Home Aviação Naval Malvinas 38 anos – O ataque ao destróier HMS ‘Sheffield’

Malvinas 38 anos – O ataque ao destróier HMS ‘Sheffield’

2524
9
HMS Sheffield (D80)
HMS Sheffield (D80)

Há 38 anos, na manhã de 4 de maio de 1982, o sofisticado destróier Tipo 42 HMS Sheffield (D80) da Royal Navy, foi atingido mortalmente pouco acima da linha d’água por um míssil AM39 Exocet, lançado por um jato Super Étendard (foto abaixo) da Armada Argentina.

O navio de escolta britânico atuava como “piquete-radar” e era responsável pela defesa antiaérea de área de unidades maiores da FT britânica, cujo principal objetivo era a retomada das Falklands com um desembarque anfíbio.

Mesmo sendo equipado com um radar de busca aérea de longo alcance e mísseis antiaéreos Sea Dart capazes de atingir um alvo a pelo menos 20 milhas de distância (37km), o Sheffield não conseguiu detectar a aproximação de dois jatos Super Étendard, nem se proteger do míssil Exocet.

O fantasma da vulnerabilidade de navios de escolta ainda está presente hoje, quase 40 anos depois daquele ataque, apesar dos avanços tecnológicos. A causa disso é uma limitação natural: a curvatura da Terra.

super-etendard-ara
Na ilustração, jato Super Étendard argentino lança míssil Exocet
Míssil Exocet AM39

Devido a essa curvatura, a partir da linha do horizonte forma-se uma zona cega à baixa altura, não atingida pelo radar. Assim, o alcance do radar de um navio é limitado pela linha do horizonte, contra alvos voando rente ao mar.

Essa vulnerabilidade também está presente nos radares terrestres e é usada por pilotos de aviões do tráfico de drogas, por exemplo, para escapar à detecção.

zona-morta-radar

Um ataque que contou com a ajuda da aviação de patrulha

A tática argentina para atingir vasos importantes da RN empregava aeronaves de patrulha marítima, como o P-2 Neptune, que repassavam por rádio os contatos às aeronaves de ataque.

No ataque ao Sheffield, um Neptune realizou a função de esclarecimento marítimo, mudando de altitude constantemente e aproveitando a zona cega dos radares britânicos para efetuar apenas algumas varreduras com seu radar, a fim de não alertar os sistemas de MAGE/ECM dos navios britânicos.

Dois Super Étendard decolaram da Base Aérea de Rio Grande armados com um Exocet cada, realizando reabastecimento em voo com um KC-130 Hercules. A operação foi apoiada por jatos Dagger, realizando PAC a 7.000m, armados com mísseis ar-ar, e um Lear Jet, atuando em missão de diversão.

Após o reabastecimento, os Super Étendard continuaram nas coordenadas dadas pelo Neptune, voando a 4.500 metros. Depois, desceram para entrar na zona morta dos radares britânicos, evitando a detecção.

Quando os jatos estavam voando rente ao mar, perto das coordenadas especificadas pelo Neptune, receberam uma mensagem da aeronave de patrulha, confirmando um grande alvo no meio e dois menores nas coordenadas 52º33′ sul e 57º40′ oeste. Além desses, o patrulheiro informou sobre outro alvo mediano, a 52º48′ sul e 57 º31′ oeste. Ou seja, o último navio estava distante dos outros a cerca de 30 milhas.

Os jatos prosseguiram para as coordenadas, sempre “colados” na água, elevando-se a poucos metros a mais para realizar algumas varreduras com seu próprio radar de busca, a fim de localizar os alvos, sem alertar os equipamentos MAGE/ESM britânicos. Ambos os pilotos detectaram um alvo grande e três medianos, travaram seus Exocet no alvo maior e, quando estavam a cerca de 50km de distância, lançaram os mísseis.

Os britânicos declararam mais tarde que os argentinos tinham acertado o Sheffield com o Exocet e um outro míssil tinha passado pela proa da fragata Yarmouth. O Exocet, entre suas muitas habilidades, pode mudar seu curso, caso não encontre o alvo e também possui uma espoleta de proximidade para fazê-lo detonar, se passar muito perto de um navio. Estas e outras características do míssil fizeram com que os argentinos pensassem ter acertado também um outro navio maior, como o porta-aviões HMS Hermes.

