ENTREVISTA

Marinha do Brasil  

 

Poder Naval entrevista o

Comandante da Marinha do Brasil

Em comemoração aos 10 anos do Poder Naval Online, solicitamos ao Centro de Comunicação Social da Marinha uma entrevista com o Almirante-de-Esquadra Julio Soares Moura Neto, atual Comandante da Força. As perguntas foram formuladas pelo staff do site, com o objetivo de esclarecer as principais dúvidas que recebemos de leitores de todo o Brasil, sobre a atual situação da Marinha e seus planos para o futuro. A seguir, a íntegra da entrevista:

PODER NAVAL: Vimos,  pelo  seu  currículo,  que  o  senhor  chegou  a  comandar  um contratorpedeiro  da classe “Gearing”, o “Mariz e Barros” (D26), e, também, a extinta Força de Contratorpedeiros. Gostaríamos de saber quais lembranças o senhor guarda destas comissões e como elas influenciaram sua carreira?

"Comandar  é  enfrentar  desafios  com  inspiração, viver tempos de alegria, enfrentando,  também,  dificuldades,  estar  pronto  para desfrutar da mais difícil,  desafiadora e recompensadora experiência
de uma carreira."

ALMIRANTE MOURA NETO: As lembranças dos Comandos no mar são sempre muito significativas para os Oficiais de Marinha.
Ao  assumir  cargos  de  Comando  e Direção,  o  Oficial  de Marinha tem a oportunidade  de  colocar  em  prática todo  o  cabedal de conhecimentos e experiências  adquiridos ao longo de sua carreira, exercendo sua liderança, no  intuito  de  persuadir  seus  subordinados a  se dedicarem, com garra, entusiasmo, coragem,   determinação   e,  acima  de  tudo,  lealdade,  ao atendimento de suas numerosas atribuições, superando os inúmeros desafios e adversidades  que se apresentam, contribuindo para que a Marinha do Brasil (MB)  seja  respeitada cada  vez  mais  e  esteja permanentemente pronta a cumprir a sua missão constitucional.
O  mais  simples  e  mais  importante  elemento  de sucesso no exercício do Comando chama-se liderança. Os líderes inspiram os outros a realizar “acima e além” do esperado.
Comandar  é  enfrentar  desafios  com  inspiração, viver tempos de alegria, enfrentando,  também, dificuldades,  estar  pronto  para desfrutar da mais difícil,  desafiadora e recompensadora experiência de uma carreira. Comando é, para todos os marinheiros, simplesmente trabalhar duro e verificar o bom resultado desse trabalho a cada final de dia.

PN — Por  falar  em  contratorpedeiros, a MB só possui um navio deste tipo atualmente, o CT Pará, e que deve ser desativado em breve. A Marinha chegou a  avaliar  a compra  de contratorpedeiros  da classe “Spruance” e “Kidd” desativados  prematuramente pela  US Navy? Qual a opinião do senhor sobre esses  navios,  em especial os “Kidd”, que foram adquiridos pela Marinha de Taiwan?

"A  avaliação  é  de que os navios poderiam ter boa aplicação no Poder Naval Brasileiro.  Contudo, estes meios, se adquiridos, acarretariam, na ocasião, elevado  custo de manutenção, incompatíveis com a realidade orçamentária da Marinha."

ALTE. MOURA NETO: Sim,  a  MB chegou  a  avaliar a possibilidade de obtenção, por oportunidade,  dos  navios da  classe  “Spruance” e “Oliver Hazard Perry”.
Quanto aos da classe “Kidd”, não foram avaliados pela MB. A  avaliação  é  de que os navios poderiam ter boa aplicação no Poder Naval Brasileiro. Contudo, estes meios, se adquiridos, acarretariam, na ocasião, elevado  custo de manutenção, incompatíveis com a realidade orçamentária da Marinha.
A decisão da Marinha foi concentrar os recursos de manutenção, modernização e construção  nos programas  existentes: modernização da Fragatas Classe “Niterói”  (MODFRAG),  já  encerrado; término  da  construção  da  Corveta “Barroso”,   previsto   para   2008;   modernização   das Fragatas  Classe “Greenhalgh”  e Corvetas Classe “Inhaúma”, a iniciar-se a partir de 2008; e construção de Navios Escoltas a partir de 2011.

