ARTIGO

Royal Navy  

O HMS Invencible passando pelos fiordes noruegueses. Os navios da classe Invencible começaram a vida como "Cruzadores de Convés Corrido" embora fossem verdadeiros navios-aeródromo

Reclassificação de Meios Navais de Superfície

Uma Abordagem Superficial Sobre o Problema na Atualidade

n Guilherme Poggio

 

Apresentação do problema

As diferentes forças navais espalhadas pelo mundo possuem navios de combate de superfície como corvetas, fragatas, contratorpedeiros e cruzadores entre outros. A composição das esquadras é muito variável e em alguns países um determinado tipo predomina sobre outro ou pode até mesmo estar ausente.

A presença deste ou daquele navio e a quantidade do mesmo poderiam ser parâmetros para comparar diferentes marinhas ou mesmo compreender as estratégias navais dos seus governos. No entanto, não existem definições mundialmente aceitas para os termos historicamente consagrados como fragata, corveta, etc.

 

Várias são as razões para que uma classificação universal não seja aceita, destacando-se a utilização política dos termos como forma de persuadir e/ou ludibriar Governos, decisões políticas e tratados internacionais.

Cabe destacar também que a falta de um padrão na classificação de meios navais pode acarretar em conclusões equivocadas. Como se não bastasse o verdadeiro “non-sense” na classificação de meios navais do pós-guerra, a OTAN tentou aplicar as denominações ocidentais pouco claras na frota soviética durante a Guerra Fria. O resultado insatisfatório, como poderia ser previsto, levou a um entendimento errôneo dos meios e das táticas navais soviéticas.

Após o exposto acima, é fácil entender porque até mesmo os dicionários da língua portuguesa (acredito que as demais línguas também sofram disso) apresentam grandes incoerências. Não é raro encontrar definições completamente diferentes e absurdas para contratorpedeiro e destróier, embora sejam sinônimos.

Exemplos de manipulação de termos  

Conforme foi mencionado acima, a manipulação das definições navais pode ter como pano de fundo o seu uso político. Os exemplos da manipulação dos termos são inúmeros, mas vale destacar dois casos europeus.  

Em 1966, o Governo Britânico votou pela extinção do poderio aéreo de asa fixa embarcada da Royal Navy. Um dos argumentos era que a RAF tinha capacidade de oferecer cobertura aérea às forças navais (mais tarde, essa doutrina mostrou-se enganada). O outro, muito mais compreensível, seria o corte de gastos na área de defesa e os navios-aeródromo eram caros tanto na produção como na operação. Uma forma de burlar a decisão do governo trabalhista foi a criação da classe de “Cruzadores de Convés Corrido” (TDC – Through Deck Carriers) Invensible. Na verdade, os TDC eram navios-aeródromo desprovidos de catapultas e aparelhos de parada.

Outro exemplo refere-se à classificação dos navios-aeródromo russos da classe Kiev. Como a convenção de Montreaux proíbe a passagem desse tipo de embarcação pelo estreito de Bósforo e de Dardanelos, esses navios para atingirem o Mar Negro, eram classificados como “Cruzadores Porta Aeronaves Tático” (Tactycheskoye Avionosnyy Kreyser).

A origem dos termos

Para tentar entender o significado desses termos comumente empregados, é necessário recorrer ao histórico dos mesmos e como se deu sua evolução. Dentre os termos ainda utilizados os mais antigo são a corveta e a fragata. 

As primeiras fragatas apareceram no final do século XVII. Eram navios menores que as embarcações de linha, mas manobravam melhor e possuíam maior velocidade. No século XVIII, as fragatas se caracterizavam por possuírem um deslocamento entre 200 e 300 t, contendo 30 a 40 canhões em uma única bateria. Com o passar do tempo, esses navios foram crescendo tanto em tonelagem como em canhões, sendo equiparados aos navios de linha menores. Desempenhavam um número bastante grande de missões incluindo a guerra de corso, reconhecimento armado, transporte, etc.

Embora existissem corvetas já na primeira metade do século XVII, essas eram variações de navios mercantes romanos dotados de vela e remos. A corveta, como navio de combate, surgiu no século seguinte como uma variação simplificada e reduzida da fragata.

Com a invenção do hélice e do motor a vapor, antigas fragatas e corvetas a vela foram modificadas para incorporarem propulsão mista. Algumas foram inclusive dotadas de casco metálico. Nessa mesma época surgiram fragatas equipadas com couraça. Assim, a evolução seguiu duas linhas distintas, uma originou os cruzadores de oceanos (a ser discutido mais adiante) e outra originou os encouraçados padrão “Dreadnought”, tornando-se os principais navios de combate de sua época. Posteriormente, fragatas e corvetas foram praticamente extintos. (Na Tabela 1, é possível observar a evolução dos termos fragatas corvetas, bem como de outros termos comumente empregados.)

