P-223 Medway - AMRJ 2025-12-14 2

tracou no cais do AMRJ (Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro) na semana passada o OPV (Offshore Patrol Vessel) HMS <em>Medway</em>. O navio é uma das cinco unidades da classe River Batch 2 e possui muitas similaridades com os NPaOc (Navio-Patrulha Oceânico) da classe Amazonas da Marinha do Brasil. A visita foi também uma oportunidade para comparar as duas classes

Nasce o OPV

No início do século XXI a Royal Navy colocou em ação o seu plano para substituir os velhos patrulheiros da classe Island da década de 1970. Como resultado, nasceu a classe River, formada por unidades projetadas pelo estaleiro Vosper Thornycroft (auxiliado pela Three Quays Marine) e consideravelmente maiores que as suas antecessoras.

Após a introdução das três unidades encomendadas pela Royal Navy, o Reino Unido passou a estudar uma versão maior da classe para ser empregada como navio-patrulha no Atlântico Sul, mais especificamente na região das Ilhas Falklands/Malvinas. Uma das principais deficiências era a incapacidade dos navios de operar com helicóptero.

Apenas uma unidade melhorada foi construída, a HMS Clyde. O navio serviu à Royal Navy no regime de arrendamento até o ano de 2019, quando surgiram especulações de que seria transferido para a Marinha do Brasil.  O Brasil declinou da proposta e o Clyde foi negociado com o Bahrein, onde foi batizado com o nome Al-Zubara. Curiosamente, o Clyde/Al-Zubara nunca foi chamado de Batch 2, apenas como uma unidade do Batch 1 melhorada. Mas o Clyde deu o pontapé para o que viria a ser a grande mudança na classe.

OPV definitivo

Na mesma época em que o Clyde era incorporado ao serviço ativo da Royal Navy, a Vosper Thornycroft assinava com a Guarda Costeira de Trinidad e Tobago um contrato para a aquisição de três unidades modificadas da classe River/Clyde. Era um projeto que ainda guardava o “DNA” dos seus antecessores, mas incluía diversas modificações. O comprimento do casco aumentou (de 80 para 90 m), assim como o deslocamento (que passou de 1.7000 t para 2.000 t), permitindo a operação com helicópteros do porte de um EH101 Merlim (mas sem hangar). A proa foi redesenhada para oferecer uma resistência muito mais baixa na formação de ondas, aumentando a eficiência do consumo de combustível e melhorando o conforto da tripulação.

O armamento principal que existia no Clyde (um canhão DS30M Mk2 de 30mm) foi mantido, mas as duas miniguns Mk 44 foram substituídas por duas metralhadoras de 25mm em cada bordo. Todas estas três peças são acionadas remotamente. Também foram mantidas as duas estações para metralhadoras de 12,7 mm.

A parte de sensores foi revista e atualizada, sendo que a principal diferença está no radar de vigilância aérea e de superfície mais avançado, um Terma SCANTER 4100. Outra importante modificação foi a introdução de um Sistema de Gestão de Combate (CMS) integrado, algo que os River Batch 1 originais não possuíam.

Além de melhor armadas e com sensores mais atualizados, elas ganharam motores mais potentes, que fornecem velocidades de até 25 nós (comparadas aos 20 nós do Batch 1).

Com todas as modificações propostas pelo estaleiro, a versão modificada da classe River encomendada por Trinidad e Tobago se tornou definitivamente um “patrulheiro de mar aberto” com grande autonomia e capaz de atuar muito distante da costa ou da base de apoio. Nascia assim a classe Port of Spain.

Os navios foram lançados ao mar entre os anos de 2009 e 2010 e estavam prontos para serem transferidos, mas devido a mudanças políticas no governo de Trinidad e Tobago e questões financeiras a encomenda foi cancelada. O que fazer com os navios?

