Home História As fragatas classe ‘Niterói’ – 3ª Parte

As fragatas classe ‘Niterói’ – 3ª Parte

2014
1

Projeto e construção

A Marinha do Brasil contratou a consultoria do bureau americano de engenharia naval Gibbs & Cox para a revisão (design review) dos planos de construção da Vosper. A Gibbs & Cox já tinha sido escolhida inicialmente para modificar o projeto das “Bronstein” para o Brasil.

Dentre as especificações brasileiras para as novas fragatas estava a que exigia que o projeto deveria obedecer aos critérios propostos no artigo “Stability and Buoyancy Criteria for US Naval Ships”, apresentado pelos engenheiros navais Sarchin e Goldberg, na reunião de novembro de 1962 da SNAME (Society os Naval Architects and Marine Engineers), em Nova York. Foi mais uma decisão inovadora importante, pois veio substituir critérios ultrapassados para avaliar a estabilidade dos navios, os quais se fixavam em determinar valores aceitáveis para alturas metacêntricas. Os critérios de Sarchin & Goldberg foram adotados e estão em uso até hoje.

A Marinha tinha estabelecido que os navios deveriam ter autonomia suficiente para atravessar o Atlântico e chegar à África, 4.500 milhas marítimas pelo menos, em velocidade de cruzeiro, que seria de 18 nós, suficiente para fazer zigue-zagues em cobertura a comboios modernos, com velocidade de avanço em torno de 12 nós. A velocidade máxima mantida deveria ficar entre 28 e 30 nós.

Para atender a essas especificações o sistema de propulsão proposto pela Vosper era o CODOG, isto é, uma combinação de motores diesel para velocidades de cruzeiro e turbinas a gás para velocidade máxima. Como já foi dito, havia uma certa resistência inicial a esse tipo de propulsão, em parte por oficiais conservadores partidários da propulsão a vapor, que se preocupavam em como seria feita a transição de uma máquina para a outra, ou seja, o desacoplamento dos motores diesel para acoplar as turbinas, com o navio em movimento, levando-se em conta as enormes diferenças de rotação entre as máquinas. Havia também os oficiais especializados em sonar, que diziam que os sonares de freqüência sônica poderiam sofrer interferência do ruído dos diesel e que só a propulsão a vapor serviria.

O primeiro problema foi solucionado com a invenção inglesa das embreagens SSS (Self Synchronizing Shift), para a transição motor-turbina e vice-versa; a segunda questão foi resolvida com a instalação dos motores diesel sobre coxins amortecedores de vibrações, que reduzem a um nível aceitável e seguro a transmissão para o casco das vibrações e ruídos dos motores diesel, evitando assim a interferência no sonar.

Foi tentada inicialmente a escolha de um modelo de motor diesel de potência média que já estivesse em uso no parque nacional, como os motores das locomotivas da Vale do Rio Doce, a fim de facilitar a manutenção dos motores no Brasil. No final, porém, a escolha recaiu sobre o motor MTU 956 de 16 cilindros, com 3.940hp. Cada navio seria equipado com quatro motores, totalizando mais de 15.000hp.

Para completar a planta propulsora das fragatas a Vosper ofereceu também a turbina Olympus 611, de 28.000shp, adaptação da turbina do jato Concorde. Essa turbina estava em fase final de testes de aceitação pela Royal Navy, pois equiparia as fragatas Type 21 (desenho acima) e os navios-aeródromo da classe “Invencible”. A diferença entre a versão aérea e a naval dessa turbina residia no fato de que as palhetas do compressor da turbina no avião eram de alumínio e as do navio eram de aço, além de que a turbina naval queimava diesel e a do avião queimava querosene de aviação. A outra turbina cogitada foi a LM 2500, que a US Navy pensava em instalar nos seus novos contratorpedeiros da classe “Spruance”. A turbina selecionada foi a Olympus, por conta do seu estágio mais avançado de desenvolvimento e pela cláusula contratual que estipulava que somente um terço dos equipamentos dos navios poderia ser de procedência não-inglesa.

A escolha do sistema de armas

A Marinha finalmente tinha perdido o “complexo de cobaia” e entendeu que os equipamentos e sistemas das fragatas deveriam estar no estado-da-arte em seus respectivos países de origem. Em mais uma decisão importante, resolveu-se dotar as fragatas com um sistema digital de processamento de dados táticos e direção de tiro.

A Vosper ofereceu o CAAIS (Computer Assisted Action Information System) da Ferranti inglesa, que também iria equipar as fragatas Type 21 da Royal Navy. Depois de analisadas as propostas da Signaal – Hollandse Signaal Apparaten, holandesa, apoiada pela Philips do Brasil e da Elettronica San Giorgio – Elsag, da Itália, decidiu-se pelo equipamento da Ferranti.

O sistema CAAIS das fragatas brasileiras seria nucleado em três computadores digitais Ferranti FM1600B, os mais modernos na época. Um computador ficararia a cargo do processamento de dados táticos, outro computador a cargo da direção das armas a vante e o terceiro com a direção de tiro das armas a ré.

Quando a fragata Niterói chegou ao Brasil em 1977, a Marinha foi a primeira instituição a operar um sistema de computação em tempo real no País!

Foi especificado que os navios também deveriam ter um canhão de médio calibre de duplo emprego (antiaéreo e superfície) e um lançador de foguetes ou mísseis anti-submarino. O canhão escolhido entre diversas propostas foi o inglês Vickers Mk.8 de 4,5 polegadas (114,3mm).

