HISTÓRIA
Royal Navy

O HMS Vengeance com algumas aeronaves no convôo. 

A Compra do 'Vengeance'

Uma visão política dos fatos

n Guilherme Poggio

 

Importância e Oferta

Quando a II Guerra Mundial começou o título de “rei dos mares” cabia aos encouraçados. Ao final dela, o navio-aeródromo tomara o seu lugar. Cabe aos norte americanos e, em menor escala, aos britânicos o grande sucesso em combate do navio-aeródromo. Ambos os países foram os únicos que entraram no período pós-guerra com uma frota destes em atividade, sem contar o grande número encomendado aos estaleiros.

A união da importância do porta-aviões no cenário naval com a disponibilidade de um grande número de navios, fez com que algumas marinhas adquirissem exemplares usados ou ainda em construção.

 

O primeiro país do pós-guerra a adquirir um porta-aviões foi a França, que recebeu um NAe de escolta da US Navy já em 1945. Mas o grande fornecedor de NAes usados foi mesmo a Inglaterra. A mesma França  receberia no ano seguinte, por empréstimo, o HMS Colossus. Ainda em 1946, foi a vez da Holanda receber um outro NAe da Classe Colusssus - o Venerable – que anos mais tarde veio a se tornar o ARA 25 de Mayo. Antes de 1950, quatro nações, além dos EUA e da Inglaterra, haviam fortalecido suas marinhas com porta-aviões, sendo que destas, apenas a França havia tido NAe anteriormente.

Ao todo, nove NAes de origem inglesa foram utilizados por sete diferentes marinhas. Na foto, o HMS Venerable, vendido a Holanda e, posteriormente repassado a Argentina.

Na primeira metade da década de 50, a Inglaterra estava recebendo de volta parte de seus velhos NAes emprestados às marinhas amigas. Portanto, houve uma nova oferta de navios. Por outro lado, a Guerra Fria “esquentava”, e as disputas regionais também (Brasil/Argentina, Índia/Paquistão e outros). Esse período permitiu que países pertencentes ao Terceiro Mundo, incluindo o Brasil, entrassem para o “clube” do Navio-Aeródromo.  Porém, mais do que fortalecer o poderio bélico nacional, a compra no navio-aeródromo serviu como um instrumento do Poder Executivo na condução da política interna do país.

Acontecimentos políticos que antecederam a compra do Vengeance 

O dia 24 de agosto de 1954 é uma das datas que ficaram para a história do Brasil. Neste dia, então presidente Getúlio Vargas comete suicido e deixa escrito um carta "... saio da vida para entrar par a história." Até a sua própria morte foi uma cartada política, dando mais um fôlego para a democracia, que já vinha sofrendo pressão das três Forças Armadas para renunciar. Café Filho, o vice, assume a presidência e mantém o calendário eleitoral, marcando a sucessão presidencial para 3 de outubro de 1955. Ao contrário do que esperava a oposição, que incluía além das Forças Armadas e a UDN, a coligação que dava suporte ao governo getulista, PSD/PTB, mostrou-se forte com o falecimento de Vargas.  

Mineiro de sorriso fácil, Juscelino Kubitscheck, o candidato da coligação PSD/PTB, sempre exibia bom humor em sua campanha eleitoral. Dirigia-se ao seu eleitorado com discursos coloquiais. Vendia uma imagem de otimismo e confiança no futuro, devidamente estampadas nos seus lemas de campanha: "50 anos em 5" e "Energia e Transporte". Seu mais forte oposicionista, o candidato Juarez Távora, era exatamente o oposto. Sua carreira militar estava clara nos seus discursos duros, moralizadores e, acima de tudo, sofridos. Costumava dizer que o povo "teria que fazer muito sacrifício, sofrer muito". Não que suas palavras fossem mentirosas. Ao contrário, ele expunha toda a verdade, mostrando a situação econômica delicada pela qual o país passava.

Quando a eleição chegou, a chapa Juscelino/Jango saiu-se vitoriosa com 36% dos votos. Inconformados com o resultado (que não representava maioria absoluta), parte da oposição, liderada por Carlos Lacerda, pediu abertamente um "golpe". Grupos das forças Armadas como a "República do Galeão" e a "Cruzada Anti-comunista", liderada pelo Almirante Carlos Pena Boto (então comandante da Marinha) apoiaram essa linha mais radical.

A situação complicava-se a cada momento. Para piorar o quadro, Café Filho adoece um mês após as eleições. Assumiu o Governo Carlos Luz, partidário de uma solução extralegal para a sucessão. Sabendo das intenções do interino, o Ministro da Guerra, General Lott, um legalista e defensor da posse do presidente eleito, tomou o comando de uma campanha militar para empossar Juscelino e repelir os revoltosos. A 1:30 da madrugada de 11 de novembro de 1955, o General Lott cercou a cidade do Rio de Janeiro com 25.000 homens. Carlos Luz então buscou refúgio no Ministério da Marinha, onde estava o Almirante Pena Boto.

A situação estava insustentável para a oposição, que resolveu se refugiar no Cruzador Tamandaré, então comandado pelo Almirante Sílvio Heck. Esperando o apoio da guarnição da Marinha em Santos (SP) e do então Governador do estado, Jânio Quadros, o navio segue em direção a São Paulo para tentar estabelecer um Governo Federal presidido por Carlos Luz. No canal da entrada da Baía de Guanabara o cruzador é atacado por tiros de canhão vindo dos fortes.