O renascimento ocorreu nas mãos dos britânicos no início da II Guerra Mundial para designar navios de escolta de comboios mercantes dedicados à guerra anti-submarina. Os primeiros eram navios maiores e deslocavam até 1.500 t. As corvetas dificilmente ultrapassavam 1.000 t. O termo fragata continuou a ser empregado pelos britânicos para navios de escolta com características A/S após a guerra.  

Royal Navy  

A classe Flower foi uma das responsáveis pelo renascimento da corveta. Essas escoltas britânicas foram construídas com base em cascos de baleeiras. Sua principal função era a escolta A/S de comboios mercantes. A sua baixa velocidade (16 nós) permitia apenas cobrir o comboio, deixando a perseguição aos U-boats para os contratorpedeiros.

Durante a II Guerra Mundial, os EUA construíram uma centena de fragatas que foram retiradas de serviço após o término do conflito. No entanto, esses navios eram utilizados mais como varredores de minas e patrulheiros, diferentemente dos britânicos. A marinha americana adotou novamente o termo fragata para designar navios de emprego anti-submarino em 1975, reclassificando os contratorpedeiros de escolta das classes Bronstein, Garcia e Knox. Nesse mesmo ano, os contratorpedeiros com mísseis guiados da classe Brook foram reclassificados como “Fragatas lança-mísseis”.

O termo corveta não foi mais empregado por essas duas marinhas mas atingiu um certo sucesso em países dotados de poucos recursos. Nestes, unidades navais modestas (com menos de 1.500 t de deslocamento) e de raio de ação limitado foram pesadamente armadas com sistemas múltiplos e até plataformas para helicópteros.

G. Poggio                    

TABELA 1 - Denominação das embarcações atuais ao longo dos séculos.

Observar a longa trajetória das Corvetas e Fragatas.

Cruzando os Oceanos

US Navy  

Os navios da classe Arleigh Burke são classificados como contratorpedeiros. Porém, muito pouca coisa diferencia esses navios dos cruzadores da classe Ticonderoga, incluindo o deslocamento e sistema de armas e sensores.

Na segunda metade do século XIX, denominava-se cruzador o navio capaz de cruzar os oceanos com seus próprios meios e realizar um amplo leque de missões como exploração, vigilância, proteção de comboios e ataques a embarcações piratas.  Na verdade, o cruzador surgiu a partir das fragatas, numa época onde se introduzia o ferro na construção de cascos e o hélice na propulsão de navios.

Os cruzadores foram inicialmente divididos segundo sua tonelagem. Posteriormente, surgiram os cruzeiros blindados com mesmo armamento dos encouraçados e velocidade maior. Segundo esse princípio (a velocidade é a blindagem), esses navios originaram os primeiros cruzadores de batalha, que se difundiram durante a I Guerra Mundial. Mas eram sempre embarcações de menor importância que os encouraçados.

Na guerra seguinte, os cruzadores de batalha estavam superados pela maior velocidade alcançada pelos próprios encouraçados. Porém existiam duas outras categorias de cruzadores não blindados: cruzadores leves e cruzadores pesados. Como o próprio nome diz, além da diferença no deslocamento, possuíam variação no calibre do armamento principal.

Com o advento dos mísseis SSM nas décadas seguintes, o principal armamento (os canhões) e a principal defesa (a velocidade) desses navios foram superados. Os cruzadores ficaram restritos a embarcações de grande porte, eventualmente especializadas (p. ex. cruzadores antiaéreos), somente inferiores aos navios-aeródromo em deslocamento. Na atualidade, existem contratorpedeiros que se aproximam tanto das características de um cruzador moderno que qualquer tentativa de diferenciação entre ambos praticamente não existe.

Torpedeiros e Contratorpedeiros

 

O contratorpedeiro ou destróier é, nos dias atuais, uma embarcação muito comum em diversas marinhas do mundo. No entanto, o uso desse termo varia para cada país e, em grande parte dos casos não possuem uma definição clara.

Uma série de avanços tecnológicos ocorridos no final do século XIX modificou drasticamente a guerra naval. Um desses avanços foi o desenvolvimento do torpedo. Inicialmente, o termo torpedo era aplicado para um dispositivo semelhante a uma mina de uso naval. Portanto, era comum referir-se ao dispositivo como um “torpedo autopropelido”. Logo nos primeiros testes a arma mostrou ser eficiente e altamente destrutiva. O torpedo apareceu como uma forma de contrapor grandes embarcações por um custo baixo. Faltava definir a plataforma.

