OPINIÃO

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Lincoln Carrier Strike Group

O CSG do USS Abraham Lincoln (CVN-72). Esta é a visão romântica do que seria a Quarta Frota. A verdade está muito longe disso.

A Quarta Frota e a estrutura militar unificada dos EUA - Parte I

autor: Guilherme Poggio

colaborador: José da Silva

O ressurgimento da Quarta Frota da Marinha dos EUA (USN), administrativamente funcionando desde o dia 1º de julho deste ano, gerou um verdadeiro alvoroço por toda a América Latina. A reação por parte dos diferentes Estados do continente foi negativa. Além disso, a mídia deu amplo e inflado destaque ao acontecimento, despertando as mais apaixonadas opiniões na população local e nos seus representantes políticos.

 

Mas poucos realmente pararam para refletir e perguntar: o que é a Quarta Frota? Como ela está organizada e por que ela foi criada? No Brasil, diversos segmentos da mídia, para não dizer a quase totalidade dela, apontam as grandes descobertas brasileiras de petróleo localizadas em alto-mar, na camada denominada "pré-sal", como a principal razão para a recriação da Quarta Frota. Outro motivo seria a Venezuela, comandada por Hugo Chaves, e sua influência anti-americana no continente.

No entanto, para entendermos a criação da Quarta Frota e o que ela realmente significa é necessário conhecer tanto a estrutura das Forças Armadas dos EUA como a organização da Marinha daquele país. Não é algo trivial, nem de fácil assimilação. Mas a ausência de compreensão destes itens acarretará numa análise superficial e equivocada, originando comentários apaixonados e carregados de conteúdo político-partidário.

Poder Marítimo e Política Externa

A assimilação da importância do poder marítimo na condução da política externa dos EUA ocorreu ainda no século XIX, tendo como base os estudos do almirante Alfred T. Mahan. Dentre os seus trabalhos, o mais significativo deles foi "A influência do Poder Marítimo ao longo da História 1660-1783", publicado em 1890.

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The Great White Fleet

A "grande frota branca" como ficou conhecida armada que realizou a viagem ao redor do mundo. Eram os primeiros ensaios do Poder Marítimo dos EUA. 

Mahan influenciou toda uma geração de militares e políticos nos EUA e no mundo. Através dos seus trabalhos, a USN cresceu em número e em poder bélico. Suas idéias foram especialmente receptivas durante a administração do presidente Theodore Roosevelt (1901-1909). Foi durante a sua administração que a "Grande Frota Branca" foi organizada e despachada para realizar uma volta ao mundo, demonstrando que os EUA possuíam uma marinha de "águas azuis". Desde então, a existência de um Poder Marítimo forte, expandido extraordinariamente durante a II Guerra Mundial, tem sido um dos pilares da política externa dos EUA. 

O nascimento da "Guerra Fria" na segunda metade da década de 1940 trouxe novos desafios para os EUA e sua influência mundial. O Poder Naval ainda era fundamental, mas não o único instrumento militar de política externa. Poder Aéreo, armas nucleares e foguetes de longo alcance eram exemplos de como a guerra havia mudado em tão pouco tempo. Além disso, a criação da ONU, da OTAN, o plano Marshal, a Doutrina Truman e, por fim, o nascimento de duas superpotências (bi-polarização), mostravam que uma reorganização político-econômico-militar mundial estava em andamento acelerado. Era preciso que as Forças Armadas acompanhassem estas mudanças.

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Estrutura das FAs dos EUA antes e depois da NSA

Figura 1 - Comparativo entre a estrutura das Forças Armadas dos EUA antes e depois da Lei de Segurança Nacional

Durante a primeira administração do presidente Herry Truman (1945-1949) foi criada a Lei de Segurança Nacional. Este ato presidencial mudou por completo a organização das Forças Armadas, bem como deu novos rumos à condução da política externa dos EUA. A antiga estrutura, composta pelo Departamento da Guerra e pelo Departamento da Marinha foi completamente dissolvida. Em seu lugar foi criado o "National Military Establishment", anos depois renomeado para Departamento de Defesa (DoD). Dentro do DoD foram criados outros três órgãos: o Departamento do Exército, o Departamento da Marinha e o Departamento da Força Aérea, a partir do desmembramento do USAAF do Exército (ver Figura 1).

