O primeiro combate
naval no Brasil
n
Guilherme Poggio
O relato das três primeiras expedições portuguesas ao Brasil
informava ao rei de Portugal, D. Manoel, que além de árvores de
pau-brasil, nada mais havia de proveito. Naquele momento, as viagens para
a Índia mostravam-se muito lucrativas e a coroa portuguesa voltou seus
recursos principais para o comércio com as colônias do Oriente. O Brasil
não ficou esquecido, apenas colocado em segundo plano e arrendado para um
consórcio de comerciantes portugueses de pau-brasil, liderados por
Fernando de Noronha.
A existência de pau-brasil nas terras recentemente descobertas por
Portugal repercutiu muito na Normandia, um dos principais pólos têxteis
da época. Sabendo da existência de um vasto território abundante em
pau-brasil e fracamente defendido, os mercadores privados no norte da
França (Bretanha e Normandia) decidiram organizar expedições para a
colônia lusitana. Até então o governo francês de Luís XII pouco
interviu na ação dos corsários de seu reino. A política oficial
francesa começou a mudar com a subida ao trono do Rei Francisco I em
1515. Opositor ferrenho do Tratado de Tordesilhas, partilha territorial
feita em 1494 entre Portugal e Espanha, forças do rei passaram a atacar
possessões espanholas por todo o globo. Além disso, rompeu acordos e
tratados que tinha com Portugal em 1524 e passou a questionar a
legitimidade deste país em relação ao Brasil. Contando com apoio
governamental, os corsários franceses passaram a agir no litoral
brasileiro de forma mais intensa, inclusive atacando feitorias portuguesas
aqui instaladas.
Espanhóis e franceses se
encontram no litoral da Bahia
Em julho de 1525, uma frota espanhola partiu do porto de Sevilha com o
objetivo de refazer a viagem de Fernando de Magalhães até as Ilhas
Molucas (Oceano Pacífico), contornando o extremo Sul da América (posteriormente denominado estreito de Magalhães). Ao se aproximar da
entrada do estreito, em pleno inverno austral, a frota foi
surpreendia pelo clima rigoroso. A nau São Gabriel, comandada por D.
Rodrigo de Acuña, se separou das demais e seguiu rumo Norte pelo
litoral brasileiro. Ao atingir o litoral nordestino, parou junto à foz de
um rio situado nas proximidades do paralelo 10º S para reparar seu
navio.
No dia 21 de outubro de 1526, a nau de D. Rodrigo estava sendo reparada
quando foi surpreendida por um ataque dos franceses. Sem poder se defender,
D. Rodrigo embarcou num batel com outros sete homens afim de resolver a
questão diplomaticamente. Neste meio tempo, os homens que permaneceram a
bordo da São Gabriel tomaram a embarcação e fugiram. D. Rodrigo e seus homens
foram aprisionados pelos corsários franceses durante trinta dias. Ao
partirem, abandonaram o capitão espanhol com o seu batel. Sem víveres e
com poucos remos. D. Rodrigo e seus homens remaram rumo norte, até encontrarem a feitoria
portuguesa de Pernambuco. Lá
permaneceram.
A armada guarda-costa
Quando Cristovão Jaques retornou de sua segunda viagem ao Brasil,
ficou sabendo do falecimento do Rei D. Manoel. A morte do rei reduziu o
prestígio do navegador junto à corte. Jaques procurou por diversas vezes
D. João III, sucessor de D. Manoel, para que este financiasse uma nova
viagem ao Brasil. Mas o novo rei não lhe deu ouvidos. O monarca mudou de
idéia quando o embaixador português na França comunicou-lhe sobre os
preparativos franceses para uma viagem à costa brasileira. D. João III
mandou preparar uma "armada guarda-costa". Para comandá-la,
escolheu Cristovão Jaques, homem duro, sem escrúpulos e que
conhecia bem a costa brasileira.
A frota comandada por Jaques não era das maiores, mas impunha respeito. Compunha-se de uma nau e
cinco caravelas. No meio do caminho, uma das caravelas foi enviada para a
Guiné. Os cinco navios restantes seguiram para o Brasil. Ao aportar na
feitoria de Pernambuco, Jaques encontrou o espanhol D. Rodrigo. Este lhe
informou do ataque que havia sofrido por parte dos corsários franceses um
pouco mais ao Sul. Antes de partir para a caça aos corsários, Jaques
mandou carregar a nau Hieros com pau-brasil. Enquanto a nau era carregada, uma das caravelas foi enviada
em missão de reconhecimento. Algumas informações dão conta de
que, ao retornar, a caravela trouxe notícias de uma suposta troca de
tiros entre a nau São Gabriel e os corsários franceses na Baía de Todos
os Santos. Caso o combate realmente tenha acontecido (narrado
posteriormente por D. Rodrigo em sua carta a Cristovão de Haro), este foi
o primeiro combate naval em águas brasileiras. No entanto, pouco ou
nenhum significado teve para o futuro da colônia ou para a coroa
portuguesa.
Após a partida da Hieros, Jaques seguiu para Sul com uma
esquadra composta por quatro caravelas. Disposto a encontrar e
afundar as embarcações francesas o português tinha o fator surpresa ao
seu lado, além de conhecer o número de naves inimigas. O encontro entre
as duas frotas ocorreu em fins de julho de 1527 no litoral baiano.
Numericamente o combate estava equilibrado pois a esquadra francesa
também era composta por quatro embarcações. Para a surpresa de Jaques,
a quarta embarcação da frota francesa era exatamente a caravela que ele
havia enviado para a Guiné.
A esquadra portuguesa atacou os corsários de forma impiedosa. Os
combates foram violentos e duraram um dia inteiro. Entre os invasores,
muitos tripulantes morreram. Possivelmente mais de uma centena, incluindo
os pilotos. Os navios franceses estavam quase indo a pique quando muitos
marinheiros os abandonaram e se refugiaram em terra. Um grupo se entregou
aos portugueses. Conforme o relato de alguns sobreviventes, Jaques mandou
enforcar uma parte. Outros foram enterrados até os ombros e tiros de
espingarda foram disparados. No final, Jaques ainda conseguiu capturar um
galeão de nome Leynon de Saint Pol de Leon e o conduziu até Pernambuco juntamente com alguns prisioneiros.
Reflexos do Combate
Os franceses capturados foram enviados para Portugal, onde permaneceram
presos e foram condenados à morte. O grupo que se refugiou em terra foi
posteriormente resgatado (possivelmente por outros navios franceses) e repatriado. Ao chegarem na França, relataram ao rei Francisco I sobre as
brutalidades sofridas e as crueldades com que foram tratados. Uma
carta de protesto foi enviada a D. João III, exigindo o pagamento de
reparações. O rei de Portugal negociou por seis semanas com os franceses
mas não fez concessões. No entanto, Cristovão Jaques, que já não
gozava de tanto prestígio na corte como no reinado anterior, foi
destituído de seu cargo em função das acusações de crueldade
cometidas com os prisioneiros.
O combate de julho de 1527 seria o primeiro de muitos outros entre
Portugal e a França pela costa brasileira. Os franceses só seriam
definitivamente expulsos da colônia no século seguinte, quando se
retiram do Maranhão.
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