DOSSIÊ
Royal Navy

O HMS Fearless é um navio anfíbio construído na década de sessenta e reformado nos anos oitenta


OBSERVAÇÃO: Texto originalmente produzindo em agosto de 2002. Recuperado em novembro de 2007 como parte das comemorações do 10 anos de Poder Naval OnLine!


HMS Fearless para a MB?

O Comando da Marinha pode adquirir
mais um navio de assalto anfíbio

n Guilherme Poggio

Notícias veiculadas pela imprensa estrangeira dão conta de que a MB estaria interessada em adquirir o navio de assalto britânico HMS Fearless (L 10). O navio realmente foi oferecido pela DSA (Disposal Services Agency – órgão do Governo Britânico encarregado dos navios colocados na reserva e que porventura possam ser negociados com marinhas estrangeiras) e houve resposta positiva por parte do Comando da Marinha aqui no Brasil.

De acordo com a portaria nº 59 da Diretoria-Geral do Material da Marinha, seis oficiais (cinco Capitães-de-Fragata e um Capitão-de-Corveta) foram designados para realizar uma inspeção técnica no navio de assalto HMS Fearless  na segunda quinzena de junho de 2002.

O HMS Fearless  

O HMS Fearless foi o primeiro de uma classe de navios anfíbios (duas unidades construídas) do mesmo nome. O projeto baseou-se na classe Raleigh (três unidades construídas no início da década de sessenta) da Marinha dos Estados Unidos. No entanto, o HMS Fearless combina as funções de assalto anfíbio com as de C3I (comando, controle, comunicação e informação), plenamente utilizada durante o assalto às ilhas Falklands/Malvinas.

US Navy

A classe Fearless baseou-se no projeto da classe de navios anfíbios Raleigh. Na foto acima o USS Raleigh (LPD-1), primeiro de uma série de três.

Desde a sua concepção, o cenário mais provável para o emprego dos LPD (Landing Platform Dock)  sempre foi o transporte/ desembarque de Reais Fuzileiros Navais no apoio às tropas da OTAN no flanco norte da Noruega, em oposição a um eventual ataque das forças soviéticas.

Tanto o Fearless como o Intrepid (seu irmão gêmeo) foram oficialmente designados como LPD (Landing Platform Dock). Os LPD representam uma evolução dos antigos LST (Tank Landing Craft) da II Guerra Mundial. A proa é convencional, mas na popa existe acesso a uma doca interna capaz de receber quatro LCM (Landing Craft Mechanized). A doca principal é alagável através do bombeamento de 5.000 toneladas de água do mar para dentro da mesma. Dessa maneira, os LCM podem deixar o navio com seus próprios meios. Quatro outras embarcações de desembarque menores LCVP (Landing Craft Vehicle and Personnel) são transportadas nos bordos da superestrutura. A meia nau, o navio é capaz de acomodar veículos e suprimentos diversos. Os combatentes a serem desembarcados ficam alojados na parte inferior da superestrutura do navio. Normalmente 300 fuzileiros podem ser acomodados no navio. Em situações extremas, até 670 homens podem ser embarcados por um curto período.

David Axford David Axford 

Na foto da esquerda, uma visão geral do convés onde são acomodas as viaturas antes do desembarque. Na direita, uma visão geral da doca alagável (olhando para vante) onde são acomodados os LCM.

As características principais do navio podem ser observadas na Tabela ao final do texto. Mudanças significativas ocorreram no armamento do Fearless ao longo do tempo. Originalmente o LPD possuía quatro lançadores quádruplos de mísseis Sea Cat (GWS 20), além de dois reparos simples de canhões de 40 mm. Durante a reforma no final dos anos oitenta, os dois lançadores a ré da superestrutura foram substituídos por dois sistemas CIWS Mk 15 Phalanx. Os outros dois lançadores de vante foram removidos em 1994 (os últimos sistemas desse tipo na Royal Navy). Duas “metralhadoras” GAM-BO de 20 mm também foram acrescentadas. 

 

Como os CIWS Phalanx  são de origem norte-americana, sua transferência para o Brasil depende de aprovação do Governo daquele país. Cabe destacar que a MB opera um sistema semelhante a esse desde 1994, quando foi adquirido o NTCC Mattoso Maia (ex- USS Cayuga, LST 1186). No entanto, o NDD Ceará também possuía dois Phalanx, retirados antes da transferência do navio para o Brasil.

O convôo é capaz de receber até quatro helicópteros do tipo Sea King. Porém, não existem facilidades como hangar para as aeronaves. Durante a Guerra das Falklands/Malvinas o seu convôo também foi utilizado até por aeronaves V/STOL Sea Harrier.  A eventual aquisição do HMS Fearless pela MB representaria mais uma plataforma capaz de operar os helicópteros pesados, os Super Puma/Cougar e os Sea King.

Aposentadoria

O HMS Fearless foi mantido na ativa por toda a década de noventa e início do século XXI graças à combinação de alguns fatores: a) a importância que um navio como esse desempenha no atual cenário mundial; b) a ausência de substitutos à altura e c) a disponibilidade de peças de reposição fornecidas pelo seu irmão HMS Intrepid, na reserva desde 1991.