De ‘Port of Spain’ para ‘Amazonas’

Assim como nasceram os rumores sobre o interesse do Brasil pelo Clyde, também começaram a circular informações sobre a possível transferência dos navios cancelados por Trinidad e Tobago para a MB. Ocorre que naquela época estava em processo o PROSUPER, um amplo programa de modernização da força de superfície que incluía escoltas, navios de apoio e patrulheiros oceânicos. Ao longo do ano de 2011 foi intensa a discussão sobre a negociação de navios de patrulha já prontos em paralelo ao programa PROSUPER. Antes do apagar das luzes do ano de 2011 a Marinha bateu o martelo e resolveu aceitar a proposta da BAE Systems (que absorveu o estaleiro Vosper Thornycroft) por quase 134 milhões de libras esterlinas.

Em cerca de seis meses após o acordo, o Brasil já recebia a sua primeira unidade, o P 120 Amazonas, primeira de três unidades da classe de mesmo nome. Tanto o Amazonas como o Apa (a segunda unidade) ficaram subordinados ao 1o Distrito Naval no Rio de Janeiro e o Araguari  (terceira unidade) ao Comando do Grupamento de Patrulha Naval do Nordeste.

OPV ‘anabolizado’

Antes mesmo do Brasil adquirir seus navios, a Real Marinha da Tailândia assinou um contrato com a BAE para a aquisição de duas unidades praticamente idênticas às encomendadas por Trinidad e  Tobago.  A diferença maior estava no armamento, sendo que a Tailândia preferiu um canhão principal de maior calibre (76mm) e a adição de lançadores de mísseis mar-mar Harpoon na segunda unidade, transformando o navio praticamente numa corveta (imagem abaixo). O contrato incluía não apenas a aquisição das unidades, como também a construção das mesmas em Bangcoc através da transferência de tecnologia. A primeira delas foi entregue em 2013 e a segunda em 2019.

Batch 2 e a comparação com a ‘Amazonas’

Enquanto o Brasil recebia seus três navios, o governo de Londres avaliava a aquisição de unidades complementares da classe River. Três novos navios foram contratados junto à BAE Systems em 2014. Em relação ao projeto dos River Batch 2, muito pouca coisa os diferenciava dos navios adquiridos pelo Brasil.

Pequenas modificações nos sensores foram feitas para atender especificações da própria RN, mas itens principais como o radar Terma Scanter 4100 foram mantidos. Na imagem abaixo podem ser vistas pequenas diferenças entre o posicionamento das cúpulas de determinadas antenas entre a Medway e a Amazonas.

Outra diferença que se destaca é a ausência do armamento secundário no Batch 2. Enquanto nas unidades da MB existem reparos de 25 mm à ré do passadiço (um em cada bordo), as unidades da Royal Navy eliminaram completamente estas peças e se apoiam apenas nos reparos para uso de metralhadoras de emprego geral de 12,7 mm.

Exigências também foram feitas na parte de controle de avarias e combate a incêndios, mas que não são visíveis externamente.

A metralhadora de 25mm está ausente nas unidades britânicas Batch 2… … mas o canhão de 30mm da proa é do mesmo modelo.

No final das contas, as unidades Batch 2 da Royal Navy são praticamente iguais às unidades brasileiras da classe Amazonas e entre elas existem diferenças cosméticas. Porém, a Royal Navy não encerrou o seu programa com as três unidades iniciais. Outras duas foram encomendadas posteriormente e hoje a Royal Navy conta com cinco OPV River Batch 2, além das três originais do Batch 1 que continuam em atividade.

As unidades do Batch 1 atuam próximas e/ou ao redor do Reino Unido. Já as do Batch 2, em função das capacidades expedicionárias, operam em regiões mais afastadas. A HMS Medway, por exemplo, atua no Caribe, sendo que a HMS Forth faz patrulha no Atlântico Sul. A Trent é comumente vista no Mediterrâneo, e a Tamar e a Spey atuam na região do Indo-Pacífico.  No entanto, nada impede que ocorra uma troca de posições por questões operacionais ou por períodos de manutenção.

Assim como fez a Royal Navy, o Brasil poderia incorporar outras duas unidades para ter um total de cinco. Desta maneira, as duas unidades adicionais seriam distribuídas para o Comando do Grupamento de Patrulha Naval do Norte (4º DN) e o Comando do Grupamento de Patrulha Naval do Sul (5º DN). A ZEE (Zona Econômica Exclusiva) do Brasil é muito vasta e somente com unidades de alto-mar e grande autonomia a vigilância pode ser feita efetivamente. Além disso, são ótimas unidades para “mostrar a bandeira” em portos do estrangeiro e participar de atividades conjuntas para coibir ações ilegais.■


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José Gregório

Muito legal essa comparação, percebe-se que visualmente são muito parecidas.

