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‘Ex Alto Concutimus’, o esquadrão nº 847 da Royal Navy

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Uma unidade área singular na Aviação Naval britânica

Por Guilherme Poggio

‘Do alto nós atacamos’, este é o lema do esquadrão nº 847 da Royal Navy. O 847 é uma unidade singular em vários aspectos. Sua missão é específica, suas aeronaves são únicas na Aviação Naval britânica e seus pilotos são, em grande parte, oriundos dos quadros dos Royal Marines. Como se não bastasse isso tudo, a manutenção é feita por militares do Exército Britânico.

O Poder Naval teve a oportunidade de conhecer de perto um destacamento desse esquadrão e presenciar,  durante a ‘Passex Ocean 2010′,  algumas ações simuladas em apoio aos Royal Marines.

Histórico

As origens do Esquadrão 847 remontam ao período da II Guerra Mundial, quando o mesmo foi formado como uma unidade de bombardeiros torpedeiros, em 1943, na base naval de Lee-on-Solent. Posteriormente, em junho de 1944, o mesmo foi absorvido pelo Esquadrão 810 e transferido para o território do Ceilão (atual Sri-Lanka). O esquadrão foi dissolvido no final da década de 1950, quando voava aviões Fairey Gannet.

Em 1963 formou-se um esquadrão com aeronaves de asas rotativas com o propósito de apoiar as ações dos Royal Marines. Essa unidade recebeu a designação Esquadrão 848, sendo baseada em RNAS Culdrose e equipada com helicópteros Westland Whirlwind HAS Mk 7 (posteriormente Wessex HU.5). Porém, no ano seguinte, a unidade foi dissolvida.

Dois Westland Wessex do 847 sq a bordo do HMS Intrepid em 1968

A partir de 1968, o apoio aéreo direto aos Royal Marines passou a ser feito por uma unidade conhecida como ‘3 Commando Brigade Air Squadron (3CBAS qv)’. Por ocasião da Guerra das Falklands/Malvinas, o Esquadrão 847 foi recriado às pressas. Sua tripulação foi recrutada entre os pilotos de Westland Wessex HU.5 da marinha, baseados em Yeovilton. Despachados para o Atlântico Sul a bordo de navios mercantes, os primeiros helicópteros chegaram a San Carlos no dia 1º de junho e o restante no dia 9. Naquele período, as tropas britânicas estavam a cerca de 10 milhas da capital da ilha e as aeronaves voavam praticamente o dia todo, e até mesmo após o por do sol, para o esforço final do assalto a Puerto Argentino (atual Port Stanley). O esquadrão permaneceu no Atlântico Sul até o mês de setembro, sendo novamente dissolvido assim que voltou para o Reino Unido.

A história recente do 847 começou no dia 1º de setembro de 1995, quando a unidade foi recriada, mas agora a partir do 3CBAS qv. Grandes mudanças táticas e logísticas foram implementadas. Assim como ocorria no 3CBAS qv, as tripulações continuaram sendo formadas por Royal Marines e alguns pilotos navais, mas as aeronaves foram cedidas pelo Corpo Aéreo do Exército britânico, que também responde pela sua manutenção por meio do REME (Army’s Royal Electrical & Mechanical Engineers). As aeronaves passaram a exibir as marcações “ROYAL MARINES” ao invés do tradicional “ROYAL NAVY”.

As aeronaves

No ano de 2005 o esquadrão aposentou os seus Gazelle AH Mk 1 e, desde então, passou a voar exclusivamente com o Westland Lynx na sua versão AH Mk 7. Atualmente, a frota do esquadrão é composta por seis aeronaves desse modelo.

A versão AH Mk 7 faz parte de uma longa linhagem de helicópteros Lynx de uso terrestre, surgida em 1971 para atender às solicitações do Exército Britânico. A grande diferença externa desses helicópteros, em relação aos modelos navais, é a existência de esquis fixos no lugar do trem de pouso de rodas triciclo.

Por meio de um acordo franco-britânico estabelecido em 1967, a Aerospatiale fabricaria 30% da aeronave e o restante seria feito pela Westland. O “Lynx terrestre” deveria equipar inicialmente os exércitos britânico e francês e, em troca, o Reino Unido compraria helicópteros Gazelle e Puma. O Reino Unido adquiriu os dois modelos, porém, a França cancelou a compra e o Exército Britânico passou a ser o único operador militar do Lynx terrestre (mas vale lembrar que a polícia do Qatar adquiriu três aeronaves semelhantes).

A versão AH Mk 7 surgiu a partir das modificações e dos testes executados com a versão AH Mk 5. A grande maioria dos AH Mk 7 é, na verdade, formada por modelos AH Mk 1 reconstruídos. Embora exista uma versão mais moderna, denominada AH Mk 9 (e sua variante AH Mk 9A), a maior parte dos Lynx terrestres continua sendo da versão AH Mk 7, e perto de uma centena destes permanece em operação.

Podemos destacar, dentre as características da versão AH Mk7 , a troca do motor original (um Gem 2 de 600 HP) pelo Gem 41-1 ou Gem 42, estrutura reforçada, aviônica modernizada, caixa de transmissão melhorada, substituição do rotor de cauda por um novo de material composto (girando no sentido oposto) e pás do rotor principal com BERP (British Experimental Rotor Programme) nas pontas.

Em ação

Todas as aeronaves podem ser equipadas, nas laterais, com duas metralhadoras de emprego geral de 12,7mm. Também possuem capacidade de executar ataques com mísseis anti-carro TOW (até oito mísseis por aeronave). Os Lynx do esquadrão 847 são bastante versáteis e executam desde missões de transporte de carga e pessoal, até missões de reconhecimento armado, escolta e combate a veículos blindados.

