HISTÓRIA


Perdas Navais brasileiras na 2ª Guerra Mundial

Reprodução
Concepção artística do navio-auxiliar Vital de Oliveira, de 1.737t, torpedeado pelo submarino alemão U-861, em 20 de julho de 1944

Durante a Segunda Guerra, 36 navios brasileiros foram torpedeados, entre 1942 e 1944, por submarinos do Eixo, na área do Oceano Atlântico que vai desde a Filadéfia, nos Estados Unidos, até Santos, no Brasil, além do extremo sul da África (Boa Esperança).

O balanço total foi de 1.074 mortos e 1.686 sobreviventes. Dois pequenos navios torpedeados não foram identificados, mas por terem sido afundados em região junto à costa, concluiu-se que eram navios brasileiros, provavelmente veleiros. Dos navios torpedeados, somente o Cabedelo não teve sobreviventes.

O Brasil perdeu, ainda, dois outros navios na Segunda Guerra Mundial, ambos da Marinha de Guerra. A Corveta Camaquã afundou, virada pelo mar grosso, em 21 de julho de 1944, morrendo 23 tripulantes. O Cruzador Bahia foi a pique no dia 4 de julho de 1945, por acidente em exercício de tiro real que atingiu uma das de suas bombas de profundidade. Morreram no naufrágio 333 homens.

A tragédia do Cruzador Bahia

 

Após o término das hostilidades da Segunda Guerra no Atlântico, coube à Marinha do Brasil uma última tarefa: controlar as aeronaves aliadas, que retornavam com tropas no trajeto Dakar-Natal, e apoiar, com eventuais socorros, as que se vissem em dificuldades. Os navios eram mantidos em locais específicos, "estações" em alto-mar, controlando por rádio as passagens dos aviões. Nessa missão, um avião B-17, do Exército americano acidentou-se, em setembro de 1945, e teve 14 militares salvos pelo Contratorpedeiro Greenhalgh, comandado pelo capitão-de-fragata Ari Rongel.

Neste contexto, na manhã de um sábado, 30 de junho de 1945, o Cruzador Bahia, após trinta dias de preparativos, suspendia de Recife com destino à Estação 13, distante cerca de 500 milhas. Na manhã do dia 2 de julho, uma segunda-feira, rendia, no posto, o Contratorpedeiro-de-Escolta Bauru. No dia seguinte, foi realizada, a bordo, com bom tempo, a tradicional festa pela Passagem da Linha do Equador. A expectativa do retorno ao Rio de Janeiro e ao convívio familiar, logo após o cumprimento daquela tarefa, prevista para dez dias, animava a tripulação.

Ao completar o segundo dia na missão, em 4 de julho, o navio preparava-se para exercício de tiro de superfície a curta distância, com as sete metralhadoras Oerlikon de 20mm. Às 0900h, parou máquinas para o lançamento do alvo flutuante e, minutos após, 0910h, ouviram-se disparos imprevistos de uma das metralhadoras. No 5 ou 6 disparo, conforme o relato do então primeiro-tenente Torres Dias, na ocasião, de serviço no Camarim da Máquina, uma forte explosão sacudiu o navio. A rajada da metralhadora havia atingido as bombas de profundidade localizadas no tombadilho.

Marinha do Brasil
O Cruzador Bahia foi a pique no dia 14 de julho de 1945, por acidente em exercício de tiro real, que atingiu uma de suas bombas de profundidade

O quadro que se seguiu foi trágico. Conforme o relato: "densos rolos de fumaça (…) corpos dilacerados, destruição total e os gemidos dos feridos, que mal se arrastavam pelo convés", e a área de ré destruída e em chamas. Apenas três minutos após a explosão , o navio começou a afundar a popa, com uma rapidez impressionante.

Quatro baleeiras haviam sido destruídas pela explosão e duas outras pendiam dos turcos, impossibilitadas de serem arriadas pela grande inclinação tomada pelo navio. Apenas 17 balsas salva-vidas haviam sido poupadas pela onda destruidora que varrera o navio", sendo rapidamente lançadas ao mar.

Atos heróicos e de extrema solidariedade foram registrados, como a persistente tentativa do 1° Sargento Enfermeiro João Morais de Lima, o Sargento Lima, de levar da enfermaria para uma balsa, em meio aquele horrendo cenário, o Comandante, capitão-de-fragata Garcia D’Ávila Pires e Albuquerque, que, gravemente ferido, o havia ordenado para deixá-lo e salvar-se. Ambos "foram tragados pelo mar quando o navio submergiu".

