HDW |

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Concepção artística
de um submarino classe IKL-214. Esta versão da série IKL está
entre as mais modernas e mais capazes do mundo. Foi projetada desde
o início para operar com sistema AIP. |
Sistemas AIP ou
Nucleares. Qual o melhor caminho para a MB?
n Guilherme
Poggio
Introdução
Segundo
a propulsão, os submarinos atuais são classificados como nucleares
(reator nuclear) ou como convencionais (baterias e motor de combustão
interna). Por gerarem energia própria, independente da atmosfera, os
submarinos nucleares podem permanecer submersos por muito mais tempo, além
de serem extremamente rápidos. Por este motivo, as vantagens táticas dos submarinos nucleares são muito amplas se comparadas com
os submarinos convencionais. Como forma de reduzir o "gap" entre
os dois tipos, diversas nações pesquisaram alternativas ao reator
nuclear que permitissem aumentar o tempo de imersão dos submarinos
convencionais. Estes sistemas foram denominados AIP (Air Independent
Propulsion - Propulsão Independente da Atmosfera). A princípio os
reatores nucleares embarcados em submarinos também representam um sistema
de propulsão independente da atmosfera. Porém neste artigo procurou-se
separar os reatores nucleares dos demais sistemas AIP.
Há alguns anos os sistemas
AIP não são mais coisas apenas de palestras promissoras e projetos
experimentais. Algumas marinhas já possuem submarinos em operação e
outras estão aguardando os mesmos saírem do estaleiro.
Os sistemas AIP possuem uma outra grande vantagem. Eles
podem ser introduzidos em diversos submarinos convencionais já existentes
em diversas marinhas. Ou seja, por um custo de algumas dezenas de milhões
de dólares (alguns estimam pouco mais de 15% do valor de um submarino novo) é possível converter um submarino convencional em
AIP. A conversão de unidades (antes tratada como uma possibilidade e hoje
vista como uma necessidade) será a grande vedete da indústria submarina
mundial na próxima década. Estima-se que até uma centena deles possam
ser convertidos. A MB, com quatro unidades operacionais e mais uma em construção, pode ser um dos
futuros clientes. A questão da conversão resolveria o problema no
médio prazo. A longo prazo a MB pretende operar submarnos nucleares. Mas
frente ao desenvolvimento das técnicas AIP seria esta a melhor
alternativa?
A evolução dos
sistemas AIP
Ao longo de toda a história da construção submarina,
os projetitas sempre tiveram como meta o aumento do alcance e do tempo
submerso. Na Alemanha da década de 1930, o professor Helmut Water
desenvolveu um sistema baseado no uso de peróxido de hidrogênio
concentrado para produzir vapor e girar uma turbina. O objetivo principal
de Walter era aumentar a velocidade submersa, na época restrita a 10 nós
ou até menos. Um submarino protótipo foi construído para testar o
invento. Designado V80, o pequeno submarino deslocava 76 toneladas e
possuía 22 metros de comprimento. Durante os testes em 1940, ele atingiu
a fantástica velocidade de 28,1 nós submersos. Durante o curso da II
Guerra Mundial, sete submarinos costeiros Tipo XVIIB (300 toneladas de
deslocamento) foram modificados, mas nenhum deles participou de ações de
combate. Projetos mais ambiciosos como a modificação de submarinos
oceânicos Tipo XXVI (800 toneladas) e Tipo XVIII (1.600 toneladas),
já no final da guerra, esbarraram em problemas técnicos e de suprimento
de peróxido de hidrogênio.
USN |

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Submarino alemão
U-1406, um dos Tipo XVIIB convertidos pelo prof. Walter. O U-1406 foi
posteriormente enviado para os EUA. Seu irmão, o U-1407 se tornou o
HMS Meteorite na Grã Bretanha. |
Com a vitória dos aliados em 1945, norte-americanos e
britânicos demonstraram grande interesse nos estudos do professor Walter.
Os primeiros desenvolveram um sistema semelhante ao alemão, porém mais
compacto, e o instalaram no submarino protótipo X-1. Já os britânicos
levaram para casa o próprio professor Walter e sua equipe de trabalho. Os
trabalhos resultaram em dois submarinos muito parecidos com os Tipo XXVI,
denominados HMS Excalibur e HMS Explorer. Embora fossem
estremamente velozes, os submarinos eram tão perigosos que foram
apelidados de "HMS Excruciator"
e "HMS Exploder". O desenvolvimento
da propulsão nuclear enterrou em definitivo os estudos com tecnologia AIP
nestes países.
