A evolução do canhão na guerra naval
Canhão Mk.45 Mod 4 de um destróier classe Arleigh Burke
Sérgio Vieira Reale
Capitão-de-Fragata (RM1)
“A arte da guerra nos ensina a não confiar na probabilidade do inimigo não vir, mas sim na capacidade de prontidão em recebê-lo”. SUN TZU[1]
A guerra no mar, que não é um fim em si mesma, pode ser definida como o emprego de um Poder Naval[2], na disputa pelo controle de uma área marítima, no sentido de influenciar acontecimentos em terra.
Sobre a guerra naval na Antiguidade[3] e na Idade Média[4], podemos afirmar que os navios de guerra eram empregados na proteção do tráfego marítimo contra os ataques da pirataria e na defesa de um litoral contra possíveis invasores. Os navios eram plataformas flutuantes para o transporte da infantaria. A guerra naval era um prolongamento das batalhas terrestres. A neutralização do combatente adversário – Mankiller – era o principal objetivo da guerra.
Até então, as armas empregadas – flechas, pedras e misturas incendiárias lançadas por catapultas – não eram capazes de infligir grandes danos estruturais aos navios adversários.
A guerra no mar só iria se modificar no final da Idade Média com o surgimento do canhão. A pólvora era desconhecida na Europa até o século XIII, o que inviabilizava o princípio de utilização do canhão como arma da artilharia. Inventada pelos chineses por volta de 1200, a composição química da pólvora possuía salitre, enxofre e carvão vegetal. Com a descoberta das possibilidades da pólvora como carga de projeção foi possível o desenvolvimento dos canhões.
No século XIV, durante a guerra dos cem anos (1337 – 1453), entre França e Inglaterra, apareceu uma nova arma: o canhão, tubo de ferro forjado inteiramente fechado em um dos extremos, que era apoiado sobre a terra ou pedra.
Posteriormente, passaram a ser feitos de bronze que era mais resistente que o ferro. Os primeiros canhões tinham um alcance reduzido, eram estáticos, a munição não era explosiva, possuíam baixa cadência de tiro e eram empregados contra as muralhas dos castelos. Devido ao seu crescente poder de destruição, produziu significativas alterações na história militar. Após o sucesso observado nos combates terrestres, os canhões começaram a ser levados a bordo.
Inicialmente, foram instalados na proa e na popa das embarcações devido à propulsão a remos. Os primeiros canhões ainda não tinham poder de fogo suficiente para destruir a estrutura do navio adversário. Esses canhões primitivos geralmente só atiravam no momento anterior à abordagem. O projetil costumava ser uma pedra em forma esférica, que se fragmentava ao ser disparada, causando grandes danos à tripulação inimiga. Os canhões eram eficazes nas distâncias de 20 a 40 metros.
Nos navios, para sua instalação em maior número, forçou lentamente o abandono da propulsão a remos. Na tática, provocou a decadência da abordagem e do abalroamento. O navio passaria a ser o novo objetivo da guerra naval – “Shipkiller” – e não mais o combatente, consequência da crescente capacidade do canhão de causar danos estruturais nas embarcações.
Consta que o primeiro grande emprego dos canhões a bordo ocorreu ainda na primeira metade do século XIV. Em 1340, durante a Guerra dos Cem Anos, na Batalha de Sluys, também chamada de Batalha de Écluse, ingleses e franceses tiveram o primeiro combate naval em que se utilizou o canhão dos dois lados.

À medida que o tamanho e o peso dos canhões aumentaram, surgiu a necessidade de fazer com que a instalação dos mesmos fosse realizada nos convés inferiores. Os projetos dos navios passaram a levar em consideração esses novos fatores. Dessa forma, eram feitas aberturas nas laterais dos cascos (traveses), para instalação dos canhões e, nesse sentido, essa alteração também iria aumentar a estabilidade dos navios.
Durante o século XVI, a consolidação do poder naval português no Oceano Índico ocorreu, principalmente, pelo emprego das naus que eram dotadas de canhões.
Por volta do século XVII, Gustavo Adolfo, Rei da Suécia, teve a ideia de instalar sua artilharia sobre rodas. O canhão sobre rodas teve que ser dotado de talhas para impedir que o mesmo corresse livremente pelo convés e para trazê-lo de volta à posição inicial devido ao forte recuo.
O disparo era feito por meio de fogo que se ateava no rastilho de pólvora. O rastilho era um caminho de pólvora que se colocava do canhão até um ponto seguro em que ficavam os homens. O rastilho foi substituído por um pavio. Este tinha menor comprimento, porém, levava mais tempo para fazer funcionar a carga de projeção (pólvora).

