Arleigh Burke destroyers undergoing repairs at the shipyard.

Um novo relatório do Congressional Budget Office (CBO), divulgado em dezembro de 2025, aponta que a Marinha dos Estados Unidos enfrenta atrasos crônicos e estouros de mão de obra na manutenção de seus principais navios convencionais, comprometendo a prontidão operacional da frota e reduzindo, na prática, o número de meios disponíveis para missões e treinamentos.

De acordo com o estudo, que analisou dados entre 2011 e 2024, os períodos de manutenção de destróieres da classe Arleigh Burke (DDG-51) e de navios anfíbios têm levado de 30% a 60% mais tempo do que o previsto nos cronogramas finais da própria Marinha. Em alguns casos, os atrasos chegaram a ultrapassar 100% do tempo originalmente estimado. O CBO projeta que, ao longo de sua vida útil, um destróier DDG-51 passará mais de nove anos fora de serviço para manutenção — mais do que o dobro do previsto nos planos de classe elaborados em 2012 .

O relatório também aponta que os estouros de mão de obra, embora menores que os atrasos em duração, são recorrentes. Em média, os eventos de manutenção exigiram entre 8% e 40% mais dias de trabalho do que o estimado nos cronogramas finais, dependendo do tipo de navio e do tipo de reparo. Segundo o CBO, parte da diferença entre atraso e uso de mão de obra se explica por períodos em que o trabalho é interrompido à espera de peças, inspeções ou autorizações .

Entre as principais causas identificadas estão o envelhecimento da frota, inspeções tardias, atrasos na assinatura de contratos, dificuldades na cadeia de suprimentos, aumento inesperado do escopo dos reparos e a fraca integração entre manutenção e programas de modernização. O CBO destaca ainda que os atuais modelos de contrato tendem a priorizar o controle de custos em detrimento do cumprimento de prazos, um fator apontado por parte dos especialistas como contributivo para os atrasos .

As consequências operacionais são significativas. Com navios permanecendo mais tempo em estaleiros, a Marinha dispõe de menos meios prontos para desdobramento, o que equivale, segundo o relatório, a uma redução efetiva do tamanho da frota. O CBO estima que cada dia adicional de indisponibilidade de um destróier represente uma perda operacional avaliada em cerca de US$ 600 mil, considerando os custos de aquisição e operação dessas embarcações .

O estudo conclui que, embora a Marinha tenha aumentado progressivamente suas estimativas de tempo e recursos para manutenção, essas medidas não foram suficientes para eliminar o hiato entre planejamento e execução. Segundo o CBO, políticas capazes de reduzir atrasos poderiam ser consideradas economicamente eficientes caso custem menos do que o valor operacional perdido com a indisponibilidade prolongada dos navios.


1. Visão Geral dos Atrasos na Manutenção e Excedentes de Mão de Obra

A análise do CBO examinou os dados do Comando de Sistemas Navais (NAVSEA) para 314 eventos de manutenção de grande porte (“depot maintenance”) realizados entre os anos fiscais de 2011 e 2024. O estudo concentrou-se em duas categorias principais de navios de combate convencionais: destróieres da classe DDG-51 e navios de guerra anfíbios (LHD, LPD, LSD). O desempenho foi medido comparando a duração real e o uso de mão de obra com as estimativas fornecidas nos Planos de Manutenção de Classe, nos cronogramas iniciais (preparados com dois anos de antecedência) e nos cronogramas finais (usados para a adjudicação do contrato).

Magnitude dos Atrasos e Excedentes

Os eventos de manutenção para todos os tipos de navios analisados levaram consideravelmente mais tempo e exigiram mais mão de obra do que o estimado. Os atrasos em relação aos cronogramas finais da Marinha variaram de 26% a 62%, dependendo da classe do navio. Os excedentes de mão de obra, embora também comuns, foram proporcionalmente menores que os atrasos de cronograma, variando de 8% a 40%.

Para garantir a precisão da análise, especialmente para os anos mais recentes, o CBO utilizou uma técnica estatística conhecida como “análise de sobrevivência” para projetar a duração e o uso de mão de obra para 25 eventos de manutenção que ainda estavam em andamento no final do período de dados. A exclusão desses eventos inacabados, muitos dos quais já estavam atrasados, teria subestimado artificialmente a verdadeira extensão dos atrasos em toda a frota.

A tabela a seguir resume o desempenho médio por tipo de navio em relação às estimativas finais de cronograma da Marinha.