Em janeiro de1955, o USS Nautilus anunciaria a famosa frase
"navegando com energia nuclear".
Os soviéticos, ainda durante a guerra, desenvolveram
estudos com sistemas AIP baseados no uso de oxigênio líquido e diesel
(tecnologia conhecida hoje como CCD - ver texto abaixo). O sistema foi
instalado no submarino M-401 e os testes realizados entre 1940 e 1945.
Testes com este sistema prosseguiram no pós guerra e trinta submarinos
classe Quebec foram construídos utilizando tecnologia CCD. Os Quebec
nunca foram populares na marinha soviética e vários acidentes e
problemas técnicos ocorreram. Experimentos com o ciclo de Walter também
foram executados. Em 1958 entrou em serviço o submarino denominado
Projeto 617. Uma explosão a bordo colocou fim ao projeto em 1959. Assim
como os britânicos e norte-americanos, os soviéticos deram prioridade à
propulsão nuclear. Mas os estudos com sistemas AIP nunca foram
encerrados.
Tipos de sistemas AIP
Atualmente as linhas de pesquisa com sistemas AIP
seguem basicamente quatro rumos: Motores a diesel em circuito fechado
(CCD), Turbina a vapor em circuito fechado, Motor Stirling e células de
combustível tipo PEM.
Motor a diesel em circuito fechado - Também conhecido pela sigla CCD (closed-cycle
diesel), este tipo de sistema funciona com um motor a diesel comum
trabalhando numa atmosfera artificialmente gerada pelo próprio submarino
em circuito fechado. Para a criação dessa atmosfera artificial, o
submarino carrega oxigênio líquido (geralmente estocado em tanques criogênicos)
e gás inerte (comumente argônio). Antes de ser absorvido pelo motor o
oxigênio é misturado com o argônio para controlar a taxa de combustão.
O argônio, assim como o excesso de oxigênio, é reciclado e retorna para
o sistema. Os demais compostos são descartados para o oceano. O
sistema é projetado para funcionar até uma profundidade de 500m, um
valor generoso uma vez que muitos dos submarinos convencionais de hoje não
mergulham a mais de 300m. Em relação ao período submerso, o sistema CCD
aumenta em até cinco vezes o tempo de patrulha de um submarino convencional.
Uma das grandes vantagens desse sistema é a própria
utilização dos motores a diesel existentes no mercado (manutenção
simples, motores confiáveis, combustível comumente encontrado) e a
capacidade de converter facilmente submarinos já construídos. Como
desvantagem, o sistema necessita regularmente substituir o oxigênio criogênico
e o gás inerte. Além disso, a eficiência do sistema é baixa e o
descarte de gases para o oceano reduz muito a discrição do submarino
(embora existam especialistas que acreditam no contrário).
O sistema foi largamente estudado por vários países
(incluindo Alemanha, Holanda e Grã Bretanha), principalmente no pós
guerra, tendo como base os estudos da Marinha da Alemanha nazista. Mais
recentemente, a Thyssen Nordseewerke da Alemanha desenvolveu e colocou em atividade um sistema
tipo CCD que gera 300 KW de potência conhecido como SPECTRE (Submarine Power for Extended Contact
Trailing and Range Enhancement). Os
estudos demonstraram que o sistema é técnica e economicamente viável.
Porém, as tentativas de colocar o sistema no mercado e atrair clientes não
deram resultados. Entre os países que foram sondados estão a Alemanha, a
Holanda, a Argentina e a Coréia da Sul.
DCN |
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O Khalid,
primeiro Agosta 90B da marinha paquistanesa equipado com um sistema
MESMA francês. |
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Turbina a vapor em circuito fechado – Basicamente é um turbo-alternador movido por vapor
produzido a partir da combustão de etanol e oxigênio sob pressão. O dióxido
de carbono dos gases de exaustão é descartado para o oceano. Em relação aos demais sistemas AIP, a turbina a
vapor em circuito fechado gera uma potência considerável (cerca de 200
KW). Por outro lado, sua eficiência é baixa (cerca de 20%). A
assinatura acústica é muito menor quando comparada ao sistema CCD.