O esquadrão é comumente empregado em várias missões por todo o planeta, participando de exercícios militares com forças armadas de países amigos, missões sob o mando da ONU e combates diversos. A folha de serviço dos últimos 15 anos inclui ações no Kosovo, invasão do Iraque (fotos acima) e apoio à guerra ao terror no Afeganistão. O evento mais trágico aconteceu em maio de 2006 quando um dos helicópteros foi abatido sobre a cidade de Basra, ao Sul do Iraque. Na queda, cinco militares faleceram.

Conclusão

O Esquadrão nº847 esteve presente no Brasil com duas aeronaves Lynx AH Mk 7 (matrículas XZ192 e XZ177). Ambas apresentavam camuflgem em dois tons (cinza/verde) idêntica ao padrão adotado pelo ‘Arm Air Corps’ do Exército Britânico.

Durante o período em que as tripulações do Esquadrão nº847 estiveram no Brasil, demonstrando parte das suas capacidades, alguns aspectos chamaram a nossa atenção. Em primeiro lugar, é notório ver que uma força com metade do tamanho do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil possui “asas próprias”.

Mesmo que o esquadrão seja uma unidade pequena, ele possui capacidades e características que não são encontradas entre as demais aeronaves existentes na Royal Navy. Assim, o esquadrão acaba por complementá-las. A capacidade de empregar mísseis anti-carro TOW, inexistente na versão naval do Lynx, amplia o número de ações e aumenta o apoio ao fuzileiros em solo.

Também merece destaque a capacidade de cooperação entre as diferentes forças armadas que trabalham, juntas, para o sucesso do esquadrão. Não é fácil juntar numa só receita um modelo do Lynx, com funções bastante específicas e que não é operado por outros esquadrões da aviação naval, com a operação dessa aeronave por fuzileiros navais e com a sua manutenção feita por militares do exército. Talvez esta seja a grande lição que podemos tirar do Esquadrão 847: uma lição de parceria entre as forças armadas britânicas que vem ocorrendo nos últimos 15 anos, extraindo o melhor de cada uma, num contexto de recursos cada vez mais escassos.

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ABULDOG74
ABULDOG74
9 anos atrás

Mais uma prova que o nosso Corpo de Fuzileiros ,precisa ter “Asas Rotativas próprias” pois as características para transporte de tropas e apoio armado; necessita de um treinamento próprio e específico e os esquadrões de emprego geral acabam ficando sobrecarregados.
A criação de um Batalhão Aéreo de Fuzileiros Navais composto por Oficiais e praças do CFN do quadro de aviação especificamente com helicópteros de transporte armado e outro de ataque e embarcados, em caso de mobilização, em futuros navios multimissão anfíbios é o que preconiza em uma Força Expedicionária .

ADSUMUS.

Joker
Joker
9 anos atrás

Interessante como o post apresenta a interoperacionalidade/operação conjunta das Forças singulares apresenta excelentes frutos.

João Gabriel
João Gabriel
9 anos atrás

Esse Lynx seria bem interessante aos nossos FNs pelo fato da Marinha já operá-lo tornaria a manutenção e a logística mais facil…como são 6 no Royal Marines cujo o tamanho é metade dos nossos FNs,acho que uns 15 desses mais uns 10 Super Pumas já seria de bom tamanho para apoiá-los….

Abraços!

Tiririca
Tiririca
9 anos atrás

Não é por nada, mesmo , o que é verdade e que os Fuzileiros navais precisam de tanta coisa… ainda
Tudo o que tem esta em pequena quantidade e não pode quebrar , se quebrar pode ficar ate 2 anos para sair da prateleira …

ABULDOG74
ABULDOG74
9 anos atrás

Acho que se fosse algo que pudesse virar realidade, o helicóptero de transporte poderia ter a capacidade de tropas maior; vejam bem senhores, estamos falando e comentando ou até sonhando o que seria o ideal, não quer dizer que isso irá acontecer; afinal levamos anos sem aviação naval de asa fixa; só por causa de orgulho e preconceito de Forças………..e é o que impede disso acontecer, pois a Marinha jamais abriria mão de ter helicópteros pilotados e manutenidos só por Fuzileiros, mesmo que a característica desse tipo de operação é anfíbia e em dados momentos só terrestre.
ADSUMUS.

claudio silva
claudio silva
9 anos atrás

otima reportagem do jornal da globo falando da soberania da amazonia azul

Lucas
Lucas
9 anos atrás

Porque não? O CC Tonini é fuzileiro naval, e é o melhor piloto do VF-1
tirou a maior nota em ataque ao solo, concorrendo com os melhores da FAB. Sempre defendi que os FN deveriam ter um esquadrão de Super Tucano Navalizado e outro esquadrão de helicópteros metade de transporte e outra metade de ataque, podendo até ser inteiro composto pelos Sabre do mesmo modelo da FAB

ABULDOG74
ABULDOG74
9 anos atrás

Para Lucas:
Leia o meu segundo comentário, sobre esse assunto.

ADSUMUS.

GUPPY
GUPPY
9 anos atrás

Senhores Se no Reino Unido e em outros países desenvolvidos nota-se uma grande preocupação em racionalizar meios (equipamentos) entre as diferentes forças armadas por razões principalmente de economia, nada mais justo que as forças armadas brasileiras, tão precárias materialmente, superem todo o orgulho e picuinhas do passado e intensifiquem a interoperabilidade entre elas para que todas saiam ganhando. Afinal, pertencem ao mesmo país. Fiquei feliz ao ver alguns Xavantes estacionados na Base Aeronaval de São Pedro da Aldeia. Também já vi alguns Tucanos lá. Aqui no Naval tem post de A-4 voando para Natal, recebendo combustível de um C-130, pilotos… Read more »