Home História Guerra colonial: Marinha Portuguesa começou a preparar-se em 1957 para problemas em...

Guerra colonial: Marinha Portuguesa começou a preparar-se em 1957 para problemas em África

3762
18
Lancha da Marinha Portuguesa no rio Zaire, em Angola (1967) – Arquivo Global Imagens

A Marinha começou a preparar-se em 1957 para um cenário de conflito nas colónias portuguesas em África, organizando “todo o Ultramar” em comandos navais e de defesa marítima, considerou o almirante Leiria Pinto, em entrevista à Agência Lusa

“A marinha começou a tomar uma série de medidas para problemas que poderiam surgir”, afirmou o oficial, acrescentando que os primeiros navios destacados foram os patrulha, para o Zaire.

“O Zaire foi a primeira ação da presença da Marinha em África”, disse.

De acordo com José Luís Leiria Pinto, que cumpriu comissões de serviço em Angola e na Guiné durante a guerra colonial (1961-1974/75), a Marinha preparou-se para o conflito iminente desenvolvendo a seguir a rede de comunicações, que em finais dos anos 60 cobria todos os territórios, desde a Estação Radionaval das Flores (mais a Oeste) à Estação Radionaval de Díli, em Timor.

“Já se via que a situação podia evoluir, que devia haver problemas nos territórios ultramarinos”, assegurou o almirante.

Em 1958, recordou, foi criado o curso de oficiais da Reserva Naval, que vieram a preencher lugares de oficiais subalternos e assumiram o comando de pequenos navios. No mesmo ano, criaram-se ou “recriaram-se” os fuzileiros e fez-se a reforma da Escola Naval.

Iniciou-se também a construção de unidades navais de pequenas dimensões: “A Marinha até aí era uma Marinha oceânica, os navios de menores dimensões eram as lanchas de fiscalização de pesca”.

Foram então criados os vários tipos de lanchas de desembarque, grandes, médias e pequenas, bem como as corvetas e os navios-patrulha.

“A esquadra foi aumentada substancialmente, mas já com um objetivo de se operar em águas africanas, águas interiores, como é a questão da Guiné”, frisou.

O imenso lago Niassa, em Moçambique, estava também na mira da Marinha.

Fragata NRP Almirante Gago Coutinho – F473

“Depois, uma coisa importante é que a Marinha, apesar de ter a guerra nos vários territórios ultramarinos, manteve a cooperação com a NATO, com as fragatas integradas em missões da NATO”, sublinhou o almirante.

Leiria Pinto entrou para a Escola Naval em 1958. Em 1961 começou a guerra colonial. A viagem de fim de curso, que tinha como destino a América, acabou por aportar em África.

“Foi quando conheci Cabo Verde, a Guiné e São Tomé. Ficámos em Angola, quando a guerra tinha rebentado em março”, contou.

Em 1963 fez a primeira comissão em Angola, numa fragata que transportava pessoal e fazia a fiscalização e a patrulha de toda a costa.

“Fomos várias vezes ao Zaire (rio) e a Marinha aí começou a ter o seu dispositivo ao longo da fronteira Norte, que é a fronteira do rio Zaire, em que apareceram os fuzileiros, os primeiros destacamentos de fuzileiros, os fuzileiros que foram criados para operações ofensivas, os destacamentos de fuzileiros especiais, e para missões de guarda, de defesa”, referiu.

Leiria Pinto guarda a memória precisa do surgimento dos fuzileiros em Angola, em dezembro de 1961. “A frente fluvial do Zaire começou, na altura, a construir postos ao longo do Zaire, guarnecidos pelos fuzileiros e tinham o apoio nas pequenas lanchas de fiscalização e nos botes”.

Havia “uma penetração grande do inimigo através do rio” e testou-se pela primeira vez no teatro de operações o binómio fuzileiro-bote/fuzileiro-navio.

Em entrevista à Lusa passados 45 anos sobre o fim da guerra e quase 60 sobre o início do conflito (1961-1974/75), o almirante defendeu que os fuzileiros desempenharam “um lugar muito importante” num cenário adverso. “Lembro-me que, em pleno oceano, a 60 milhas da foz do Zaire, a água era castanha, tal a força da corrente”.