Em cerca de cinco minutos, o navio mergulhou de popa, elevando a proa no ar, e, com a quilha em posição vertical, afundou. A surpresa, a rapidez com que se desenrolou o acontecimento, somadas às dificuldades técnicas das comunicações da época, não permitiram que qualquer pedido de socorro fosse emitido de bordo.

 

Comprimindo-se nas pequenas 17 balsas, 271 homens, muitos dos quais feridos, queimados ou agonizantes, enfrentariam extenuantes e mortais privações. Para os que sobreviveram, o martírio durou quatro longos dias.

Na primeira noite, as balsas, que eram mantidas juntas, se dispersaram, ficando apenas seis no grupo chefiado pelo Tenente Torres Dias. Falta de água e alimentos, o frio noturno e o calor diurno insuportáveis, desespero, ataques de tubarões, a insolação, fadiga, delírios, alucinações e a morte foram as companhias desses bravos marujos, até a chegada do Cargueiro Balfe.

Um Grupo-Tarefa da Marinha, especialmente mobilizado para as buscas, recolheu, posteriormente, apenas mais oito sobreviventes do grupo cujas balsas haviam se desgarrado.

Estavam a bordo do Bahia 372 pessoas: no primeiro choque, e no soçobro, morreram 101 militares, incluindo quatro marinheiros norte-americanos empregados nas comunicações com os aviões em trânsito. Dos 271 homens que alcançaram as 17 balsas, morreram 230 no mar e mais cinco no Balfe. A oficialidade foi a categoria que mais baixas sofreu, em razão de suas acomodações se localizarem na popa, local da explosão. No total, morreram 17 oficiais, 15 suboficiais, 42 sargentos, 224 cabos e marinheiros, 29 taifeiros, cinco fuzileiros navais e quatro marinheiros norte-americanos, num total de 336 mortos. Salvaram-se: um oficial, um suboficial, quatro sargentos, 29 de cabos e marinheiros e um taifeiro, num total de 36 sobreviventes.

Perdas navais brasileiras na Segunda Guerra Mundial

Navio / Tonelagem Beligerante Data / Posição Danos e vítimas
1 - Buarque – 5152ton U-432 15.02.1942 / 36º35’N 75º20’W Torpedeado, um morto
2 - Olinda – 5085 ton U-432 18.02.1942 / 37º30’N 75º00’W Bombardeado ou torpedeado, 46 mortos
3 - Cabedelo – 3557 ton Torelli (ita) 25.02.1942 / 16º00’N 49º00’W Torpedeado, toda tripulação perdida, 54 mortos
4 - Arabutan – 7874 ton U-155 07.03.1942 / 35º15’N 73º55’W Torpedeado, um morto
5 - Cairu – 5152 ton U-94 09.03.1942 / 39º10’N 72º02’W Torpedeado, 53 mortos
6 - Parnaíba – 6692 ton U-162 01.05.1942 / 10º12’N 57º12’W Torpedeado, 07 mortos
7 - Cmt Lira – 5052 ton (b) Barbarigo (ita) 18.05.1942 / 02º59’N 34º10’W Torpedeado, 02 mortos
8 - Gonçalves Dias – 4996 ton U-502 24.05.1942 / 16º09’N 70º00’W Torpedeado, 06 mortos
9 - Alegrete – 5970 ton U-156 01.06.1942 / 13º40’N 61º30’W Torpedeado, toda tripulação perdida, 64 mortos
10 - Paracuri – 300 ton U-159 05.06.1942 / 17º30’N 68º34’W Torpedeado, sem informações
11 - Não Identificado (*) U-159 Sem informação Torpedeado, sem informações
12 - Pedrinhas – 3666 ton U-203 26.05.1942 / 23º07’N 62º34’W Torpedeado, sem vítimas
13 - Tamandaré – 4942 ton U-66 26.06.1942 / 11º34’N 60º30’W Torpedeado, 04 mortos
14 - Piave – 2547 ton U-155 28.07.1942 / 12º30’S 55º47’W Torpedeado, um morto
15 - Barbacena – 4772 ton U-66 28.07.1942 / 13º10’N 56º00’W Torpedeado, 06 mortos
16 - Baependi – 4801 ton U-507 16.08.1942 / 11º50’S 37º00’W Torpedeado, 270 mortos
17 - Araraquara – 4871 ton U-507 16.08.1942 / 12º00’S 37º09’W Torpedeado, 131 mortos
18 - A. Penévolo – 1904 ton U-507 16.08.1942 / 11º41’S 37º21’W Torpedeado, 150 mortos
19 - Itagibe – 2055 ton U-507 17.08.1942 / 13º20’S 38º40’W Torpedeado, 36 mortos
20 - Arará – 1075 ton U-507 17.08.1942 / 13º21’S 38º49’W Torpedeado, 20 mortos
21 - Não identificado (*) U-507 17.08.1942 / 13º31’S 38º36’W Torpedeado, sem informações
22 - Jacira – 89 ton U-507 19.08.1942 / 14º30’S 38º40’W Torpedeado, 06 mortos
23 - Osório – 2370 ton U-514 28.09.1942 / 00º13’N 47º47’W Torpedeado, 05 mortos
24 - Lajes – 5578 ton U-514 28.09.1942 / 00º13’N 47º47’W Torpedeado, 03 mortos
25 - Antonico – 1243 ton U-516 28.09.1942 / 06º17’N 52º35’W Torpedeado, 16 mortos
26 - Porto Alegre – 5187 ton U-504 03.11.1942 / 35º27’S 28º02’W Torpedeado, um morto
27 - Apalóde – 5766 ton U-163 22.11.1942 / 13º11’N 54º39’W Torpdedado, 05 mortos
28 - Brasióide – 6076 ton U-518 18.02.1943 / 12º38’S 37º57’W Torpedeado, sem vítimas
29 - Afonso Pena – 3539 ton Barbarigo(ita) 02.03.1943 / 16º14’S 36º03’W Torpedeado, 125 mortos
30 - Tutoia – 1125 ton U-513 01.07.1943 / 24º40’S 47º05’W Torpedeado, 07 mortos
31 - Pelotaslóide – 5228 ton U-590 04.07.1943 / 00º27’S 47º36’W Torpedeado, 05 mortos
32 - Bagé – 8235 ton U-185 01.08.1943 / 11º29’S 36º58’W Torpedeado, 28 mortos
33 - Itapagé – 4965 ton U-161 26.09.1943 / 11º29’S 35º45’W Torpedeado, 22 mortos
34 - Cisne Branco – 299 ton U-161 28.09.1943 / costa brasileira Torpedeado, 4 mortos
35 - Campos – 4.663 ton U-170 23.10.1943 / 24º07’S 43º50’W Torpedeado, 12 mortos
36 - Vital de Oliveira – 1300 ton (f) U-861 20.07.1944 / 22º29’S 45º09’W Torpedeado, 99 mortos
37 - Corveta Camaquã 21.07.1944 / Fernando Noronha Virou devido ao mar agitado, 33 mortos
38 - Cruzador Bahia 04.07.1945 / costa brasileira Acidente em exercício de tiro real, 333 mortos