Mig

Pelo tamanho da plataforma marítima do Brasil acho valia a pena mais que dois navios. Uns 5 a juntar aos 3 da classe amazonas. São navios custam muito pouco para o que entregam vigilância, participação em exercícios estrangeiros e visitas diplomáticas. São importantes para vigiar o crescente uso do mar por narcotraficantes e frotas de pesca ilegal…
Não são navios para se armar muito para o custo ser controlado mas deixar espaço para upgrades se necessário. Eu sou da opinião sempre que uma marinha se constrói de baixo para cima e estes navios são a base…

Heinz

Pelo tamanho do nosso litoral, era para se ter aqui no mínimo umas 12 unidades deste navio

Deadeye

E mais algumas menores para complementar, como de 500 toneladas.

Rogério Loureiro Dhiério

Diria 15.
E bem armadas.

h.saito

O almirantado parece querer apenas naus com angares, tipo assim, algum fetiche estranho!

Moriah

Não é fetiche, é necessidade.

Moriah

Caberia mais 7, mas desde que utilizando um hangar. Esse, a meu ver, é o principal defeito dessa classe.

Leandro Costa

Não vejo problema na falta de hangar. É um navio patrulha e não um vaso de combate. É bom ter aonde o helicóptero poder pousar no caso de evacuação aeromédica, etc.

O que ele poderia ter são drones para aumentar o horizonte de vigilância. Isso eu acho que eles deveriam ter.

Burgos

Já temos 3, poderia construir sob licença ou encomendar mais 3 e distribuir homogeneamente pelo Brasil.
Um navio imprescindível para quem busca ter soberania em águas territoriais e uma vasta ZEE
São comprovada sua versatilidade em várias missões em que foi designada e o custo/benefício aos cofres públicos 👍

Lucarelli

Burgos, não seria melhor fazer um navio em parceria com a TKMS? Ao meu ver, de um mero entusiasta, um dos grandes problemas da MB e não dar continuidade nas atividades no estaleiros. Ex.: Investiu dinheiro em Itaguaí em 4 scorpenes mais 1 nuclear que ninguém sabe se esse último vai sair do papel. Investiu dinheiro em Itajaí para a construção de 4 fragatas que com muita sorte pode vir mais 2 unidades, e talvez, com um milagre, consiga mais duas. Num total de 8. E como que fica os estaleiros depois?! Disto isso não seria melhor fazer uma MEKO… Read more »

Burgos

Olha !!!
A ideia não é má não 👍
Mas pra MB não funciona assim, por lei tem que abrir concorrência e quem vencer leva.
Se for o estaleiro Alemao/Inglês/ Francês não importa pra MB, ela vai querer os meios dentro do prazo contratual a que for estipulado a verdade é essa.
Mas no momento não há movimento nos bastidores do alto comando da MB para aquisição desses meios. Lamentável 😔

Rafael Oliveira

A concorrência é dispensável em uma série de casos de compras militares.
A MB fez concorrência para comprar os submarinos Scorpene, os Seahawks ou os Piranhas, por exemplo?

Mauricio R.

O estaleiro não é da MB é da TKMS, então o problema de arrumar serviço pro estaleiro da TKMS fazer, é da TKMS não da MB e nem do Brasil.

ln(0)

O estaleiro foi pago pelo Brasil, não foi a TKMS que bancou sozinha. Da mesma maneira foi Itaguaí. Temos que ocupar o que foi contruído, se for para abandonar, era melhor ter construído os navios fora e integrado nossos sistemas (os que houverem) nesse estaleiro estrangeiro. Mas, na minha opinião, o fato de não termos uma indústria naval civil robusta impede da MB ter estaleiros locais para construir seus navios. Nós não somos o EUA que podem se dar ao luxo de ter estaleiros exclusivos para encomenda da USNavy.

