Home Asa fixa Como era caçar um submarino a bordo de um avião S-2 Tracker?

Como era caçar um submarino a bordo de um avião S-2 Tracker?

9202
23
Grumman S-2D Tracker com o radar de busca e o ferrão do MAD estendidos e a baia de armas aberta. Quatro torpedos antissubmarino Mk.43/44 aparecem sob as asas

O bimotor a pistão Grumman S-2 Tracker foi um avião antissubmarino embarcado que atuou durante a Guerra Fria a partir de navios-aeródromo da Marinha dos EUA e também de países aliados (Brasil incluído). Ele operou tanto embarcado quanto a partir de terra.

As diversas versões do Tracker possuíam quatro tripulantes: dois pilotos e dois operadores de equipamentos eletrônicos, para detectar, rastrear e destruir submarinos. Os equipamentos eletrônicos foram evoluindo com as novas versões do avião, que operou na US Navy até ser substituído pelo S-3 Viking em meados dos anos 1970.

O Tracker operava de dia e noite em grupos de 6 a 8 aeronaves, em conjunto com os navios escolta e helicópteros antissubmarino.

Cada Tracker fica responsável por um setor à frente da Força-Tarefa, que ele cobria com radar de busca e com o lançamento de sonoboias que transmitiam em tempo real aos operadores a bordo do avião os ruídos detectados abaixo d’água.

Quando um Tracker detectava um ruído suspeito, lançava um padrão de sonoboias com fumígenos para triangular o alvo e obter sua posição mais precisa e, finalmente, empregava o sensor MAD (Detector Magnético de Anomalias), que ficava em um “ferrão” na cauda. O MAD era estendido no momento da confirmação final da posição (chamada de Datum) do alvo.

Dois destróieres cercam um submarino mergulhado enquanto um S-2 Tracker dá um rasante com o MAD estendido para confirmar a posição do submarino

Veja a seguir um relato de um operador de sensores Keith Odom de um S-2G do Esquadrão VS-27 da Marinha dos EUA:

Keith Odom era um operador acústico no VS-27, tendo feito três desdobramentos a bordo do porta-aviões USS Intrepid (CVS-11) entre 1971 e 1973. Ele foi treinado em um S-2D. Seu primeiro desdobramento foi em um S-2E. O Esquadrão dele tinha S-2G.

“O S-2G tinha um sistema Jezebel de sonoboias atualizado. O original tinha um rolo de papel que registrava os ruídos de 4 sonoboias. Já o novo sistema mostrava 4 sonoboias no papel e 4 em um mostrador digital com um total de 8 sonoboias monitoradas. Você podia selecionar o papel ou o display digital para monitorar uma boia em particular.

Qualquer assinatura interessante tinha que ser registrada em papel. Então se você detectasse alguma coisa no display digital, você chaveava imediatamente para o papel para registrar o que você estava vendo. Como eles gostavam de dizer, o trabalho não está terminado até que a papelada seja feita.

A bordo do navio-aeródromo havia o ASCAC (Anti-Submarine Command and Control or Anti-Submarine Classification and Analysis Center ou Anti-Submarine Combat Activity Center) que catalogava e armazenava todos os rolos de papel com registros de sonoboias fornecidos pelos aviões.

Mais tarde, usando marcações de tempo, um dos postos de monitoração no litoral do SOSUS podia comparar os registros impressos para identificar uma assinatura em particular. A correlação identificava o que você ouviu e onde ele estava. Podia ser um submarino saindo de uma base no norte da Rússia ou um deixando um porto em Cuba: o som se propaga a distâncias muito longas  no meio líquido e a água do mar é um dos melhores.

Operador de sonoboias a bordo de um S-2 Tracker

Enquanto estava no VS-27, eu tinha o melhor piloto nesse tipo de missão, capitão de corveta Gordy Bonnel. Ele e eu passamos juntos pelo treinamento no RAG (Replacement Air Group) e eu era o seu número 4 desde o primeiro dia no Esquadrão.

Ser o número 4 significa operar o sistema acústico chamado Jezebel ou “bitch”. Um dos sons que detectávamos era o de baixa frequência gerado pelos hélices dos submarinos. Analisando o ruído podia-se diferenciar entre 3, 4, 5 e até 6 pás de hélice. Quanto mais baixa a frequência, mais longe o som se propagava.