(*)Adimitidos como brasileiros, visto que navegavam bastante próximos à costa, apesar de não identificados.

Notas:

perdas.jpg (58372 bytes)(a) Ver localização no mapa ao lado;
(b) Embora torpedeado, não afundou;
(c) O submarino U-159, depois de atacar com artilharia o veleiro Paracuri, atacou, na mesma área, um veleiro menor (150t), pondo-o a pique também a tiros de canhão. Como se tratava de um navio costeiro, a velas, e a região achar-se junto à costa, só poderia se tratar de um navio brasileiro;

(d) O submarino U-513 foi afundado 18 dias depois desta ação por um avião Mariner do Esquadrão UP-74, operando de tênder, ao largo de Florianópolis;
(e) O U-161, após torpedear o navio Itapagé, avistou o veleiro Cisne Branco a grande distância e junto à costa. Perseguiu-o e o atacou a tiros de canhão. Este foi o último ato de guerra do U-161 — no dia seguinte foi afundado por um avião Mariner do Esquadrão UP-74, baseado em Aratu, Bahia;
(f) Navio Auxiliar da Marinha de Guerra
(g) As posições 37 e 38 do mapa correspondem aos dois últimos navios que o Brasil perdeu na guerra. A Corveta Camaquã afundou, virada por mar grosso, a 21 de julho de 1944, às 9:00h, morrendo 33 tripulantes. O Cruzador Bahia (38) foi à pique às 9h10min do dia 14 de julho de 1945, a 30 graus Oeste, sobre o Equador, por acidente em exercício de tiro real que atingiu uma de suas bombas de profundidade. Morreram 333 homens no naufrágio, inclusive o seu Comandante, Capitão de Fragata Garcia D'Ávila Pires de Carvalho e Albuquerque;
(h) De todos os submarinos atacados pela aviação brasileira, o único que se tem certeza de ter sido afundado foi o U-199. A ação deu-se a 31 de julho de 1943, tendo a embarcação sido atingida por um avião norte-americano ao se aproximar da área do Rio de Janeiro. Convocados pela FAB, um avião A-2 Hudson e um Catalina localizaram o submarino navegando à superfície.

 


Fonte:

  • Revista Marítima Brasileira (RMB) nº 1/3 v.117 jan/mar 1997

  • Nomar n° 671