PN — É  possível a construção de mais unidades de uma versão atualizada da corveta “Barroso”, ou a Marinha partirá para um projeto de maior porte para substituição  das  fragatas  classe  “Niterói”  e  “Greenhalgh”  em  futuro próximo?

"Sim,  é  possível  a  construção  de  novas  unidades da Corveta “Barroso”.  Contudo,  isto não está previsto no Programa de Reaparelhamento da Marinha (PRM)."

ALTE. MOURA NETO:  Sim,  é possível  a  construção  de  novas unidades da Corveta “Barroso”. Contudo,  isto não está previsto no Programa de Reaparelhamento da Marinha (PRM).
O  que  está  planejado no PRM é a obtenção, por construção no Brasil, de 3 navios escoltas, de cerca de 6.000 toneladas de deslocamento, para os quais a  Marinha  iniciará,  em  2008,  a  busca de  um  projeto  de  construção reconhecido no mercado internacional.

PN — Qual a possibilidade de se adquirir fragatas da classe “Oliver Hazard Perry” da US Navy? Esses navios interessam à MB?

ALTE. MOURA NETO: Não  está  prevista,  no  PRM,  a obtenção de Fragatas da Classe “Oliver  Hazard Perry”, mas sim a construção de novos navios escoltas, como abordado na resposta anterior.

PN —  Que  tipo de torpedo será adquirido pela MB em substituição aos Mk.24 “Tigerfish” Haverá alguma transferência de tecnologia?

"o MK-48, cujo desenvolvimento teve início nos primórdios dos anos 1970 e evoluiu  até  sua versão atual, já foi objeto de mais de 35.000 lançamentos no mar. É, de longe, o melhor e mais testado torpedo do mundo."

ALTE. MOURA NETO:  Após detalhados  estudos,  realizados  a  partir de 2003, a MB iniciou,  no  presente ano,  o  processo de aquisição do torpedo americano MK-48 MOD 6AT ADCAP, em substituição aos MK-24 “Tigerfish”.
O  processo  seletivo  levou  em  conta, além do atendimento dos requisitos operacionais estabelecidos, dois outros:
a)  a  capacidade  de  lançamento pelo método “swim-out”, isto é, o torpedo deixa  o  tubo  de  lançamento mediante propulsão própria, posto que nossos submarinos não dispõem de recursos para ejeção positiva, como ar comprimido ou êmbolo d’água; e
b)  o  torpedo  teria  que, necessariamente, estar operacional e em uso na marinha do país fabricante.
À  época da decisão, apenas o MK-48 MOD 6AT, da Marinha dos Estados Unidos, em sua versão “swim-out”, e o DM2 A4, alemão, da Atlas Elektronik, atendiam a todos os requisitos.
Além  disso,  a  MB  decidiu  vincular a escolha do torpedo à do sistema de combate,  parte integrante da modernização dos submarinos, ora em curso, de modo a assegurar integração plena do sistema de armas.
A decisão em favor do MK-48 deveu-se aos seguintes fatos:
– o sistema de combate oferecido pela Marinha dos Estados Unidos, composto de  sonar,  sistema de  direção  de tiro, unidade de controle do torpedo e outros  periféricos,  além  de  totalmente integrado  ao  torpedo, custava significativamente  menos  que seu equivalente alemão. A decisão envolveu a obtenção  conjunta  do  torpedo  e  do sistema de combate, tendo propiciado
significativa economia de recursos;
– o MK-48, cujo desenvolvimento teve início nos primórdios dos anos 1970 e evoluiu  até  sua versão atual, já foi objeto de mais de 35.000 lançamentos no mar. É, de longe, o melhor e mais testado torpedo do mundo;
– o  fato  de  ser  empregado pela Marinha dos Estados Unidos assegura, de forma continuada, do melhor apoio logístico de que se pode dispor; e
– o  custo  de  operação  e  de  manutenção  do torpedo (custo de posse) é bastante vantajoso.
Quanto  à  transferência de tecnologia, haverá a de manutenção do hardware.
No  que  tange  à  do  software,  será  bastante limitada, uma vez que, por tratar-se  de  armamento ainda  em  uso  na  Marinha  dos  Estados Unidos, empregando  tecnologia  altamente  sensível, sofre  severas  restrições do Congresso norte-americano.
Na verdade, ao longo do processo de seleção do torpedo, nenhuma das ofertas avaliadas  pela  MB contemplava  qualquer  transferência  de tecnologia de software.  Ocorre que, mesmo que se dispusesse de recursos financeiros para fazer  face  aos  custos de tal transferência, - o que não é o caso da MB-, haveria  sempre a limitação política, pois todos os fabricantes de torpedos
sofrem  restrições  semelhantes  de  parte  de  seus  respectivos governos. Tecnologia assim sensível não é transferida.