Você podia estar no Atlântico Norte e escutar um navio saindo de Cuba. O som na água vai longe mesmo. E com centenas de navios cruzando o oceano, como diferenciá-los? A maioria tentava comparar as assinaturas com as dos tipos de navios, mas eu não via sentido nisso.

Mas tinha um tipo de assinatura que era certeira. Os navios americanos usavam geradores de 60hz. Os soviéticos usavam geradores de 50hz. Então eu rastreava os submarinos russos pelo que eu chamava de suas “máquinas de fazer sorvete”. Funcionava sempre.

Se você visse um registro no papel de 50hz, era só começar a procurar. Com certeza havia um submarino russo por perto. Mas localizar sua posição exata era um jogo completamente diferente.

Padrão de lançamento de sonoboias

As sonoboias eram usadas para obter a localização precisa. Elas funcionavam em duas profundidades, 60 pés (18,3 m) e 300 pés (91,5 m), se eu me lembro bem. Nos oceanos, as termoclinas são camadas de água com diferentes temperaturas. Submarinos possuem termômetros nos cascos para que eles possam detectar as diferenças de temperatura e permanecer abaixo da termoclina. Assim fica muito difícil detectar o submarino porque as ondas sonoras são refletidas na termoclina, como acontece com o som em uma parede. Então não era um trabalho fácil detectar esses pequenos vermes. Mas o desafio me motivava.

Nós transmitíamos a assinatura que estávamos vendo ao ASCAC a bordo do navio-aeródromo. Lá eles analisavam o registro tomando um café, sem a perturbação de uma aeronave extremamente barulhenta, e podiam colocar seus olhos calibrados sobre a assinatura e ver coisas que a gente a não tinha visto ou mesmo confirmar o que estávamos vendo.

Quando eu encontrei o “submarino de interesse”, eu estava rastreando uma assinatura de 50hz. Ela era muito firme e clara, indicando que estava próxima. Informei ao piloto Gordy e lançamos várias sonoboias em várias profundidades. Então eu peguei a melhor assinatura e nós começamos a varrer aquela área.

Era um tiro no escuro, porque ele estava registrando em todas as sonoboias, especialmente nas de 60 pés de profundidade.

Console de sonoboias e radar de um S-2 Tracker
Console do MAD de um S-2 Tracker
Padrão de busca do MAD

Nosso copiloto era um canadense chamado Brian MacClean. Nós estávamos trabalhando a 100 pés de altitude (30 metros) quando ele gritou, “ali está ele” e tirou uma foto do alvo. O submarino imediatamente mergulhou mais fundo e não foi visto novamente, embora tenhamos registrado sua presença por horas. O ASCAC confirmou o alvo e acionou outras aeronaves.

Após o pouso a bordo, houve um alvoroço. Nos tornamos celebridades. Quando o almirante foi informado disse: “se eles encontraram um submarino, vou morder o meu prato”. Ele trouxeram a foto do submarino em um prato de papel. Parece que ele comeu um pedaço do prato de papel, de acordo com o piloto Gordy, que estava lá.

Como estava cansado, eu fui para o beliche, para ser despertado quatro horas mais tarde para colocar o traje de voo novamente. Fomos para a sala de briefing e o restante da tripulação estava lá com os olhos vermelhos. Parece que a esquadrilha que tinha nos rendido perdeu o submarino.

‘Como 8 aeronaves perdem um submarino cujo registro estava claro, como se estivesse se deslocando com pressa para determinada área?’

Fomos destacados com a tarefa de encontrá-lo novamente.

Quando recebemos os quadrantes de busca, descobrimos porque eles o perderam. Eles não estavam buscando no lugar certo.

Então, nosso piloto Bonnel ignorou seu plano de voo e foi direto para a área onde o alvo deveria estar. Nós o detectamos e começamos a rastreá-lo novamente.”

Um S-2E (P-16E) Tracker da FAB pousando a bordo do NAeL Minas Gerais durante a UNITAS XXV

FONTE: Livro Grumman S2F/S-2 Tracker Part One, por Robert J. Kowalski e Tommy H. Thomason

23
Deixe um comentário

avatar
13 Comment threads
10 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
17 Comment authors
ToramaFelipe AlbertoAbimaelTheo GatosAlexandre Galante Recent comment authors
  Subscribe  
newest oldest most voted
Notify of
Anderson
Visitante
Anderson