Já na década de 1870, os franceses trabalharam num projeto de barco de reduzidas dimensões, que tinha como única função transportar e executar ataques com torpedos. Surgiu assim o “Torpedeiro”. Uma embarcação com autonomia limitada, empregada apenas em ataques próximos à costa. Esse projeto alterou completamente a estrutura da marinha francesa que diminuiu a construção de embarcações maiores em favor dos barcos torpedeiros. Outras marinhas européias de recursos limitados passaram a encomendar esses navios e o Torpedeiro difundiu-se pelo continente.  

Imperial War Museum 

Acima, foto do Barco Torpedeiro nº 75 em 1891. O contratorpedeiro surgiu exatamente para combater essas embarcações. Atualmente os barcos torpedeiros estão extintos e, por conseqüência,  os contratorpedeiros (ou destróieres) perderam a sua função.

Embora a Marinha Britânica não tenha mostrado muito interesse no novo tipo de navio, ela reconhecia no Torpedeiro (Torpedo Boat) uma ameaça potencial e começou a trabalhar numa contramedida. Assim nasceu o Torpedo Boat Destroyer (destruidor de barcos torpedeiros) ou simplesmente Destroyer (contratorpedeiro), um barco com dimensões maiores que o próprio torpedeiro, bastante veloz e com armamento que variava entre canhões e torpedos.

Quando a I Guerra Mundial chegou, as dimensões e a autonomia desses navios não permitiam que os mesmos operassem longe dos corpos principais de esquadra. Ao contrário das previsões pré-guerra, os ataques torpédicos em massa contra as grandes esquadras de combate não ocorreram. Porém, esses navios foram muito utilizados em ataques contra comboios mercantes e contra outros destróieres.

 

No conflito mundial seguinte, os contratorpedeiros evoluíram para embarcações maiores, com armamento mais poderoso e uma sensível melhora na autonomia. No entanto, a autonomia e o armamento não eram apropriados para a principal atividade a eles designada – escolta de comboios mercantes. Como a ameaça principal aos comboios era submarina, parte dos canhões e dos tubos lança-torpedos foram substituídos por cargas de profundidade. Os americanos dedicaram-se a construir uma variação de contratorpedeiros especializados na escolta de comboios mercantes e na guerra A/S, originando o destroyer-scort ou contratorpedeiro de escolta.

Ao final da guerra, o termo contratorpedeiro, como inicialmente projetado, perdera o seu sentido totalmente. Muitos contratorpedeiros foram convertidos em navios especializados em tarefas anti-submarinas e outros em tarefas antiaéreas, dada a importância desses elementos no ambiente naval modedrno. No caso inglês, grande parte dos “destroyers” britânicos convertidos parra guerra A/S foram reclassificados como “fragatas”. Nessa mesma época, a distinção entre contratorpedeiro e fragata tornou-se uma mera questão semântica.

Com o desenvolvimento dos mísseis anti-navio (SSM) na década de sessenta e sua proliferação pelo mundo, surgiu uma nova classe de embarcações. Eram os “Fast Patrol Boat” (FPB) ou lanchas lança-mísseis. Essas embarcações são herdeiras diretas dos barcos torpedeiros, tanto pelas suas características como pelo seu “modus operandi”. A resposta a essa ameaça não foi uma nova embarcação, como no caso dos contratorpedeiros, mas sim aeronaves (helicópteros) armadas com mísseis anti-navio de curto alcance, embarcadas em unidades navais maiores que os FPB.

Porta-aviões ou Navio-Aeródromo?

Experiências com aeronaves embarcadas ocorreram já nas primeiras décadas do século XX. Americanos e ingleses improvisaram plataformas de vôo em cruzadores e encouraçados. As plataformas de vôo foram crescendo e as superestruturas dos navios diminuindo até que foram completamente substituídas por um convés de vôo contínuo. O primeiro navio-aeródromo construído como tal desde a quilha foi o HMS Hermes, completado em 1923. Japoneses e norte-americanos vieram logo em seguida com seus próprios projetos.

O navio-aeródromo era então capaz de embarcar, reabastecer, municiar, reparar e operar aviões, tornando-se uma base aérea flutuante com propulsão própria. Por esse motivo a denominação “porta-aviões” (transportador de aviões) é imprópria e equivocada, pois além de transportá-los, os navios-aeródromo são capazes de operá-los.

