto-defesa. No ano seguinte, dois Antonov An-12 foram modificados para reabastecimento aéreo, permitindo uma autonomia bem maior aos EQ-5.

Depois do lote de 20 EQ-5, o Iraque ainda recebeu 18 Mirage F.1 do modelo EQ-6. Entre as principais diferenças estava a capacidade de transportar dois Exocet (um sob cada asa) e o RWR "Sherloc". Tanto o EQ-5 como o EQ-6 utilizavam o radar Cyrano IVM para adquirir o alvo e, posteriormente, alimentar o sistema de guiamento primário do míssil, embora algumas fontes citem o uso do radar Agave (o mesmo utilizado pelos Super Etendard). Foi uma aeronave deste último modelo que disparou contra a fragata USS Stark. Tudo indica que o serviço de inteligência dos EUA falhou, pois não sabia que este modelo já estava em atividade na Força Aérea do Iraque.