David Axford 

O Fearless em sua última viagem de volta a Grã Bretanha no dia 18 de março de 2002. Para um navio com 37 anos, seu estado é considerado satisfatório.

No entanto, uma classe que substituísse o Fearless era mais do que necessária. O projeto do novo LPD foi estudado nos anos oitenta, mas somente na década seguinte foi levado a diante. A nova classe será representada por dois navios: o HMS Albion e o HMS Bulwark.

A expectativa inicial era para que o navio fosse retirado do serviço ativo quando o seu substituto estivesse completo. A previsão para o final de 2002 foi atrasada e o mesmo só entrará em serviço em janeiro de 2003. Aparentemente a aposentadoria do HMS Fearless foi antecipada por motivos de custos (manter o navio na ativa por mais oito meses não justificaria o valor a ser desembolsado). O navio foi oficialmente retirado do serviço ativo no começo desse mês (2 de agosto de 2002).

Uma longa ficha de serviços

 

Desde o início, o HMS Fearless esteve envolvido em diversas ações militares por todo o planeta. No ano seguinte após o seu comissionamento na RN, o navio foi despachado para o Golfo de Aden (Iêmen), apoiando ações anti-terroristas e no ano seguinte coordenou a retirada das topas britânicas do mesmo local. Em 1968 o Fearless serviria de “ponto de encontro” entre o primeiro ministro Harold Wilson e autoridades do governo rodesiano. Sua presença no auxílio às vítimas das enchentes, ocorridas no Leste do Paquistão em 1971, ficou marcada como uma das grandes ações humanitárias em toda a sua carreira. Alguns anos mais tarde, mais precisamente em 1976, o HMS Fearless tornou-se “estrela de cinema” ao participar do filme "007 – A espiã que me amava”. O estrelato não tirou a atenção de sua tripulação e mesmo durante as filmagens o navio correu em socorro a um cargueiro grego que se encontrava em chamas.

Embora a folha de serviços prestados pelo HMS Fearless fosse das mais extensas, mostrando a importância do navio para a RN, uma reorganização dos meios navais britânicos (ocorrida em 1981) previa a retirada de serviço dos navios de assalto sem que houvesse reposição. O HMS Intrepid foi descomissionado em 1981 como planejado e o HMS Fearless seria descomissionado em 1984. O desembarque argentino nas Ilhas Falklands/Malvinas em abril de 1982 mudou essas decisões.

Nas Malvinas

O ponto alto da carreira foi a sua participação na “Operação Corporate”, encarregada de retomar as ilhas Falklands/Malvinas. No dia 8 de maio de 1982, um grupo anfíbio (incluindo o HMS Fearless) partiu da Ilha de Ascensão rumo as Falklands/Malvinas. Dez dias depois, esse grupo junta-se à frota do contra-almirante Woodward. Levaria ainda 24 horas para que o remanejamento final fosse feito antes que a força estivesse preparada para uma ação de desembarque. O grupo anfíbio entrou no Estreito das Malvinas na noite de 20 de maio.

DoD

Durante o desembarque em San Carlos, o HMS Fearless sofreu apenas danos leves (fotos - Crown).

Nas primeiras horas do dia 21 de maio de 1982, ainda protegidos pela escuridão, um grande número de navios britânicos se deslocava para o Estreito de San Carlos. Dentre os diversos navios mobilizados, encontrava-se o HMS Fearless transportando a 40ª Unidade de Comandos. Durante várias horas, sem que houvesse reação por parte dos argentinos, foram desembarcadas diversas toneladas de equipamentos em terra e centenas de homens transportados por ar ou pelas lanchas de desembarque.

Com o amanhecer do dia, as nuvens se dissiparam, permitindo investidas aéreas por parte da Força Aérea Argentina e do Comando de Aviação Naval Argentino. Os primeiros aviões atacaram a frota britânica por volta das dez horas da manhã. Durante todo aquele dia e nos dias seguintes, a frota de desembarque foi atacada por diversas aeronaves. Além dos mísseis e dos canhões de 40 mm, o Fearless contava também com diversos atiradores armados com rifles automáticos e SAM Blowpipe. Durante o dia 24 de maio, o HMS Fearless derrubou duas aeronaves argentinas utilizando o seus mísseis Sea Cat.

O Fearless foi o navio de comando da força anfíbia durante o desembarque em San Carlos. O General Moore fez do Fearless o seu “quartel general” e as negociações para a rendição da guarnição argentina nas ilhas foram inicialmente tratadas no seu camarote com o General Menendez.

Reforma e atualização

Após a Guerra das Falklands/Malvinas, o navio foi empregado em uma série de novas missões (incluindo Líbano em 1983) até ir para a reserva em 1985 quando o seu navio-irmão HMS Intrepid foi reconduzido a ativa. Em junho de 1988,  o HMS Fearless foi retirado do seu descanso em Portsmouth e enviado a Devonport para ser submetido a uma reforma total além da introdução de várias melhorias técnicas. Com um custo de 50 milhões de libras, a reforma foi concluída em novembro de 1990 e o seu retorno à frota ocorreu no início do ano seguinte. A reforma demorou seis meses além do previsto em função da descoberta de novas corrosões, principalmente no casco.

