OPINIÃO

Ministério da Defesa - Oportunidades de aprimoramento dão ênfase à logística

n VAlte (RRM) Ruy Capetti

Em quase todos os países de significativa expressão militar, o Ministério da Defesa joga importante papel na organização nacional, buscando, no mínimo, a capacitação das forças armadas para operarem integradamente, em operações conjuntas. Para isso, no entanto, tornam-se necessárias tanto a padronização de muitos processos e procedimentos, quanto a de muitos sistemas e equipamentos, o quanto permitir a natureza particular de cada tipo de operação, de exército, naval ou aérea. Em qualquer caso sobressai a necessidade de padronização.

Um exemplo típico no agir integradamente são as comunicações, com certo grau de comunalidade. Há procedimentos e ferramentas que permitem aos diferentes ramos de serviço se entenderem no teatro de operações, embora suas linguagens sejam diferentes. Outro exemplo, em tempo de paz, é a padronização do processo de obtenção de sistemas de defesa, visando à modernização para a guerra.

"O Ministério da Defesa ainda está longe de contribuir para padronização e a interoperabilidade apropriadas."

Além das operações conjuntas, há uma outra possibilidade - é a das nossas forças armadas agirem em conjunto com forças armadas de outros países, segundo compromissos de alianças ou tratados. Isto implica em desenvolver a interoperabilidade, conceito que também deve influenciar a capacitação das nossas forças de defesa.

O Ministério da Defesa ainda está longe de contribuir para padronização e a interoperabilidade apropriadas. Seguem-se algumas possíveis razões.

Conforme escrito em vários textos e reafirmado várias vezes, tal Ministério foi criado, no Brasil, mais com o sentido de afastar os militares da esfera política, ou da cúpula civil do poder, do que realmente atender à necessidades técnicas. Outros autores colocam que a mudança teve como propósito aproximar o poder civil das decisões militares. 

 

Qualquer que seja o caso, até hoje se pode observar que a mudança organizacional, embora de vulto e custosa, não trouxe em seu bojo um correspondente aporte de inovações e aperfeiçoamentos que tenha justificado os custos envolvidos.

Um simples exemplo é a inexistência de um foro na Internet, patrocinado pelo Ministério da Defesa, que sirva para padronizar conhecimentos e procedimentos entre os três ramos de serviço, ao mesmo tempo em que coloca o meio acadêmico ou a indústria em posição de participar e contribuir para seus aperfeiçoamentos.

Temas específicos poderiam ser aventados, como o caso do Apoio Logístico Integrado, a padronização do processo de obtenção, o estabelecimento de um ambiente de compartilhamento de dados incluindo a indústria, o ensino de disciplinas comuns às três forças, entre outros mais. 
Qualquer que tenha sido o propósito para a criação, não se pode concluir, hoje, se a estrutura então montada o foi por trato superficial dos conhecimentos que serviram de fundamento à constituição do que deveria ser realmente um Ministério da Defesa, ou se o foi de propósito, a fim de evitar a interferência, em assuntos militares, de indivíduos a serviço da política, na maioria dos casos desconhecedores dos assuntos técnicos de um Ministério dessa natureza - como sói acontecer até os dias atuais!

"Restou, então, um "EMFA ampliado", e não um verdadeiro Ministério da Defesa."

Os resultados têm sido bastante deficientes. A bem da verdade, levando em conta que a figura de ministro seja de natureza preponderantemente política, e daí constantes e inopinadas mudanças, tal quadro agrava-se devido à ausência de um secretário geral ou figura similar, reconhecidamente os técnicos que dão seguimento às ações administrativas, nos diferentes Ministérios. Restou, então, um "EMFA ampliado", e não um verdadeiro Ministério da Defesa.

Nos assuntos de natureza militar tal não deve ocorrer com a mesma intensidade, na medida em que a formação é voltada para o profissionalismo exigido. Mas, ainda assim, pode ocorrer, se acontecer uma eventual desatualização de conhecimentos.

Um exemplo, o planejamento estratégico da defesa deixa a desejar. Jaz a impressão que no preparo do poder militar, nem mesmo os militares estejam inteiramente capacitados a conduzir a administração para o planejamento das operações militares, mormente em tempos de paz, haja vista não se ter pronto um plano estratégico de defesa, que só precisasse de rápidas atualizações.
Em termos logísticos, no Ministério da Defesa dos dias atuais parece haver maior preocupação com a distribuição do que com a produção, no gerenciamento da cadeia de suprimentos.
Da Secretaria responsável pela Logística poderiam partir iniciativas de padronização de muitos processos e procedimentos dos diferentes ramos de serviços, no sentido de operarem conjuntamente. No entanto, observa-se a condução da logística segundo alguns aspectos ultrapassados. As disciplinas engenharia de sistemas, a logística de obtenção e a engenharia logística não são convenientemente abordadas, até porque não o são nas forças armadas de origem dos oficiais designados para servir no Ministério da Defesa. 