PN —  Na Guerra das Malvinas, o submarino nuclear britânico HMS “Conqueror” afundou  o cruzador argentino “General Belgrano” com torpedos fabricados na Segunda Guerra  Mundial.  Por  que a MB não volta a produzir seus próprios torpedos,  como chegou  a  fazer  na  década  de 50? Não é um contra-senso construir submarinos e não fabricar seus próprios torpedos?

"A  MB  não  considera  razoável pensar que poderá, no futuro, – ou mesmo no presente  , enfrentar oponentes com limitações semelhantes às apresentadas pelo  velho  cruzador. Daí, não fabricar mais aqueles torpedos da década de 50."

ALTE. MOURA NETO:  O Cruzador General Belgrano era, ele próprio, um navio da Segunda Guerra  Mundial,  sem  qualquer capacitação anti-submarina, e, no episódio, navegava  sem escoltas (*). Nessas circunstâncias, constituía um alvo perfeito, mesmo para torpedos da mesma idade que ele.
A  MB  não  considera  razoável pensar que poderá, no futuro, – ou mesmo no presente  -, enfrentar oponentes com limitações semelhantes às apresentadas pelo  velho  cruzador. Daí, não fabricar mais aqueles torpedos da década de 50.
Quanto  à  fabricação de torpedos de tecnologia atual, infelizmente, não se dispõe  de  recursos  suficientes  para  os necessários  investimentos  em Pesquisa e  Desenvolvimento  (P&D).  A simples manutenção dos sistemas existentes  tem sido um desafio superior às possibilidades orçamentárias e, além do desenvolvimento, seria necessário haver escala de produção capaz de justificar o investimento, o que não é o caso. A MB, que, há quase 30 anos, custeia, praticamente sozinha, um programa nuclear que já logrou ao país um de  seus  maiores saltos tecnológicos, sente-se totalmente incapacitada de, ao mesmo tempo e com orçamento limitado, aventurar-se no desenvolvimento de outro  projeto  tecnológico  de grande envergadura, como seria o caso de se desenvolver um torpedo de geração atual.

 

Por  outro  lado,  o  problema  não  é exclusivo do Brasil. Existe, de modo geral, um encolhimento das indústrias de defesa, levando a diversas fusões, típicas  do  processo  de globalização,  que  levam  ao desaparecimento de diversas   empresas.  Assim  é  que  a  França  e a  Itália,  tradicionais fabricantes  de  torpedos,  passaram  a produzi-los em conjunto, enquanto a
Suécia,  a  Itália e a Holanda deixaram de fabricar submarinos. Ocorre que, com  a redução generalizada dos orçamentos militares, a produção diminuiu a ponto  de  não  justificar  seus  custos; isso, em países com orçamentos de defesa  à  altura de seus respectivos PIB, o que, por enquanto, não é nosso caso.
Assim, não é por falta de senso, mas de recursos, que a MB não fabrica seus torpedos.  Quanto  à construção de submarinos, é importante notar que o que se   constrói   no   país  são  seus  cascos, atividade  que  não  demanda investimentos  maciços em P&D, enquanto que os sistemas de combate, pelas mesmas razões que os torpedos, são adquiridos no exterior.

PN —   O volume de pagamentos para inativos tem absorvido ano após ano maior parte  do  orçamento e sobra muito pouco para investimentos. Sabemos também que  os  custos de aquisição de meios navais têm subido astronomicamente em todo  o mundo, chegando uma fragata ou submarino no estado-da-arte a custar até  um  bilhão  de reais! Como a MB pretende enfrentar esse dilema, já que nossas escoltas chegarão ao final de sua vida útil nos próximos 15 anos?