Na Idade Contemporânea[5], o setor naval foi marcado por significativas transformações tecnológicas na construção, na propulsão e no armamento. A Revolução Industrial trouxe propulsão a vapor, substituição da madeira pelo ferro (couraça) e o projetil explosivo.
Na Guerra da Crimeia (1853 – 1856), motivada por ideais expansionistas do Império Russo, surgiu o navio encouraçado. Em 1859, os franceses lançaram ao mar a fragata “Gloire”, que foi construída de madeira, mas já tinha couraça. Em 1860, os ingleses lançaram o “Warrior” totalmente dotado de couraça.
A introdução das couraças de ferro nos cascos reduziu os danos causados pelos tiros dos canhões. Por outro lado, fez com que os canhões tivessem seus calibres aumentados e se tornassem ainda mais potentes. Entretanto, foi na Guerra Civil Norte-Americana ou Guerra da Secessão (1861-1865), que o navio encouraçado passou a se afirmar em relação aos navios de madeira. Em 1862, em “Hampton Roads”, tivemos a primeira batalha naval entre dois navios encouraçados.


O CSS Virginia dos confederados foi construído a partir do casco de madeira da Fragata USS Merrimack.
O navio possuía propulsão a vapor, chapas de ferro, canhões de diferentes calibres e um esporão na proa. A tática do abalroamento estava de volta, pois as obras vivas não tinha couraça. O USS Monitor da União possuía uma couraça de ferro e dois canhões montados numa torre giratória, que permitia conteirar e atirar sem ter que manobrar o navio. O navio encouraçado estava consagrado após a batalha de “Hampton Roads”.

Os navios de madeira do século XIX, movidos a vela, começaram a dar lugar aos encouraçados de ferro, posteriormente de aço, movidos a vapor.
No século XX, as guerras no mar não mais se restringiriam somente aos navios de guerra. Nas duas grandes guerras mundiais, o emprego de submarinos e a capacidade ofensiva da aviação embarcada, trouxe uma nova dimensão aos conflitos armados. O canhão naval atingiu o seu auge nos combates. Antes da Primeira Guerra Mundial, cabe ressaltar o aparecimento do HMS “Dreadnought”.
Esse tipo de encouraçado, lançado ao mar pela Grã-bretanha em 1906, possuía uma bateria principal com canhões de 12 polegadas e uma bateria secundária com canhões de 3 polegadas.

Os italianos desenvolveram a torre com três canhões. Até a década de 1930, as marinhas britânica e japonesa usavam torres com dois canhões. O uso de um número maior de canhões por torre economizava peso.
Na Segunda Guerra Mundial, o apoio de fogo naval por meio do emprego de canhões nas operações anfíbias foi essencial. Ele consistia no uso de canhões de diferentes calibres para atingir alvos em terra e abrir caminho para as tropas no desembarque.



Com o passar do tempo, os canhões navais trouxeram elevada cadência de tiro, alta precisão e relação custo-benefício mais vantajosa do que os mísseis, em determinadas situações, tais como defesa de ponto, tiros de advertência, apoio de fogo naval, guerra de superfície e antiaérea a curta distância.
Em 2025, a Marinha norte-americana divulgou um vídeo, a bordo do contratorpedeiro USS Preble (DDG 88), testando uma arma a laser de alta energia HELIOS (“High Energy Laser with Integrated Optical-Dazzler and Surveillance”) contra um drone.
Essa arma tem uma tecnologia capaz de proteger navios de guerra, engajar drones e pequenas embarcações.

Finalmente, o canhão é uma arma que possui uma longa história na guerra naval. Essa arma, pela sua versatilidade e custo, continua sendo constantemente aperfeiçoada para emprego nas operações navais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E SITES CONSULTADOS
- ALBUQUERQUE, Antônio Luiz Porto; SILVA, Léo Fonseca e. Fatos da História Naval. 2.ed. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação da Marinha. 2006.
- LIDDELL, H. As grandes guerras da história. São Paulo, Ibrasa. 1982.
- VIDIGAL, Armando e de Almeida, Francisco Eduardo Alves. Guerra no Mar: batalhas e campanhas navais que mudaram a história. Record. 2009.
- JUNIOR, Haroldo Basto Cordeiro. DE ARS BELLUM. O estado da arte bélica no inicio do século XX. Revista Marítima Brasileira, Rio de Janeiro, v. 121, n. 01/03, jan/mar. 2001.
[1] Filósofo e pensador militar chinês.
2 O Poder Naval é o braço armado do Poder Marítimo. Compreende os meios navais, aeronavais e de fuzileiros navais e as bases de apoio da Marinha.
3 Período compreendido entre a invenção da escrita e a queda do Império Romano do Ocidente em 476 d.C.
[4] Período compreendido entre a queda do Império Romano do Ocidente em 476 d.C. e a conquista de Constantinopla pelos turcos otomanos em 1453 d.C.
[5] Período compreendido entre a Revolução Francesa, em 1789, e os dias de hoje.