Estima-se que o sistema permita um aumento no tempo submerso de três a
cinco vezes o convencional. Atualmente, só a França (através da DCNI)
desenvolve este sistema em escala industrial com o nome MESMA (Module d'Energie Sous-Marin Autonome - módulo
de energia submarina autônomo). A DCNI oferece o sistema
MESMA como opção para as classes Agosta e Scorpène. Mas o mesmo também pode ser instalado
em submarinos existes apenas com a adição de uma nova seção no casco.
Kockums |
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Unidade Stirling
sendo introduzida no casco de um submarino Gotland. |
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Motor
Stirling – Neste caso, utiliza-se o conceito do “Ciclo de Stirling”. Num motor
Stirling, oxigênio e combustível são queimados numa câmara de combustão
pressurizada. A energia produzida movimenta um gerador que fornece
eletricidade tanto para propulsão como para alimentar as baterias do
submarino.
A empresa Kockums Naval Systems, da
Suécia, desenvolveu um motor de Stirling para submarinos que queima
diesel e oxigênio (este último estocado na forma líquida em tanques de criogênio).
Cada um desses motores fornece 75 KW de potência. Segundo a empresa, duas unidades são
suficientes para impulsionar um submarino com cerca de 1.500 toneladas por
14 dias mantendo uma velocidade de cinco nós.Com a experiência adquirida, os suecos
incorporaram o sistema Stirling na nova classe de submarinos Gotland, em
construção no início dos anos noventa. Atualmente a Marinha da Suécia
possui três submarinos desta classe.
Siemens |
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Uma unidade de
célula de combustível PEM utilizada nos submarinos IKL 212
alemães e italianos. |
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Células
de combustível – As células de combustível são dispositivos eletroquímicos que
combinam oxigênio e hidrogênio para produzir eletricidade, calor e água.
Existem várias configurações de células de combustível, mas para propulsão
submarina utiliza-se a chamada PEM (Polymer Electrolyte Membrane). Cada célula produz uma quantidade muito
baixa de corrente (algo como 0,7 volts) e, portanto, um grupo de células
são colocadas em série para gerar um valor considerável.
A
classe 212, atualmente em construção para a Marinha da Itália e da Alemanha, foi projetada para utilizar nove células de combustível PEM (cada uma gerando 34
KW). O sistema instalado é suficiente para manter o submarino por três
semanas oculto no fundo do mar sem precisar voltar a superfície. A geração
mais nova de células de combustível já é capaz de fornecer 120 KW por
unidade.
Programas semelhantes ao alemão foram desenvolvidos
na Rússia e no Canadá. Conhecido localmente como Kristall 27E, o sistema
russo foi desenvolvido para a nova classe de SSK Lada/Amur. O sistema
canadense Ballard
é mais interessante pois adquire o hidrogênio a
partir de tanques contendo etanol. O etanol é uma fonte de baixo custo e
renovável, mas a eficiência do sistema é menor pois existe uma etapa a
mais no processo.
Grosso modo, pode-se dizer que os sistemas AIP
descritos acima estão restritos à quantidade de oxigênio que os
submarinos podem levar. Além disso, os gases de exaustão descartados
para o oceano limitam a profundidade e reduzem a discrição. Neste último
caso, o sistema de células de combustível representa uma exceção e por
este motivo leva uma pequena vantagem técnica em relação aos demais
(porém com um custo mais elevado). Mas somente
o uso contínuo dos sistemas nas diferentes marinhas poderá fornecer
maiores informações para futuras comparações.
Panorama atual
dos países com sistemas
AIP
A seguir, são descritos os programas em andamento nos
diversos países que desenvolvem ou constroem submarinos com tecnologia
AIP. Observar que um número bastante significativo de
unidades dotadas de AIP entrará em serviço ao longo do ano de 2005.
Coube aos suecos a honra de serem os primeiros a possuirem um
submarino com AIP realmente funcional. Lançado em 1978, o HMS Näcken foi escolhido
para realizar os testes com o novo sistema Stirling. O submarino foi
docado e o seu casco foi dividido em dois. Uma seção central foi
introduzida com o sistema AIP. Em 1988 o Näcken voltou ao mar,
servindo de bancada de testes. Com a experiência adquirida, os suecos
incorporaram o sistema Stirling na nova classe de submarinos Gotland, em
construção no início dos anos noventa. Atualmente a Marinha da Suécia
possui três submarinos desta classe. Outros dois de seus submarinos classe Södermanland (HMS Södermanland e HMS Östergötland) estão passando por modificações
para incorporarem o sistema Stirling.