Marinha do Brasil

Na madrugada do dia 11 de novembro de 1955, o cruzador Tamandaré , sob o domínio dos revoltosos, saiu da Baía da Guanabara em direção ao porto de Santos. Tiros de advertência foram disparados pelas fortalezas costeiras. No entanto, o navio não revidou. 

No meio da viagem, o cruzador recebeu uma mensagem informando que a guarnição de Santos aderiu ao General Lott. Mesmo assim, os revoltosos decidiram prosseguir rumo a Santos, e desembarcar pela força. Nesse meio tempo, o também revoltoso Brig. Eduardo Gomes, voa para a cidade de São Paulo escoltado por cinco Gloster Meteor. Mas na capital paulista, mais um comandante adere a Lott, o General Falconieri chefe da II Região Militar. Vendo que a manobra estava totalmente comprometida, os tripulantes do Tamandaré decidem dar meia volta e seguir para o Rio de Janeiro. De volta a capital federal, Carlos Luz foi impedido de assumir a presidência, ficando esta interinamente a cargo do presidente do Senado Nereu Ramos. A 25 de novembro, pressionado pelo General Lott, o presidente interino decreta estado de sítio até a posse do presidente em 31 de janeiro de 1956.

O início do Governo Juscelino

 

Herdando um país com dificuldades econômicas e instabilizações políticas, JK parecia não se intimidar. Tinha como bandeira de campanha instaurar o Programa de Metas, cuja finalidade era modernizar o Brasil, dotando-o de indústrias de base e bens duráveis. O governo por seu lado se encarregaria do setor de energia e transporte. Não havia muita preocupação com o dinheiro a ser investido, pois os prazos para o pagamento das dívidas venceriam somente no próximo mandato presidencial. Do ponto de vista histórico, JK seria lembrado com o homem que fez, e suas dívidas seriam simplesmente transferidas para a próxima administração. Das usinas hidrelétricas à construção de Brasília, milhares de dólares foram investidos. 

No plano político, a insatisfação de alguns seguimentos das Forças Armadas ainda estava presente. Não menos que duas semanas depois da posse, o Governo de JK enfrentou sua primeira crise, fruto de um descontentamento entre os militares derrotados nas urnas em novembro de 1955. Ainda no mês de janeiro, o major-aviador Veloso e o capitão-aviador Lameirão iniciaram uma revolta contra o Governo, classificado por estes como "entreguista". Os dois oficiais voaram para Santarém (PA) e lá foram recebidos pelo major Victor, que deveria detê-los e acabou aderindo ao movimento conhecido como "A revolta de Jacareacanga". A ação dos revoltosos da FAB na Amazônia, auxiliados por uns poucos caboclos e índios da região, conseguiu dominar as localidades de Jacareacanga, Santarém, Belterra, Itaituba, e Cachimbo. Somente em 23 de fevereiro a rebelião foi debelada.   

    Arquivo

Os majores Paulo Vitor e Veloso a frente de um Beech 48 em Jacareacanga

Embora a resposta da Aeronáutica tenha sido pró-governo, emitindo uma nota oficial apontando o fato como "uma ação indisciplinada" e isolada, a situação não era bem essa. Uma grande parte dos oficiais da FAB apoiavam moralmente o movimento, mostrando o grau de insatisfação com o novo Governo e com o resultado das urnas. O Ministério da Aeronáutica era hostil ao governo e, sabendo disso, JK promoveu uma série de ações para apaziguar os ânimos dos oficiais da FAB, anistiando os revoltosos e promovendo oficiais que eram simpáticos as causas rebeldes.

Com isso, JK mostrou uma de suas armas contra as duas forças (Marinha e Aeronáutica) que se opunham ao seu governo; cortejá-los com promoções. Além disso, o presidente também atendeu a uma das aspirações dos militares que era a participação destes na máquina pública, ocupando cargos executivos, em empresas estatais como Petrobrás, Sudene e outras vinculadas ao Programa de Metas (é dessa época a expressão "generais executivos").

A outra arma de Juscelino era a de presenteá-los com equipamentos. É nessa categoria que, em dezembro de 1956, o Governo Brasileiro adquire o HMS Vengeance. O nome que o navio recebeu no Brasil também teve conotação política. A final de contas, Minas Gerais era o estado natal do Presidente da República.

Mais do que presentear os militares, JK esperava um atrito entre as duas Armas que mais se opunham a ele, ocupando-as de disputas internas e deixando o Governo de lado. Numa das afirmações de JK, ele disse: "Com o Porta-aviões, deixarei de ser inimigo da Marinha e, ao mesmo tempo, serei esquecido pelos partidários do Brigadeiro [Eduardo Gomes], que, de outra maneira, não me deixarão governar".

SDM            

Chegada do Minas Gerais ao Rio de Janeiro em 2 de fevereiro de 1961. 

 

Do ponto de vista econômico, a compra do Vengeance, foi apenas mais um item para o endividamento do estado e, diga-se de passagem, um dos menores se analisarmos todas as grandes obras do Governo JK. Deve-se à construção de Brasília e aos gastos públicos, que visavam o aceleramento do Plano de Metas, o crescimento inflacionário no período. Em resumo, a compra do NAeL Minas Gerais representou muito pouco na conta que o FMI veio cobrar anos mais tarde, mais precisamente em 1958, durante o Governo do Presidente Jânio Quadros. Mas os ganhos políticos foram grandes para JK e, conforme ele mesmo havia previsto, os Ministérios da Marinha e da Aeronáutica entraram em choque por causa do navio.