Tipo de Navio Número de Eventos de Manutenção Atrasos Realizados (percentual) Excedentes de Mão de Obra Realizados (percentual)
Destróieres (DDG-51) 225 26% 8%
Navios de Assalto Anfíbio (LHD-1) 31 27% 11%
Navios de Doca de Transporte Anfíbio (LPD-17) 29 45% 31%
Navios de Desembarque-Doca (LSD-41/49) 29 62% 40%
Total da Amostra 314 33% 16%

Fonte: Congressional Budget Office, com base em dados do Naval Sea Systems Command.

2. Análise Detalhada: Destróieres da Classe Arleigh Burke (DDG-51)

Os destróieres da classe DDG-51, que compõem cerca de dois terços da frota de grandes navios de combate convencionais, apresentaram um atraso médio de 26% e um excedente de mão de obra de 8% em relação aos cronogramas finais. Embora a Marinha tenha aumentado suas estimativas de tempo e mão de obra ao longo dos anos, a lacuna em relação aos resultados reais não diminuiu, pois as durações realizadas também aumentaram.

Impacto na Vida Útil Operacional

O impacto mais significativo desses atrasos é a redução do tempo que um navio passa disponível para a frota. O plano de manutenção de classe de 2012 para os DDG-51s estimava que os navios passariam cerca de quatro anos (12% de sua vida útil de 35 anos) em manutenção de estaleiro. No entanto, com base no desempenho real, o CBO projeta que um destróier DDG-51 passará, em média, mais de nove anos em manutenção ao longo de sua vida útil. Isso representa 27% de seu tempo de serviço planejado, mais que o dobro do tempo originalmente previsto fora da frota.

Tendências Orçamentárias

O problema persiste apesar de um aumento substancial no financiamento. De 2009 a 2024, o financiamento total para a manutenção de destróieres aumentou 400% em termos reais. Mesmo ajustando para o crescimento da frota (um aumento de 25% no número de navios), o financiamento de manutenção por destróier cresceu mais de 300%. Esse aumento reflete os custos mais altos associados a manutenções mais longas e intensivas em mão de obra, mas não conseguiu reverter a tendência de atrasos.

3. Causas Fundamentais dos Atrasos na Manutenção

O CBO, em colaboração com representantes da Marinha e de estaleiros privados, identificou dois tipos de atrasos e suas causas subjacentes.

Aumento Contínuo da Duração dos Trabalhos

Esta categoria refere-se ao aumento gradual no tempo e na mão de obra necessários para concluir tarefas de manutenção esperadas, refletido nas estimativas crescentes nos próprios cronogramas da Marinha.

  • Envelhecimento da Frota: Esta é uma causa principal. A idade média da frota de DDG-51s aumentou de 10 anos em 2011 para 20 anos em 2024. Navios mais velhos exigem mais manutenção e modernização, e a duração dos reparos para o mesmo tipo de evento é significativamente maior. Por exemplo, uma manutenção de doca (DSRA) para um destróier de 30 anos leva, em média, o dobro do tempo que para um de 10 anos.
  • Manutenção Adiada: A prática de adiar eventos de manutenção inteiros ou transferir trabalhos específicos para o próximo período de reparo para atender a metas operacionais ou orçamentárias leva a um acúmulo de trabalho. Isso torna os períodos de manutenção subsequentes mais longos e complexos.

Atrasos Inesperados durante a Execução

Esta categoria descreve o aumento inesperado de tempo ou mão de obra após o navio já estar no estaleiro, resultando na persistente lacuna entre as estimativas finais e o desempenho real.

  • Aumentos Inesperados no Escopo de Trabalho: A principal causa de atrasos de cronograma, o “trabalho novo” (tarefas não identificadas inicialmente) e o “trabalho de crescimento” (tarefas planejadas que levam mais tempo que o esperado) são responsáveis por cerca de um terço do atraso médio. Isso pode ser causado por problemas imprevistos, inspeções insuficientes ou tarefas de manutenção adiadas anteriormente.
  • Atrasos em Inspeções e Contratos: A Marinha tem como meta adjudicar contratos de manutenção pelo menos 120 dias antes do início do trabalho, mas frequentemente não atinge esse objetivo. A adjudicação tardia de contratos comprime o cronograma para encomendar peças com longo prazo de entrega (LLTM) e para contratar a mão de obra necessária.
  • Atrasos na Obtenção de Peças e Materiais: A entrega de material fornecido pelo governo (GFM) e LLTM pode ser lenta. A pandemia de coronavírus exacerbou os desafios da cadeia de suprimentos, especialmente para os pequenos negócios subcontratados pelos estaleiros.
  • Má Integração do Trabalho de Modernização: A modernização (instalação de novos sistemas de combate, radar, etc.) é gerenciada por contratos separados e equipes diferentes das de manutenção. A falta de coordenação entre as equipes de manutenção e modernização (AITs) tem sido problemática, causando atrasos.
  • Incentivos Contratuais: A partir de 2015, a Marinha mudou de contratos plurianuais de “custo acrescido” para acordos de “preço fixo” por evento único. Representantes de estaleiros argumentam que esse modelo desincentiva investimentos de longo prazo em instalações, estoque de peças e mão de obra especializada, e prioriza o custo baixo em detrimento da conclusão pontual.

