DOSSIÊ
Royal Navy  

A fragata HMS Conventry (em primeiro plano) navegando ao lado de outras quatro unidades do Lote II. A classe Tipo 22 foi construída em três lotes distintos, totalizando 14 navios. O Lote II era o mais numeroso.

Fragatas Tipo 22 - Parte 1

Projeto e construção

n Guilherme Poggio  

 

Antecedentes

 

As fragatas britânicas modernas surgiram na II Guerra Mundial para enfrentar os submarinos do Eixo e escoltar comboios de navios mercantes. Eram navios relativamente pequenos (aproximadamente 1.500 t) e de baixa velocidade (< 20 nós), com um sonar de curto alcance e armamento A/S formado basicamente por cargas de profundidade (posteriormente vieram os morteiros). Embora modestas e limitadas, elas cumpriram o seu papel durante a guerra e principalmente durante a fase mais intensa da Batalha do Atlântico. Mas no final do conflito os alemães introduziram uma série de novas tecnologias em sua frota de submarinos (como o circuito fechado de Walter, aumento da capacidade das baterias, cascos mais hidrodinâmicos, torpedos acústicos e guiados e sonares passivos), tornando-os muito mais letais. As mudanças vieram muito tarde e em pequena escala para que o rumo da guerra fosse invertido. Independentemente disso, já estava claro que as fragatas anti-submarinas de então não estavam mais à altura dos seus oponentes.

O primeiro projeto britânico de fragata A/S do pós guerra levou muitos anos para tomar forma. Foi denominado "Tipo 11". Logo de início concluiu-se que os motores a diesel previstos eram muito lentos para combater submarinos cada vez mais velozes. A solução foi adotar uma propulsão baseada em turbinas a vapor. As turbinas, juntamente com as caldeiras, formavam um arranjo volumoso que não era compatível com as dimensões do casco projetado para a classe Tipo 11. Decidiu-se então projetar um casco maior e os estudos originaram a classe Tipo 12. Ao todo, 15 navios desta classe foram construídos e entregues entre 1956 e 1961. Os primeiros seis eram comumente conhecidos como classe "Whitby" e os nove seguintes (uma versão aperfeiçoada) como classe "Rothesay".

Yarmouth association
A fragata HMS Yarmouth, quinta unidade da classe Tipo 12 "Rothesay" na sua configuração original em 1960.  As linhas do casco foram herdadas pelas Tipo 22.

Embora as Tipo 12 tenham se mostrado excelentes navios e desempenhado bem o seu papel ASW, elas eram escoltas construídas para funções específicas, assim como as escoltas antiaéreas e as escoltas para vetoramento de aeronaves ("aircraft direction"). Com o crescimento dos custos de construção e operação dos navios seria interessante, do ponto de vista econômico e operacional, a integração de todas estas funções num mesmo casco. O conceito de "emprego geral" foi primeiramente testado na classe Tipo 81 Tribal (primeira unidade lançada ao mar em 1959), mas ela pouco influenciou os projetos subsequentes.

Com um bom projeto de casco e um conceito novo ("emprego geral"), os projetistas britânicos passaram a trabalhar em uma Tipo 12 bastante modificada a partir de 1958. A superestrutura foi totalmente redesenhada e incorporou um hangar para um pequeno helicóptero. Acima deste, previu-se a instalação de um sistema de mísseis antiaéreo ainda em desenvolvimento (o Sea Cat). O canhão na proa foi mantido e um dos dois lançadores triplos morteiros Limbo foi removido para a instalação de um convés de vôo. Novos sensores foram incorporados e um VDS foi acrescentado na popa. O desenho final impressionou muito o almirantado britânico e três Tipo 12 e uma Tipo 61 ainda em construção foram modificadas para o novo padrão, agora conhecido como classe Leander (extra oficialmente denominada Tipo 12M).

Royal Navy

HMS Cleopatra, uma das 41 Leander construídas. Nesta foto é possível observar as principais características da classe (morteiro limbo, convês de vôo e lançador de Sea Cat).