A Lei de Segurança Nacional também criou o Conselho de Segurança Nacional (National Security Council - NSC), como forma de centralizar e coordenar as ações de política de segurança nacional e dar rumos à política externa dos EUA, além de criar a CIA - Agência Central de Inteligência e outros órgãos menores.

Outro aspecto importante da Lei de Segurança Nacional foi a maior e melhor integração entre as Forças Armadas. É sabido que a rivalidade entre as diferentes forças pode influenciar negativamente a ação conjunta delas e colocar em risco os objetivos táticos e estratégicos de uma nação. A experiência da II Guerra Mundial demonstrou isso claramente para os EUA. Assim, a Lei de Segurança Nacional também criou os comandos unificados, melhorando a cooperação entre as diferentes Forças.

Estrutura Militar Unificada

Antes da Lei de Segurança Nacional, a estrutura de comando era direta entre o Presidente e o Departamento da Marinha ou entre o Presidente e o Departamento da Guerra. Com a reorganização de 1947, os comandantes das Forças ficaram subordinados ao Secretário de Defesa, e este tratava diretamente com o Presidente ou com o Conselho de Segurança Nacional.

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cooperação entre as FAs dos EUA

Forças Especiais do Exército dos EUA desembarcam de um helicóptero num submarino da USN. As Forças Armadas dos EUA atuam sob um comando unificado. 

Paralelamente à existência das Forças e suas respectivas estruturas administrativas, foi criada uma estrutura de comando operacional segmentada em "comandos unificados" e subordinada também ao DoD.

Os Comandos Unificados de Combate (Unified Combatant Command - UCC) são organizações militares constituídas por integrantes de mais de uma das Forças Armadas dos EUA. Cada UCC é comandado por um oficial general de quatro estrelas (almirante-de-esquadra, general-de-exército ou tenente-brigadeiro) conhecido como "Combatant Commander" (CCDR ou, informalmente, COCOM) ou "Commander-in-Chief" (CINC). Este último termo deixou de ser utilizado mais recentemente e agora só se aplica ao presidente.

Os UCC, embora mantenham o conceito original intacto, recebem contínua revisão do Departamento de Defesa conforme os interesses globais dos EUA. A última das grandes revisões foi feita em 1986, com a implementação da Lei Goldwater-Nichols (como ficou conhecida a reestruturação militar dos EUA).

 

Os CCDR passaram a ter maior autonomia, ficando diretamente subordinados ao Secretário de Defesa. Por outro lado, os comandantes das respectivas forças perderam o comando operacional, assumindo um papel meramente administrativo. A atribuição dos comandantes das Forças desde então pôde ser sintetizada em três palavras: organizar, treinar e equipar. Assim, a partir daquela data, os recursos humanos e materiais puderam ser empregados conforme as necessidades estabelecidas por cada um dos CCDR, nas suas respectivas UCC.

A cadeia de comando atual é a seguinte (ver Figura 2): O presidente, no papel de comandante-em-chefe, está no topo da hierarquia. Abaixo dele está o Secretário de Defesa e, em seguida os respectivos CCDR. O Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas (CJCS) não exerce comando diretamente sobre os UCC, embora possa opinar e aconselhar tanto os comandantes dos UCC como o Secretário de Defesa e o Presidente.

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Estrutura de comando atual

Figura 2 - Organogramas simplificados da estrutura militar dos EUA atualmente. NSC: National Security Concil e JCS: Joint Chief-of-Staff.

O secretário da Marinha e o Comandante da Marinha também não exercem comando sobre as forças navais alocadas para os diferentes UCC, mas são responsáveis pela organização e pelo treinamento das tripulações e dos navios que serão enviados ao teatro de operações. O mesmo vale para os Comandantes da Força Aérea e do Exército.

Atualmente existem dez Comandos Unificados que, por sua vez, são agrupados em dois conjuntos distintos. O primeiro grupo compõe-se de Comandos Unificados funcionais sem relação geográfica. De forma bastante sucinta, os quatro Comandos Unificados funcionais são:

USJFCOM - United States Joint Forces Command (Norfolk/Virginia). Criado em 1999, este UCC é responsável pela transformação das Forças Armadas de hoje e na criação das FAs de amanhã. Neste comando novos conceitos operacionais são criados e testados. 
USSOCOM - United States Special Operations Command (MacDill AFB, Tampa/Flórida). A origem deste UCC remonta ao começo da década de 1980 e tem como propósito unificar toda e qualquer operação conduzida pelas Forcas Especiais dos EUA.