"Em  síntese, estima-se o investimento total da ordem de R$ 5,8 bilhões para o  período  2008-2014,  sem  considerar  os custos adicionais dos programas cujas  execuções  se  estenderão  para  além  de  2014,  como  é  o caso da modernização de submarinos e outros projetos."

ALTE. MOURA NETO: Uma instituição  como  a  Marinha  do  Brasil (MB), de caráter permanente  por mandamento  constitucional e de relevante identidade com a nação brasileira,  não  pode  prescindir  de  um adequado,  exeqüível  e sustentável planejamento  de  substituição  de seus meios, sob pena de não estar minimamente  equipada  e  adestrada para contribuir na manutenção da soberania nacional, quando chamada para tal.
Há  vários  anos  a  Força  tenta  aprovar o Programa de Reaparelhamento da Marinha   (PRM),   elaborado   em   função  das  necessidades  estratégicas estabelecidas  na Política de Defesa Nacional, Plano Estratégico da Marinha e  de  outras  orientações  de  nível estratégico, tendo sempre em conta a realidade  socioeconômica  do  País.  A aprovação  e  a  execução  do  PRM
produzirão  reflexos positivos para a economia nacional, estimulando um sem número  de  setores da cadeia produtiva associados à indústria naval e de defesa.

 

Com o propósito de analisar as prioridades e propor cronogramas e fluxos de recursos necessários  aos Programas de Reaparelhamento das Forças Armadas, foi  instituído, em dezembro de 2005, por Decreto Presidencial, um Grupo de Trabalho  Interministerial (GTI) composto por representantes da Casa Civil, Ministérios   da   Fazenda,  Planejamento,  Orçamento  e  Gestão  e Defesa (incluindo  os  Comandos  das  Forças).  Esse GTI encaminhou ao Ministro da Defesa,  em 31  de  agosto  de  2006,  um  relatório  para  que, depois de analisado,   fosse   submetido   à deliberação  do  Excelentíssimo  Senhor Presidente  da  República.   Por determinação do MD, uma atualização do PRM foi enviada em julho de 2007.
Como resultado dos trabalhos desenvolvidos, a Marinha dividiu a programação de reaparelhamento em dois períodos, sendo o primeiro, de maior prioridade, originalmente  de  2006  a  2012, atualizado na recente revisão para 2008 a 2014.
As  estimativas  de custos levantadas se limitaram a esse primeiro período, totalizando  o  montante de  R$  5,8  bilhões,  relativos a oito grupos de prioridades  de reaparelhamento, que englobam a construção, modernização ou aquisição  de  diversos  meios,  como  submarinos,  navios  e helicópteros, conforme apresentado, a seguir, por prioridade:

  • 1. Submarinos e torpedos
  • 2. Navios-Patrulha
  • 3. Helicópteros
  • 4. Navios Escoltas
  • 5. Navios-Patrulha Fluviais
  • 6. Embarcações do SSTA e navios hidrográficos
  • 7. Modernização do NAe “São Paulo”, mísseis, minas e munição
  • 8.  Carros  de Combate, Navio de Desembarque e Navio de Transporte de Apoio

Em  síntese, estima-se o investimento total da ordem de R$ 5,8 bilhões para o  período  2008-2014, sem  considerar  os custos adicionais dos programas cujas  execuções  se  estenderão  para  além de  2014,  como  é  o caso da modernização de submarinos e outros projetos.

"Esse estudo  prevê  que  a  modernização  seja conduzida no Brasil e mantenha as aeronaves  em  condições  operativas  até  2020  e,  também, deverá apontar possíveis aeronaves substitutas."

PN —    Qual o orçamento da MB para o ano fiscal de 2007?
ALTE. MOURA NETO:  No exercício 2007, o orçamento da Marinha está no patamar de R$ 1,285 bilhão.

PN —    Existe um plano para modernizar os caças-bombardeiros AF-1 Skyhawk no mesmo  padrão  do Programa F-5BR da FAB, feito pela Embraer? A MB pretende
operar esses aviões até quando? Já existe um substituto à vista?