O grande impulso para a construção e desenvolvimento dos navios-aeródromo viria com o Tratado de Washington. Assinado em 1922 pelas grandes potências navais da época, o Tratado de Desarmamento Naval de Washington estabeleceu a redução do número de encouraçados nesses países. Para os encouraçados que estavam em construção e excediam o limite do Tratado, as opções eram conversão ou desmonte. Assim, vários encouraçados foram completados com um convés contínuo de vôo e reclassificados como navios-aeródromo.

Até o começo da II Guerra Mundial, os navios-aeródromo eram considerados como elementos auxiliares dos encouraçados. Em pouco menos de cinco anos, essa visão foi completamente modificada e, ao término do conflito, os encouraçados entraram em decadência até o seu total desaparecimento e os navios-aeródromo assumiram o papel de navio capital.

Terminologia Naval na Marinha do Brasil

A Marinha do Brasil não foge da completa falta de padronização de termos existente no mundo. Até a metade da década de oitenta, o contratorpedeiro era o tipo mais comum dentre as principais unidades de combate de superfície. Ao todo eram 12 contratorpedeiros, contra 6 fragatas. Na década de noventa ocorreram mudanças na estrutura da MB com a aquisição de novas unidades e a dispensa de outras. Assim, ao final dessa década a balança pendeu para o lado das fragatas, perfazendo um total de 10 unidades contra 4 contratorpedeiros (além de 4 corvetas). Essa mudança das unidades trouxe consigo incrementos tecnológicos e doutrinas atualizadas, mas pouco alterou as funções das escoltas que possuem caráter de emprego geral, com ênfase na tarefa A/S.

MB

Inhaúma – Classificadas na Marinha do Brasil como corvetas, essa classe possui características e funções que as colocam num patamar muito próximo das fragatas.

Um caso interessante são os navios da classe Pará (antiga classe Garcia na USN). Essas embarcações foram construídas para a marinha americana na década de sessenta como contratorpedeiros. Em 1975, a reclassificação de meios navais daquele país alterou a denominação dos mesmos para “fragatas”. Quando adquiridos pelo Brasil, os mesmos voltaram à designação original. Cabe destacar que o navio, a sua função, os seus sistemas e armamentos pouco foram modificados durante essas reclassificações.  

Outro caso que merece menção são as corvetas da Classe Inhaúma. As corvetas dessa classe são embarcações completamente diferentes das corvetas classe Imperial Marinheiro, também utilizada pela MB. Na verdade trata-se de uma classe de “fragatas leves” com um armamento ligeiramente inferior à classe Niterói, projetadas inicialmente para substituírem contratorpedeiros de construção norte-americana da II Guerra Mundial (Fletcher, Allen M. Sumner e Gearing).  

Conclusão

Embora longe de resolver a questão, este texto procurou apresentar, de forma sucinta, o problema da falta de uma classificação universal e o que ela acarreta.

A proposta para reclassificação de meios navais aqui sugerida inclui a ordenação dos mesmos em uma cadeia hierárquica, com base em fundamentos históricos. Dentro dessa cadeia, teríamos os termos Corveta, Fragata e Cruzador nessa ordem de importância. As corvetas representariam navios de combate de superfície, polivalentes ou não, com autonomia reduzida e deslocamento máximo de 1.500 t. Numa categoria imediatamente superior, teríamos as Fragatas, representadas por embarcações de múltiplas funções, com deslocamentos variando entre 1.500 t e 6.000 t, atuando em “águas profundas”. Por último, teríamos o cruzador, navios altamente complexos, deslocando mais de 6.000 t. A tabela a seguir resume as principais características destas definições.

EMBARCAÇÃO DESLOCAMENTO CARACTERÍSTICAS
Corveta até 1.500 t Unidades preferencialmente costeiras (baixa autonomia), polivalentes ou não, limitada em sensores e armamentos.
Fragata entre 1.500 e 6.000 t Unidades polivalentes e de "águas azuis", podendo atuar de forma independente ou como escolta de alto mar para outras unidades ou comboios. 
Cruzador acima de 6.000t Unidades altamente complexas, podendo atuar como centros de C3I e/ou núcleos de Grupos Tarefas.
Navio-Aeródromo independe Unidades de convés corrido cujo objetivo principal é prover uma plataforma marítima para a operação de aeronaves.

   TABELA 2 - Resumo das classes

Propõe-se também a extinção do termo “contratorpedeiro” por um motivo muito simples: na atual conjuntura naval ele simplesmente não significa nada, uma vez que não existem torpedeiros para serem destruídos. Além disso, o uso do termo contratorpedeiro, dentro de uma hierarquia naval constituída por corvetas, fragatas e cruzadores não faz sentido.