USSTRATCOM - United States Strategic Command (Offutt AFB, Omaha/Nebrasca). Este UCC mantém controle sobre todo o arsenal nuclear dos EUA, além de comandar as ações espaciais. Grosso modo, foi uma fusão do antigo SAC (Strategic Air Command) com o United States Space Command.

USTRANSCOM - United States Transportation Command (Scott AFB, St. Clair County, Ilinois). É de responsabilidade deste UCC o transporte de pessoal e material militar por todo o planeta, seja por via terrestre, marítima ou aérea. Os navios do MSC (Military Sealift Command), quando em comissão, estão subordinados a este UCC.

No outro grupo figuram os Comandos Unificados com atuação geográfica específica. Os Comandos Unificados regionais são seis e, juntos, cobrem a totalidade da superfície do globo. Isto significa dizer que dependendo do espaço geográfico (ver Figura 3), os EUA já possuem uma estrutura montada para atuar em tempo de paz (exercícios conjuntos, ações humanitárias) ou conduzir um conflito assimétrico de caráter regional (como exemplo as Guerras no Iraque e no Afeganistão).

Os UCC com atuações regionais são:

USAFRICOM - United States Africa Command (Stuttgart/Alemanha). É o mais novo dos UCC regionais. Foi criado em 2007 a partir de um desmembramento do USEUCOM. Estará plenamente operacional em setembro de 2008. Engloba todo o continente africano, excluindo-se o Egito, e as águas próximas.

USCENTCOM - United States Central Command (MacDill AFB, Tampa/Flórida). Suas origens remontam da antiga Força de Deslocamento Rápido. A região de atuação engloba todo o Oriente Médio (menos Israel), parte da Ásia Central e Egito. Este UCC, responsável por conduzir as forças norte-americanas nos conflitos do Iraque e Afeganistão, é o mais prestigiado deles desde a metade da década de 1980.

USEUCOM - United States European Command (Stuttgart/Alemanha). Geograficamente inclui todo continente europeu, a Rússia e Estados do Cáucaso. Além disso, também é responsável pelo Mar Mediterrâneo e Parte do Atlântico Norte. Atua de forma bastante estreita com as forças da OTAN.
USPACOM - United States Pacific Command (Camp H. M. Smith, Honolulu/Havaí). É um dos mais antigos UCC e sua origem está na criação do Teatro Operacional do Pacífico, durante a II Guerra Mundial. A área operacional do USPACOM é a mais extensa de todas, incluindo grande parte do Oceano Pacífico e Índico, toda a Oceania e Sudeste Asiático, bem como boa parte da Ásia continental.

USNORTHCOM - United States Northern Command ( Peterson AFB, in Colorado Springs/Colorado). Possui, como área de atuação, toda a América do Norte, incluindo as águas distantes daquele continente até 500 milhas náuticas. Foi criado em 2002, como resposta aos atentados de 11 de setembro de 2001. Basicamente herdou a estrutura do antigo NORAD.

USSOUTHCOM - United States Southern Command (Miami/Flórida). Geograficamente, este UCC abrange o Caribe, a América do Sul e a América Central, bem como as águas próximas a estes. O USSUTHCOM será tratado mais detalhadamente ao longo do texto.

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divisão do mundo em UCC

Figura 3 - Divisão do mundo segundo os Comandos Unificados (UCC) dos EUA. O mapa acima já incorpora a USAFRICOM, que deverá estar plenamente operacional em setembro de 2008.

Para exemplificar rapidamente a importância do CCDR dentro da atual estrutura militar dos EUA, basta dizer que durante a Guerra do Golfo em 1991, o comandante da USCENTCOM era o general Norman Schwarzkopf. Coube a ele conduzir todas as forças dos EUA durante aquele conflito. Atualmente este cargo é ocupado pelo General David Petraeus, responsável pela condução dos conflitos no Iraque e no Afeganistão.

Segunda e última parte >>>>>>