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As fragatas classe ‘Niterói’ – 1ª Parte

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Antes das fragatas, os navios “novos” da Marinha do Brasil eram quase todos de segunda-mão

Alexandre Galante

As fragatas da classe “Niterói” (Vosper Mk.10) começaram a entrar em serviço na segunda metade da década de 70 e são até hoje a espinha dorsal da Esquadra brasileira. Esses navios, que representaram um salto tecnológico de 30 anos em relação ao material flutuante então existente no Brasil, foram os primeiros equipados com computadores digitais táticos, turbinas a gás aeroderivadas, mísseis superfície-superfície e mísseis anti-submarino, entre outros avanços.

Projetadas pelo estaleiro britânico Vosper Thornycroft especialmente para atender às especificações da Marinha do Brasil, as Mk.10 herdaram muitas características de suas predecessoras Type 21 (foto abaixo) construídas para a Royal Navy, e das Mk.1 (adquiridas pelas marinhas de Gana e Líbia), Mk.3 (Nigéria), Mk.5 (Irã), Mk.7 (Líbia) e Mk.9 (Nigéria).

O conceito comercial bem-sucedido da Vosper de projetar “navios de combate interessantes para marinhas de médio porte” tornou-se exeqüível na época devido a diversos desenvolvimentos tecnológicos, especialmente o advento das turbinas a gás marítimas, com alta proporcionalidade força-peso.

Uma nova geração de armamentos e sistemas de direção de tiro também proporcionaram maior poder de combate, redução de peso e tamanho, com mais confiabilidade. A perspectiva do uso de mísseis antinavio que não necessitavam de um sistema de controle sofisticado e dispendioso, ofereceu uma solução que deu aos navios de combate de superfície, a capacidade de transportar um poder de fogo que no passado exigiria um casco bem maior.

Outro fator importante foi a redução da tripulação, sem a qual o conceito não teria sido viabilizado. Em um navio de guerra cada homem requeria cerca de 5 metros cúbicos de espaço, e uma drástica diminuição da tripulação favoreceria o projeto de um navio de combate menor, de custo operacional mais reduzido e mais confortável.

O legado

Assim como na Primeira Guerra, a Marinha do Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial despreparada, atuando principalmente na escolta de comboios contra o ataque de submarinos alemães. Por volta de 1942, os navios brasileiros eram vetorados por navios caça-submarino americanos para lançar bombas de profundidade, porque nossos navios não dispunham de sonar.

O navio-hidrográfico Rio Branco (contribuição da Revolução Paulista para a Esquadra Brasileira, também comprado de segunda-mão) e os navios mineiros classe “Carioca”, foram reclassificados como corvetas e receberam sonares, o que também foi feito com os cruzadores Bahia e Rio Grande do Sul.

Só então, a Marinha do Brasil tornou-se capaz de prover a escolta de comboios de navios mercantes nas costas brasileiras. Depois disso, os EUA passaram a ceder ao Brasil navios-escolta, primeiro os caça-submarino de madeira (caça-pau), depois os de aço (caça-ferro) e por fim, os DEs (destróieres de escolta).

Finda a Segunda Guerra Mundial, o Brasil se acostumou a receber por preços módicos navios usados da US Navy. Em 1950 foram recebidos dois cruzadores veteranos, o Saint Louis e o Philadelphia, que passaram a ser, respectivamente, Tamandaré (C12) e Barroso (C11). Em 1956 a MB recebeu submarinos “fleet type” também veteranos da guerra e em 1957 foi comprado o HMS Vengeance, que passou a ser o NAeL Minas Gerais.

Em 1958 foi iniciado o recebimento dos contratorpedeiros classe “Fletcher”, depois as “Allen M. Sumner” e “Gearing”. Todos esses navios foram importantes para a Marinha do Brasil para o desenvolvimento de doutrina anti-submarino e adestramento do pessoal, mas não representavam o “estado-da-arte” na guerra naval e tinham sido concebidos para atender às especificações da US Navy.

Do ponto de vista tático e estratégico valiam muito pouco, a não ser para manter um certo equilíbrio com as marinhas vizinhas, que também se equipavam com excedentes da Marinha dos EUA. A aquisição das “Niterói” mudaria tudo isso.

Nasce a ideia das Fragatas

O EMA (Estado Maior da Armada) tinha planos para a construção de fragatas desde 1961, mas sem definições precisas para os navios. Antes disso a MB tinha tentado junto aos EUA a construção de escoltas no Brasil com financiamento americano, a exemplo de países da OTAN, mas sem sucesso.