Moriah

falta hangar.

Burgos

Hangar não é item obrigatório em Opvs.
Claro que se tivesse ajudaria mais podendo deslocar uma Anv durante a missão que foi designado 👍

Mauricio R.

Na medida do po$$ível, a MB deveria procurar um OPV algo similar a classe Kharref, de Oman.
Não por ser um design, já antigo de corveta armada de mísseis, mas por possuir um hangar para o helicóptero orgânico.

Alexandre

E parece brincadeira ver isso o Br comprar navios protos dos ingleses e tem anos que isso se repete,O Brasil deveria ter vergonha disso porque não tem uma engenharia naval de tecnologia forte por exemplo a Petrobrás desevove seus próprios equipamentos e e sivil não militar porque não aproveita isso desenvolvimento de tecnologia da Petrobras,os americanos não vedem nada para o Brasil.

Jorge Cardoso

Sivil (sic)

zehpedro

E o protos, o desevove e o vedem?

Dr. Mundico

Fabricar navio não se resume apenas a ter ou desenvolver tecnologia. Na verdade, fabricar navio civil ou militar é uma atividade relativamente simples cuja tecnologia já foi assimilada. O problema é gastar dinheiro para fabricar navio e não ter para quem vender! Não compensa fabricar navio para vender 3 ou 4 unidades e receber o dinheiro em 10 anos, se não houver atraso! No caso brasileiro, não vale a pena perder tempo e dinheiro fabricando naviozinho patrulha. É melhor comprar feito, pintar o nome e usar até acabar. Se tiver que investir dinheiro e tecnologia, é melhor fazer isso com… Read more »

EduardoSP

Porque você acha que a Marinha do Brasil tem, há décadas, uma missão permanente em Londres?

Last edited 1 mês atrás by EduardoSP
Leandro Costa

Petrobrás desenvolve equipamentos. Não fabrica navios.

Dr. Mundico

A Ucrânia atingiu um submarino russo da classe Kilo no porto de Novorovsky usando um drone submarino.
Parece que o prejuízo foi grande…

Nunes-Neto

O ideal era ter solicitado pelo menos mais 2 na época da compra de oportunidade das 3 que hoje possuímos, creio que perdemos o “time”, hoje eu optaria por uma de desenho alemão com sistemas em comum, ou muitos próximos com o que a Tamandarés usam, sistemas de propulsão da mesma família, geradores de energia, sistemas de refrigeração, radares de navegação etc…poderia ser um desenho da corveta que deu origem a F-200,simplificada , pelo menos teriamos continuidade nos trabalhos em Itajaí. 3 OPV que temos é muito pouco, acho que conseguimos no máximo, commuito sacrificio comprar mais 3, a prioridades… Read more »

Gabriel BR

Meko OPV com 1600 toneladas de deslocamento.

Mauricio R.

“…com sistemas em comum, ou muitos próximos com o que a Tamandarés usam, sistemas de propulsão da mesma família, geradores de energia, sistemas de refrigeração, radares de navegação etc…poderia…”

Pra ter comunalidade não é necessário e menos ainda exclusivo um design da TKMS.
Basta especificar.
A menos que o que se pretenda, seja uma reserva de mercado.

Moriah

No UK, a RN está depositando muita carga sobre esta classe por não ter fragatas em número para suas patrulhas de rotina. Tem River nas Orkneys para monitorar o tráfego russo…

Gabriel BR

A Classe Amazonas, em minha opinião, foi das melhores aquisições feitas pela MB. Mas se hoje precisássemos adquirir OPVs penso que o ideal seria a Classe Holland da Damen que possui hangar para helicópteros e uma grande autonomia de navegação. Entre 4 e 6 unidades seria possível patrulhar o Atlântico Sul e dar suporte logístico aos nossos arquipélagos e Ilhas .

Mauricio R.

O navio em questão é praticamente das mesmas dimensões e deslocamento, que as FCT.
Ocorre que se formos privilegiar a comunalidade com as FCT, estaríamos alterando a integração entre sistemas e sensores do projeto original, incorrendo em custos de desenvolvimento, o que necessitaria uma apurada análise de custo/benefício.