ALTE. MOURA NETO:  Na Marinha, foi instituído um Grupo de Trabalho, para estudar a revitalização
e modernização das aeronaves de asa fixa AF-1 “Skyhawk”. Esse estudo  prevê  que  a modernização  seja conduzida no Brasil e mantenha as aeronaves  em  condições  operativas  até 2020  e,  também, deverá apontar possíveis aeronaves substitutas.

PN —  Num passado recente, a MB estava focada na guerra anti-submarino, que era talvez a principal ameaça nos tempos de Guerra Fria. E no futuro, quais seriam as ameaças?

"O  Brasil requer uma Marinha corretamente dimensionada e equipada, e apta a cumprir, efetivamente, o seu dever, como, quando e onde for demandado pela vontade  nacional. Para  tal,  é  necessário  alocar  os  recursos e meios indispensáveis  para  que possa atuar na vigilância e na proteção de nossos vastos interesses e soberania."

ALTE. MOURA NETO:  O  Brasil  é um país marítimo, tendo importantes implicações em termos  de  comércio exterior,  pois  mais  de 95% de nossas importações e exportações  são  feitas por  mar,  representando,  em  2006, cerca de 228 bilhões de dólares. Além disso, há a existência de petróleo (mais de 85% da produção nacional), de gás, de nódulos polimetálicos e de recursos vivos, o que  transforma  a  imensidão da nossa  "Amazônia Azul", com cerca de 4,5 milhões  de  Km², além de essencial via de comunicação, em um patrimônio de valor inestimável, cuja soberania e jurisdição cumpre à Marinha assegurar.
Pela Constituição Federal, competem às Forças Armadas a defesa da Pátria, a garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de quaisquer destes, da lei e da ordem.
Através   de   Lei  Complementar,  a Marinha  do  Brasil  recebeu  algumas atribuições  subsidiárias,  dentre as quais despontam, por sua magnitude, a segurança da navegação, a salvaguarda da vida humana e, de suma relevância, a implementação  e a fiscalização do cumprimento de leis e regulamentos no mar  e  em  águas interiores, pelas quais se pretende coibir as infrações e enfrentar   as   chamadas   "novas   ameaças":   os  crimes  transnacionais (contrabando,  tráfico  de  drogas  e  de  armas),  o terrorismo, os crimes ambientais e a pesca irregular. Como se vê, as responsabilidades são imensas.
Atualmente,  no  cumprimento  de  sua missão constitucional, em especial na imposição da lei nas Águas Jurisdicionais Brasileiras (AJB), principalmente nas  áreas  de  exploração  e  explotação  de petróleo e gás, a MB emprega, primariamente,  todos  os  meios  navais, exceto submarinos, como elementos informativos na fiscalização das AJB.
O  Brasil requer uma Marinha corretamente dimensionada e equipada, e apta a cumprir, efetivamente, o seu dever, como, quando e onde for demandado pela vontade  nacional.  Para  tal, é  necessário  alocar  os  recursos e meios indispensáveis  para  que possa atuar na vigilância e na proteção de nossos vastos interesses e soberania.

PN —  Qual  a  classe  de  submarino  que  será adquirida pela MB para dar continuidade  ao  seu  programa  de  construção  de  submarinos  IKL-214 ou Scorpène?

"Ambos os projetos atendem aos requisitos operacionais da MB, com vantagem ora para um ora para outro, conforme o aspecto abordado."