HMS Sheffield 2
HMS Sheffield fotografado depois do impacto do míssil Exocet

Exocet ganhou fama entre o grande público, que assistiu pela primeira vez pela TV a uma guerra aeronaval baseada no uso de mísseis. As lições aprendidas pelas Marinhas foram muitas, dentre as quais destacam-se a vulnerabilidade de navios construídos com partes em alumínio, a necessidade de aeronaves de alerta aéreo antecipado e o desenvolvimento de sistemas de defesa aproximada antimíssil (CIWS).

O HMS Sheffield sofreu um incêndio após o impacto do míssil que matou 20 tripulantes. O navio acabou afundando no dia 10 de maio de 1982 quando era rebocado.

O tamanho do rombo provocado pelo impacto do míssil Exocet AM39 no HMS Sheffield. Até hoje há dúvidas se o a cabeça explosiva do míssil explodiu ou não, mesmo entre os tripulantes. O fato é o combustível residual acabou provocando um incêndio que se alastrou rapidamente em todo o navio. 20 tripulantes perderam a vida.
O tamanho do rombo provocado pelo impacto do míssil Exocet AM39 no HMS Sheffield. Até hoje há dúvidas se a ogiva do míssil explodiu ou não, mesmo entre os tripulantes. O fato é o combustível residual do míssil acabou provocando um incêndio que se alastrou rapidamente em todo o navio. 20 tripulantes perderam a vida

The-Sheffield-Demise DPA

Os danos ao HMS Sheffield depois de ter sido atingido por um míssil Exocet em maio de 1982. Foto: PA/PA Archive/Press Association Ima

Mesmo armado com mísseis antiaéreos Sea Dart de longo alcance, o HMS Sheffield não conseguiu se defender do ataque dos mísseis Exocet AM39
Subscribe
Notify of
guest
9 Comentários
oldest
newest most voted
Inline Feedbacks
View all comments
Paulo
Paulo
4 meses atrás

Como assim: A causa disso é uma limitação natural: a curvatura da Terra.
A Terra não é plana? Cadê os olavistas?

Veiga 104
Veiga 104
Reply to  Paulo
4 meses atrás

Comentário totalmente fora do assunto da matéria.

Fabio Araujo
Fabio Araujo
4 meses atrás

Foi um ataque bem executado e que mostraram o quão fatal podia ser a dupla Super Étendard e Exocet!

Alessandro Vargas
Alessandro Vargas
4 meses atrás

Importância da aviação de patrulha e esclharecimento. Mesmo com um vetor já ultrapassado para a época (Neptune), este ainda foi crucial no planejamento e coordenação do, bem sucedido, ataque da aviação naval argentina.

Ricardo Bigliazzi
Ricardo Bigliazzi
4 meses atrás

Doutrina bem aplicada em combinação com falhas cruciais causadas pelo despreparo e o ocaso (ausência do oficial responsável no COC do navio, radar desligado e outras mais).

É incrível como alguns navios sucumbem dessa forma, sempre me lembro do torpedo justo no leme do Bismarck.

Defensor da liberdade
Defensor da liberdade
4 meses atrás

Depois dizem que arma francesa não presta, bela dupla o Super Étendard e o Exocet. Imagino a máquina mortífera que deve ser o Rafale. Foi o melhor caça já oferecido ao Brasil, pena que era caro demais.

Helio Mello
Helio Mello
4 meses atrás

Interessante notar que o tipo de aeronave não é um fator decisivo, uma vez que os fatores principais foram voar baixo, organização e reabastecimento em vôo. Até os nossos AF-1, hoje, podem se valer dessa estratégia.

Luiz Galvão
Luiz Galvão
Reply to  Helio Mello
4 meses atrás

Hélio,

Sem nenhum demérito aos argentinos, A estratégia só funcionou porque a RN não possuía nenhuma aeronave de alerta aereo antecipado.

Depois da Guerra os ingleses vieram com uma solução meia bomba, adaptando helis Sea King com um radar, o que não foi ideal, mas já foi alguma coisa.

No caso dos AF1 primeiro a MB teria que comprar um míssil anti navio aerotransportado e depois integra-lo ao AF1, se é que isso é possível nesses aviões.

Abs.

Rafael M. F.
Rafael M. F.
4 meses atrás

Imagino a dificuldade que devia ser controlar o SE à medida que o combustível do tanque subalar era consumido e isso provocava um desequilíbrio dinâmico por conta do peso do míssil e a consequente assimetria. Afinal, estavam voando a mais de 500kt a apenas 30 pés do mar.