Os navios desta classe começaram a entrar em serviço a partir de 1963 e dez anos depois, 26 unidades estavam a serviço da Royal Navy. O projeto também foi um sucesso comercial, pois 15 navios foram encomendados por outras marinhas. Na metade da década de 1960, quando a construção das Leander andava a todo vapor, o almirantado britânico começou a trabalhar nos requisitos básicos de um futuro substituto para elas. 

Nesta época, todo o arsenal bélico da Grã Bretanha era projetado e produzido para um único fim. Conter a ameaça soviética e seus parceiros da "Cortina de Ferro". Obviamente essa não era uma tarefa exercida de forma solitária e os deveres e necessidades eram repartidos entre os vários membros da OTAN. A ameaça submarina vinda do leste era exercida de duas formas: através dos grandes SSBM e seus mísseis com multiplas ogivas nucleares ou via centenas de submarinos de ataque, nucleares ou convencionais. É exatamente para conter esta segunda ameaça que as Tipo 22 foram projetadas. Os navios dessa classe deveriam atuar como escolta ASW em grupos nucleados por um NAe ou como escoltas de comboios mercantes no Atlântico Norte. 

Questões Políticas

 

Em 1964 o governo trabalhista chegou ao poder e a política externa britânica foi totalmente reavaliada. Uma das conseqüências inevitáveis foi a redução da frota da Royal Navy. A reestruturação veio em 1967 e o maior de todos os cortes foi o cancelamento do projeto do novo navio-aeródromo CVA-01. Além disso, os que estavam na ativa deveriam ser desativados num período relativamente curto. Em relação às escoltas, a prioridade foi dada aos contratorpedeiros anti-aéreos (Tipo 42), pois, sem os NAes, as esquadras ficariam sem cobertura aérea. Fragatas leves e de baixo custo (classe Tipo 21) também tiveram sua construção autorizada. Mas o projeto de substituição das Leander, que viria a ser o protejo Tipo 22, foi colocado em segundo plano.

Outro evento que atrasou o projeto das novas fragatas foi a insistência do Governo Britânico em estabelecer parcerias européias. Na visão destes, as parcerias eram formas de reduzir os custos com o aumento do número de encomendas. Além disso, as parcerias tinham ganhos políticos, pois manteriam laços tecnológicos e culturais com os demais países europeus. Algumas parcerias desta época geraram bons frutos, como o helicóptero anglo-francês Lynx e o caça a jato SEPECAT Jaguar. Seguindo as diretrizes do governo, a Marinha da Holanda foi sondada para participar do projeto Tipo 22, uma vez que os holandeses também procuravam substitutos para as suas Leander. Os pontos de vista eram bastantes divergentes (principalmente em relação aos sistemas de armas, sensores e projeto de casco) e um acordo binacional para a fabricação de uma classe comum não rendeu frutos. Os britânicos continuaram com o projeto Tipo 22 e os holandeses acabaram projetando a classe Kortenaer.

Definição do Projeto e o Programa de Construção

Com o fracasso das negociações com a Holanda, o setor da RN encarregado do projeto passou a definir a Tipo 22. Conforme mencionado acima, o casco das Tipo 22 é basicamente uma variação do projeto original das Tipo 12. Grande parte dessa semelhança está abaixo da linha d'água, mas algumas características podem ser facilmente observadas, como a borda livre bastante alta em todo o casco e a elevação da seção da proa (exatamente onde se localizam os lançadores de Exocet), originando um castelo. A seção máxima do casco e o centro de carena localizam-se bem mais a ré, permitindo um aumento na eficiência propulsiva em altas velocidades. Estas características, combinadas com um alargamento ("flaring") mínimo na proa, permitem às Tipo 22 navegar de forma estável e rápida em condições adversas de mar.