Confessou, no entanto, que os momentos mais dramáticos foram vividos nas comissões seguintes, na Guiné e em Timor.

FONTE: 24.sapo.pt

NOTA DO EDITOR: Saiba mais sobre a Guerra Colonial Portuguesa, clicando aqui.

Subscribe
Notify of
guest
18 Comentários
oldest
newest most voted
Inline Feedbacks
View all comments
gordo
gordo
3 meses atrás

Portugal já era uma ex-potencia a muito tempo e contava em muito com a ajuda dos EUA para manter o que ainda tinha de colonias já que Elas iam apos a independencia se bandeando para o lado Soviético. Hoje a colonização se da de outra maneira, sem necessidade de ocupação, basta ter dinheiro e ir agradando as pessoas certas. O interessante é ver a postura com que o Governo Brasileiro tratou essa luta pela independencia de colonias Portuguesas na Africa, fomos o primeiro Pais a reconhecer Angola (comunista e alinhada a URSS) isso em 1975. Os militares que governavam naquela… Read more »

Carlos Gallani
Carlos Gallani
Reply to  gordo
3 meses atrás

Claro que todo país pelos motivos “certos” tem direito a soberania mas convenhamos sob uma fria análise histórica, os que foram rotulados como colônias capitalistas em geral estão muito melhor que os que foram soberanos comunistas!

Jota Ká
Jota Ká
Reply to  gordo
3 meses atrás

Eram muito mais bem assessorados, sem dúvida!

Joao Moita Jr
Reply to  gordo
3 meses atrás

Os de hoje primeiro receberiam uma declaração preparada no US State Department…

Peter Nine-Nine
Peter Nine-Nine
Reply to  gordo
3 meses atrás

Eu repondi nesta caixa de comentários, mas o mesmo não mais aqui se encontra… Raios, já não é a primeira vez, tem ocorrido com frequência. Estou a ser censurado? Ou os moderadores não se encontram a aprovar comentários?

Peter Nine-Nine
Peter Nine-Nine
Reply to  Peter Nine-Nine
3 meses atrás

E aconteceu novamente, recapitulei o meu raciocínio, postei, aparece como publicado, faço restart na página e desaparece… 🙁

Carlos Gallani
Carlos Gallani
Reply to  Alexandre Galante
3 meses atrás

É muito irritante Galante, acredito que todo comentarista se sinta enfadado com esse sistema que além de prejudicar em muito a fluência, frequentemente destrói capacidade de troca de ideias!
O bebê de vcs cresceu, ele precisa andar sozinho, a moderação não é mais viável desta forma sob a penalidade de dificultar demais a vida do usuário diante do vasto número de debates, a coisa tem que ser moderada posteriormente!
Se o “disqus” for radical demais, o “intense database” já seria uma grande ajuda!

Peter Nine-Nine
Peter Nine-Nine
Reply to  Alexandre Galante
3 meses atrás

Obrigado ^^

Peter Nine-Nine
Peter Nine-Nine
Reply to  gordo
3 meses atrás

“Portugal já era uma ex-potencia a muito tempo e contava em muito com a ajuda dos EUA para manter o que ainda tinha de colonias” Amigo, engana-se… Os Estados Unidos, na realidade, eram “inimigos” de Portugal, fornecendo apoio às guerrilhas, numa “guerra-fria” em África com o intuito de combater a proliferação do comunismo. Não só os Estados Unidos apoiavam as guerrilhas, como ainda sancionavam Lisboa. Portugal e EUA, para todos os efeitos, eram aliados ao abrigo da OTAN, mas não quando o assunto era o “ultramar”. Portugal contou sim com o apoio, por exemplo, da França, Alemanha, mas também, por… Read more »

MestreD'Avis
MestreD'Avis
Reply to  Peter Nine-Nine
3 meses atrás

Peter, esse comentário não vai com a historia preferida de muitos de que os EUA ajudaram Portugal e foi mais uma derrota da grande potencia contra os inimigos mal armados. Os únicos aliados da NATO que ajudaram Portugal foram, como você disse, França e Alemanha, e isso vê-se no equipamento adquirido pelas Forças Armadas nos anos 60/70. A África do Sul apoiava por interesse próprio , pois não era do interesse do regime Sul Africano do Apartheid que vários países de maioria negra conseguissem a independência contra o inimigo branco.