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A Dinamarca adquiriu o HMS Näcken da Suécia em 2001
e o renomeou Kronborg, tornando-se assim o segundo país a possuir
um sistema AIP operacional. A transferência envolveu uma operação de leasing no valor de 35,4 milhões de dólares e vence em 2005 (com opção de
compra). Além disso, a Dinamarca, assim como a Noruega, era participante
do projeto Viking, mas acabou desistindo da parceria.
O desenvolvimento de uma nova geração de submarinos
alemães começou em 1988, antes mesmo do primeiro IKL brasileiro entrar em atividade. O contrato foi assinado em 1994 com um consórcio alemão
para a construção de quatro unidades (e mais duas eventuais opções). O
modelo, denominado IKL-212, possui um conjunto de nove células de
combustível PEM. Cada uma fornece entre 30 e 50 Kw de potência. A primeira
unidade entrou em serviço em 2004 e as últimas duas deverão estar
completas neste ano.
Os dois IKL-212 italianos são baseados no modelo alemão e
possuem poucas diferenças. Construídos pelo estaleiro Fincantieri, o
primeiro (Salvatore Todaro) foi lançado em novembro de 2003 e deve
entrar em atividade este ano. O segundo, lançado em dezembro de 2004,
ficará pronto em 2006.
O projeto grego está entre os melhores e mais avançados na
área de AIP atualmente. A marinha da Grécia encomendou três submarinos
IKL-214, uma versão aprimorada do IKL-212 alemão e italiano. O acordo
foi anunciado em 1998 e efetivamente assinado em 2000. Ao custo de 1,26
bilhão de dólares, três submarinos serão construídos sendo dois em
território grego. Os submarinos já incorporam as modernas células de
120 Kw para o sistema AIP. O primeiro deles foi lançado ao mar em abril
de 2004 e deverá entrar em atividade neste ano. Uma quarta unidade já
foi autorizada.
A França desenvolveu e produziu o sistema AIP MESMA. No
entanto, sua força submarina (tanto de ataque como estratégica) é
totalmente baseada na propulsão nuclear. A primeira aplicação do
sistema em escala real é o projeto de construção de submarinos
paquistanês classe Agosta 90B.
O programa de reequipamento da força submarina do
Paquistão teve início em 1994, com a assinatura de um contrato para a
construção de três submarinos Agosta 90B com o estaleiro francês DCN. O
primeiro foi construído na França e os dois últimos no Paquistão (o
terceiro está em fase final de construção). Durante o andamento do
programa, o Governo do Paquistão decidiu incluir o sistema AIP
MESMA nas suas unidades. A terceira unidade sairá do estaleiro já com o
sistema instalado. As outras duas anteriores receberão "kits"
AIP no futuro.
O programa de construção de submarinos da China
continental é uma verdadeira incógnita. Muito mais sigiloso são os
estudos com sistemas AIP (se é que estes realmente existem). Recentemente
foi lançado ao mar um novo submarino (denominado Yuan pelo serviço de inteligência dos EUA, mas alguns
preferem chamá-lo de Tipo 039A) que possui algumas similaridades com o Tipo
636 russo (classe Kilo). Especula-se a possibilidade dele possuir algum
sistema AIP.

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Os soviéticos trabalharam com sistemas tipo CCD na década
de 1950. Submarinos da classe Quebec foram modificados e receberam este
tipo de AIP. O sistema nunca foi um sucesso e vários acidentes ocorreram.
Os últimos submarinos desse tipo foram retirados de serviço nos anos
setenta. Mais recentemente, os russos trabalharam num projeto de sistema
AIP baseado em células de combustível oxigênio-hidrogênio. O projeto
mais recente de submarinos convencionais russos (Projeto 677 ou classe
Lada) inclui a instalação deste sistema AIP. Porém, o único submarino
em construção nunca chegou a ser completado. O Projeto 677 é
oferecido ao mercado externo com o nome de Amur. A Índia apresentou
interesse no projeto mas ainda não concluiu nenhuma negociação. A
versão de exportação do projeto 636 ou classe Kilo é oferecida ao
mercado externo com sistema AIP num casco ligeiramente maior que o comum.
Não há, até o momento, notícias de possíveis interessados. Sabe-se
apenas que uma versão do projeto foi apresentada aos sul-coreanos em
1999.