Além da completa reforma do casco em si, diversos sensores e equipamentos foram acrescentados. Houve uma reformulação na parte de armamentos. Novos equipamentos de comunicação e guerra eletrônica foram incorporados, elevando a altura do mastro principal em 3,7 m. Foi incorporado também um novo sistema de navegação/dados de combate  Plessey NAUTIS-L, que apresenta as informações em sete consoles do CIC.

Royal Navy

Royal Navy 

Duas imagens mostram o Centro de Informações de Combate (CIC) do HMS Fearless. A partir desse local, o comandante da forças de desembarque possui uma visão tática de todas as atividades que desenvolvem durante uma operação anfíbia

Após a reforma, o navio participou intensamente das atividades desenvolvidas pelo Governo Britânico em várias partes do mundo. Recentemente o navio encontrava-se no Oriente Médio quando os exercícios foram suspensos. Um pouco antes do natal de 2001 o HMS Fearless participou do transporte de um grupo de Reais Fuzileiros Navais que seguiu para o Afeganistão.

Operações Anfíbias no Brasil

Durante muitos anos, as operações anfíbias de grande envergadura da MB eram executadas com o apoio dos NDCC Duque de Caxias (G-26) e Garcia D’Avila (G-28). Eram navios obsoletos já na época em que foram adquiridos pelo Brasil, pois eram baseados em conceitos datados da II Guerra Mundial.

 

Uma verdadeira revolução nos meios navais de apoio às atividades anfíbias ocorreu a partir do final dos anos oitenta. A aquisição de novas unidades (mesmo sendo de segunda mão) trouxe uma nova dimensão na capacidade da Marinha Brasileira de projetar o Poder Naval sobre a terra. Em 1989 chegava ao Brasil o NDD Ceará (G-30) e no início de 1991 foi incorporado o NDD Rio de Janeiro (G-31) da mesma classe (Thomaston). No segundo semestre de 1994 foi transferido para a MB o NDCC Mattoso Maia (G-28), da classe Newport. Essas três unidades continuam em atividade e representam uma força anfíbia respeitável. No entanto, desde a chegada do NDCC Mattoso Maia, a MB aguarda a transferência de uma segunda unidade da mesma classe. Diversos entendimentos foram mantidos com autoridades norte-americanas, mas até o momento uma solução final não saiu. O interesse pelo HMS Fearless pode ter origem exatamente na demora da transferência de um segundo NDCC da classe Newport.

Sem dúvida a aquisição de um navio como o HMS Fearless aumentaria a capacidade anfíbia da MB. Mais do que isso, navios como o HMS Fearless são perfeitos para missões ao longo do planeta sob a tutela da ONU. No entanto, existe um grande concorrente disposto a adquirir o navio. É uma associação formada por veteranos que serviram a bordo do HMS Fearless. A associação pretende levantar fundos, estimados em 400.000 libras esterlinas, para adquirir o navio.

colaboração: José da Silva

 

Para saber mais sobre o HMS Fearless

 

Navio de Assalto Anfíbio HMS Fearless

FICHA TÉCNICA

Deslocamento 11.120 t totalmente carregado (sem contar a doca alagada)
Dimensões 158,5 m de comprimento; 24,38 m de boca; 6,20 m de calado  (9,15 com a doca alagada)
Propulsão 2 caldeiras Babcock & Wilcox, 38.66kg/cm2, 454º C; 2 turbinas English Electric com 22.000 shp cada.
Velocidade Máxima 21 nós
Autonomia 5.000 milhas a 20 nós
Tripulação 50 oficiais e 500 praças e sargentos; Grupo aéreo: 3 oficiais e 19 praças e sargentos; fuzileiros: entre 380 e 700 homens
Grupo aéreo capacidade para até 4 helicópteros SH-3 Sea King no convôo localizado acima da doca alagável. Não há hangares 
Defesa AAe 2 sistemas CIWS Mk 15 Phalanx, localizado a ré da superestrutura; 4 canhões BMRAC de 30 mm; 2 "metralhadoras" GAM-BO1 de 20 mm
Capacidade de transporte anfíbio

 

 

 Quatro embarcações de desembarque tipo LCVP (Landing Craft Vehicle and Personnel) com capacidade para 35 homens ou veículo com até 5,5 t.

4 LCM (Landing Craft Mechanized) com capacidade individual para dois MBT ou quatro veículos ou 100 t de equipamentos. O veículos de combate podem ser dispostos em três conveses distintos.

Sensores

Radar de busca aérea/superfície: BAe Systems Type 994; radar de navegação: Kelvin-Hughes Type 1006 (banda I)

Sistema de Dados Táticos Plessey NAUTIS-L
Sistema Elétrico 4.000 Kw total