Divulgação

A fragata HMS Battleaxe (F89) nova em folha. Em 1997 esse navio foi transferido ao Brasil e rebatizado como Rademaker (F49)

As dimensões finais da classe foram definidas em função do tamanho das instalações de apoio. Antes mesmo que o primeiro exemplar da classe fosse construído, a RN já tinha em mente utilizar as modernas instalações cobertas do complexo naval de Devonport. Localizado próximo a cidade de Plymouth (condado de Devon), a HMNB Devonport tornou-se posteriormente a base naval de todas as Tipo 22. Além disso, o almirantado apostava que o casco mais curto seria uma forma de reduzir ao máximo os custos (uma idéia que  provou ser errônea posteriormente).

Como a missão primordial do navio seria a guerra A/S, diversas avaliações levaram à escolha de um sonar de casco (em oposição a um VDS) e um sistema de ataque baseado em torpedos leves embarcados (ao invés do sistema Ikara) e aerotransportados (por helicóptero). Para defesa antiaérea, o sistema escolhido foi o Seawolf, em desenvolvimento desde 1967, e todos os seus equipamentos associados (radares, lançadores, equipamentos de controle e consoles de operação). No papel secundário de AAW, adotaram-se dois canhões de 40 mm. Contra alvos de superfície, uma decisão bastante polênica, mas cercada por uma certa lógica (o assunto será discutido em detalhes mais adiante) acabou dispensando o uso de canhão de calibre médio. Em seu lugar as Tipo 22 receberam mísseis franceses Exocet. Desta forma, estavam traçadas as linhas gerais do primeiro navio britânico de grande porte desprovido de armamento de tubo como arma principal.

As diretrizes principais do sistema de propulsão foram adotadas antes mesmo que as linhas básicas do navio tomassem forma. Numa decisão tomada em 1967, o Almirantado impôs que todos os futuros navios de grande porte da RN seriam propelidos por turbinas a gás. O arranjo COGOG foi escolhido após alguns estudos e inicialmente introduzido nas fragatas Tipo 21 e nos contratorpedeiros Tipo 42.

O projeto básico foi concluído em julho de 1972 e nesta mesma época o Ministério da Defesa britânico e o estaleiro Yarrow firmaram um acordo para que este último produzisse o projeto executivo (detalhamento) da classe. Obviamente um navio de grande porte (a maior fragata construída pela Grã Bretanha até então), bastante complexo e que incorporava vários sistemas e sensores modernos para a época não poderia custar pouco. Como comparação, a última Leander (HMS Ariadne, comissionada em 1973) custou menos que 10 milhões de libras esterlinas. Nesta mesma época as primeiras Tipo 21 foram completadas a um custo final de aproximadamente 20 milhões cada e o HMS Sheffield,  primeiro contratorpedeiro da classe Tipo 42 (completado em 1975), por 23 milhões. Para a HMS Broadsword (primeira Tipo 22) previa-se algo em torno de 30 milhões de libras. Estava claro que a substituição de todas as Leanders (26 unidades construídas para a Royal Navy) por Tipo 22 não ocorreria na base de uma por uma.

 

Como resultado, os parlamentares e políticos com pouco conhecimento sobre o assunto não viam com bons olhos as cifras apresentas pela RN e esta por sua vez teve que se desdobrar para explicar o porquê de um navio tão capaz e tão sofisticado. O programa não foi cortado, mas apenas seguiu de forma lenta.

Como previsto, o estaleiro Yarrow (que participou de toda a etapa de detalhamento do projeto) ganhou o contrato para construir a primeira unidade, batizada HMS Broadsword, em fevereiro de 1974. Mas a construção efetiva só começou no ano seguinte. A segunda unidade foi encomendada em setembro de 1975, seguida pela terceira em setembro de 1976 e a quarta em outubro de 1977.

