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Rademaker - uma avaliação inicial do incidente
n Guilherme Poggio & Alexandre Galante
Durante a realização da Operação Fraterno deste ano, um navio de guerra da Argentina, noticiado como sendo o contratorpedeiro Sarandí (D-13), acabou disparando acidentalmente contra a fragata da Marinha do Brasil Rademaker (F-49), ferindo cinco militares. O acidente aconteceu na noite do dia 29 de novembro, ao largo da cidade de Cabo Frio, durante a realização de exercícios navais com disparo contra alvos. Os feridos, quatro brasileiros e um argentino, foram removidos por helicóptero e encaminhados para o Hospital Naval Marcílio Dias. Seu estado não foi considerado grave. A fragata voltou ao Rio de Janeiro por meios próprios. A Fragata A classe Broadsword, a qual pertence a Rademaker, foi desenvolvida pela Grã Bretanha como unidade especializada em missões ASW em substituição às unidades classe Leander. Naquela época a ameaça submarina soviética era grande e navios mais modernos tornavam-se necessários. Inicialmente foram projetadas quarto unidades, que posteriormente receberam designação de Batch 1 (primeiro lote). A HMS Battleaxe (atual Rademaker) foi a única das três unidades (então em atividade) da classe que não participou dos conflitos no Atlântico Sul (Malvinas/Falklands) como largamente divulgado pela imprensa leiga. Em 18 de novembro de 1994 foi assinado um contrato de compra entre a Marinha do Brasil e Royal Navy. Avaliado em aproximadamente US$ 170 milhões, o contrato incluía além da transferência das quatro fragatas, três varredores da classe River. Uma verdadeira barganha por navios tão valiosos. As transferências ocorreram conforme as mesmas foram dando baixa da Royal Navy. A fragata Rademaker foi incorporada à Marinha do Brasil em 30 de abril de 1997, e recebeu este nome para homenagear o Almirante Augusto Hamann Rademaker Grünewald. Avaliação das informações disponíveis Imagens aéreas fornecidas pela televisão e fotos à distância publicadas na mídia impressa não mostram muita coisa. Pode-se concluir rapidamente que, além do triste fato de ferir cinco militares, os estragos foram pequenos e o navio voltará a operar plenamente em pouco tempo. No entanto, uma análise mais próxima mostra que a situação não é bem essa. Fotos divulgadas na internet mostram as áreas efetivamente atingidas e a dimensão dos danos.
O tipo de armamento que disparou contra a fragata pode ser identificado por duas características básicas. Primeiramente, o diâmetro das perfurações permite afirmar que o calibre da arma empregada é de pequeno porte para os padrões de armamento de tubo usualmente empregados no meio naval (algo entre 20 e 40 mm). Além disso, a grande quantidade de perfurações (foram contadas cerca de quinze) demonstra ser um armamento de tiro rápido. Pode-se ainda especular que a munição utilizada não é do tipo 3P nem incendiária. Dentre as opções possíveis, pode-se afirmar que os disparos vieram dos reparos duplos Oto Merala 40L70 de 40 mm. Nos contratorpedeiros da classe Almirante Brown existem quatro reparos distribuídos próximo ao passadiço (proa) e junto ao hangar (popa), cobrindo praticamente todos os quadrantes do navio. Estes reparos possuem uma cadência de tiro elevada (600 por minuto) e são empregados principalmente contra ameaças aéreas (aeronaves ou mísseis Sea Skimmer). As fotos mostram ainda que os projéteis vieram de proa, indicando que os navios deveriam estar em coluna (um atrás do outro). Esta posição (em coluna) é comum durante a realização de exercício de tiro AAe sobre granada ou foguete iluminativo. O vento relativo atua de forma a afastar a granada/foguete da formatura. Sendo assim, é mais provável que os disparos tenham sido feitos pelos reparos de popa (localizados ao lado do hangar). O alinhamento vertical dos tiros está bastante definido, mas não é possível afirmar o sentido (de cima para baixo ou ao contrário). Por outro lado, a pequena dispersão dos projéteis é um indicativo de que os navios estavam relativamente próximos. Os diversos impactos que existem nos vidros do passadiço foram causados por estilhaços e fragmentos diversos. Tudo indica que estes foram os reais causadores de ferimentos nos militares. Um ser humano não tem chances de sobreviver a um impacto direto de 40 mm.
Possíveis causas A falha humana não pode ser descartada e somente o inquérito poderá avaliar. Existe possibilidade do vento relativo ter mudado durante o exercício e a granada/foguete ter derivado em direção a Rademaker. Neste caso, a ordem de tiro já mais poderia ter sido dada. Porém, existe uma questão técnica que deve ser explorada. Casos de sistemas autônomos que entraram em funcionamento sem que um operador estivesse no comando já ocorreram no passado. Inclusive, na Marinha dos EUA ocorreram casos de sistemas CIWS Vulcan Phalanx, operando no modo autônomo, disparando contra forças amigas sem o menor controle. No caso em questão, uma das prováveis causas do acidente seria uma falha no software que controla os canhões de 40 mm. Possibilidade esta também levantada pelo jornal argentino Clarín. Informações não oficiais dão conta que um outro incidente envolvendo os canhões de 40 mm aconteceu há quatro anos atrás e por muito pouco não atingiu um outro navio brasileiro. Em 1996, durante um exercício de tiro contra um rochedo localizado em mar aberto, a corveta Spiro (que coincidentemente também participa da Operação Fraterno deste ano) deveria disparar seus canhões de 40 mm. Ao se aproximar do ponto de disparo, o sistema entrou em pane e os reparos de proa e popa (nas corvetas classe Meko 140 só existem dois reparos de 40 mm, um na proa e outro na popa) começaram a girar de forma totalmente descontrolada. A tripulação tentou tudo o que era possível mas o sistema só voltou ao normal quando foi totalmente "resetado". A Marinha da Argentina tem conhecimento do problema e já trabalha há algum tempo desenvolvendo um software próprio para substituição. Conseqüências e danos Os estragos observados na bochecha ou em qualquer outra parte do costado e da superestrutura, incluindo o passadiço, não apresentam grandes problemas para serem reparados. As maiores preocupações estão nos sensores e armamentos, não só pelo custo mas também pelo tempo que será dispendido, bem como a existência ou não de peças de reposição. Não foram observados dados nos containeres que alojam os mísseis MM-38 Exocet. Já o lançador sêxtuplo de proa do sistema GWS-25 (mísseis Seawolf) foi duramente castigado. É possível ver que as aberturas de três células foram bastante danificadas. Caso não seja possível reparar o lançador, é muito provável que um dos existentes na fragata Dodsworth (atualmente na "Reserva") sirva como substituto. A diretora de tiro ( Marconi Type 910), localizada logo acima do passadiço, talvez tenha sido a mais afetada. Dificilmente voltará a funcionar e será necessário uma nova. Os tiros que acertaram o mastro aparentemente não acarretam muita preocupação. Porém, deve-se atentar para toda fiação e cabeamento existente ali que comunica e alimenta os sensores como o MAGE. Toda essa parte deverá ser vistoriada para uma posterior substituição das peças danificadas. Em resumo, para que a
Rademaker volte ao estado em que se encontrava será necessário um
período relativamente longo de reparos. O custo dos mesmos também é uma preocupação.
As verbas para os programas já são fortemente
contingenciadas. O que dizer de situações como essas. Ao que tudo
indica, colocar a Rademaker novamente em plena atividade desencadeará o processo
de canibalização da Dodsworth.
Artigo realizado em cooperação com o sítio DefesaNet
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