Os navios disponíveis na época e a escolha da Vosper Mk.10

Alexandre Galante

As conclusões do grupo de trabalho da EGN sobre a necessidade de se adquirir fragatas anti-submarino foram aprovadas pelo EMA e pelo Ministro da Marinha na época, o almirante-de-esquadra Paulo Bosísio. Em 1965, foi colocado em prática o Plano Diretor da Marinha, um programa plurianual de investimentos e custeio, criado pelo almirante-de-esquadra Sylvio Motta. Em 1966, foi criada a “Comissão de Construção de Navios da Marinha do Brasil”, que tinha como tarefa administrar as construções dos novos navios, coordenando todas as organizações da Marinha envolvidas nos projetos.

A primeira tarefa da Comissão foi definir os navios que deveriam ser construídos, dentro das categorias estabelecidas pelos estudos do Estado Maior. Cabia à Comissão, obedecendo ao EMA, definir que navios a Marinha deveria comprar e o respectivo orçamento, que seria encaminhado ao Governo, para juntar-se ao montante das verbas a serem alocadas à Marinha.

Uma diretriz inicial do EMA dizia que as fragatas a serem adquiridas já deveriam estar em serviço no país de origem, evitando assim que a Marinha adquirisse navios novos e servisse de “cobaia”.

A escolha do navio

A questão inicial muito debatida sobre as futuras fragatas era a sua propulsão. Havia na Marinha do Brasil da época um viés pela propulsão a vapor e uma resistência à propulsão diesel. As recentes turbinas à gás eram também vistas com desconfiança pela “velha guarda”.

A Missão Naval Americana então existente no Brasil ficou muito interessada no programa de construção das fragatas e organizou apoio ao financiamento para a construção no Brasil, caso viesse a ser escolhido um navio americano.

Após o envio de oficiais brasileiros para examinarem várias classes de navios, dentre elas a “Bronstein” americana, a “Köln” alemã e a “Leander” inglesa, decidiu-se pela “Bronstein”. A Marinha chegou a encomendar dois navios desta classe, modificados aos EUA, que viriam sem os foguetes anti-submarino ASROC e o ultra poderoso sonar SQS-26. Sabiamente, mais tarde, a compra foi cancelada, por falta de um plano de financiamento adequado.

Voltando à estaca zero, a Marinha começou a procurar um novo navio, desta vez amparada pela autorização do Governo Médici de conseguir um financiamento externo de até US$ 250 milhões, para a compra inicial de 10 fragatas. O valor total estimado foi baseado nas “Bronstein”, que custavam na época cerca de US$ 25 milhões a unidade.

Foi preparada uma folha de especificações para ser enviada a estaleiros estrangeiros a fim de que estes apresentassem suas propostas técnicas, acompanhadas de cronogramas de construção e programas de financiamento. Vários estaleiros apresentaram propostas, entre eles o Swan Hunter, a Yarrow, a Vosper Thornycroft e Vickers Limited Shipbuilding Group (Reino Unido), Blohm und Voss e HDW (Alemanha), Cantieri Navali del Tirreno e Reuniti (Itália), Verolme (Holanda) e DTCN (França). A proposta francesa ficou fora da competição logo de início porque não contemplava o atendimento dos requisitos técnicos da MB, mas sim a compra direta de um modelo já existente, o que não interessava à Marinha.

As propostas finalistas foram as da Vickers, Yarrow, Vosper e da Blohm & Voss/HDW. A Vickers e a Yarrow desenharam um navio dentro do limite de 25 milhões de dólares, baseados na fragata Type 21 (classe “Amazon”) que a Yarrow estava construindo para a Royal Navy, em conjunto com a Vosper. Infelizmente essa proposta foi rejeitada, porque o porte do navio não era suficiente para receber todos os equipamentos especificados pela Marinha do Brasil.

Ficaram então duas propostas na reta final: a alemã, com um financiamento apoiado pela Ferrostaal, Otto Wolff e Klöckner-Humboldt e a inglesa da Vosper, com um financiamento do banco SG Warburg e seguro de crédito do ECGD (Export Credit Guarantee Department), do Governo Inglês).

O projeto do navio proposto pelos alemães era baseado nos contratorpedeiros classe “Hamburg”, da marinha da República Federal da Alemanha, com a instalação propulsora CODOG, ao invés da propulsão a vapor nos navios originais e a suíte eletrônica seria italiana e holandesa.
A proposta do estaleiro Vosper Thornycroft foi baseada numa extrapolação da fragata classe “Amazon” (Type 21), construída sob as especificações da Royal Navy. A Vosper tinha também tradição e experiência em projetar navios para exportação e dando seqüência às designações dadas a projetos de outras marinhas, nomeou o projeto da Marinha do Brasil como Mk.10.

A proposta da Vosper ultrapassou o limite de US$ 25 milhões de dólares por navio (na verdade girava em torno de US$ 40 milhões), mas preenchia todos os requisitos técnicos e operativos.

Finalmente a vencedora foi justamente a proposta inglesa, que se encaixou perfeitamente aos requisitos da MB e que tinha condições vantajosas de financiamento. Em setembro de 1970 foi assinado o contrato de 100 milhões de libras com a Vosper inglesa para a construção de seis fragatas Mk.10, mas as cifras depois chegaram a 150 milhões, devido aos custos adicionais e à inflação. As fragatas seriam divididas em dois subtipos: duas da versão E/G (emprego geral) e quatro A/S (anti-submarino), com a diferença residindo sobretudo em alguns armamentos e em seus respectivos sistemas.

Como o estaleiro inglês Vosper praticamente vivia da exportação de navios de guerra, a encomenda de 6 grandes navios faria com que se perdessem encomendas de outros países, enquanto as Mk.10 estivessem em construção. Foi decidido então que, para a solução do problema, duas das fragatas seriam construídas no Brasil pelo Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ), com transferência de tecnologia. A decisão se mostrou sábia, porque foi graças à construção desses navios que mais tarde concebeu-se o navio-escola Brasil, baseado no mesmo casco das fragatas, e mais tarde, projetou-se as corvetas.

NA PRÓXIMO POST: Projeto e construção das Mk.10

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1 Comentário
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Mauricio R.

“evitando assim que a Marinha adquirisse navios novos e servisse de “cobaia”.” Oooooppppssss, não é que deu certo!!! Agora imagina se a proposta alemã, fosse a vencedora??? Bem, de certa maneira nós vimos. As “Inhaúmas” estão aí. “…a encomenda de 6 grandes navios faria com que se perdessem encomendas de outros países, enquanto as Mk.10 estivessem em construção.” “…para a solução do problema, duas das fragatas seriam construídas no Brasil pelo Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ), com transferência de tecnologia.” Duas!!! Somente duas??? E isso para que a Vosper, não perdesse possíveis encomendas de outros paises. Brasileiro… Read more »