Em 1963 o CEMA (Chefe do Estado Maior da Armada), almirante-de-esquadra José Luiz da Silva Junior, determinou à Escola de Guerra Naval — o “think tank” do Estado Maior — que estudasse as necessidades dos navios da Marinha, considerando suas reais prioridades e que fossem especificadas suas características operativas.

O diretor da EGN, almirante Fernando Carlos de Mattos, formou um grupo de trabalho dirigido pelo capitão-de-mar-e-guerra Ibsen de Gusmão Câmara. O grupo de trabalho tomou como diretrizes as hipóteses de guerra adotadas pelo Governo Brasileiro e a partir delas, formulou o conceito de que a missão da Marinha do Brasil em caso de guerra seria “proteger o tráfego marítimo essencial à sobrevivência do País”.

Tendo em vista que o tráfego que mais interessa ao Brasil é o que se dá no Atlântico Sul, o estudo se concentrou no submarino como a ameaça mais provável sobre a manutenção dos fluxos de transporte marítimo. Então, a proteção aos navios mercantes necessariamente enfatizou a guerra anti-submarino.

O estudo considerou os volumes de tráfego de importação/exportação, o mínimo de tonelagem mensal nos dois sentidos, tomando por base o porte bruto médio de cargueiros e navios tanque da época e calculou o número de navios por comboios. Chegou-se à quantidade de navios de escolta anti-submarino que a MB precisava ter: 30 fragatas, incluindo 2 navios reserva.

EM PRÓXIMO POST: Os navios disponíveis e a escolha da Vosper Mk.10

NOTA DO EDITOR: Estamos republicando as matérias que faziam parte do antigo site do Poder Naval. Decidimos começar pela classe “Niterói”, pois atualmente a Marinha trabalha junto ao Governo para adquirir novas fragatas para substituir esses navios. Esperamos que os leitores possam compreender a importância das fragatas para a Marinha e em qual contexto foram adquiridas.

BATE-PAPO ONLINE: Converse com outros leitores sobre este tema no ‘Xat’ do Poder Naval, clicando aqui.

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“Chegou-se à quantidade de navios de escolta anti-submarino que a MB precisava ter: 30 fragatas, incluindo 2 navios reserva.”

Detalhe:

Entre 1969 e 1974 a US Navy comissionou 46 cascos da classe “Knox”.
Entre 1977 e 1989 a US Navy comissionou 51 cascos da classe “Oliver H. Perry”.

E nessa conta de 30 cascos, ainda faltaria incluir alguns navios de defesa antí-aérea.

Uau!!!

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Excelente post. Agora, alguem sabe o nome das fragatas das duas primeiras fotografias (181 e 74)?

Abs

Mauricio R.
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Mauricio R.

181=> PNS Tariq D-181; ex-HMS Ambuscade

74=> ex-IS Sahand F 74; ex-ITS Faramarz DE 74, vítima da maldade da US Navy.

Mauricio R.
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Mauricio R.

Antes do design da Vosper, a MB chegou a considerar o design da fragata americana “Bronstein”.
Considerando a experiência absorvida da construção das 2 Vospers aqui no Brasil, uma eventual follow on inspirada nas classes “Garcia/Brooke” americanas ou na classe “Halifax” canadense, não seriam mais simples de construir e portanto mais baratas de adquirir e operar???

daltonl
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daltonl

Mauricio…

os navios americanos tinham propulsão diferente que foi abandonada pela US Navy, assim, na minha opinião a experiencia ganha na construção das 2 MK-10 aqui não teria sido de muita utilidade no caso de um follow on inspirado nas Garcias/Brookes.

As Halifax são de uma geração posterior, mas, a razão de sua curiosidade seria a substituição dos CTs Gearing e Sumner por outra coisa que não fosse as Inhaumas ?

abs

Yluss
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Yluss

Muito boa idéia de republicar, pois eu mesmo não tinha conhecimento das circunstâncias que motivaram a escolha das Vosper…

O osso que é sempre duro de roer é a estimativa inicial de quantidade de navios e o que ao final compramos de verdade… o tempo passa, o tempo voa, e as coisas não mudam 🙁

Keep it coming 🙂

Mauricio R.
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Daltonl,

Seria á partir do casco da Mk-10, criar um design de convés corrido (flush deck), por isso a citação das fragatas americanas e da fragata canadense.
Da qual eu ainda copiaria a vante da super-estrutura.
O que na realidade, não ficaria mto diferente da FFG-7 “Oliver H. Perry”, somente não seria um bloco contínuo.
Então salvo o SAM, que acabaria no teto do hangar até o advento do VLS, tdo o mais seria montado em um único nível, como era nas escoltas americanas citadas.

GUPPY
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Obrigado, Mauricio R.

Abraços