ALTE. MOURA NETO:   O  assunto ainda está sendo estudado. Ambos os projetos atendem aos requisitos operacionais da MB, com vantagem ora para um ora para outro, conforme o aspecto abordado. Entretanto, há outras considerações a levar em conta,  não  só no que tange a aspectos financeiros - custo e financiamento -,  mas de outras análises e apreciações que a Marinha considera de extrema relevância, como, por exemplo:
– transferência plena de tecnologia de projeto de submarinos convencionais;
– política  proposta  relativamente  ao  grau de envolvimento da indústria nacional na produção de componentes e itens sobressalentes;
– custo de operação e de manutenção do meio, que depende, além dos aspectos intrínsecos  ao  próprio  material,  da política  de  apoio  logístico  do construtor, - se monopolista, caso em que as aquisições só podem ser feitas por  seu  intermédio,  com  elevado ágio, ou se de livre fornecimento pelos diversos fabricantes dos componentes e sobressalentes;
– grau de envolvimento, no programa, da Marinha do país fabricante, de modo a propiciar  alguma  transferência  de conhecimentos referentes ao emprego tático de sistemas novos;
investimento  necessário  na  adaptação  do  Arsenal  de  Marinha do Rio de Janeiro, para a nova construção; e,
– desempenho operacional das unidades já produzidas, tanto do IKL-214 como do Scorpène.
Além desses, citados como exemplos, há outros fatores em estudo pela MB.
Finalmente,  há  a  intenção  do  Presidente  da  República de apresentar o assunto ao Conselho de Defesa Nacional.

PN — Qual  a  mensagem que o Comandante da Marinha gostaria de deixar aos brasileiros entusiastas do Poder Naval e àqueles que pretendem ingressar na MB?

 

ALTE. MOURA NETO:  Temos grandes desafios pela frente, mas isso não deve nos abater. Pelo  contrário, a necessidade de superar os óbices deverá ser assumida por todos,  que procurarão  desenvolver  suas  criatividade  e  capacidade  de inovação,  além de estabelecer as corretas prioridades. Há que se preservar os  programas  e  projetos em andamento, notadamente aqueles que garantam o adequado nível de aprestamento.
A Marinha do Brasil deverá ser uma Força moderna, equilibrada e balanceada, dispondo de meios navais, aeronavais e de fuzileiros navais compatíveis com a  inserção político-estratégica do nosso País no cenário internacional; e, em   sintonia   com  os  anseios  da  sociedade  brasileira,  deverá estar permanentemente  pronta  para  atuar,  não  só em águas azuis, litorâneas e interiores,  como também  sob  a  égide  de organismos internacionais e em suporte  da  política  externa do País, visando contribuir para a defesa da Pátria e para a salvaguarda dos interesses nacionais.
Atualmente,   a   elevação   do   patamar   orçamentário,   o  Programa  de Reaparelhamento  da Marinha, o Programa Nuclear da Marinha e a melhoria do nível  salarial,  em  estudo  no  âmbito  do Ministério  da Defesa, são as prioridades da Marinha do Brasil.
A  capacidade de alcançar a Força que desejamos será tão maior quanto assim o  forem  a  união, a determinação e a sintonia dos diversos setores. Essa deve ser a tônica a nos reger.
Tenho  plena  confiança  que,  com a ajuda de todos, conseguiremos manter a Marinha no patamar de prestígio, respeito e destaque que merece.

(*)NOTA DOS EDITORES:

Segundo várias fontes, o cruzador argentino ARA General Belgrano foi atingido por torpedos quando navegava escoltado por dois contratorpedeiros, o ARA Piedra Buena (D29) e o ARA Hipolito Bouchard (D26). De acordo com uma reportagem feita pelo jornal The Guardian, no ano 2000 (reproduzida na internet em http://www.guardian.co.uk/falklands/story/0,,658430,00.html), que entrevistou ex-tripulantes do HMS Conqueror, do General Belgrano e do Bouchard, o terceiro torpedo lançado pelo submarino britânico acertou o Bouchard, mas não por impacto direto, causando apenas algumas avarias leves.
Um detalhe importante é que o submarino nuclear também estava equipado com os mesmos Tigerfish Mk.24 usados pela Marinha do Brasil, mas o comandante inglês preferiu usar os velhos mas confiáveis Mk.8, do que os modernos, porém problemáticos, Mk.24. Ele teve que se arriscar, porque os disparos foram feitos à "queima roupa", à distância de apenas 1.700 jardas.
Paradoxalmente, os argentinos dispararam naquele conflito modernos torpedos SUT guiados a fio, mas nenhum acertou os navios britânicos.
Por conta desses fatos, alguns especialistas são da opinião de que a MB volte a fabricar torpedos de tiro reto, porque em caso de guerra, não podemos depender só de torpedos guiados, que são praticamente “caixas-pretas”, que não dominamos.