Peter nine nine
Peter nine nine
Reply to  MestreD'Avis
3 meses atrás

Mestre, o meu comentário vai de encontro à história factual…. Quem diz e concorda com a sugestão de que Portugal recebeu apoio americano, ou não percebe nada do que se passou em África, ou é um humorista, ou é um ignorante…

Peter nine nine
Peter nine nine
Reply to  Peter nine nine
3 meses atrás

O que se passou em África foi duas potências, união soviética e Estados unidos, a lutar por influência em.novos territórios,sendo que nenhum destes apoiou Portugal, apoiaram sim contra Portugal,isso sim. As guerrilhas tinham dois tipos de apoio, entre outros, que eram dinheiro americano e armamento russo.

Peter nine nine
Peter nine nine
Reply to  Peter nine nine
3 meses atrás

Por mais, quem queira incutir a ideia de que “a potência” perdeu contra um inimigo mal armado, so esta mesmo interessado em corromper a história em prol das suas crenças.

Carlos Bernardo
Reply to  Peter Nine-Nine
3 meses atrás

Só para complementar a informação, as 4 armas que caracterizaram a guerra do ultramar foram o helicóptero Alouette III de fabrico francês, a espingarda metralhadora G-3 construídas em Portugal sob licença alemã, os veículos blindados Chaimite e as lanchas de desembarque ambos construídos em Portugal e para exemplificar Portugal possuía F-86 Sabre e o único avião a jacto que utilizou na guerra do Ultramar foi o Fiat G-91 comprados à Itália isto porque os EUA proibia Portugal de utilizar na guerra do Ultramar de qualquer armamento fornecido pelos EUA a Portugal.

Sarreirita
Sarreirita
Reply to  Carlos Bernardo
3 meses atrás

Corrigo que os F-86 efectuaram missões de combate na Guiné nos primeiros anos da guerra colonial, o principal jacto em Angola foi o F-84 durante 2/3 da longo conflito de 13 anos, mas serviu até 1975, os Fiat G-91 foram forneciados pela Alemanha como contrapartida pela instalação e utilização da Base de Beja para instrução. Saliento também o importante papel dos T-6 Texas/Harvard adaptados a funções COIN, quase 200 unidades utilizados pelos três teatros de operações, o PV-2 Harpoon, Bombardeiros ligeiros utilizados intensamente em Angola e Moçambique. Nos meios navais para alèm das LDP, LDM e LDG Lanchas de desembarque… Read more »

Carlos Bernardo
Reply to  Sarreirita
3 meses atrás

Onde é que errei? As 4 armas que caracterizaram a guerra do ultramar foram as que mencionei, claro que sabia que foi a Alemanha de forneceu os G-91, que são de fabrico italiano, por troca da utilização da BA11, claro que no Arsenal do Alfeite foram construídos muitos navios sejam de patrulha sejam de desembarque, dos quais ainda existe o NRP Zaire, em acção em São Tomé, mas tudo isso não tem interesse para este debate já que o que interessa é a informação “Fortes pressões políticas exercidas pala Administração Norte-Americana, inviabilizaram a continuação da operação e ditaram o regresso… Read more »

Sarreirita
Sarreirita
Reply to  Carlos Bernardo
3 meses atrás

Caro Carlos, limitei a complementar o seu comentario com informação mais precisa, de facto o que escreveu inicialmente: “para exemplificar Portugal possuía F-86 Sabre e o único avião a jacto que utilizou na guerra do Ultramar foi o Fiat G-91 comprados à Itália “, não está propriamente correcto, como sabe!!

Cumprimentos e viva o debate!