O relato é espetacular… Uma verdadeira caçada numa imensa área quase que infinita, o Oceano! Para confirmar, vou reproduzir a parte final da matéria, aí é onde vemos que a capacidade profissional aliada a competência do Militar bem preparado faz a diferença, vejamos: “Como estava cansado, eu fui para o beliche, para ser despertado quatro horas mais tarde para colocar o traje de voo novamente. Fomos para a sala de briefing e o restante da tripulação estava lá com os olhos vermelhos. Parece que a esquadrilha que tinha nos rendido perdeu o submarino. ‘Como 8 aeronaves perdem um submarino cujo… Read more »

Nonato
Visitante
Nonato

Provavelmente naquela época não havia GPS.
Mas se o outro grupo errou o local havia algo muito errado.
Não tinham como identificar o local de forma precisa?
Ficaram na dependência da “capacidade extraordinária” da primeira equipe?
Pelo radar do navio, ninguém sabia onde o avião estava quando localizou o submarino?
As sonoboias sumiram?
Esses caras foram dormir e não havia mais ninguém (em avião ou navio) acompanhando o submarino?
Muita falta de profissionalismo…

Júnior P.
Visitante
Júnior P.

Lindo demais.

Aldo Ghisolfi
Visitante

MAI PÌU!

Nonato
Visitante
Nonato

Na segunda guerra, os aliados sofreram muito com os submarinos alemães. Não se sabia como agir. Você está num navio, de repente vem um torpedo. Fazer o que? E as forças armadas? Aviões voando aleatoriamente? E navios de guerra o que deveriam fazer? E se por acaso, se encontrassem um submarino, o que deveriam fazer? Dar tiro de canhão? Metralhadora? Até que os americanos descobriram como lidar. Esperar os submarinos emergirem. Procurar com aviões. Mundo afora. América central, América do sul… Imagine só. Se hoje em dia alguns aviões caíram no mar e não foram mais encontrados com toda tecnologia… Read more »

Gustavo
Visitante
Gustavo

vendo esse relato de caça ao submarino, me veio uma coisa na cabeça, os amigos poderiam esclarecer?
Existiu ou existe algum submarino com misseis anti-aéreos?

Abimael
Visitante
Abimael

Sim. Os Escorpenes que o Brasil comprou da França possui compatibilidade com um sistema vendido a parte, como um acessório, que dispara mísseis contra aeronaves, mas apenas de curto alcance. Se você olhar na página da DCNS no YouTube vc encontra um vídeo que explica. Não sei se os Brasileiros foram comprados com esse sistema.

Torama
Visitante
Torama

Uma empresa alemã chamada LFK (que depois se juntou ao grupo EADS) estava desenvolvendo um sistema de defesa anti aérea para submarinos chamado Triton.
Não sei que fim que deu esse projeto, mas se pesquisar “LFK Triton” no Google vc ainda encontra bastante informações.

Dalton
Visitante
Dalton

Nonato… . o principal objetivo de um submarino era o navio de carga ou mercante e esses navios navegavam em comboios, inicialmente não, mas, isso foi uma das providências tomadas então, sabia-se que perto de um comboio existiriam submarinos, então, não era uma busca aleatória ou irracional por parte dos “caçadores”. . Há um certo exagero quanto aos submarinos alemães e não estou escrevendo isso de forma vulgar e sim depois de ter lido alguns livros…no começo os aliados foram lentos em reagir, mas, com a entrada dos EUA na guerra, não apenas foram aperfeiçoadas as táticas para caçar e… Read more »

Luciano
Visitante
Luciano

E vale ressaltar que já havia experiência acumulada na I guerra.

Theo Gatos
Visitante
Theo Gatos

De curiosidade trago uma citação sobre os “Liberty Ships” dizendo como foram feitos tantos em tão pouco tempo (fato que surpreendeu os próprios ingleses que os tinham projetado)… . “Os Estados Unidos não estavam em guerra e ainda dispunham de mão-de-obra farta. Não tinham, porém, tanta experiência na construção de navios mercantes. Na década anterior, apenas dois navios de carga oceânicos haviam sido construídos no país. A esperança era de que, com o projeto inglês, a construção de novos navios levasse um ano nos Estados Unidos, em comparação com oito meses no Reino Unido. . O governo americano procurou alguém… Read more »

Felipe Alberto
Visitante
Felipe Alberto

theo, isso mostra que a economia de escala não é uma métrica unânime. Muitas vezes para se alcançar uma excelência industrial, reduzindo preços na ordem de poucos porcentos, são feitos investimentos na ordem de dezenas de bilhões em toda uma cadeia produtiva até o produto final. Entretanto, muitas vezes faltam o capital, o tempo, a ciência, as tecnologia, os materiais, a logística.

