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Marinha Portuguesa teve papel central na Guerra Colonial

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Lancha de Desembarque Grande NRP Alfange na Guiné em 1973

A Marinha Portuguesa teve um papel central na guerra colonial em Angola, na Guiné-Bissau e em Moçambique (1961-1974/75), considerou em entrevista à Agência Lusa o historiador António Costa Pinto

“A Marinha teve uma importância central nas guerras coloniais de Portugal, não apenas naquela que é a função que lhe está mais associada, os mares, mas sobretudo na Guiné-Bissau, em Angola e em Moçambique, nos lagos e nos rios”, frisou.

De acordo com António Costa Pinto, investigador coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, a Marinha teve “um papel muito importante” nestes três cenários de guerra.

Uma das operações mais polémicas em que a Marinha esteve envolvida, sob o nome de código “Mar Verde” visava resgatar prisioneiros portugueses e derrubar o regime de Conacri, liderado por Sekou Touré, neutralizando ao mesmo tempo o PAIGC [Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde] que aí se organizava. O objetivo era instalar na República da Guiné, um Estado soberano e um governo favorável aos interesses do regime português.

A operação ocorreu em novembro de 1970, sob forte contestação dos próprios militares e expôs Portugal aos olhos do mundo. Os prisioneiros foram resgatados, mas o assalto a Conacri, liderado pelo oficial da Armada Alpoim Calvão, responsável pelo Centro de Operações Especiais da Guiné-Bissau, não derrubou o poder em Conacri, nem eliminou os líderes do PAICG, Amílcar Cabral e Aristides Pereira.

“A operação Mar Verde dá-se numa conjuntura já de grande isolamento de Portugal e de grande radicalização da guerra na Guiné-Bissau”, afirmou o investigador, especialista em ciência política, para quem a operação não estava necessariamente condenada ao fracasso, embora revelasse já “algum desespero” do regime.

“Muitas vezes os portugueses não têm memória da conjuntura militar na Guiné-Bissau para os portugueses, mas convém não esquecer que a Guiné foi um mini Vietname para o colonialismo português”, disse, classificando a operação como “uma tentativa já um pouco desesperada de eliminar a liderança política do movimento de libertação mais eficaz contra o colonialismo português”, o PAIGC, e retirar-lhe a base mais importante, que era o regime de Conacri.

O “falhanço” da ação deu origem a uma condenação internacional de Portugal e representou, na opinião de Costa Pinto, “algum desespero da resistência à descolonização, na fase final do colonialismo português em África”.

O académico considerou, porém, que a operação não estava condenada à partida. “Não funcionou, mas poderia ter funcionado e durante algum tempo ter neutralizado um pouco a dimensão mais radical, forçando o PAIGC a perder uma base de apoio muito significativa na Guiné Conacri”.

“O colonialismo português tentou aqui, pela via militar, aquilo que, por exemplo, forças neocoloniais francesas conseguiram em muitos países africanos, ou seja, encontrar um poder político num país independente que de algum modo fosse favorável ou tentasse neutralizar, neste caso, a luta do PAIGC, contra o colonialismo português na Guiné-Bissau”, explicou.

O regime português tentou também explorar “as contradições à pluralidade étnica” do PAIGC, por vezes, com sucesso, acrescentou, referindo que o movimento tinha “uma elite cabo-verdiana muito marcada”.

“Temos de reconhecer que o assassínio de Amilcar Cabral representou esse sucesso conjuntural, uma vez que o partido não diminuiu a capacidade operacional contra o exército colonial português”, sustentou.

FONTE: www.noticiasaominuto.com

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Joao Moita Jr
3 meses atrás

Estou errado, ou o Brasil foi a única colônia portuguesa a atingir o estado de pais sem guerra de independência?

Jota Ká
Jota Ká
Reply to  Joao Moita Jr
3 meses atrás

Salvo melhor juízo, aqui também teve guerra pela independência (no norte/nordeste) mas de curta duração.

Afonso Henriques
Afonso Henriques
Reply to  Joao Moita Jr
3 meses atrás

Tendo a Monarquia recuado para o Brasil, aquando das invasões francesas de Portugal. Nada podia ficar como dantes. Em Portugal quem ficou e lutou, ganhou privilégios que não queria perder. Ou a Coroa ficava no Brasil e Portugal tornava-se independente, ou a Coroa regressava a Portugal e o Brasil tornava-se independente. Ninguém gosta de andar de cavalo para burro, como se diz em Portugal. Depois de serem Reino, não voltaria de bom grado a ser Colónia. Tiveram sorte. Herdaram uma grande extensão territorial, tal como Angola e Moçambique, fruto da ocupação/colonização que tiveram. Por isso não digam mal dos portugueses… Read more »

Bruno Alves Machado
Bruno Alves Machado
Reply to  Joao Moita Jr
3 meses atrás

Errado. Processo de independência do Brasil teve conflitos em todo o território e uma guerra naval considerável. Em relação a quantidade de mortos e perdas materiais carece de fonte, contudo, há estimativas que, levando em conta o contexto da época foram números elevados. Para efeitos comparativos, as estimativas de perdas materiais e mortes do processo de independência do Brasil e dos EUA não ficam longe…

Everton Sbrisse
Reply to  Joao Moita Jr
3 meses atrás

Houve uma guerra de quase 4 anos, combatidas por brasileiros e portugueses em ambos os lados.

Mário Ribeiro
Mário Ribeiro
Reply to  Everton Sbrisse
3 meses atrás

A História do Brasil, não mostra nem cita nada a respeito.

Enes
Enes
Reply to  Mário Ribeiro
3 meses atrás

Não acredite em histórias contadas nas escolas porque elas normalmente não contam a verdade, contam o politicamente correto.
Houve sim guerra e o coro comeu na casa de Noca.

Enes
Enes
Reply to  Enes
3 meses atrás

Existem provavelmente, documentos arquivados na Escola Naval.

Jagderband#44
Jagderband#44
Reply to  Joao Moita Jr
3 meses atrás

Está errado.

Joli Le Chat
Joli Le Chat
Reply to  Joao Moita Jr
3 meses atrás

Mesmo sem estar enquadrada no contexto da sua pergunta, há o caso peculiar de Macau, uma colônia que foi transferida à China em 1999. Não houve registro de guerra na época da mudança. E, se os planos forem seguidos, Macau não se tornará país ao final dos 50 anos da transição.

Paulo Pontes
Paulo Pontes
Reply to  Joao Moita Jr
3 meses atrás

Uma das batalhas foi a batalha do Jenipapo, no Piaui. Algo que poucos consideram é que o Brasil, na época da colônia, não era um espaço político uniforme, as províncias do norte reportavam-se diretamente à metrópole.

Dessa forma, houve resistência ao movimento de independência por parte de setores mais ligados a Portugal nas províncias do norte.

O problema dos livros de história é que contam, em sua maioria, a história do ponto de vista de quem mora no Sudeste.

Paulo Pontes
Paulo Pontes
Reply to  Joao Moita Jr
3 meses atrás