Quando a HMS Broadsword (F 88) ficou pronta em 1979, as taxas inflacionárias da época elevaram o valor final para 68 milhões de libras esterlinas, muito mais que os quase 40 milhões gastos com o HMS Glasgow (Tipo 42) completado no mesmo ano e uma boa referência para custos. O programa se arrastava a passos lentos e tudo indicava que as duas unidades seguintes (Boxer e Beaver), ligeiramente modificadas e ampliadas (Lote II), seriam as últimas da classe. Em maio daquele ano o Partido Conservador assumiu o governo e, tal qual ocorrera em 1966, os gastos com defesa foram totalmente reavaliados. Em 1981 o Ministro da Defesa anunciou o programa de reestruturação das Forças Armadas. Mais uma vez a marinha foi diretamente atingida e o NAe HMS Invencible deveria ser vendido a Austrália assim que a terceira unidade (HMS Illustrious) ficasse pronta. Os contratorpedeiros Tipo 42 não mais receberiam uma modernização de meia vida e duas unidades de assalto anfíbio (HMS Fearless e HMS Intrepid) dariam baixa. A força ASW futura seria totalmente concentrada em aeronaves baseadas em terra e na frota de submarinos, praticamente encerrando o programa Tipo 22. Uma última unidade (a sétima) foi autorizada e, diziam alguns, seria uma forma de compensar a perda do Invensible.

Yarrow

Lançamento da HMS Boxer em 17 de junho de 1981. A Boxer foi a primeira unidade do Lote II.

A construção da HMS Brave foi confirmada em agosto de 1981 e a quilha foi batida em maio de 1982, sendo seus custos estimados em 127 milhões de libras esterlinas. Mas o término do programa provocou um certo temor na classe operária, pois sem novas encomendas o estaleiro Yarrow cortaria boa parte da mão-de-obra. Um acordo político foi costurado entre o estaleiro  Yarrow e o Governo. O primeiro se comprometeu a construir uma nova unidade por um custo menor (120 milhões em valores de 1982) e assim o Governo encomendou a oitava unidade (Bloodhound posteriormente renomeada London). Mais uma vez foi anunciado o término do programa Tipo 22. Porém, o conflito armado no Atlântico Sul (Falklands/Malvinas) em 1982 mudaria as coisas.

O saldo final do conflito resultou na perda de quatro escoltas (HMS Sheffield, HMS Conventry,  HMS Antelope e HMS Ardent) e exigiu um certo grau de reposição dos meios flutuantes. O relatório da campanha do Atlântico Sul indicou a necessidade de se construir mais cinco unidades, sendo três delas oriundas de uma nova variante, o Lote III, dotadas de canhão e sistema de defesa de ponto adicional. Por questões políticas, as últimas duas do Lote II (nomeadas HMS Sheffield e HMS Conventry em homenagem aos dois Tipo 42 afundados) foram encomendadas ao estaleiro Swan Hunter, sendo o estaleiro Yarrow incumbido de construir as duas primeiras do Lote III (HMS Cornwall e HMS Cumberland). Nesta época o projeto da Tipo 23, sucessora da Tipo 22, já estava quase finalizado e tudo levava a crer que seria o fim da classe. Mas outras duas (estas sim as últimas Tipo 22) foram encomendadas em 1985 e coube aos estaleiros Cammel Laird (HMS Campbeltown) e Swan Hunter (HMS Chatham) encerrar definitivamente a projeto Tipo 22.

Resumo do programa e dos custos envolvidos

G. Poggio  

Ao longo de 15 anos, 14 navios de três lotes diferentes foram construídos. Uma média de quase uma unidade por ano. Números semelhantes ao programa Tipo 42 (14 navios em 15 anos), mas totalmente distantes do programa Leander (26 navios em 13 anos). Em termos de custos, os mesmos eram estimados em 30 milhões de libras esterlinas no início do programa e atingiram a cifra de mais de 200 milhões quando a última unidade foi construída no final da década de 1980. Uma das metas do programa Tipo 23 era reduzir custos. Isto foi parcialmente atingido pois a HMS Norfolk (primeira unidade da classe) não saiu por menos de 170 milhões e, em alguns aspectos (por exemplo ausência de CIWS e hangar para apenas um helicóptero), é um navio inferior ao Lote III.