Então, muitas vezes temos que usar o que temos(o que pode não ser o melhor($$$) nas eficientes prática industriais correntes) e o resultado pode não se tornar o mais eficiente, mas ao fim terá sido feito.

Theo Gatos
Visitante
Theo Gatos

Verdade Felipe… neste caso um pouco também daquela frase “não sabendo que era impossível ele foi lá e fez…”
.
Por mais que os ingleses tivessem um projeto bom, havia muito a se melhorar ainda em processos e os aprimoramentos americanos possibilitaram essa alta produção citada pelo admiral Dalton!
.
Sds

Dalton
Visitante
Dalton

Gustavo…
.
existe sim…e não é de agora…pela falta de tempo segue um link em inglês, mas, caso
você tenha dificuldade um tradutor ajuda.
http://www.thedrive.com/the-war-zone/6894/have-submarine-launched-anti-aircraft-missiles-finally-come-of-age
abs

Mateus Lobo
Visitante
Mateus Lobo

Interessante que pelo vídeo da DCNS o scorpene tem essa capacidade, mas parece ser um último recurso, quando a possibilidade de evadir-se não está mais disponível,sendo sempre preferível permanecer oculto e evitar o disparo. Ao que parece também, esse sistema só é útil contra helicópteros em voo pairado.

Gustavo
Visitante
Gustavo

Show! Obrigado, vou ler!

Marcos Paulo
Visitante
Marcos Paulo

Falta de profissionalismo…mas é cada uma…

Nonato
Visitante
Nonato

O próprio comandante confirmou.
Leituras claras. Oito aviões.
Mas não viram nada.
Claro estavam buscando no lugar errado…
Só a outra turma sabia onde procurar…
Se o submarino quisesse ter atacado né…
Muito amadorismo.
Uma força tarefa sob risco pelo amadorismo das equipes…

Ronaldo de souza gonçalves
Visitante
Ronaldo de souza gonçalves

Os submarinos hoje usam misseis antiaéreos acoplados em torpedos, é lançado e desprende e passa a seguir o avião.A aviação sempre foi uma dor de cabeça para os submarinos,pois levam carga de profundidade e torpedos,e mesmo que um submarino consiga abater um aeronave ou helicóptero,pode denunciar sua posição, é o sub diesel tem que subir para carregar suas baterias ,no qual fica exposto.Penso que se eles deveriam ter també, o rbs-70,é outros misseis como stinger com alcance extendido,isto daria um defesa de ponto para momentos mais críticos.

Nilson
Visitante
Nilson

Minas Gerais + Tracker versus Ocean + SeaHawk. Qual dupla representa (ou representou) maior capacidade anti submarina??

carvalho2008
Visitante

Nilson 10 de Março de 2018 at 19:39
Minas Gerais + Tracker versus Ocean + SeaHawk. Qual dupla representa (ou representou) maior capacidade anti submarina??
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
,
Desde que equipamentos atualizados, a asa fixa sempre sairá ganhando em face do alcance, autonomia e tempo de persistencia de operação.

ainda hoje, o conjunto Tracker+Minas Gerais sairia ganhando…isto, especificamente na luta anti submarina

carvalho2008
Visitante

Gustavo 10 de Março de 2018 at 9:06
vendo esse relato de caça ao submarino, me veio uma coisa na cabeça, os amigos poderiam esclarecer?
Existiu ou existe algum submarino com misseis anti-aéreos?
.
Existe o IDAS alemão
.
Ele é um cartucho de 4 misseis carregados carregado por meio do tubo de torpedos.
.
Alcance de ate 20 km
.
Ogiva de 20 kg
.
Sensores IR e telecomandado por fibra otica, facultando abater não somente helicopteros e aviões lentos, mas tambem pequenos barcos ou alvos estrategicos costeiros dentro deste range
.
https://www.naval-technology.com/projects/idas-missile-system/

Alexandre Galante
Visitante

Matérias sobre defesa antiaérea de submarinos no Naval:

http://www.naval.com.br/blog/2008/06/06/submarino-alemao-lanca-missil-antiaereo-em-imersao/

http://www.naval.com.br/blog/2012/10/26/sl-mica-defesa-antiaerea-para-submarinos/

Não custa lembrar que temos 10 anos de matérias no site. É só pesquisar no campo busca ou na lupinha.