Como a aquisição do ASROC não era permitida, foi escolhido o míssil antissubmarino australiano IKARA (imagem abaixo), que era inclusive considerado superior ao sistema americano e estava sendo escolhido também pela Royal Navy. Os franceses tentaram vender o Malafon, de princípio operativo semelhante, mas não trazia vantagens significativas que compensassem a opção por um equipamento não-inglês.

Para aumentar mais ainda a capacidade dos navios na guerra A/S resolveu-se também dotá-los de um helicóptero orgânico anti-submarino e de dois lançadores de torpedos Mk.32 para torpedos Mk.44 (mais tarde o Mk.46).

Como complemento à capacidade de guerra A/S, também foi pedido a instalação do BOROC (foto abaixo), um lançador de granadas antissubmarino propelidas a foguete. Era um armamento desenvolvido pela Bofors e que estava então em estudo para ser adotado pela Marinha Sueca e que depois foi adotado por diversas marinhas. Tratava-se de um lançador duplo de foguetes de 375mm que projetava granadas capazes de explodir em contato com o casco de um submarino ou depois de atingida certa profundidade. Era praticamente um Hedgehog aperfeiçoado e ampliado.

O almirantado não estava muito confortável com a idéia inicial de que todas as fragatas devessem ser exclusivamente anti-submarino. O Estado Maior decidiu então que deveria haver uma versão com maior capacidade de combate de superfície. Foi aí que surgiu a concepção de uma versão de emprego geral (E/G), que deveria ter dois canhões de médio calibre e mísseis superfície-superfície. Foi escolhido o Exocet MM38, em fase final de desenvolvimento e aprovação pela Marinha Francesa.

Como a ameaça aérea no final da década de 60 não era tão aguda quanto na atualidade e os mísseis antinavio tinham feito apenas uma breve aparição bem sucedida (o afundamento do contratorpedeiro israelense Eilat em 1967 por um míssil russo Styx), a Marinha decidiu equipar as fragatas com um míssil antiaéreo de defesa de ponto, o Seacat. Foi adotada a versão GWS-24, similar à usada nas fragatas Type 21 britânicas, porém usando dois lançadores leves triplos, ao invés de um lançador quádruplo. A decisão pelo Seacat com certeza foi influenciada pelo fato de a Marinha já usar naquele momento o Seacat GWS-20 no seu contratorpedeiro Mariz e Barros.

Para complementar os Seacat na defesa antiaérea, resolveu-se equipar as fragatas com dois canhões Bofors de 40mm L70, um de cada lado do passadiço. Esses canhões tinham acabado de ser adotados nos navios varredores da classe “Aratu” que estavam sendo construídos na Alemanha.

Um exame mais detalhado sobre o armamento original das “Niterói” veremos na continuação deste trabalho.

Radares e sonares

A proposta da Vosper incorporava o radar Plessey AWS-2 da banda S (como eram denominadas as bandas E e F). AW significava Air Warning e S a banda. Era um radar de busca combinada, isto é, detectava alvos na superfície e no ar. Foi analisado também o radar holandês LW03 da banda L (banda D atual), que tinha uma antena mais leve que a do AWS-2. Mas a escolha finalmente foi pelo radar inglês da Plessey, cujo peso da antena preocupou os engenheiros da Vosper e depois da Gibbs & Cox. A escolha do AWS-2 fez com que fosse necessária a adição de algum lastro extra nos navios.

A proposta original também incluía dois radares de direção de tiro italianos RTN-10X da banda X (atual banda I), que foram mantidos. O radar de navegação escolhido foi o holandês ZW06 da Signaal, também para manter uma padronização com os navios varredores da classe “Aratu”.

No quesito sonar, a Vosper propunha os equipamentos britânicos da Marconi, que seriam instalados nas fragatas Type 21. Mas a EDO Corporation, dos EUA, também ofereceu seus equipamentos, especialmente desenvolvidos para a Marinha do Brasil. A EDO ganhou, com seu sonar de casco designado 610E e o de profundidade variável, o 700E.

Construção

Os navios construídos na Inglaterra levaram menos tempo para serem concluídos. A Niterói (F40) teve a quilha batida em 8 de junho de 1972, foi lançada ao mar em 8 de fevereiro de 1974 e incorporada em 20 de novembro de 1976, ainda na Inglaterra. O batimento da quilha da Defensora (F41) deu-se em 14 de dezembro de 1972, o lançamento em 27 de março de 1975 e a incorporação em 5 de março de 1977. A quilha da Constituição (F42) foi batida em 13 de março de 1974, o lançamento em 15 de abril de 1976 e incorporação em 31 de março de 1978. A quilha da Liberal (F43) foi batida em 2 de maio de 1975, o lançamento em 7 de fereveiro de 1977 e a incorporação em 18 de Novembro de 1978.

As duas fragatas construídas no Brasil, a Independência (F44) e a União (F45), ambas da variante anti-submarino (A/S), tiveram suas quilhas batidas em 11 de junho de 1972, sendo a primeira lançada em 2 de setembro de 1974 e a segunda em 14 de março de 1975. A Independência foi incorporada em 3 de setembro de 1979 e a União em 12 de setembro de 1980.

LEIA TAMBÉM:

BATE-PAPO ONLINE: converse com outros leitores sobre este tema no ‘Xat’ do Poder Naval, clicando aqui.

Subscribe
Notify of
guest
1 Comentário
oldest
newest most voted
Inline Feedbacks
View all comments
MO
MO
9 anos atrás

impressionante melhor dizendo, nennhuma novidade tanto trabalho para retorno Z E R O