4. Consequências e Implicações

Os atrasos crônicos na manutenção têm implicações profundas para a capacidade e os custos da Marinha dos EUA.

Prontidão Reduzida da Frota

A consequência mais direta é uma redução na prontidão da frota. Com mais navios presos em manutenção por períodos mais longos, há menos navios disponíveis para desdobramento, treinamento e para responder a crises globais. Em alguns momentos nos últimos anos, apenas cerca de um terço da frota de superfície estava disponível para operações, muito abaixo das metas de prontidão da Marinha. Em essência, os atrasos crônicos resultam em uma frota efetivamente menor do que os números totais sugerem.

Custo de Oportunidade Inferido

O CBO quantificou o valor perdido devido a esses atrasos calculando o custo de oportunidade da indisponibilidade de um navio. Dividindo o custo total de vida de um destróier (incluindo aquisição, tripulação e operação) pelo tempo que se espera que ele esteja operacional, o CBO infere que o valor de um único dia de disponibilidade de um destróier para a Marinha é de pelo menos US$ 600.000. Este valor elevado sublinha a difícil troca que a Marinha enfrenta: adiar a manutenção para apoiar operações de alta prioridade no presente pode levar a uma perda ainda maior de disponibilidade valiosa no futuro.■


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Cristiano Salles (Taubaté-SP)

Muita grana que rola na manutenção em geral das forças armadas norte-americana…, deixa muita gente milionária lá…rss

Oportunidade para nossos estaleiros…, principalmente para o da ICN Naval Group que logo ficará ocioso e o da Thyssen que já têm uma boa imagem, devido à entrega rápida das Tamandarés…

Põe os lobistas para trabalhar e negociar…rss

Mão de obra brasileira…, más…, com negociadores do país dessas empresas…, pois…, os negociadores brasileiros…, vão querer ganhar em tudo (caixa 2) inviabilizando o negócio…

😉

Marcos

Mas os serviços de manutenção de armas e meios americanos podem ser feitos em outros países?
Não possuem as mesmas restrições de aquisição?

Cristiano Salles (Taubaté-SP)

Marcos…, vi que mandaram fabricar alguns meios navais na Coreia do Sul…

Uma matéria aqui no PN…

Rafael Coimbra

Sabendo que “flutuar” não significa estar pronto para o combate, imagine a divulgação de um estudo nesse sentido dentro da MB… quantos meios, de fato, estariam prontos para o combate hoje?

Willber Rodrigues

Pensei exatamente NISSO enquanto eu lia a matéria.
Cada um com seus problemas. Se os EUA, com o maior orçamento militar do mundo, está passando por isso, imagina a MB…

Dr. Mundico

Ao que parece, um drone ucraniano atingiu um navio tanque russo no porto de Rostov. Por alguns segundos a noite virou dia. Tá difícil a vida…

Vinicius Momesso

Diga isso aos moradores de Odessa, novo alvo preferido dos russos.

lucena

(…)A consequência mais direta é uma redução na prontidão da frota. Com mais navios presos em manutenção por períodos mais longos, há menos navios disponíveis para desdobramento, treinamento e para responder a crises globais (…) . . Fico imaginando…os EUA de um lado do planeta e do outro …. a China …que a passos largo, fabrica navios de guerra como se fosse brincadeira de criança…olha que eles irão lançar o maior porta-aviões nuclear do mundo! . Os chineses tudo indica que terão ..quantitativamente …uma marinha superior à americana…e com isso aí ! …o quê será do Japão,Austrália,coreia do sul,Filipinas ?…todas… Read more »

Eduardo Neves

EUA em franca decadência …

Burgos

Isso é esperado 😰
A medida que a frota envelhece e há também a prorrogação de alguns desdobramentos desses meios a tendência é ficar mais dispendioso os reparos e demorados, tem a questão modernização/atualização desses meios que ajuda ainda mais a onerar os custos.
É o preço que tem que se pagar por ser uma Marinha Global 🤷‍♂️

Eduardo Neves

O problema é que o boleto tá ficando caro demais pro tio San…

Eduardo Neves

Isso são sinais claros de início de sucateamento da infraestrutura, se nada for feito ( e eles estão com sérios problemas de endividamento) daqui a 10 anos vão ter um encolhimento grande de capacidade de projeção de poder e a China sabe disso.

Wagner

Exatamente o que a China quer, fazer os EUA gastar o que não tem em armas,como aconteceu com a URSS.