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A Coréia do Sul selecionou o estaleiro alemão HDW como o
vencedor da disputa pelo projeto KSS-II com o modelo IKL-214 e suas
células de combustível PEM. São três unidades que serão
construídas nos estaleiros coreanos da Hyundai. A decisão foi uma
surpresa pois até então o estaleiro Daewoo detinha o monopólio da
construção de submarinos no país. Das nove unidades da classe Tipo
209/1200, oito foram construídas pela Daewoo.
Outros países como Japão, Formosa (Taiwan), Espanha e
Canadá também estudam a possibilidade de adotar sistemas AIP em seus
submarinos atuais.
A US Navy e os
sistemas AIP
A questão sobre sistemas AIP já está em discussão nas altas esferas do
Pentágono, nos EUA. Algumas vozes dentro da US Navy começam a surgir em
favor de unidades convencionais dotadas de sistemas AIP ao lado de
SSN, aumentando a frota e reduzindo o custo. Obviamente a grande
justificativa é o custo. Para a construção de 18 unidades da classe
Virgina, a última palavra em tecnologia submarina de propulsão nuclear,
deverão ser desembolsados pelo contribuinte norte-americano cerca de 29
bilhões de dólares. Com aproximadamente um terço deste valor (algo
perto de 9 bilhões) é possível construir uma frota de 30 submarinos
convencionais dotados de sistema AIP. Mesmo que a frota dos EUA permaneça
totalmente nuclear, existem preocupações em relação à "ameaça
AIP". A USN já está resolvendo esse problema. No final do ano
passado, as marinhas dos EUA e da Suécia firmaram um acordo de
treinamento anti-submarino. Pelo que foi acordado, os suecos estarão
disponibilizando um de seus Gotland com AIP para exercícios navais com as frotas
do Pacífico e do Atlântico. O submarino será comandado e tripulado por
suecos. Apenas alguns observadores norte-americanos estarão a
bordo.
Programa Nuclear
da Marinha Brasileira - custos e prazos
A possibilidade do Brasil desenvolver e construir um reator
nuclear para ser utilizado em submarinos começou a ser cogitada pela
Marinha na década de setenta e evoluiu de forma mais prática entre 1976
e 1978. Associando-se ao IPEN-SP (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares
de São Paulo), a Marinha passou a trabalhar a partir de 1979 no
desenvolvimento do ciclo do combustível e do reator, tendo sido adotada a
técnica de ultracentrifugação para o enriquecimento. Após dominar a tecnologia do hexafluoreto de urânio a partir do minério de Poços de
Caldas, a Marinha obteve o seu primeiro grande sucesso no ano de 1982. Em
escala laboratorial, o grupo conseguiu o enriquecimento isotópico de urânio com centrífugas construídas totalmente no Brasil.
Com o crescimento da pesquisa e do interesse por parte de Marinha, em 1986
surgia a Coordenadoria para Projetos Especiais (COPESP), posteriormente
renomeada Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP).
Para para dar suporte às atividades experimentais do programa de pesquisa e desenvolvimento do ciclo do combustível e
de reatores nucleares, foi construído no município de Iperó (estado de São
Paulo) o Centro Experimental Aramar (CEA). Este Centro abriga instalações de testes, laboratórios de validação experimental e algumas oficinas especiais.
Ali já se enriquece urânio numa escala industrial pequena, mas
suficiente para alimentar os reatores nucleares de pesquisa existentes no país.
A produção em escala maior deve ocorrer em breve.
Segundo informações divulgadas pela própria Marinha, já
foram investidos um bilhão de dólares no projeto do submarino nuclear
nacional nos últimos 25 anos. Para a conclusão do programa, incluindo o
protótipo da embarcação, são necessários mais 450 milhões de
dólares. A questão principal é a contingência de verbas ocorrida nos últimos
anos. Numa palestra proferida em 2004 no Clube Naval do Rio de Janeiro, o vice-almirante Alan Paes Leme, diretor do CTMSP (Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo), afirmou que a Marinha levará
"cem anos para concluir o programa" do projeto do submarino
nuclear caso seja mantido o ritmo atual de fluxo de recursos. Mas mesmo que os
recursos estivessem disponíveis, duas etapas que não poderiam ser
abreviadas. A primeira consiste na construção do reator nuclear RENAP 50
de 48 MW, a ser concluído entre 2007 e 2011 com investimentos da ordem de
120 milhões de dólares. A segunda etapa refere-se à construção do casco do
submarino nuclear propriamente dito.