 

Ainda sob tais aspectos, seria bastante útil ao Ministério a existência de uma Escola, de caráter industrial, destinada a ministrar esses e outros conhecimentos comuns ao desenvolvimento da logística nas forças armadas. Somente a Escola Superior de Guerra não parece ser suficiente. 
Outro possível aperfeiçoamento seria o estabelecimento de Centro de Jogos de Estratégia, com ênfase nos aspectos logísticos, considerando aspectos da mobilização industrial. Como muitas dessas atividades só podem vir a ser demonstradas caso haja o engajamento em operações reais de guerra, a simulação se torna ferramenta de incontestável valor para o preparo da defesa. 
Importante ponto a considerar é a modernização das forças armadas É fato que a vontade política vem reacendendo a necessidade de reativar a indústria de material bélico. Confirmada a idéia, o ponto focal das iniciativas na produção de sistemas de defesa deve tomar como referência o paradigma operacional de cada força armada. Estes, certamente, já teriam sido identificados, caso já houvesse um planejamento estratégico de defesa.

"Outro possível aperfeiçoamento seria o estabelecimento de Centro de Jogos de Estratégia. (...) a simulação se torna ferramenta de incontestável valor para o preparo da defesa. "

São esses paradigmas que deverão orientar os investimentos na fabricação e produção de sistemas de defesa mais apropriados, acima de tudo, para uso por nossas próprias forças armadas. Abre-se, assim, o caminho correto para modernização de nossas forças armadas, além de contribuir para a visibilidade e credibilidade, quando da oferta do material produzido no país, no mercado mundial.
Não há como negar que, no preparo e aplicação do poder militar, várias são as oportunidades de aperfeiçoamento da defesa. Porém, um observador externo pode inferir que as atividades desenvolvidas, se deixadas ao individualismo (da lavra de cada comandante de serviço), podem não produzir resultados totalmente satisfatórios para o conjunto. Daí resulta uma outra oportunidade de aprimoramento do sistema de defesa – qual seja, a existência de um processo de obtenção de uso padronizado pelas três forças.

Se não for instituído um processo de obtenção de sistemas militares de defesa que leve em consideração a integração de todas as atividades das forças armadas, para agirem em conjunto, então aquele individualismo toma conta de todo o planejamento e da programação para modernizar nossas forças de defesa. Nem sequer prioridades podem ser atribuídas às diferentes soluções para as necessidades e missões decorrentes, como é o caso da disputa de recursos para exércitos de nível x de operacionalidade, submarino com propulsão nuclear, ou aviação estratégica. Isso, lembrando apenas o passado, mas cujas conseqüências permanecem.

Temos conhecimentos de críticas, pela imprensa, que os Ministros da Defesa não têm cuidado da Política de Defesa. De fato, eles precisariam estar mais liberados e terem conhecimentos apropriados para cuidar dessa Política, contribuindo, com os comandantes das três forças armadas, para a capacitação militar do Brasil. E mais, estariam capacitados a estabelecer prioridades na modernização das forças armadas, em face tanto de um paradigma operacional de nossas forças armadas, como da grave escassez de recursos.

 

Portanto, torna-se mister existir, no âmbito daquele Ministério, uma Secretaria de Logística que realmente trate de outros aspectos relevantes da logística, como a logística de obtenção (ou de produção), além da logística de distribuição (ou empresarial) já contemplada. Da primeira, responsável pela obtenção dos sistemas de defesa e de seus apropriados sistemas de apoio logístico, o observador externo nem sequer percebe qualquer preocupação dos atuais administradores em exercê-la. A segunda, é mera continuação do que tratava o antigo EMFA, e se mostra, por vícios orgânicos herdados, majoritariamente preocupada com os aspectos do suprimento, do abastecimento, ou da catalogação.

Das abordagens genéricas da logística surgirão fortes indicações da necessidade de se estabelecer um ambiente de compartilhamento de informações, entre ao diversos ramos de serviço, o próprio Ministério, a indústria e o comércio, necessidade amplamente demonstrado pelos grandes fluxos de troca de dados e informações, impulsionadas pela Tecnologia da Informação, nos dias atuais (e-comércio, técnicas como o RFID, documentação gerada por meios informatizados, manuais técnicos em mídia eletrônica, intercâmbio de dados entre instituições de diferentes linguagens, uso da Internet, acompanhamento do ciclo de vidas dos sistemas de defesa, gerenciamento de bancos de dados técnicos, isto só para citar algumas).

"Embora sem negligenciar os estudos de estratégia e de tática, lembrar sempre que é a logística que realmente permite que as forças funcionem. "

Finalmente, é essencial a existência de uma Secretaria de Ciência e Tecnologia, no âmbito daquele Ministério (foi recentemente criada e inserida na Secretaria de Logística e Mobilização, agora Secretaria de Logística, Mobilização e C&T). Sem ela o processo de obtenção dos sistemas militares de defesa não se desenvolverá adequadamente. Por outro lado, sua falta compromete a integração com a Industria Militar do país. O fomento de novos desenvolvimentos não terá patrocínio.

Finalmente, urge rever, com a finalidade de atualizar e nivelar, a matriz de ensino dos diferentes ramos de serviço, em conjunto com o próprio Ministério da Defesa. A finalidade é de que sejam aproveitadas as reais oportunidades de aperfeiçoamento da estrutura de defesa nacional, á luz do estado de conhecimentos atual. Embora sem negligenciar os estudos de estratégia e de tática, lembrar sempre que é a logística que realmente permite que as forças funcionem.