Não é toa que tem o Dia do Armamentista (Antigo Artilheiro).
Sou do tempo dos 127 mm Munição desengastada e o municiamento era feito por um servente de carga e um servente de projétil (manualmente) posteriormente através de uma sapata de carregamento que levava tudo pra dentro da câmara de carga e o fechamento da culatra essa que pesava cerca de 80 kg e havia o disparo.
Detalhe: conseguíamos com uma tripulação bem treinada cerca de 20/21 disparos por minuto em um canhão👍
OBRIGADO por compartilhar conosco Burgos…, histórias de vida que teve na marinha brasileira…
Seria até legal você montar um podcasts e chamar os veteranos da reserva da marinha, para compartilhar as suas experiências de vida nos exercícios e manobras que tiveram na marinha brasileira…
GRANDE ABRAÇO !!!
Não há o que agradecer !!!👍⚓️
“Marinha ontem, hoje e sempre”
Para mim ainda é um mistério como se consegue se fixar um alvo na época da 2 GM com a oscilação do mar
Fica a dica do canal Drachinifel, todo domingo tem video novo. Ele é um ingles historiador naval, embora seja formado em engenharia. Acho que voce vai curtir muito. Ele abrange principalmente o periodo do seculo 19 ate o final da 2a GM. Há varios videos dele explicando o uso da otica geometrica nos encouraçãdos, com ou sem ajuda do radar, como nos encouraçados italianos, que nao possuiam radar.
Vou olhar !! Obrigado !
Pô meu caro HELI, quer dizer que engenheiro não pode contar histórias (e estórias)? Que discriminação ô meo!!!! Rsrsrsrs. Forte abraço!
Nos Contratorpedeiros da época existia uma coisa que se chamava elemento estabilizador que com o Balanço do navio (caturro ou banda) ele compensava essa correção para o disparo contra o alvo.
Detalhe: A Direção de tiro/Previsora naquela época era tudo analógico/mecânico os dados eram inseridos manualmente para o tiro 😰
blz !!
Dispositivos deste tipo foram desenvolvidos no BRASIL… aí é uma loooonnnnga história..
Giroscópios e elementos mecânicos de precisao. E ainda compensavam movimento em 2 eixos de quem atira e do alvo. Tudo analógico.
E as distâncias telêmetros oticos
O equipamento que citei no comentários acima ele é acoplado ao giroscópio, transformava essa informação em compensação para o armamento👍
Bem lembrado! Fui do departamento de armamento do Ex-CT Rio Grande do Norte e EGA (Encarregado Geral do Armamento) do Ex – CT Mariz e Barros.
Servi no Bruxo em 84/87 e 90/96.
Muito tiro na torreta 51/52
Fui como MN campeão da máquina de carregar (medalha de ouro) o simulador de carregamento do 127mm com a marca impressionante de 24 tiros por minuto como servente de projétil (24,5kg)👍💪⚓️
A rivalidade naquela época entre os navios era imensa nessa competição.
Tenho a medalha guardada até hoje como lembrança da época.
Muito bacana, Burgos!
Sempre que puder, poste memórias bacanas assim nos comentários, por favor.
São pequenos pedaços da história da MB que sobrevivem por meio de quem
fez parte dela!
Sim 👍
Aí fica a dica pro Comte Reale fazer um resumão dos Classe “P” em relação ao Armamento (127mm) para vcs terem ideia como funcionava na época⚓️
Ainda mais que ele ao longo da carreira passou por 2 Contratorpedeiros ele deve lembrar também de alguma coisa ou de ter algumas publicações/ imagens para ilustrar melhor esses navio da época
Para uma boa experiencia com batalhas navais entre navios de madeira e canhões, por volta de 1715, recomendo o jogo Assassin’s Creed IV – Black Flag.
Bem, não dava pra contar em detalhes o desenvolvimento técnico e operacional do canhão naval num texto tão curto. Talvez resumir mais as referências a tudo que não estivesse diretamente relacionado ao canhão e dedicar uns parágrafos aos desenvolvimentos do XX (uso de range finders óticos, aeronaves espotadoras, o uso de dye markers, computadores analógicos/mecânicos pra solução de tiro, o uso do radar na correção da dispersão/precisão do disparo, o canhão AA ou de dual purpose, o desenvolvimento de fusos, etc, etc, até detalhes significativos dos mais recentes canhões navais). Lembremos que subs da WWII tinham canhões, também.
😉
É o Yamato ?!
Esse desenho era muito louco 👍
O próprio! Muito louco mesmo! heheheheh
https://www.crunchyroll.com/pt-br/series/G65V4P4K6/star-blazers-space-battleship-yamato
Aos aficionados !!!
Caso interesse e queiram assistir 👀⚓️💪👍
Ou seja, hoje em dia e mais válido um canho de calibre menor, mesmo que com pode de fogo e alcance menor, porém com uma cadência de disparo maior?
Isso explica a reduzida fabricação de canhões russos de 130mm e o aumento dos 100mm que seria os 76mm deles, mesmo estou vendo no ocidente com a adoção de 76mm em detrimento dos 127mm!