G Poggio |
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Cronograma de
projeto e construção de um submarino convencional. Clique na imagem acima
para ampliá-la. |
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Primeiramente, o pais precisaria dominar o ciclo de desenvolvimento de um submarino
convencional totalmente nacional, desde a sua concepção até o
lançamento. Isto seria conseguido com o programa SMB-10 (antigo SNAC-I).
Mas um projeto como este levaria mais de 13 anos (a tabela 1 apresenta as
principais fases e o tempo estimado de cada uma). Esta previsão é extremamente
razoável e está dentro dos padrões mundiais de desenvolvimento e
construção de novos projetos de submarinos. Para um projeto de
submarino nuclear totalmente nacional esse tempo seria maior, mesmo porque
existem várias etapas de pesquisa básica que ainda não foram vencidas.
Portanto, estimar que um protótipo de submarino nuclear nacional
estivesse concluído por volta de 2025-2030, não é exagero. Até lá qual
será o estágio de desenvolvimento que os sistemas AIP atingirão?
Conclusão
Atualmente, o submarino de propulsão nuclear representa uma
arma de grande poderio e alto grau de sobrevivência. E no curto e médio
prazo isto não será modificado. A MB, quando optou
por seguir o caminho do desenvolvimento do submarino nuclear, sabia que um grande desafio estava por vir, mas que também estava diante da mais fantástica arma até então existente no ambiente naval.
Vinte e cinco anos depois, atravessando crises econômicas e
contingenciamento de verbas, os objetivos principais do programa estão
longe de serem atingidos. Além disso, são necessários, pelo menos, mais
20 anos de trabalhos até que o primeiro protótipo saia navegando.
Nos últimos 25 anos os sistemas AIP evoluíram e ganharam
credibilidade, sendo uma realidade em algumas marinhas do mundo. A médio prazo,
os submarinos convencionais que não forem adaptados para este novo
sistema perderão valor tático. E isto vale também para os recém
lançados O'Higgins (classe Scorpène) chileno, Collins australiano e Tikuna (classe IKL 209 mod.) brasileiro.
AP |
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| Lançamento do submarino Tikuna no AMRJ.
Num futuro não muito distante, a classe Tupi terá que voltar para
o dique seco para a colocação de um sistema AIP. |
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Alguns especialistas dão conta que nos próximos anos a
potência de uma célula de combustível pode dobrar ou mesmo triplicar. É possível
que em menos de 20 anos estes sistemas evoluam muito mais, diminuindo as desvantagens
em relação aos reatores nucleares. A longo prazo, os
submarinos dotados de AIP mais avançados podem estar tecnicamente muito
próximos das características de autonomia e velocidade dos submarinos
nucleares por um preço quatro vezes inferior e sem os custos políticos e
ambientais. A questão está
lançada e as respostas definitivas virão nas próximas duas décadas. Obviamente as marinhas intermediárias vão migrar para estes
sistemas AIP. E o qual será a posição do Brasil? O ideal seria possuir duas linhas de pesquisa, sendo uma
concentrada em estudos AIP e outra no desenvolvimento da propulsão
nuclear. China, Rússia e França são países que atuam nestas duas
áreas. Mas no caso brasileiro, a dificuldade no prosseguimento das
pesquisas nucleares mostra que investir também em sistemas AIP é
praticamente impossível.
Com o cancelamento da segunda unidade IKL-209 mod. (o Tapuia),
a Marinha do Brasil dificilmente incorporará uma nova unidade (após a
conclusão do Tikuna) construída no país nos próximos dez ou
quinze anos. Neste período, as instalações do AMRJ estarão
parcialmente ociosas pois não existe ainda uma data para iniciar a
construção do SMB-10. O AMRJ apenas receberá os submarinos da classe
Tupi para o PMG e outros eventuais reparos/atualizações. Uma alternativa
para o médio prazo seria estudar e avaliar os sistemas AIP existentes no
mercado externo e introduzi-los nos Tupi durante esse período de baixa
atividade no AMRJ. Enquanto isso, o programa nuclear deve ser revisto. Insistiremos
no programa atual, aceitando os prazos dilatados como a realidade atual
nos apresenta, ou passaremos para o estudo de uma classe moderna de
submarinos convencionais dotados de sistemas AIP e acompanharemos a
evolução dessa tecnologia? O assunto merece atualmene muita reflexão, pois as
decisões que serão tomadas agora terão grandes implicações no futuro.  |